III.
"Vamos, Crianças! 1, 2, 3 e..."
A Sra. Parsons afundou os dedos no piano e todas as crianças começaram a cantar de uma vez. Ela tocava suavemente cada nota, e se Tim fechasse os olhos, talvez conseguisse ignorar a voz desafinada das crianças ao seu lado e só ouvir o som do instrumento, mas como ele não sabia a letra, tinha de prestar atenção no papel.
Um passarinho havia pousado ao lado de fora da janela, parecia que estava assistindo-os tocar, mas não ficou por muito tempo e logo levantou vôo, batendo as asas contra a brisa fraca de final de tarde. E para ser sincero, Tim não o culpava por isso.
Como qualquer outro fim de semana, aquele domingo havia passado devagar, talvez até mais devagar do que estava acostumado.
Depois do almoço, a Sra. Parsons convocou todas as crianças para ajudarem na limpeza do orfanato, ela lhes deu rodos, panos, vassouras, espanadores e cada um foi para um canto da casa fazer o serviço, e embora aquilo tenha sido uma surpresa para ele, dava para ver claramente que era algo natural para elas.
Uma vez por mês elas faziam uma limpeza geral na casa, e como só tinham a Sra. Parsons como cuidadora e a casa era muito grande para uma senhora cuidar sozinha, as crianças também tinham de ajudar em alguns afazeres.
As mais novas ficavam com tarefas simples como passar um pano nos móveis, enquanto os mais velhos varriam o chão, passavam rodo e cuidavam também da limpeza das janelas. Essa última acabou sendo a tarefa de Tim.
Ele não fazia ideia do tanto de janelas que havia naquela casa, e depois de um tempo, nem pensava mais no que estava fazendo, seus movimentos de passar o pano para cima e para baixo e em círculos haviam se tornado quase que involuntários.
Sua mente não estava mais pensando na tarefa, ela estava lá fora. Olhava o sol brilhando sobre a grama do jardim imaginando como tudo ali poderia ser tão colorido e vibrante. Algo horrível tinha acabado de acontecer com ele, o mundo não devia ser capaz de seguir em frente assim tão rápido.
Olhava as casas vizinhas pela janela do segundo andar imaginando que tipo de famílias viviam ali e o que estariam fazendo naquela hora; e olhava o portão da frente lembrando de quando chegou lá no dia anterior, imaginando quando seria o dia em que sairia de lá.
Tim havia passado na sala de música mais cedo naquele dia enquanto limpava as janelas, nunca havia passado pela sua cabeça que naquele lugar haveria algo como uma sala de música. Havia pequenos violinos apoiados na parede no chão da sala, uma cômoda branca onde na primeira gaveta haviam flautas guardadas, e no canto da parede, um grande piano preto repousava.
Foi o lugar que ele demorou mais tempo para limpar. Sempre que parecia estar tudo limpo, ele cismava com alguma sujeirinha difícil de limpar só para não ter que ir para outro cômodo. Ele ocasionalmente sentava no banco em frente ao piano, abria a capa do teclado e fingia tocar alguma música de sua cabeça, tomando cuidado para não tocar nas teclas e fazer nenhum barulho.
Depois da limpeza acabar, todos foram até a sala de música, onde, assim como em todos os domingos, eles cantavam uma música de louvor.
Isso não era bem o que Tim esperava, achava que eles fossem tocar os instrumentos, mas eles só os usavam às vezes, na maioria das aulas de música que tinham, eles só cantavam enquanto a Sra. Parsons tocava o piano, e sempre eram músicas de louvor, pelo menos era isso que Norman havia lhe dito.
Mas a cantoria não durou muito tempo, eles cantaram umas três músicas e todos foram liberados para brincar no jardim. Folhas caiam das árvores e se espalhavam pela grama, e de onde ele estava dava para ver o varal de roupas balançando sem parar, era um vento incomum para uma tarde de maio, mas não era frio o suficiente para manter as crianças dentro de casa.
Tim olhou bem na hora em que uma abelha pousava em um vasinho de petúnias na varanda, levantando vôo logo em seguida. O jardim era cheio de flores como essa, com mais cores do que ele poderia contar. Era quase como se tivessem colocado em uma paisagem a música da Primavera de Vivaldi, era assim que ele imaginava que a primavera da música seria na vida real.
Era difícil saber até onde o jardim terminava, a casa mais próxima que se conseguia ver dali estava há uns bons metros de distância. Poderia haver outra mais para trás da residência, mas era difícil de saber com o tanto de árvores que bloqueavam a vista. Tim conseguiria facilmente se perder naquela floresta.
Os meninos estavam reunidos na casinha da árvore. Stephen segurava um saco de bolinhas de gude nas mãos, Charlie e Edmond sentaram com ele em uma roda na parte de fora da casinha e começaram a jogar. Nos balanços, Sally e Anne brincavam de empurrar uma a outra; já Beatrice empurrava levemente sua boneca no balanço do lado enquanto Peter e Madeleine a observavam atentamente.
