Capítulo 28. Está vida é só para você, meu amor não vai mudar

Como estão peixinhos? Espero que estejam bem!

(Re)avisando que estamos na reta final de AMDO, com isso depois que ela acabar vou retirar do Wattpad (para começar o processo de publicação independente na Amazon). Aos que estão acomapanhando estamos no cap 28 de 32!

CAPITULO 28:
Está vida é só para você, meu amor não vai mudar

Ω . Ω . Ω . Ω

Dedilhei pelas cordas da Guqin para tentar acalmar os instintos ômegas que me atrapalhavam por dois longos dias. Tudo isso, em vão. Nada conseguia conter a loucura que queria explodir.

Nesses dois dias as mudanças para o palácio do imperador foram feitas e movemos Huang a noite para ter poucos curiosos, assim como era sempre a mesma equipe para cuidar dele e de mim.

Os enviados para Lónghua saíram ontem e isso me deixava sem algo para focar todas minhas energias e vencer meus instintos loucos. Por vezes ficava debruçado na ponta da cama de Huang só para sentir um pingo de seus feromônios e acalmar meu ômega interior e meu filhote.

Os aposentos reais eram gigantes, era triplo do tamanho do nosso antigo quarto e com isso ganhei uma cama mais improvisada e aconchegante para não ficar longe de Huang, mas também não incomodar, ou tentar ter esperanças que meu alfa acordaria em breve.

Ryujin fugia das minhas perguntas, saia poucas vezes, só para erguer seu olhar aos céus e ficar por uns minutos debaixo do sol.

A Fênix só sabia dar a mesma resposta. "Ele está em coma, seu corpo está consertado e só depende dele, não tenho garantias de dizer quando vai acordar."

Isso já estava me tirando do sério.

— Yáng'ge... — Choraminguei para o ômega que mais confiava e estava do meu lado.

Atrás de mim, Hǎiyáng se agitou saindo de sua conversa animada com Yixin.

— Yu'er precisa que eu chame Yan de novo? — Ele se aproximou devagar ao colocar sua mão sobre meus ombros.

Com a falta do cheiro de Huang nas roupas, Yan estava me ajudando nessa parte. Seu cheiro era muito semelhante dos feromônios de meu alfa, isso enganava por um tempo curto meus instintos para enfrentar outros alfas.

Por isso estava começando usar algo dele durante as reuniões, isso deveria estar chamando atenção dos ministros, o olhar deles pareciam brilhar no primeiro dia, talvez achasse que me casaria com Yan caso meu Huang falecesse, mas era mais fácil eu morrer com Shen.

— Preciso tanto do Shen... — Choraminguei quase me deitando sobre a guqin. — Estar gravido intensifica tudo! Coisas que me deixam irritado, frustrado e... — Suspirei. — Agoniado.

Hǎiyáng abriu a boca várias vezes, no entanto, não soube me ajudar.

— Talvez você precise de uma festa. — Yixin pulou nos meus ombros ao falar. — Que acha?

Uma festa? Interessante.

— Uma festa? Posso participar também? 

Ergui atenção para o feromônio novo de alfa que adentrava pelas minhas narinas e não me dava repulsa. Talvez pela intensidade estar contida, ou a energia radiante daquele alfa ofuscar qualquer instinto medroso de ômega que me afetava.

Aquele alfa era o primogênito do imperador de Qīngyún, e diferente de seu pai, carregava um sorriso doce e um olhar mais tranquilo e avaliador. Se definisse ele em uma palavra, diria ser uma raposa por saber se mover em devidas situações e observar tudo.

Se bem me lembro, nome dele era...

— Rak Jae, estou certo? — Endireitei minhas costas.

Ele assentiu.

— Isso mesmo, vossa majestade. Pode me chamar só de Jae, formalidades podem ficar para outros momentos.

— Se é assim, pode me chamar só de Yuan. — Retribui o gesto por achar interessante aquele alfa. — Gosta de festas então, Jae?

Ele sorriu ao jogar um dos braços para trás.

Jae era um alfa bonito, muito mais baixo que Shen, mas com um corpo típico de alfa dominante, as laterais de sua cabeça eram raspadas e também carregava bastante tranças, assim como todos que notei de Qīngyún.

