|CAPÍTULO 02 • "HIPOMANIACAMENTE" INTERESSADA II|
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Ela o esperou subir a escada primeiro, mantendo-se um degrau atrás. Seguiram sem falar um com o outro, pois Luna continuava seu diálogo interno e os pensamentos voavam acelerados.
De que país ele deve ser? Ele está morando aqui?
Claro que sim, tem uma chave.
Ele não usa aliança...
Isso não quer dizer que não tenha ninguém, impossível ele ser solteiro!
Olha os braços dele segurando a sacola...
Ele é tão bonito indo quanto vindo... tem uma bundinha linda.
E essa barba? Eu gosto!
Eu quem? Você é só uma voz.
Hum... ele olhou agora, será que percebeu que eu estava olhando a bunda dele?
Qual é o problema de olhar? É para olhar mesmo.
Ainda um tanto descontrolada, pegou as chaves e abriu a porta do apartamento sem dificuldades quando chegaram em seu andar. Pediu que por gentileza colocasse as sacolas na bancada da pequena cozinha, como desculpa, para fazer o desconhecido entrar.
Ali tirou os sapatos sob o olhar curioso de Luna, ela não sabia ser um costume turco deixar os calçados na entrada de uma casa. O empresário caminhou por um breve hall e seguiu cauteloso as orientações dela, que permanecia vigilante na soleira da porta.
Ele tirou os sapatos, já é um começo... só falta a calça e a camiseta. Avaliou animada.
Luna tirou dos pés o all star amarelo e colocou as pantufas de pata de urso, sem o menor constrangimento em usar o objeto inusitado. Ali a esperava na divisão da cozinha, enquanto a brasileira guardava a bolsa no armário da entrada, totalmente despreocupada com o convidado.
O apartamento tinha um tamanho pequeno, mas visivelmente confortável para uma pessoa que não se incomodasse com cômodos compactos. O imóvel era de padrão um pouco elevado, projetado com espaços muito bem aproveitados e caprichosamente arrumado por Luna.
A cor lavanda dava um tom tranquilo nas paredes, que em alguns lugares exibia fotos que a brasileira capturou, protegidas por molduras que sintonizavam com o ambiente. Toda a mobília estava harmoniosa, trazia um charme retrô. Cortinas parecendo o véu de uma noiva, cobriam a janela que tinha vista para uma bela rua arborizada.
Depois de uma boa olhada ao redor, voltou-se para ela e flagrou Luna fazendo uma dancinha silenciosa.
— Você gosta mesmo de dançar — constatou o turco.
— Talvez... — suspirou e bateu rapidamente os longos cílios naturais sobre os olhos grandes, posicionando a mão abaixo do queixo, como faziam as antigas vedetes. — Quer dançar? — convidou de forma natural, parecendo oferecer um chiclete.
— Não dançaria comigo do nada. — Riu surpreso com o convite.
— Por que não? — perguntou achando um absurdo, pois era claro que dançaria.
— Porque não me conhece.
— Então se apresenta — falou resolutiva.
— Me chamo Ali. — A brasileira ouviu ele pronuncia algo como Alhí — Acabei de me mudar, estou no apartamento ao lado — disse intrigado de uma forma positiva com o jeito dela.
— Prazer... me chamo Luna, cheguei na cidade há alguns meses. — Estendeu a mão para cumprimentar o novo vizinho. — Moro sozinha e trabalho aqui perto.
Ali não sabia como agir, não era costume de onde ele vinha, entre um homem e uma mulher desconhecida, se cumprimentarem dessa forma. Diante da demora, teve sua mão agarrada por um aperto suave e puxada em direção a Luna que finalizou o cumprimento desajeitado com um beijo em cada bochecha.
As bocas quase se tocaram em um acidente de percurso, moveram os pescoços como se brincassem de pega-pega. Nesse breve momento, Luna esteve próximo o suficiente para sentir que a respiração dele exalava um aroma suave de café. Inalou cada gotícula de ar alcançada por seu olfato, inspirando discretamente.