Tim não sabia para que lado ir. Pensou em se juntar com os meninos e brincar de bolinhas de gude, mas não parecia que eles precisavam de mais alguém, não tinha certeza se era bom intrometer. As meninas também estavam muito bem brincando sozinhas, provavelmente não gostariam de ter um menino ali no meio.
"Não vai brincar com eles lá em cima?" cutucou Norman atrás dele. Tim não havia nem notado sua chegada.
"Não sei, você vai?"
"Acho que não. Eu até gosto de bolinha de gude, mas não tanto assim, gosto mais de brincar de coisas que precisa se mexer, sabe? Tipo futebol."
"Entendi." disse ele. Isso realmente fazia o estilo de Norman, ele parecia ser aquelas crianças elétricas que amam correr por aí. Tim já não era muito de correr, no entanto.
"Ei, quer ver uma coisa?" Norman voltou a falar de novo.
"O quê?"
"Vem, eu vou te mostrar, fica mais pro fundo do jardim" ele cobriu a boca com a mão como se contasse algo muito secreto. "É algo legal, eu prometo, mas não fale nada disso pra ninguém, tudo bem?"
"Tudo bem." ele hesitou ao responder.
Tim o seguiu para o lugar onde ele apontava, pensando no que raios aquele garoto queria mostrar. Talvez ele quisesse pregar alguma peça nele, por isso pensou em recusar, mas a curiosidade o venceu.
Além do mais, Norman parecia inocente demais para pensar em algo assim. Charlie parecia ser mais do tipo que pregaria peças, se fosse ele que tivesse o chamado, ele pensaria bem diferente.
A grama, que antes estava perfeitamente aparada, agora quase chegava aos seus joelhos. Eles haviam descido o pequeno morro e agora só dava para ver a parte do segundo andar da casa lá no fundo.
Norman parou alguns passos a sua frente onde havia um muro enorme feito de arbustos, que também estavam um pouco mal aparados. O muro era extenso e dobrava nos dois lados, no canto havia uma passagem estreita.
"É um labirinto" disse Norman. "A Sra. Parsons não gosta muito que a gente venha aqui, ela quer que a gente sempre fique lá próximo da casa onde ela consegue ver a gente, mas eu venho aqui de vez em quando."
"Por que você vem aqui então?"
"Sei lá, aqui é legal" Norman respondeu sem elaborar muito. “, não sei porque tem tanto problema."
"Estranho ter um labirinto aqui."
“Também acho” ele riu. “, mas isso deve ter sido coisa do marido da Sra. Parsons, eles que construíram essa casa. Ainda assim, não sei como ela concordou com isso, a Sra. Parsons nunca foi extravagante.”
Tim pensou em perguntar onde estava o marido dela agora, mas a resposta era óbvia. Ela já era uma mulher de idade, parecia ter a mesma idade de seu tio quando morreu, talvez até mais, seu marido muito provavelmente já teria morrido. Isso deveria tê-la deixado muito sozinha, ele pensou, talvez seja por isso que resolveu abrir um orfanato.
Eles entraram pela fenda e seguiram caminho entre os arbustos. Era alto para Tim conseguir enxergar por cima, o topo de sua cabeca conseguia ir até em cima se pulasse, mas ainda assim não conseguia ver nada além das folhas. Um adulto conseguiria olhar por cima facilmente, no entanto, ele apostava que Stephen conseguiria se estivesse lá. O mesmo não poderia ser dito sobre a Sra. Parsons, ela era tão alta quanto um garoto de treze anos.
Havia muitos caminhos que não tinham saída, o que fez Tim questionar o quão grande era aquele labirinto, por fora ele parecia ser bem menor.
Ele sentia que já haviam tentado todos, mas ainda assim ele voltou no primeiro caminho, só para ver se havia perdido algo, e lá estava: uma passagem no finalzinho do corredor, ele não havia notado da primeira vez.
Correu até lá e tentou ver até onde ela daria, parecia que era um caminho diferente do que haviam tentado.
"Ei, Norman, vem pra cá, eu acho que é aqui!"
"Onde?" ele ouviu a voz do menino em algum lugar atrás dele.
"Calma, eu vou voltar, não se mexa!"
Ele virou pelo caminho que havia acabado de passar, encontrando mais duas passagens. Ele tinha certeza de que tinha vindo da esquerda e então seguiu por ali, mas quando chegou no lugar onde estavam antes, Norman já havia saído de lá.
"Cadê você, Norman?" ele gritou.
"Aqui, vem seguindo a minha voz." a voz dele parecia mais baixa do que quando ouviu da última vez.
"Eu acho que vou perder o caminho se tentar te achar" gritou ele, e então uma questão veio em sua cabeça. "Ei, você não vinha aqui outras vezes? Não consegue se lembrar para que lado seguir?"
