Capítulo 24 - Sempre juntos, eternamente separados

olá lindes,

como fiquei um tempo sem att essa fic vamos lá. mais uma att pra vocês aproveitarem o final do dia. espero que gostem. é um dos capítulos que mais gosto. 

bjokas e até a próxima att.

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Capítulo 24 – Sempre juntos, eternamente separados.

Filipe despertou de um sono agitado, perturbado por pesadelos, quando o céu começou a clarear no leste. Rolou sobre o corpo, fugindo da claridade, mas então, soltou uma praga ofegante, ao sentir a dor no peito e no ombro, tão forte que o tinha acordado. Ficou deitado de costas, contemplando o céu que ia clareando, enquanto procurava lembrar o que lhe tinha acontecido. O lobo. Soergueu-se cautelosamente, fazendo caretas.

Isaac... Encontrou-o deitado perto do fogo, exatamente como recordava, adormecido ao lado do lobo, sob a pesada capa de Elazar. Enquanto espiava, contudo, os primeiros raios do sol matinal cintilaram acima do horizonte. A luz do novo dia fluiu através da neve e acentuou suas formas tranquilas e adormecidas.

Os dois acordaram ao mesmo tempo, bruscamente, quando a transformação teve início dentro deles. Então, surpreendidos no âmbito daquele instante intemporal de mudança, Isaac e Elazar se viram frente a frente, em carne e osso.

Isaac estendeu o braço, quando a cara do lobo tremeluziu, tornando-se o rosto de Elazar. Seus dedos distenderam-se para ele — espalhando-se, modificando-se, transformando-se em asa emplumada. O lobo estremeceu, sua espinha desempenou-se, a pata de garras encompridou-se em mão e dedos humanos. Elazar estendeu o braço para Isaac, mas os olhos anelantes do ômega estreitaram-se, endurecendo-se no olhar frio e penetrante de uma ave predatória. Elazar gemeu de agonia, quando sua mão se fechou sobre o vazio e o homem amado desapareceu diante de seus olhos.

Miseravelmente infeliz, ele tornou a deitar-se sob a capa — e o falcão, abrindo as asas magníficas, decolou para o céu. Filipe baixou a cabeça, condoído pela angústia dos dois e por sua própria agonia. Elazar sentou-se lentamente e ajuntou as roupas não mais necessárias de Isaac, com o rosto tenso.

Filipe livrou-se de suas cobertas, já vestindo os trajes secos que Damastor metera à força sobre seu corpo tiritante, na noite anterior. Ouviu o monge remexer-se e acordar atrás dele, ao caminhar pesadamente para a fogueira que morria. Entre caretas, abaixou-se rigidamente para pegar um punhado de galhos para reacender o fogo.

Damastor despejara metade de um odre de vinho em seus ferimentos e por sua garganta abaixo, naquela última noite, fazendo-o presumir que viveria. Entretanto não esperava aproveitar muito a vida, durante alguns dias.

Elazar Bellini levantou-se e seus olhos percorreram o acampamento, com expressão indecifrável. Se queria saber como o lobo viera dormir ao lado de Isaac, não fez perguntas. Seu olhar passou além de Damastor, ignorando o monge, e parou em Filipe. Este conteve a respiração. — Minha espada — disse O alfa.

Filipe recuou de junto do fogo, sentindo o estômago embrulhar-se de antecipação.

— Onde está ela? — perguntou Bellini rispidamente, ao não obter resposta.

— Foi-se — disse Filipe, encarando-o. — Ela... caiu através do gelo a noite passada... cruzando o rio.

O rosto de Elazar demonstrou sua incredulidade ante a perda. — Maldito seja! Maldito até o inferno! Aquela espada eu recebi de meu pai e de três gerações antes dele! O último resto de honra que eu possuía! — A voz dele asfixiou-se na garganta. Ele olhou para o rio e novamente para o jovem ladrão, com expressão assassina.

— Não posso desfazer o que foi feito! — Filipe meneou a cabeça, falando em voz aguda pela tensão. — Será que não compreende? Não há mais nenhuma missão de honra agora! Nenhuma pedra a ser engastada no punho de uma espada, como símbolo de sua morte sem sentido! — A expressão de Elazar não se alterou. Em desespero, Filipe acrescentou — Contudo, há uma possibilidade para viver! Uma nova vida! Com Isaac, se pelo menos quiser ouvir-nos! — O jovem estendeu as mãos para diante.

