Capítulo IX
Conseguimos ao mesmo tempo sermos o grande caçador quanto a própria caça. Tudo em prol da nossa massa de interesses[...]
Killian de Arkav
"Você vive apenas uma vez e ao invés de fazer com que as coisas valham a pena, institui pra si uma vida banhada em mediocridade." — as palavras do pequeno Killian permearam pela mente de Ciar. Ele observou em cada detalhe o lugar onde repousava.
— Na verdade se morre uma vez apenas, e vive diversas vezes, todos os dias. — sibilou enquanto observava os dados de Bergen em suas mãos. Os anos haviam se passado e o pequeno Killian havia se tornado um adulto. Ciar observava as manias de todos os magos negros, o jeito convencido de poder, a tolice do ter compaixão em alguns textos antigos de magos menos populares, que pese nunca estar entre eles, as nuances do que poderia ser bom e honesto.
— O que é ser bom e honesto? — questionou para as paredes grossas de seu aposento. — é tolice imaginar um arco íris a cada tempestade, assim como é tolice buscar insistentemente o abstrato.
Os magos negros eram conhecidos como os algozes, onde caminhavam surgiam ervas daninhas, o caos e as ondas de ódio irrigavam os corações daqueles que perderam tudo por causa dos seres prolíferos em magia.
Os javalis das montanhas estavam extintos e consigo trouxeram uma vasta quantidade de outros animais que morriam a centenas, como um jogo de dominó, peça caindo sobre peça. A energia que era passada das flores e frutos para os animais, agora, estava presa nas pétalas, a grande estrela que corroborava com a existência não poderia fazer mais nada. O fino cetim da tolerância era desconhecido por Ciar, que cresceu observando as palavras dos sábios: Tenha paciência no opróbrio do fraco, temor no pavor do forte e regozijasse com a desgraça de qualquer um deles quando forem seus inimigos.
Caminhava pelo campo que se estendia até onde sua visão poderia alcançar, as omoplatas enrijecidas e uma dor lancinante estava fazendo com os olhos piscassem desproporcionalmente. Somos os reis dessa cadeia alimentar, não somos fracos como os javalis das montanhas. A sua mão espasmódica alivia em si a ideia de que já estava velho para a imortalidade e os dias estavam mais longos do que se lembrava. Cerrou os punhos, em seu coração sentia que um vento frio e doloroso estava por vir e que não restaria pedra sobre pedra do campo em que estava, caminhava pesadamente, como se carregasse mais dez quilos nos ombros, o sentimento de apostasia de sua antiga crença nunca havia entrado em seus aposentos, mas agora lutava como um touro para que se afugentassem de sua mente. Somos os reis, não meros javalis. Nos plantamos as ervas daninhas em campos lustrosos porque podemos.
— Nós matamos os elfos, os Orcs e mataremos muito mais se for necessário. Os demônios que vão para as profundezas do abismo das terras baixas. — balbuciava. Os outros magos o olhavam com um ar de confusão. As coisas que saíram da boca de Ciar eram apenas vogais sem sentido, não o mantra que o mago negro tinha em sua mente. O Poderoso Ciar tinha suas conveniências, em dias era o mais sábio do grupo, em outros, apenas mais um mecanismo de um plano maior.
— Está bêbado? — questionou uma voz jocosa.
— Deve estar, tão certo como o velho Buk ama seus cigarros de palha, Ciar ama suas doses de álcool. — embora as vozes sorrateiras tinham a função de despertar Ciar de seus pensamentos, apenas foram cortantes ao vento. O mago negro não estadeou uma reação sequer.
— Não podemos falhar. — disse o demônio, com as insígnias nas mãos. Uma voz regia, peremptória, emitida de uma maneira que por si só já era um lembrete de quem comandava. — Não preciso de fantoches, preciso da cabeça dos malditos magos negros...
— Mas, senhor... — um Tielfling se inclinou-se em dizer algo, mas abriu mão das palavras ao ver os olhos fundos e intensos daquele que ele havia prometido sua lealdade.
— Os campos de Biofortes, até as raízes secas de Tie, clamam. Não quero mais me atentar aos jogos maniqueístas e me centrar em armar um plano perfeito. Eu quero ter a certeza da cor do sangue de um mago negro. Entendeu? — a mão que regia com furor, buscava que seus súditos fossem agraciados pela coragem em seu tom. E a resposta foi dada. Os gritos ululantes e a salva de palmas acompanhadas com cânticos. Mostravam que os demônios estavam prontos para uma guerra.
Os guerreiros de Osnikias tinham o dilema "enterramos nossos pés no campo de batalha, ou caímos mortos ou vencemos, mas jamais fugiremos". E eles nunca fugiram, nem se curvaram. Quebraram em pedaços como os carvalhos, mas o inclinar de seus ombros e cerviz para alguém isso não era permitido, os lábios de um demônio serviam para maldizer e murmurar, não para lançar expressões vazias à fim de massagear egos, isso jamais.