"É, mas sabe, eu não sou muito bom de memória" a voz respondeu. Tim soltou uma risada fraca. "Deixa pra lá então, continua o caminho sem mim, eu vou depois, só preciso de um tempo pra lembrar."
"Tem certeza?"
"Tenho, pode ir!"
Tim correu para onde estava e seguiu o caminho. Virou a esquerda: sem saída, depois a direita, esquerda, e depois direita de novo: sem saída. Quando virou a última esquerda, ele viu o que parecia ser o tronco de um pinheiro no final do corredor.
"Eu achei a saída!" ele gritou.
"Legal, agora espera só um pouquinho, acho que estou conseguindo!"
A voz de Norman estava mais perto, mas não o suficiente, ele não estava chegando ainda. Tim então resolveu sentar em um toco de árvore que havia mais para dentro da floresta, onde conseguia ver perfeitamente onde Norman sairia.
Mal havia sentado quando ouviu um assobio diferente. Ele olhou para os lados, mas não via ninguém, imaginou que fosse o canto de algum pássaro e deixou para lá.
Depois de alguns segundos, ouviu barulho de folhas secas quebrando, passos seguiam próximos dele. Seu primeiro instinto foi levantar e olhar em volta, mas não viu nada. Em vez disso, ouviu alguém cantar:
"Daisy, daisy
Give me your answer, do.
I'm half crazy
All for the love of you."
Era uma menina. Ela estava de joelhos no chão, cantava enquanto colhia algumas margaridas perto dos arbustos.
Sua voz era doce e fina, ele nunca tinha ouvido aquela música ser cantada tão bem em uma voz feminina. Ela estava virada de costas para ele, só conseguia ver parte de trás de seu vestido azul e seus cabelos loiros.
Ela não era nenhuma criança do orfanato; na verdade, ele nunca tinha a visto antes.
"Olá."
Ele tentou chamar sua atenção, mas a menina não respondeu, não devia tê-lo ouvido. Ele chegou mais perto.
"Oi, você aí!"
Ela se virou para ele com os olhos arregalados, seu chamado havia feito ela pular de susto. Ela se levantou e saiu correndo, o que certamente não era a reação que ele esperava, não sabia que havia falado tão alto assim.
"Ei, espera!"
Ele a seguiu por entre as árvores até que ela parou no meio do caminho e se virou para ele, parecia que havia desistido de fugir.
"Desculpa ter te assustado." Ele disse, a voz um pouco ofegante. "Eu te ouvi cantando, você canta muito bem."
A menina continuou imóvel, olhando-o em choque. Tim limpou a garganta.
"O que estava fazendo?"
Ela o encarou por uns segundos, até que falou:
"Só estava colhendo algumas flores." Sua expressão mudou, agora ela estava sorrindo, a margarida rodopiando entre seus dedos. "Esse jardim tem flores muito bonitas na primavera, as margaridas são as minhas favoritas. São simples e pequenas, mas há uma certa beleza nelas. É isso que as fazem ser tão fofas."
Seus olhos azuis se viraram para ele. Agora que conseguia vê-la melhor, Tim percebeu uma pequena margarida presa atrás de sua orelha.
A menina tinha quase o mesmo tamanho que ele, o vestido azul que usava estava um pouco surrado, suas pontas estavam sujas de terra, e quando ele olhou para seus pés, viu que ela estava descalça.
"Você não é do orfanato, não é?"
Ela negou com a cabeça.
"Mas não diga pra ninguém que você me viu, por favor" suplicou. Seu rosto parecia ser feito de porcelana, que se quebraria se ele decidisse não fazer o que ela pedia.
"Tudo bem. Na verdade, eu também não deveria estar aqui." ele fez uma pausa. "Meu nome é Timothy, e o seu?"
"Tim!" Ele olhou para trás quando Norman o chamou, seus passos estavam se aproximando.
"Estou aqui!"
"Demorou um pouco, mas eu consegui" disse Norman. Ele olhou para onde Tim estava olhando anteriormente. "Tava falando com quem?"
Ele se virou achando que não havia dado tempo para ela se esconder, mas não havia mais ninguém, somente árvores e as margaridas no chão. Ela já havia corrido de lá.
Tim pensou um pouco, talvez fosse melhor não dizer.
"Ninguém, só falando sozinho."
"Você fala sozinho?"
"Às vezes" respondeu. "Eu gosto de falar sozinho."
Tim olhou novamente para as flores. Para onde ela tinha ido? Ele nunca viu uma garota correr tão rápido, ou talvez ela ainda estivesse ali escondida em algum lugar, só não sabia onde.
Norman riu.
"Você é estranho."
"Significa que eu estou começando a me enturmar então." Norman deu uma gargalhada, o que o fez rir também, e os dois subiram juntos de volta ao orfanato.
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