Elazar o fitou sombriamente, depois se virou para Damastor. — Não preciso de uma espada para matar o Bispo! — exclamou. Dando meia-volta, caminhou para onde estava seu garanhão.

— Elazar... Elazar... não vá embora! — gritou Damastor. O alfa nem ao menos olhou para ele. Filipe passou pela frente do monge e bloqueou a passagem de Elazar.

— Pode ir, já que quer tanto! — disse, ardorosamente. — Mate-se! Mate Isaac também! Aliás, nunca se preocupou tanto com ele, como se preocupa consigo mesmo!

Elazar investiu para ele, com uma praga. Filipe agachou-se, mas não com rapidez suficiente. O punho de shifter lobo caiu em sua camisa, rasgando o tecido gasto, quando Filipe perdeu o equilíbrio e caiu para trás.

Filipe ficou ofegando, caído na neve, crispado de dor. Sangue fresco fluiu de seu ferimento no ombro e lhe escorreu, morno, pelo lado do corpo. Ele se virou sobre os cotovelos e contemplou os rasgões da camisa, os lívidos sulcos e vergões sobre o peito nu. Depois virou o rosto apressadamente.

Elazar ficou imóvel acima dele, olhando incrédulo para seus ferimentos, como alguém revivendo um sonho.

Damastor ergueu-se em suas cobertas. — Isso... aconteceu a noite passada. Enquanto ele salvava sua vida.

Um tremor percorreu o corpo de Elazar. A fúria que estampava em seu rosto, substituída por tristeza e vergonha. Virou-se bruscamente, não querendo ver o que tinha feito. O falcão mergulhou do céu à frente dele, pousando na sela de Golias. A ave virou a cabeça, fitando-o inquisitivamente.

Elazar contemplou a ave por um longo momento, antes de se virar de novo para Filipe, que se levantava, procurando ajeitar os rasgões da camisa. — Perdoe-me — disse ele, suavemente.

— Não posso. — Filipe ergueu a cabeça e o encarou. Elazar pestanejou, surpreso. Uma ruga de aflição cruzou-lhe o cenho, enquanto perscrutava os olhos do rapaz, à procura de algo que, subitamente, receava haver perdido ou destruído. Os cantos da boca de Filipe se ergueram em uma sombra de sorriso. — Não vem a propósito, senhor — respondeu, com um encolher de ombros. — Sou tão comum como a terra, justamente como dizia minha mãe.

O alfa, entretanto, não sorriu. Em vez disto, seus olhos se encheram de repentina emoção. — Sua mãe não o conhecia como eu — disse, em voz rouca.

Filipe baixou o rosto, incapaz de enfrentar o que viu no olhar de Elazar. Uma sensação que nem saberia definir o inundou por completo, a ponto de mal poder falar. Mesmo assim, forçou as palavras a saírem. — Minha mãe nem chegou a conhecer-me direito, alfa. Ela morreu dois dias depois que nasci... enforcada por roubar um pão. — Com uma espécie de incredulidade, ouvia sua própria voz dizendo a verdade. Tornando a erguer a cabeça, acrescentou: — Eu não... tentava ser um herói a noite passada. Apenas...bem...é que nunca tive um companheiro antes. E agora tenho dois.

Elazar estendeu os braços e puxou o humano para si, em um abraço suave, mas que quase sufocou o rapaz. Filipe sorriu, entregue ao abraço, toda a dor esquecida. Elazar contemplou o fosso que Filipe e Damastor haviam cavado para capturar o lobo. Os dois tinham-lhe contado, pouco a pouco, tudo quanto sucedera na noite anterior, sobre sua absurda e quase fatal tentativa para o prenderem. Elazar baixou o rosto para fita-los novamente, de sobrancelhas erguidas.

Filipe e Damastor, diante dele, tinham a cabeça baixa, como crianças culpadas. — Nós esperávamos... fazê-lo raciocinar — disse o jovem ladrão em um murmúrio, ousando olhar para ele outra vez.

O monge assentiu. — Pelo menos... queríamos certificar-nos de que você não chegaria em Moldovan senão amanhã, quando será o momento propício.

Elazar estudou suas faces decididas, dando a impressão de que afinal enxergava claramente, pela primeira vez em anos. O que Damastor Manjou alegava era pura insanidade... mas ainda assim... — Ambos acreditavam... o suficiente para fazer isto? — perguntou, apontando para o fosso. O falcão voou em círculos até ele e pousou em seu pulso.