Ele se aproximou mais um pouco e Yáng'ge não gostou, com isso, Jae manteve a distância apropriada e ficou de pé pela falta de assentos.

— Achei que todos de Qīngyún eram bárbaros. — Yixin comentou baixo.

— Vamos fazer então uma festa! — Me animei puxando as roupas de Yáng'ge como se eu fosse uma criança pedindo doce. — Zhenyi, prepare um local mais privado para uma festa pequena e barulhenta.

Zhenyi sorriu se animando e os dois ômegas em meus ombros se entreolharam.

— Posso chamar os dançarinos de Cuìyún e preparar o estilo da festa. Somos donos de festas barulhentas, agitadas e com fofocas. — Yixin se candidatou e aceitei.

Queria empolgação!

Uma movimentação dos guardas soou com barulho do metal, alguns tentavam impedir a passagem de alguém e isso atraiu nossa atenção. Diante da entrada do pátio, o imperador Qin rugia contra os soldados que trancavam sua passagem, em seu encalce estava Huang Xiangrui.

— Já faz dois dias que solícito uma audiência com o imperador e que me dão é uma reunião com esse sub-marechal! — Wanchai cuspia suas indignações até ser parado por seu próprio filho.

Eles se encararam e senti Jae tremer assim como uma pressão espiritual fria, congelante seria melhor descrita, nada natural para um mortal.

— Não estava sabendo da sua solicitação, imperador Qin. — Soei com calma ao voltar a passar meus dedos pelas cordas do instrumento. — Precisa de algo com urgência? O banquete de boas-vindas é amanhã à noite. E a abertura dos duelos estão ainda trabalhando nisso pela sua chegada antecipada, mas os ministros prometeram resolver rápido. — Não o deixava falar cuspindo tudo das informações que sabia.

Ele bufou.

— Acredito que na outra semana podermos começar a abertura. E se estiver precisando de auxílio para sua estadia, deixei o Marechal Huang e Kam Weijie encarregado para ajudá-lo.

Xiangrui apertou seus olhos para mim, não éramos aliados, mas também não houve mais nenhuma tentativa contra minha vida ou de Huang que o culpasse, muito menos brigas entre nós. Podia dizer que havíamos erguido uma bandeira branca por Yùhua.

Sorri de leve para ele e o alfa Huang desviou o olhar.

— E quando o verdadeiro imperador vai poder me receber? — Não gostei do timbre da sua voz quando sua língua deslizou sob a palavra verdadeiro.

Ergui o olhar e meus dedos puxaram uma única corda da guqin criando um chiado fino e irritante. Os dois ômegas ao meu lado pareceram trancar a respiração ao perceberem algo e seus pés os levarem para longe de mim.

Eu sou o verdadeiro imperador. Espero não ouvir mais isso enquanto você estiver em meu império, Rak Wanchai. Ou você não temerá só Lónghua até o resto da sua vida. — Minha voz quase saiu como um sibilo de cobra.

Não usei nenhuma pressão espiritual nele, mesmo que todos se afastem de Rak Wanchai, não poderia gastar energias à toa com ele, estar grávido estava exigindo demais de mim com o passar das semanas precisava me poupar.

— Se poder me dar licença. — Estendi a mão em direção à entrada que ele veio. — Xiangrui está encarregado de auxiliá-lo e ele passará tudo para mim. Aprecie seu banquete hoje à noite.

Alfa nojento. Só queria esmagar aquela cara na terra.

Huang por que foi me engravidar agora!

A contra gosto, Wanchai se virou com o bater de suas mangas e se retirou.

— Ele é assustador... — Yáng'ge sussurrou.

Dei de ombros, não achando. Se estivesse em melhor forma, teria feito ele se ajoelhar diante de mim para me deliciar naqueles olhares que os alfas sempre dão.

Ódio e humilhação.

— Acho que vou tirar um cochilo agora, a noite será agitada e a cada dia me sinto cada vez mais sem energia.

Yáng'ge deu uma risadinha.

— Só espere para ver quando estiver mais no meio da sua gestação.

Dias atrás estava cheio de energia, agora era como se sugassem tudo de mim, se essa criança fazia isso agora, com dias de vida, queria nem imaginar com meses. Realmente era meu filhote, não se contentava com pouco poder.

Isso me fez sorrir de leve ao me aninhar na cama.