— Tenha cuidado ao vislumbrar o punho que as luvas de um demônio escondem. — sussurrou o Tielfling de joelhos. — Tenha muito cuidado.
A voz de Osnikias era semelhante ao encontro com um homem que empunhava uma adaga rente ao seu pescoço. A lâmina gelada deslizando e cortando, o pavor de olhar nos olhos de um louco e se ver dentro deles, enquanto a faca fica cada vez mais funda, até que o gosto da garganta preenche a sua garganta.
O demônio de pele verde, de vantajosas costas e que em pé era semelhante aos monumentos das catedrais de Liev, atingia seus gloriosos três metros, as asas com um alcance brutal. Uma envergadura que realmente saltara aos olhos. Esse era o temível pai de Lana Kania. A hibrida que estava ao lado de Rowan, no vestíbulo da residência dos nobres revolucionários, lendo um bilhete à luz de uma única luminária suspensa, faltava poucas horas para amanhecer. O idioma era antigo, o primeiro adotado pelos demônios e a caligrafia expressiva era de seu pai. O medo foi agravado e a enforcou quando leu: "Você sabe que posso bater a sua porta no momento que eu quiser e não quando você estiver pronta" se sentia presa por uma ancora. Atracada e as mãos correram pelos seus longos cabelos.
— Se ele vir, eu prometo que irei te proteger. — disse abruptamente Rowan. Quem esse homenzinho achava que era? Apenas um humano. Nada mais e nem menos que um. Que sacrificou a visão para poder ver o interior das pessoas. A borboleta dentro do olho do rapaz fez com que Lana risse convenientemente de sua desgraça.
— Obrigado por se importar com uma batalha que não é a sua. — disse com os olhos agradecidos. Sabia que Rowan não poderia enxergar e então, lhe deu um efêmero beijo de gratidão. O sorriso de Rowan acusava que era disso que ele precisava.
Os olhos azuis de quem estava atrás de Lana assumiram uma aparência vítrea. Seu movimento foi felino e em sua repentina fluidez. A mão estava em um molde semelhante a uma pequena faca e em poucos segundo estava nas costas da jovem. Que dando um movimento brusco empurrou Rowan para longe de si.
— Era para saber se estavam atentos. Vejo que em minha ausência, o sabor de fel se transformou em deleitoso mel aos paladares doas amantes. — Agnes falou com um olhar maternal para os dois que a fitaram de cima até os pés. Um abraço foi concebido.
— Finalmente. Estávamos preocupados... — disse Lana. Os olhos furtivos de Agnes perceberam o bilhete nas mãos da hibrida.
— Vejo que os infortúnios têm batido em nossa porta. — sussurrou.
— Mais do que podemos dar conta. — disse Lana com uma entonação de derrota e de frustração.
— Podemos dar conta. Tanto que daremos. — Rowan contorceu o cenho com a ideia de ser um sorriso.
— Os toques compulsivos na borda do prato de ouro. — Agnes acenou copiosamente para que a acompanhassem, e assim foi feito.
— Tenho que dizer que sinto muito pelo meu tempo de repouso, ele se fazia necessário. — disse conduzindo uma das mãos a um documento. — Algo cheira mal nos campos dos Magos negros, não é apenas o cheiro de estrume de suas vertentes políticas, a oligarquia e afins. Tem algo corrosivo, mas para o nosso prazer é de dentro. — abriu o documento na frente dos dois que apenas estavam esperando pelo choque que viria nas informações. — usaram meu sangue em um ritual, porém, pela incumbência dos deuses, fui abençoada com a vitalidade de um touro. — mostrou os cortes que ainda não cicatrizaram, a ironia entre os lábios saltava do cômodo. — as gotas de sangue foram usadas em um ritual, não para a minha morte, mas para o meu fortalecimento. Apontou para o início do documento que era uma transcrição do texto usado no ritual.
"Que a força de Quix o Dragão e a gentileza dos pomares de Asteris tratem as tua feridas, e que façam cânticos sobre Agnes Nowak e o grupo poderoso que carrega no mastro a sua bandeira".
— Como você sabe que isso é uma transcrição? — perguntou Lana. — como teve em mãos esse documento?
— Tenha contatos e você saberá de muitas coisas. — disse com cotejos de escarnio.
— Mas você não saiu daqui. — disse Rowan, ainda confuso. É assim mesmo.
— Enquanto vocês viam o bardo, tive meu momento. Nunca perca tempo. — disse lançando o documento em direção a Lana. — nossos inimigos estão se autossabotando.