A brasileira manteve o aperto de mãos, inconscientemente, por alguns segundos a mais do natural, soltando após perceber a inconveniência oportuna. Mordeu um pouco o lábio inferior numa tentativa de manter o controle. Estava completamente atraída pelo novo morador do prédio e naquele momento, seu estado de hipomania, a impedia de enxergar da forma que gostaria esse fato.
— Eu sou da Türkiye, você também não parece ser americana — comentou.
— Na verdade, sou da América do Sul, brasileira — disse, orgulhosa. — Latino-americana, sem parentes importantes e vinda do interior — declamou.
Ali franziu o cenho, curioso.
— É uma música de um cantor brasileiro chamado Belchior — esclareceu a brincadeira.
— Então... somos dois estrangeiros, temos algo em comum. Na Türkiye, falamos muito do Brezilya. O futebol é muito admirado por nós. É um país com muitas riquezas, conhecido também pela beleza das... — falou e fez um breve suspense antes de concluir uma frase — mulheres.
Luna não sentiu a indireta, apenas lembrou das mulheres que são madrinhas de bateria das escolas de samba. Concluindo que a beleza feminina exportada pelo Brasil, está longe das suas características físicas.
— No Brasil falamos "Turquia", não sei muito sobre sua cultura, apenas a história. Berço do cristianismo, Império Romano, Império Otomano, influência árabe e atualmente Turquia. Eu leio muito sobre história, política, economia e outras coisas. Leio muito na verdade — pontuou. — Vi algumas coisas sobre a Capadócia, o passeio de balão parece espetacular e acredito que a maioria da população seja muçulmana — completou.
Comumente não era tão falante, mas não conseguia parar de tagarelar. Ali parecia gostar.
— Nós falamos "Kapadokya". Interessante como em cada lugar os nomes das cidades e países são alterados para sua língua e o nome das pessoas não, você será Luna em qualquer lugar... Seu nome é muito bonito...
Luna não era muito receptiva a elogios, e ficava incomodada quando recebia um, mesmo que a hipomania a deixasse mais receptiva a interações sociais. Fugiu um pouco da conversa para se concentrar nas compras em cima do balcão com um olhar inexpressivo e relaxado.
— É um nome italiano? — perguntou, a trazendo de volta para a conversa.
— Latim.
— Significa Lua?
— Sim.
— Foi o que pensei. Combina muito com você, a Lua é encantadora — acrescentou.
— Imagino que a Turquia seja um lugar conservador, talvez pela religião predominante ser o islã — falou voltando ao bate-papo, ignorando o elogio que acabara de receber.
— Evet — confirmou em turco —, lá homens e mulheres que acabaram de se conhecer não se cumprimentam como fizemos.
Eu também não costumo, mas não ia deixar uma oportunidade passar. Afirmou para si mesma.
— Na verdade, em muitos lugares esse comprimento não é comum, foi a força do hábito. Mas, você não se ofendeu, não é?
— Não. Imaginei que fosse comum para você... — Sorriu, transparecendo sua simpatia. — Gostei de te conhecer, Luna. Você parece muito autêntica. Espero que possamos conversar mais em breve — diz ele, estendendo a mão.
Ele está indo embora? Não deixe! Luna pensou
— Agora que não é mais um desconhecido... fique para o jantar. — As palavras pularam de sua boca, enquanto segurava a mão quente de Ali. — Assim, além de retribuir pela gentileza com minhas sacolas, posso te dar boas-vindas ao nosso prédio.
— No meu país, gostamos de confraternizar com nossos vizinhos e com muita alegria vou aceitar. Preciso ir ao apartamento, mas logo estarei de volta. — Animado, deu um sorriso largo. Olhou para as mãos arqueando as sobrancelhas, indicando para a anfitriã que ainda se cumprimentavam. Ela soltou um "ah!" fingido, sorriu sem vigor e liberou a mão dele.
— A porta ficará aberta, até já! — disse ao vizinho e foi guardar as compras.
Obrigado a quem chegou até aqui, estou muito feliz por compartilhar essa história com vocês. Não esqueça de comentar, deixe estrelinhas, coloque o livro na biblioteca e na lista de leitura. E quem quiser estreitar os laços, me procure no instagram: deamtreautora.
Aguardo vocês por lá!!!
Beijos literários, até sexta para saber o que vai rolar entre esses dois...
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