O banquete para o imperador Rak Wanchai começou sem mim, Yan fez a abertura e o discurso que o imperador deveria realizar, a desculpas sobre não estar passando bem e da minha possível gravidez se alastrou naquele banquete.

E não me importava desde que tirassem a atenção sobre Huang não estar aparecendo, nem mesmo em banquetes em sua própria casa.

Com a restrição de algumas comidas mais leves para não colocar tudo para fora, só fiz uma visita para todos daquele salão, um jeito de demarcar território sem ser com feromônios.

Para minha surpresa os ministros arrastavam suas cadeiras e se curvavam, até os príncipes e suas consortes. Chunji e sua alfa de Cuìyún estavam presentes e bem felizes juntas, Yixin estava do meu lado e quis me acompanhar por Yáng'ge estar do lado de Yan essa noite.

— Apreciem o banquete em especial para Qīngyún — disse pronto para me retirar pelo cheiro forte da comida estar me dando náuseas.

A notícia do herdeiro do imperador estaria correndo amanhã, anunciada naquele banquete sem a presença minha ou de Huang e com isso precisaria ficar ainda mais em alerta para o perigo.

Poderiam achar que uma gravidez me deixaria fraco e tentariam contra vida de Huang de novo. Ou contra mim.

Seria divertido vê-los tentar contra a minha, os esmagaria como sempre.

— Se estiver realmente prenhe, esse ômega continua assustador do mesmo jeito e forte! — Captei o comentário de algum alfa quando me dirigia para as portas. — Nunca vi um ômega como ele.

Outros concordaram baixinhos como se acreditassem apenas alfas poderiam escutá-los pela audição deles serem melhores.

Eu sou Sima Yuan, uma aberração de ômega. Sou mais que um alfa, podia escutar tão nítido suas vozes enquanto para outros, seria um sussurro ou inaudível.

Parei na linha deles e lancei um rápido olhar para o trio de alfas que gelaram, não os reconhecia, mas pelas cores faziam parte das casas dos ministros mais poderosos economicamente. Zhang e Xue.

Os Wu estavam do meu outro lado, em grupos maiores e fofocavam sobre outras coisas, até alguns diplomatas e talvez ministros ou generais de Qīngyún tentavam se entrosar em algum grupo, mas acabavam ficando entre eles.

Suspirei e fui embora, queria só voltar para quarto onde havia cheiro de Huang e dormir mais.

𐓏 ༄ 𐓏 ༄

Cada dia era pior, se ontem estava me achando sem forças o que poderia dizer de hoje? Estava morto. Meus instintos de ômegas só queriam saber do cheiro de Huang e isso estava me deixando louco.

Não conseguia me sentir mais o Yuan de semanas atrás.

— Vou representar vocês na reunião matinal. — Ouvi a voz de Yan naquela manhã ao anunciar mais que isso, mas meu cérebro nem funcionava direito. — Yáng'ge vai ficar com você.

E quando ele não ficava comigo? Quis retrucar, mas quando me dei por si, Yan nem estava mais lá e o sol parecia brilhar ainda mais pela janela.

— Como está se sentindo? — Abri meus olhos e encarei a cabeleira loira de Raiju.

Ele sorria fraco ao sentar-se na ponta da cama.

— Mais fraco e patético do que ontem — respondi ao voltar a fechar os olhos e jogar meu braço sobre as pálpebras.

Parecia uma enxaqueca alcoólica, mas seu eu tivesse bebida algo, Yáng'ge teria ficado louco, ele proibiu até na nossa festinha particular.

— Tudo parece girar e me sinto tão fraco... — Mudei a resposta para explicar. — Não consigo nem distinguir o tempo... — falei e puxei a gola do meu hanfu toda molhada pelo suor. — E que calor hoje!

Não ouvi a voz de Raiju ou se ele falou algo. Acho que perdi de novo a noção do tempo, quando me dei por si, meu familiar me chacoalhava como se eu fosse um boneco e Yan estava ao seu lado.

Alguns empregados corriam para todos os lados e Yáng'ge estava pálido demais, mas pelo menos dessa vez conseguia enxergar melhor.

Pisquei e encarei a janela perto da cama. Quase anoitecia.

— Achei que era de tarde ainda... — resmunguei.

