capítulo 34

Alex, Guilherme e Leslie estavam sozinhos pela primeira vez desde que o sequestro havia chegado ao fim. Estavam no jardim, um pedido de Guilherme para tentar perder o medo de se expor ao ar livre, que adquiriu depois da última vez em que esteve ali, o dia em que teve sua liberdade roubada mais uma vez. Eles passaram a maior parte do tempo em silêncio, pois não achavam que havia algo a ser dito.

Guilherme estava no meio, segurando as mãos dos outros dois. Ele e Leslie não se deixavam incomodar pela quietude, mas Alex estava nitidamente desconfortável. Tentava pensar em algo que pudesse fazer para iniciar um diálogo com os irmãos, já que sentia saudades das conversas que costumavam ter.

— Ei, Leslie — disse de repente, sem se mover. A garota olhou para ele por cima de Guilherme.

— O que foi?

— Sabia que o nosso irmão fez uma amiga?

Guilherme sentiu o rosto ruborizar e soltou a mão de Alex para apertar seu pulso com as unhas.

— Ah, é? — Leslie sorriu para provocar o irmão do meio. — Quem? Aliás, como?

— É só a pessoa que me ajudou quando eu escapei — Guilherme voltou a sentar-se da maneira como estava antes. — Nada demais.

— "A pessoa" — Alex ironizou. — Leslie, sabia que a pessoa deixou um bilhetinho pra ele? Com número de telefone e tudo mais?

— Nossa, eu te odeio tanto — sentindo-se muito envergonhado, Guilherme soltou novamente a mãos de Alex.

— Se não é nada demais, por que seu rosto tá vermelho desse jeito? — Leslie segurou as bochechas do irmão, juntando-se na provocação. — Amizade entre garoto e garota não tem nada demais, você mesmo que tá colocando as coisas no duplo sentido.

— É, que seja! — Guilherme tentou conter a irritação, pensando que não havia motivo para se estressar com as brincadeiras. No entanto, olhou para Alex a fim de rebater: — E você fala como se não tivesse uma amizade meio suspeita.

Alex abriu a boca num meio sorriso, chocado. Não soube o que dizer em resposta.

— Gente, chega — Leslie interveio para encerrar o assunto. — Vocês nem quiseram saber como foi conversar com a Alicia.

Assim que terminou de falar, ela lembrou-se de que Guilherme ainda não estava sabendo da visita. Claro, ele estava em cativeiro naquele momento. O garoto então direcionou seu olhar a ela, erguendo suas sobrancelhas confusas.

— O quê?

— A gente ia te contar, mas eu achei melhor dar um tempo pra você descansar antes de descarregar esse tipo de coisa nas suas costas — Leslie fez um sinal a Alex para que ele chegasse mais perto dos dois. — Mas, sim, eu fui falar com a nossa mãe. Mas fica tranquilo, o Alex também ainda não sabe de nada.

— Ela... ela te contou alguma coisa importante? — Guilherme sentiu seu nervosismo retornando, dessa vez por outro motivo.

— Sim.

— Ela disse coisas... sobre o Anton?

Leslie percebeu a expressão tensa do irmão, imaginando se ele talvez não tivesse descoberto coisas em sua reclusão. Alex observava a troca de olhares dos dois sem entender nada.

— Disse. Ele te contou alguma coisa?

Guilherme respirou fundo antes de responder.

— Contou.

— Ai, meu Deus — Leslie levou as mãos à boca, e então virou-se para Alex. — Então só você ainda não sabe.

— Não sei o quê? — Alex sentiu seu coração acelerar, sabendo que aquelas expressões faciais não escondiam informações muito boas.

— É um assunto bem delicado — Guilherme segurou suas mãos novamente, tocado pelo medo que sentia vindo de seu irmão. — Se a Leslie eu estivermos mesmo pensando a mesma coisa.

Ela colocou a mão sobre seu ombro, num sinal de que sentia a resposta. Sim, estavam pensando na mesma coisa; sim, ambos já sabiam e precisavam contar a Alex.

— Vão me matar de curiosidade.

— Certo, eu vou começar — Leslie tomou a iniciativa, para poupar Guilherme de relembrar o quanto sofreu naqueles dez dias, ao menos naquele momento. — A Alicia entrou em choque quando eu disse quem era. Pensou que eu estava lá a mando do Anton pra fazer algo ruim com ela. Eu acho, não entendi muito bem a reação dela.

— Imagina como ela não deve ser traumatizada — comentou Alex. Leslie fez uma pausa antes de continuar.

— Ela é mesmo cega de um olho. Disse que alguém colocou algum produto químico no shampoo dela, que entrou nesse olho enquanto ela lavava o cabelo. Muito bizarro.

