Capítulo VI

Eu lembro de cada alma sorridente da casa de meu pai, eu lembro dos baús cheios de história e do clérigo que nos visitava, porém não me lembro de meu pai[...]

Haskel Wozniak

Com as orientações de George Cara, o grande pirata, temente aos dogmas de sua intuição, beberrão nas horas vagas e um grande atirador nas horas oportunas, estava com as crianças que havia resgatado do monstro, crápula que embora fosse chamado de barão, era semelhante aos Orcs que já eram extintos.

E no meio do convés, ladeadas por bancos. Havia três crianças em cada remo, a feição que poderia ser de cansaço e agonia, era radiante. A felicidade em pequenas camadas. Cara exibia seus dentes e na tentativa de sorrisos se inclinava para as crianças, se lamentou por saber que não tinha sombras. E o coração diagnosticou uma grande empatia por cada traço dos pequenos. Se lembrou de Millis, um capitão que andava com botas de couro que rangiam e o incomodavam profundamente, e ele andava pela passarela, o chicote, o maldito chicote enrolado nas mãos carnudas e cheias de calos.

As mãos de Cara na época eram pequenas e desastrosas, havia prometido a si mesmo que não entraria em nenhuma nau, independente do que acontecesse. E assim nascia a sua primeira promessa quebrada.

Os chicote e os gritos copiosos de remem ficaram gravados na sua memória. A irritabilidade e o conflito que era ter uma opinião na embarcação de Millis fazia com que dissesse em seus momentos íntimos um "maldito cabeça de alface" as rugas eram semelhantes as folhas e isso o fez sorrir para uma das crianças que tinha acabado de deixar as manoplas do remo a fim de pegar o pão que Caio o oferecia.

— Você rezou por ajuda, Cara. — disse um dos marujos tomando em sua caneca uma generosa quantidade de café.

— Não nessas circunstâncias, e bem, não queria me sentir um herói. — disse sorrindo. — daqui a pouco os nobres revolucionários vão querer ter a minha ilustre presença no salão de reuniões deles.

— Eles ganhariam muito com isso.

— Eu não apostaria o meu olho bom nisso, meu rapaz. — disse dando leves tapas no ombro do jovem.

O som das Forquetas estalando, de correntes chacoalhando e as cordas guinchando e a voz enriquecida do maldito Millis. Como eu te odeio Millis. A pele sentiu o sofrimento de alguns anos atrás. A maciez sedosa e as manoplas que exibiam um polimento opaco, a cada remada a bunda doía e a pele das costas davam margem as mais variadas formas de esfoliações. A cada remada, os cortes de chicote, os hematomas provocados pelas botas de couro, e como era agradável o algodão que estava tão distante naqueles dias.

— Maldito Millis, rema daqui e um rema de lá; de você apenas restou o desprezo. — e cuspiu com ódio.

Cara não sabia dizer o que tinha sido pior; a ardência do chicote, a pele caindo aos montes e o pus que aparecia, os músculos em chamas, a fome que fazia a parede do estomago ser um ambiente desagradável para se trazer a mente, o clima que nem sempre era agradável, os ventos fortes, a doença que poderia assolar e o medo de ter pouquíssimos cuidados, ou o maldito cheiro. Millis era religioso e não jogava os corpos dos mortos no oceano, era burro o suficiente para deixar os que faleciam em um maldito cômodo. Cara já havia limpado aquilo. O odor nauseabundo por vezes o encontrava e para o seu azar ainda o encontra.

Um terreno de penhascos cinzentos sitiados pelas ondas famintas e praias sem brilho onde o mar sugava os seixos, cidades de pedra onde cavalheiros e cavaleiros com cotas de malha cinzentas no cais, juntamente com lanceiros, franziam o cenho para as embarcações que passavam por eles.

— Maldito Millis. — disse em um sussurro.

— Maldito Millis. — falo descontente.

— Maldito Millis! — gritou e praguejou direcionando aos mares toda à sorte de desgraças que vieram em sua mente. Se lembrou do timoneiro Timóteo que sempre odiou Millis. Quem tivesse o mínimo de bom senso odiava Millis.

O cais fedia a podridão antiga, com as marcas do tempo e as ondas que agiam como chicotes potentes, a natureza sabia fazer as suas esculturas. Muitos atracadouros estavam desocupados. As janelas das construções estavam em estilhaços e arruinadas. No ancoradouro crescia mato e um montante de grãos mofados. Nos oceanos das terras medias, Zajac estava com os seus homens. Um pistoleiro que não apreciava o oceano e que decidira com o seu grande amigo nunca mais entrarem em uma embarcação. Hoje, o seu amigo é o pirata George Cara. Até onde um homem pode vender a sua alma por uma sombra. Zajac tinha um coração que do mais puro e viril se transformara em um rochoso monteado de nada. Tinha ao lado os ociosos Tieflings, assim como ele também era. Pele rosa, chifres expressivos e a força de cinco homens. Nunca confronte um e tente ao máximo evitar grosserias. Era esse o proverbio sábio.