— Pirralho! — Raiju rugiu. — Como está se sentindo?

Ergui uma sobrancelha, mas me sentia bem melhor do que... minutos atrás. Ou deveria ser horas atrás?

— Um pouco zonzo, só. — E apostaria seria por ser chacoalhado como um boneco de pano.

— Você foi envenenado! — Ele berrou aos quatro cantos ao erguer seus braços. — E me diz que está só um pouco zonzo?

Deu de ombros e sentei na cama para alongar.

Envenenado?

— Que veneno usaram em mim?

Raiju se jogou em uma cadeira próxima e bufou uma rosnada que fez um ômega de branco dar um pulo. Ele segurava uma maleta pequena e ao seu lado estava um beta da mesma idade, mesmo acuado, tentava manter os ombros firmes.

Orvalho Noturno, vossa majestade. — O ômega falou com medo. — Orvalho Noturno é um veneno perigoso por causar efeitos comuns que muitos nem dariam tanta atenção como as enxaquecas fortes e o cansaço com uma dose muito forte.

Alguém tentou me matar?

Gargalhei e os médicos arregalaram os olhos.

Yan perguntou se reações assim eram comuns e os dois médicos balançaram a cabeça em negativa.

— Alguém tentou me matar? Sério? — Ri de novo. — Raiju consegue farejar?

Ele revirou os olhos.

— Vá beber água, não sabemos os efeitos colaterais no veneno para o bebê. — Ele apontou para minha barriga

Ah, esqueci. Ótimo pai que eu era.

— Esses dois são os novos médicos imperiais, e o médico Sun é um ômega especializado em ômegas grávidos, então ele vai ficar mais presente com você. — Yan explicou ao apresentar o ômega baixinho.

Ele acenou sorridente.

— E o Huang? — Minha pergunta fez a atmosfera decair no ambiente.

Yan respirou fundo e soltou o ar devagar. Yixin não estava muito longe e observava a todos com seu Kamaitachi pendurado em seu ombro como um papagaio, alguns passos em sua frente, Yáng'ge respirava mais aliviado com a mão no peito.

— A droga é originaria de Qīngyún. — Raiju explicava para mudar de assunto e não falarem de Huang.

Não havia notícias sobre meu alfa, pelo menos nem ruins.

— Porém, só isso não da para colocar a culpa neles, ainda mais quando farejei cheiro de um visitante estranho pelo pavilhão. — Raiju passava o dedo sobre o nariz. — Um cheio que já senti antes, então posso farejá-lo.

Perfeito.

— E meu filho, ainda está aqui? — perguntei para o ômega ao apontar para a barriga. — Estou mais disposto depois de tudo, é estranho...

Yan não conseguiu segurar sua risada e Raiju coçou suas têmporas.

— Ele está sim. — O médico respondeu. — E é bem forte pelo que senti vindo de seus meridianos, além de pegar poder ele também lhe dá poder. — Ele falava e parecia não compreender com suas pálpebras arregaladas. — É como se fosse um núcleo dourado também.

Estava tendo uma troca de poderes? Incrível isso, ele só podia me deixar menos cansado.

— É melhor cancelar a festinha de vocês, não sabemos o que...

— Não! — Cortei o príncipe Yan no meio de sua fala. — A festa continuava e o restante pode se retirar.

Yan protestava sobre essa festa e tentava apelar pelo fato de como Huang ficaria se descobrisse que eu e seu filho nos machucamos, ou pior, se eu perdesse o bebê. Todavia, deixei que ele tentasse convencer Raiju a ajudar e que só as pessoas em quem confio estivessem presentes agora no quarto.

— Se acha que vão tentar algo lá, perfeito. — Voltei a cortá-lo. — Vamos montar uma armadilha!

A empolgação já denunciava tudo.

— Quando verem que a quantidade de Orvalho Noturno que deram não funcionou, eles vão tentar de novo, e local como uma festa seria mais "fácil" envenenar alguém, não acham? — Yixin comentava ao esfregar a cabeça da doninha.

Estava cada dia mais adorando ele!

Assenti em confirmação.

— Liberem mais dançarinos e servos, e sem guarda. — Sorri com frieza e Raiju revirou os olhos.

— E quem vai proteger você? — Yan perguntou com desgosto.