— Todos os nobres são nossos inimigos. — replicou Rowan, confuso ainda mais.
— Mate os javalis que todos que comem de sua carne morreram com ele.
— Mas podem estar aptos à mudança.
— Não tenha tanta fé em quem usa uma coroa e que se embebeda dos impostos.
— Não subestime seus inimigos, não atente seu algoz e frustre o caçador do campo. — disse Rowan trovejando, porém, seus olhos cinzas se abriram mostrando a borboleta que se escondia. — Mas saber disso abre procedentes. — um sorriso nefasto foi visto por Lana e Agnes.
Toc. Toc. Um espaço breve de cinco segundos. Toc. Toc. Um espaço curto de dois segundos. Era Haskel e Janel, eles finalmente estavam de volta.
Os olhos de ambos se impressionaram ao ver Agnes demonstrando uma considerável melhora, porém quando chegaram próximos, um movimento abrupto da mulher fez com que se afastassem.
— Depois veremos as caricias. — disse dando de ombros e estendendo os braços para que se achegassem mais perto. — uma reunião inesperada. — disse voltando atenção nas palavras que seguiram.
— Também consegui, por meio de informações...
— Do que ela está falando? — sussurrou Haskel, não baixo o suficiente, sendo escutado por Agnes que deu um soco duro na mesa que estava em sua frente.
— Preciso da atenção, paredes ainda não tem a função de escutar e replicar. — disse com a feição sisuda.
— Me perdoe. — disse fazendo uma mensura.
— Voltando... — parou por um momento breve. — tenho informações que somadas as minhas suspeitas podem gerar algo, primeiro. Escutei de fonte displicentes, contudo, de grande estima, que em toda academia de magia o burburinho que tem ganhado força é que todas as sombras dos moradores das terras baixas e em partes das medias, estão dentro dos animais sagrados de Zoe. Assim, os matando, libertaria as sombras e vocês já imaginam o resto.
— Seria pretensão minha duvidar disso? — disse Rowan. — sei que as fontes podem ser confiáveis, mas como um bom revolucionário, eu observo a mão que se estende em minha direção.
— Fique tranquilo, sei bem a quem devo confiar o meu tempo e o de minha família. — disse sorrindo.
— Caso isso... não que eu duvide, longe de mim, mas se há essa possibilidade, vamos caçar esses bichos! É triste ver os pobres sem a sombra.
A mente de Rowan pairava sobre os dizeres que lera quando ainda tinha o sopro da visão em suas órbitas oculares. "Um homem sem sombra não tem em quem confiar, não pode sonhar e nem sentir o sabor da alegria". Os boatos que eclodiam em sua época de guerreiro junto aos antigos companheiros era de que moldar uma sombra era extremamente difícil e uma exclusividade dada aos Magos Negros. O bem mais precioso da existência poderia ser moldado pelos seres mais desprezíveis. A versão estendida do que é tragicômico. Mas agora seus olhos estavam engodados de tamanha alegria que não se conteve e deixou escapar um "Se quiserem posso pensar em um plano..." a os planos de Rowan eram solenes. Para Haskel eram frios, Lana julgava como calculistas, e Agnes se deleitava com a destreza de Rowan.
— Mas vocês não acham que Zoe se vingaria de quem tentasse ferir seus tesouros vivos? — uma voz vinha da porta, uma silhueta inclinada, sem muita pretensão de se aproximar. Era Aillard.
— A bela adormecida acordou! — disse Haskel, mas percebendo que seu tom era o oposto da sensação do ambiente, corou levemente.
— Eu sei disso, por isso precisamos de Lana e seus domínios em necromancia e dos cálculos de Rowan.
— E da minha virilidade. — disse displicentemente Haskel.
— Você já tomou sua dose diária de Fodasse? — perguntou Aillard.
— desde o dia em que sua mãe me abandonou! — replicou o jovem, que ao ver o seu gato se aproximando, deu de ombros para o conflito.
— Senhores! Temos algo adulto à mesa, se o comportamento se manter limitado à crianças, vou pedir que se retirem. — Agnes admoestou os rapazes que mantiveram o silencio.
— E tem o que em mente? — indagou Janel.
— Uma grande ilusão, matamos esses tesouros e agraciamos nossa dourada deusa com o que ela deseja ver.
— É aí que minha mente entra? — questionou Rowan.
— Exatamente, agora me deem licença que eu preciso transar. — disse a bela jovem, de pele alva como a neve e dos lábios carnudos. — eu preciso mesmo.
— Queria... — sacolejou com a cabeça o antigo nobre, Haskel. — digo... se fosse com a Janel. — a jovem corou como um tomate.
— Os pesares de amar uma Animorfo. — disse Janel.
— Amar você não é um pesar, lady. É uma honra.
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