— Atracamos em um terra esquisita. É aqui mesmo que está o pergaminho? — questionou Zajac.

— Sim, confirmei. O pergaminho está aqui Zajac. — disse uma jovem de cabelos negros e olhos em tons de mel, pele negra e sorriso leviano.

— Do que se trata esse pergaminho, chefe. — indagou um dos Tieflings que estava logo atras de Zajac.

— Em breve vocês saberão.

— Caio, uma vez Zajac, meu melhor amigo nos tempos de Millis, cantou uma canção em plenos pulmões. Nunca tinha cantado tão bem em toda a sua vida, e acredito que mesmo em sua liberdade, jamais cantará tão bem. Os piores lugares podem extrair o melhor de nós. — sorriu o pirata que completou. — grite em plenos pulmões quando avistar a próxima terra. Estou com saudade de caminhar em um gramado meio alto e de sentir o orvalho.

O vento no cordame e o grasnar agudo das gaivotas foram ouvidos.

Os feitos ínfimos dos homens de George Cara mereciam um descanso, não era necessário a algazarra, que fossem ovacionados ou que clamassem seus nomes em cidadelas. Cara queria apenas dormir sem o som do pai oceano batendo nos cascos de seu navio.

E no contraste do temperamento leve e manso ao ver o rosto das crianças, ao ódio gritante de Millis, a lua exibia um sorriso para o pirata que espiou as estrelas no tecido do céu e ele sorriu de volta.

Enquanto isso, o trio de irmãos cruzam derradeiramente a propriedade de Urticas. Tinham uma missão em mente. No mesmo tempo em que Haskel e Janel estavam se preparando para a possibilidade de um confronto. Urticas não era um grande homem, não tinha uma mente invejável e na maior parte do tempo era apenas tolerável, Haskel observava os cômodos generosos e fica abismado com os numerosos traços de arquitetura élfica, conhecia os rumores e a ideia de que num passado não tão distante do presente, as ruas eram tomadas por Orcs e Elfos. Notoriamente foram eliminados por aqueles que se sentiram desafiados por essas espécies. Suas mãos procuravam as linhas nas escrituras cuneiformes das paredes que exibiam uma característica que lhe saltava os olhos, não sabia dizer ao certo.

— Está tudo bem, Haskel? — questionou Janel, percebendo que o companheiro estava distante.

— Você já se perguntou em como poderia ser um elfo? — a pergunta fez com que Janel refletisse uma resposta.

— Diziam que eram lindos e poderosos, donos de um dialeto rebuscado e que trazia clareza ao mundo. — tocou firme em seu queixo em um retrato reflexivo. — Mas os nomes deles não estão nos pergaminhos antigos, então não sei se de fato foram reais, ou um surto coletivo.

—Olhe esses símbolos. Já viu algo assim antes?

— Não, mas isso não quer dizer que tenha sido feito por elfos, humanos e todos os outros seres racionais consegue criar novidades. — disse Janel, pegando em seguida um livro com a sua destra. — precisamos focar na segurança...

Um som espalhafatoso interrompeu a fala de Janel, que olhou assustada para todos os lados do cômodo.

— Deve ter sido lá fora, acredito que... — foi interrompido por um dos guardas que estava afoito e com a respiração entrecortada, com o cenho demonstrando pavor, gaguejou. Murmurou e finalmente disse de forma clara.

— Estamos sendo Invadidos! Isso mesmo. — repetia freneticamente o homem, parecia novo. Pavorosamente inexperiente e convenientemente inoportuno.

— Nos ajudem! — disse com os olhos marejados. — hoje é meu primeiro dia. — disse em um lamentável grunhido.

Outra explosão foi escutada. O alarme tocou com a força de um trovão que sai do oriente e corta para o ocidente. A luz azul gritava pelas janelas. Haskel e Janel correram para fora e viram os três irmãos entrando com arrogância, o primeiro mais forte e alto, carregando uma arma de calibre altíssimo com destreza, não parecia sentir o choque das balas e os fragmentos que eram expelidos cima eram como pequenos brinquedos. A forma débil de balançar do cavalo trotando com dificuldade, exibia que o corpo pesado do homem era danoso. A máscara poligonal cobria o possível sorriso psicopata do homem.