Sua perna se mexia com frenesi mostrando que ele não gostava da ideia da festa e muito menos de ser mais livre.

O efeito de um veneno não funcionou, mas e outros? Sou imune até a Erva do abismo, ou outro veneno mais forte?

— Vejam quais são os venenos mais achados em Qīngyún, e nos dois reinos ao lado deles — falei ao tocar meus lábios. — Só podemos rastrear origens, mas Raiju pode farejar resquícios fortes o suficiente para um felino sentir por um curto período de horas.

Yan sorriu ao entender a ideia.

Se alguém me envenenasse naquele salão de festas, faria Raiju farejar cada nobre e plebeu para achar os vestígios, se fosse um plebeu poderíamos tirar informações que levassem até o mandante. Caso fosse um nobre, teríamos mais dor de cabeça para conseguir ele falasse.

— Wei e Míng gostam de festas? — perguntei ao sentar na ponta da cama. — Rak Jae, gosta e é de Qīngyún.

Queria atrair meus inimigos para dentro da festa, não desconfiava de Jae, mas de quem fosse com ele.

— Convide Kam Weijie, também. Ele é ômega e podemos ficar bem próximo dele, além disso, ele trabalha para Xiangrui que não confio tanto.

Era Sisi quem anotava tudo em um papiro, o coitado estava atirado no chão para escrever e poder se lembrar de todos os nomes. Mandei-o usar a mesa, mas o velho beta continuou no mesmo lugar.

— Então o tema da festa vai ser. Atraia o inimigo? — Yixin riu e a doninha mexeu suas lâminas em forma de garra.

— Melhor correr com os preparativos, o sol logo vai se por. — Apontei para a janela.

— Espero que saiba que está fazendo. Não quero perder a cabeça quando meu irmão acordar. — Yan cutucou minha bochecha e estapeei ele.

Para o príncipe irritante ao príncipe protetor, era um grande caminho que havíamos passado.

Agradecia muito sua ajuda e seu apoio, qualquer outro poderia tentar pegar o trono e se livrar de todos os empecilhos, menos aqueles três. Cada um, unidos para proteger seu irmão mais velho e a mim.

Yáng'ge se sentou do meu lado e me abraçou.

— Quando será que ele vai acordar... — Me peguei balbuciando.

O vazio em meu peito voltava a arranhar como um animal desesperado e ferido. Nem tudo era só o instinto de ômega querendo seu alfa.

Queria meu Huang de volta.

𐓏 ༄ 𐓏 ༄

A festa foi no auge da noite, todos os citados estavam lá. A festa que seria pequena, se tornando algo exclusiva e bem decorada. Usaram até mesmo o salão de festas do palácio do imperador para isso e me animei ainda mais.

Raiju puxou meu braço e recuei.

— Tem certeza que quer fazer isso? — Ele perguntou com um leve suspiro.

Sua forma humana estava perfeita, sem suas orelhas ou garras, era como se tentasse se passar por um cultivador.

— Talvez o culpado seja o mesmo que tentou matar Huang, e o que mais quero é a cabeça de quem mandou aquele arqueiro. — Cerrei os punhos. — Não vai ter gravidez que me faça destruir uma nação se for necessário.

E era melhor Huang sobreviver, pelo bem de Yúhua.

— A liberdade da escolha às vezes não nos faz pensar, tome cuidado com sua raiva. — Ele me soltou. — Você é muito poderoso, mais do que imagina, mas nesse mundo também existe alguém capaz de te parar, não chame atenção dele.

Afinei meu olhar.

— De quem está falando? — perguntei, mas Raiju conseguiu se esquivar de responder com a chegada de Yan e Yixin na porta.

Por estarmos parado tanto tempo ali, eles estranharam e vieram debaixo da atenção de Yáng'ge.

Qual criatura nesse mundo que era mais forte que Tianlong, um deus dragão, outro deus? Talvez o imperador de jade?

Descobriria sobre isso, no momento precisava me exibir e tentar ser envenenado.

Raiju baixou o semblante, sua preocupação estava visível de um jeito que ele nunca mostrou, isso era o mais curioso.

Meia hora de festa e meu familiar não havia detectado nada em todas as bebidas que pegava, até me arrisquei nas alcoólicas mesmo sob os protestos de Yáng'ge. E para não ficar bêbado por ser fraco no álcool, me atraquei na mesa de comida.