— Para dizer a verdade, senhor, não sabíamos o que fazer — disse Filipe. Olhou para o falcão. — Cavar o fosso foi ideia de Isaac.

Elazar se virou para a ave, surpreso, mas de certa forma, não tão surpreso, afinal. — Três contra um, hem? — exclamou, resignado. O falcão olhou para ele, inexpressivamente. Abrindo as asas, tornou a decolar rumo as alturas do céu, enquanto Elazar o via afastar-se, admirado como sempre por sua graça e sua força, pela beleza e liberdade do seu voo. No entanto a ave nunca deixava de voltar para ele, porque o elo que os prendia era mais forte do que o instinto, do que a própria vida.

Elazar baixou os olhos de novo. De fato, devia ter estado louco, tão cego, que estivera a ponto de entregar-se à maldade do Bispo, de destruir voluntariamente suas vidas. Não podia sacrificar a vida de Isaac e nem a sua própria em uma vingança suicida e inútil enquanto houvesse qualquer esperança de quebrar a maldição, por menor que fosse ou por mais insana que parecesse.

Tornou a fitar o buraco, por um breve momento imaginando-se ali, um animal rosnante apanhado em uma armadilha. Era nisso que se transformara, tanto de dia como à noite, naqueles dez últimos anos. Contudo, agora não. Sua mente estava livre e, subitamente, revelava-lhe o disfarce impecável que o faria transpor as muralhas e os guardas, entrando vivo em Moldovan. Um disfarce que fazia tanto parte dele como sua própria pele...

Olhou para Filipe e Damastor. — Pois então, deixem-me mostrar a vocês, idiotas rematados, como capturar um lobo!

O monge e o rapaz fitaram-no boquiabertos, depois entreolharam-se em perplexo alívio, ao perceberem que tinham vencido. Durante a manhã, trabalharam sob a direção de Elazar, cortando galhos para a jaula, depois unindo-os com pedaços rasgados das cobertas. Por fim, ele ficou satisfeito por haverem construído uma armadilha da qual lobo algum conseguiria escapar... nem mesmo ele.

Colocaram a jaula na carroça de Damastor e prosseguiram viagem, descendo a encosta contrária da montanha, até chegarem ao sopé que se elevava abaixo da cidade flutuante. Montaram acampamento pela última vez, esperando o pôr-do-sol. Quando o crepúsculo chegava ao fim, Elazar escondeu sua sela e armas debaixo dos pertences do monge, na carroça, e atrelou Trovão  as correias do veículo.

Feito isto, afastou-se dos outros e ficou sozinho sobre o íngreme precipício rochoso, contemplando Moldovan, da mesma maneira como olhara para os esquemas de segurança e a estudara por dias incontáveis, nos dez últimos anos. Desta vez, afinal, os portões da cidade não pareciam intransponíveis e nem as torres da Igreja de Moldovan tão inatingíveis como os campos de Summerland(1).

O falcão decolou de seu pulso para o ar, estirando as asas em um último voo antes do cair da noite. Elazar o viu voar e sentiu o peito oprimido. Então, retornou ao acampamento. Olhou para a jaula colocada no chão, junto à fogueira...esperando por ele. Suspirou fundo. — Tanta coisa tem que ser feita exatamente conforme foi planejado, e nada em minha vida jamais o foi...

Encarou os outros: Damastor, que traíra Isaac e ele próprio, impelido por uma fraqueza pessoal, mas que agora se dispunha a dar a vida, se necessário, a fim de salvá-los. E Filipe, o companheiro deles, também disposto a arriscar a vida, movido por uma razão ainda mais extraordinária e rara que ele mesmo nem entendia. Esta talvez fosse a última vez que via qualquer um dos dois...

Deixou que seus olhos percorressem cada detalhe do rosto diante de si. — Se calhar que sejam vocês os sobreviventes — disse, suavemente — pensem bem de mim. E se a Deusa Luna escolher sacrificar todos nós... Ela me abençoou com os dois companheiros e amigos mais leais que um shifter já teve.

Um grito estridente rasgou o ar acima dele, quando o falcão fez um voo de mergulho até seu braço. Ele acariciou a ave com doçura, sentindo os olhos ficarem turvos, até parecer vê-la cintilando dentro de um halo de luz.

— Nós conhecemos o verdadeiro amor, Isaac — sussurrou ele. — Ninguém poderia exigir mais!

(1) - paraíso pós morte na cultura celta.

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