O segundo estava sentado em um cavalo negro do dorso musculoso, o trote pesado e marcante, batia e o casco era visto. O rapaz não usava máscara, porém o gorro cobria lhe a fronte, a mão decrépita do lado direito parecia não acompanhar o restante do corpo e o miserável aferrava os pinos das bombas e lançava com a mão esquerda e a cada explosão a onomatopeia do caos entorpecia o sorriso mais leviano possível. Os olhos robóticos e a aparência poderosa do segundo fizeram com que Haskel tirasse a capa escura, e ficasse apenas com o traje sacerdotal. Deu duas batidas curtas no peito e uma cobra saiu de seu braço. O toque casco de Janel tocou em seu ombro e a bela moça de cabelos ruivos e sardas modestas nas maçãs do rosto, se transformava em uma leoa de Príon. Com patas com garras vistosas e dentes que lhe saltava a boca. Uma mandíbula poderosa e um queixo generoso. O som do trote aos ouvidos de Janel se tornaram mais nítidos e o rugido preencheu por 8 quilômetros fazendo com que os cavalos respondessem com um medo cortante saltando e tomando para si o lado oposto de onde o grande felino estava, os relinchos foram escutados e o pânico induziu aos três homens pularem dos corcéis que se perderam na penumbre da noite. Janel pegou impulso e correu como uma flecha lançada por um ranger, mostrando toda a poderosa musculatura que poderia ser a previa da morte certa batendo a porta. Um ser majestoso de mais de dois metros e com um alcance poderoso vinha a mais de 55 quilômetros em direção a Can, que não se intimidou e colocou a arma no ombro, o suor escorria por baixo da máscara. Os olhos gravaram a cena e...

Can errou o primeiro tiro, os fragmentos explodiram no chão, um som poderoso atingiu como um montante de blocos aos ouvidos de Janel, que embora desviasse do tiro a aparência exibia nitidamente um outro cenário.

— Invictus'nietik'permitiz — a frase magica do mago soou como um poderoso coro. E mais cobras abrolharam saltando de suas mangas e a uma velocidade alucinante e frenética, vinham como a cobertura necessária para Janel, que se movimentava com a pretensão de confundir os esforços inimigos.

— Invictus'nietik'permitiz — mais cobras brotaram da terra, como feijões de maneira milagrosa, o barulho de crescimento com galhos quebrando eram a extensão do numeroso número que se formava dos animais conduzidos por Invictus'nietik'permitiz. Havia confusão no diagnóstico da batalha para o grupo Carnificina.

Janel saltou, buscando a glote de Can, que desviou, a leoa deu um giro de noventa graus e atingiu o braço de ferro do rapaz, o barulho da garra arranhando o ferro, e o som se tornando cada vez mais copioso a cada golpe da leoa, que era bloqueada pelo braço, que agora não era mais coberto por um manto e sim por trapos, que rasgavam cada vez mais, mostrando um retrato tolo e risível do que já havia sido.

Desiquilibrado Can errou o tiro novamente, direcionando muito acima do que realmente calculara, mais um tiro. O som da explosão de pólvora incomodava Janel que buscava a glote do jovem híbrido.

Mais uma tentativa e mais um desvio, rapidamente enquanto caia de joelhos, Can direcionou a mira na testa de Janel, mas o pé direito sentiu o impacto e perdendo o equilíbrio, soltou o dedo indicador no gatilho, um forte puxão o trouxe mais para baixo. Os fragmentos da bala bateram no rabo de Janel.

— AAAAAAA! — um grunhido escapou pela grande mandíbula. Desnorteada, se tornou um alvo fácil para Ninf que ao se aproximar para garantir que acertasse o animal, o descuido de segundos lhe rendeu uma cobra o mordendo com frenesi ao joelho que ainda era humano. A dor lancinante o obrigou a cair à poucos metros de Janel.

— Eu irei matar qualquer desgraçado que ouse interferir na nossa justiça! — vociferou ofegante com requintes de ódio. Can cruzou os dedos entre as mãos e como um lenhador conduz um machado, ele deferiu golpes forte na caixa craniana de Janel.

— Vocês estão ajudando um flagelo e é minha reponsabilidade eliminar cada membro dessa sociedade ridícula. — e continuou deferindo golpes. Haskel rapidamente conduziu as serpentes até Can.

— Putz! O gato do Haskel. Esqueci. — saltou em meio aos devaneios e foi até a caixa de areia do animal. — Espero que tudo esteja dando certo na missão deles. Disse ao caminho que parecia mais cumprido do que se lembrava.

— Onde está indo, Rowan? — questionou Lana que estava saindo do seu quarto.

— Estou indo ver o gato do Haskel.

— Então, eu acho que deve ser do outro lado. — disse cometendo a gafe de apontar a direção. Cegos não enxergam, Lana. —o caminho para o quarto do gato é na direita, Rowan.

— Muito obrigado, Lana.

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