Tudo era em espetinhos para facilitar, pegar e dançar.

Em uma altura da festa, o mundo parecia girar para mim, e cheirei o copo para ver se não estava bebendo álcool sem perceber. Dois copos teriam me deixado bêbado mesmo cheio de comida?

— Yan'ge. — Me joguei sobre os ombros do príncipe Yan que se assustou. — O cheiro aqui me irrita demais.

Precisava recompensar Hǎiyáng quando essa gravidez acabar e sua paciência por me ver jogado nos braços do alfa dele, mas Yan tinha um cheiro tão parecido com do Shen.

Era bom. Gostoso, me fazia sentir falta do meu alfa e, ao mesmo tempo, acalmava meus instintos de ômega.

— Quero o Huang... — balbuciei, a música não permitia ninguém me ouvir, só Yan.

Raiju pegava alguns espetinhos e cheirava.

— Ele vai ficar bem... — Yan me ajeitou em seus braços.

Ao seu lado estava Wei e Míngliàng, os dois alfas tentavam me animar com algum assunto, fosse sobre uma luta no passado, elogios ou sobre a comida. Nada tirava a nevoa se tornava meu campo de visão.

A sensação de estar perdendo algo.

Meu peito doía.

Toquei na marca em meu pescoço e um calafrio atingiu-me.

Huang...

— Erva do abismo... — Raiju comentou ao soltar o prato de Daifuku¹.

Raiju veio até nós e suas palavras soaram o nome do veneno que Huang foi acertado, isso fez algo travar em minha garganta e um ódio me queimar.

Em um piscar de olhos, meu familiar estava em nossa frente, do outro, ele vasculhava o salão e erguia uma serva pela garganta.

— Onde conseguiu o veneno? — Raiju urrou tão alto que a música parou e ninguém ousava se mexer.

Os príncipes estavam de pé, Yixin e Hǎiyáng do meu lado.

— O-n-d-e! — Rosnou cada palavra. — Vou caçar você igual um coelhinho amedrontado se você não abrir a boca. Assim como toda sua família, não me importe quem eu arranque a cabeça em sua frente.

Gargalhei quebrando o clima.

Quase cai para trás ao perceber era o Daifuku que comi vários os envenenados, foram espertos o suficiente de não colocar em bebidas para não errar o alvo, mas como sabiam como amava doces, usaram isso.

Levantei-me querendo de volta o cheiro de Yan e ignorando a serva.

Pela falta de feromônio de medo, era uma beta, porém, seus braços tremiam ao tentar segurar o pulso de Raiju e seu olhar transbordava lágrimas.

— Deixa eu adivinhar. Você trabalha para Huang Xiangrui?

— Acho que a festa acabou. — Yan sussurrou ao segurar-me. — E você está bem mesmo?

Pisquei várias vezes e dei de ombros.

— Onde conseguiu a erva do abismo? — Raiju voltava a perguntar. — Quem a mandou colocar na comida do imperador ômega?

Os cochichos soaram e bati as mãos animado para o quebra pau.

— Usa o feitiço da revelação. — Cantarolei.

Meu corpo parecia bem leve, a mente era um vazio de tranquilidade e nem as dores nas costas estava sentindo. Além dos efeitos negativos que senti ao tocar na marca e a raiva de ouvir aquele nome, só a visão era a ruim dali.

— Só precisamos da confissão e que ela diga seu mandante, o que vai sobrar do cérebro dela, não importa. — Dei de ombros e me joguei no peito de Yan. — Quero ver o Huang agora... — balbuciei.

Ninguém saiu do lugar, só Raiju pareceu se mover e a beta gritar pela piedade dele.

— Nunca tive com mortais, e não será a primeira quando tocou no meu filhote.

A beta gritou. Mais cochichos soaram e a revelação.

Não foi nome de Huang Xiangrui que ouvi, mas pouco me importava agora quando a mesma sensação estranha me atingia de novo, como um aviso.

Um alerta.

Huang... Eu precisava chegar nele.

Ele precisava de mim.

Pouco me importava com o mundo e essas pessoas, precisava chegar até Shen.

Yan me impediu, não sabia se era de cair ou de prosseguir, sua voz soava ao tentar falar comigo, no entanto, meu corpo se movia contra tudo aquilo para voltar para quarto.

Precisava ficar com meu Huang. Meu Shen.

Não sabia como chegaria até meu alfa, mas deixei toda a confusão para trás ao cambalear para fora do salão e ouvir os trovões. Arrastava as pernas debaixo do som metálico que se aproximava.

Precisava da maldita visão.

Rangi os dentes ao coçar as pálpebras.

As mãos de alguém seguraram meus braços e a voz de Yan soou dando ordens para os guardas.

— Shen... — balbuciava.

Meus instintos clamavam por ele.

Os trovões se intensificaram em suas fúrias.

"Raiju... preciso chegar até o Huang..." Pedi para meu familiar nem sabendo mais se a voz soava ou não entre meus lábios abertos.

Raiju me segurou e me guiou de volta, ouvia passos atrás de nós. Os protestos de Yan para chamarem os médicos, mas ninguém teria a cura para aquele veneno, ou Huang já estaria bem.

Cambaleei várias vezes.

— Você chegou, pirralho... — Raiju sussurrou quando tropecei pela décima vez e no chão fiquei.

Senti o piso sob toque dos meus dedos, o cheiro de Huang estava fraco.

A conexão pela marca estava fraca.

Não... não... não!

— Huang... — Tentei me levantar e desabei de novo, graças a Raiju não bati com tudo no chão. — Huang... — balbuciei ao arranhar o piso. — Não me deixa...

Raiju lançou seus braços pela minha cintura e me fez sentar. Seu sussurro de que estava ali comigo veio com uma massagem em meus cabelos. Porém, ele não entendia que não pedia para ele não me deixar.

— A conexão... — falava entrecortado como se meu folego fosse pouco. — ... está fraca.

Raiju parou de mover seus dedos sobre meus fios.

Huang não podia me deixar... ele não pode fazer isso.

Como eu podia salvá-lo?

— Os médicos estão vindo... — Yan se aproximava pelo som dos passos apressados. — Como ele está?

Suas mãos tocaram meus ombros e a imagem borrada do chão foi substituída pelo príncipe que podia facilmente enganar minha mente e se passar pelo meu Huang, porém, meu coração sabia onde o meu verdadeiro alfa estava.

O efeito do veneno era forte e muito, mas não iria cair, não antes de salvar meu alfa.

Virei a cabeça em direção ao borrão de cores que seria a cama, onde estava meu Huang, alguém estava lá de pé, não precisava enxergar para sentir o cheiro de Yixin e Hǎiyáng, cada um do seu jeito de tentar ajudar.

— Por que ele só fala do meu irmão, o que está ocorrendo, Yixin? — O timbre de Yan era de alguém estava com medo, seus dedos me apertaram em meus ombros e por um instante o senti tremer. — Como ele...

Yixin se virou e mesmo com embaçamento, identifiquei quando ele balançou a cabeça em negativa e Yan perdeu a voz.

— Huang... — Empurrei o segundo príncipe e fugi das mãos de Raiju só para cair no chão como um idiota.

Nem para isso eu serviria?

Rangi os dentes.

Tanto poder e eu não servia nem para salvar alguém.

Cerrei os punhos.

Você me prometeu! Você disse que não importasse se você morresse mil vezes, sempre retornaria me amando mais. Que passassem oitocentos anos, seu amor não sumiria por mim.

— Cumpra sua promessa... — sussurrei sem forças ao me escorar na cama.

Cumpra sua promessa, Huang. Não me deixe aqui...

— Yuan... — Raiju me chamava. Yan me chamava. Yáng'ge me chamava.

Todos me chamavam e não sabia quem responder.

Levei meus dedos até a marca de mordida do Huang.

Cumpra sua promessa, seu alfa idiota, ou nunca vou te perdoar.

Mordi os lábios, impedindo os soluços escaparemao sentir os últimos resquícios da conexão.


Ω . Ω . Ω . Ω

[1] Um doce, Daifuku é feito à base de mochi, um bolinho japonês feito com farinha de arroz.

NOTAS DA AUTORA

Dessa vez trouxe um cap bem grandinho para vocês! Assim como a desgraça... 

Que vai ser do Huang? 

Que vai ser do Yuan e os filhotes?

Até proximo domingo!

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