— Parece coisa de filme — comentou Alex outra vez. Guilherme permanecia quieto.

— Bem, e aí ela me abraçou, disse que achava que eu tinha morrido. Ah, e disse que a mãe dela ainda está viva, ou seja: nós temos uma avó.

— E você conheceu ela? — perguntou Guilherme em sua primeira fala desde que Leslie começou a falar. Ela negou com a cabeça.

— Não, ela não estava em casa. Enfim, ela disse algumas outras coisas, e...

Leslie olhou para Guilherme, que entendeu o recado.

— Alex, o Anton Puckett não é nosso avô biológico. Ele é um perturbado qualquer que manipulou os nossos pais e nos sequestrou. Todos os anos que a gente viveu naquela ilha foram ao lado de um estranho. Desculpe, mas eu realmente não sabia outro jeito de dizer isso.

Alex raciocinou por alguns segundos. Então olhou para Leslie, como se quisesse confirmar. Ela acenou com a cabeça, baixando-a em seguida.

— Ah — foi só o que conseguiu dizer. Os três ficaram em um silêncio constrangedor durante os minutos seguintes.

— Por que ele contou pra você? — Leslie quebrou o silencio questionando Guilherme. — Tipo, por que ele revelaria esse tipo de coisa? Sabendo que você jamais ia guardar essa informação.

Ele hesitou antes de responder.

— Eu acho que ele ia me matar. Se eu não tivesse conseguido sair, provavelmente...

— Sei — Leslie interrompeu, pois não suportaria ouvir o restante da frase.

— Ah, não — disse Alex de repente, olhando para longe. — De novo, não.

Os outros dois olharam para a mesma direção, tendo a mesma reação ao verem caminhando em sua direção Sofia e Vera. Eles se levantaram para poupar tempo e foram juntos até elas.

— Vai acabar, eu prometo — disse Vera ao se encontrarem, referindo-se às suas visitas constantes, aquelas que quase sempre envolviam notícias ruins.

Ela e Sofia os levaram até a sala em que já estavam acostumados a frequentar. Sofia sentou-se e indicou com que os irmãos fizessem o mesmo, enquanto Vera permaneceu em pé. Ela estava vestindo roupas e acessórios completamente azuis, seu estilo monocromático que já não causava mais estranheza.

— Bem, eu vou direto ao ponto: temos notícias. Uma boa e outra aberta a interpretações — disse Vera, olhando para Sofia em seguida.

— Olhe, acho melhor que você diga tudo a eles.

— Certo. Temos atualizações no seu caso. Anton está morto.

Sofia esfregou as têmporas, incomodada com o estilo direto de Vera ao compartilhar informações. Então voltou a olhar para os irmãos e estranhou a falta de reação de ambos. Eles pareciam não acreditar no que ouviram.

— Como? — perguntou Guilherme.

— Uma senhora ligou para a emergência nesta madrugada relatando que teve sua casa invadida, e sua filha, sequestrada. Disse que a filha entrou em luta corporal contra o sequestrador e acabou tirando sua vida em legítima defesa. Foi o que nos disseram, mas a investigação ainda não foi encerrada.

— E qual é a outra notícia? — Leslie questionou, tendo entendido porque uma delas era "aberta a interpretações" sobre ser boa ou ruim.

— A senhora disse que é avó de vocês. Ela não sugeriu, mas afirmou. Vamos iniciar um processo para comprovar, e, se ela estiver mesmo certa, parabéns! Vocês encontraram sua família.

Os três irmãos se entreolharam tentando fingir expressões de surpresa, tentando fingir que não sabia.

— Isso é tudo? — Leslie perguntou impaciente.

Vera e Sofia se encararam novamente.

— É, é, sim. Esperávamos uma reação diferente, mas isso é tudo, sim. Vera vai retornar em outro momento, não é?

— Sim. Bem, já estou indo.

Vera se virou e saiu.

— Nós estamos muito felizes, pode acreditar — disse Alex se levantando. — E um pouco arrasados também.

— Certo. Bem, podem ir.

Uma nuvem de constrangimento se dissipou por ali. Os irmãos definitivamente não reagiram da maneira esperada, e apenas eles entendiam o motivo. Os três saíram e ficaram parados no corredor.

— Uau. Muitas revelações em um dia só — comentou Alex, escorando-se na parede.

— Sim. Com licença, eu vou ao meu quarto.

Leslie saiu, deixando os irmãos para trás. Ela jurou ter visto um rosto conhecido no corredor quando estava voltando ao seu quarto, e então foi até o banheiro, sem acreditar.

Não, isso, de novo, não, pensou, escorando-se na pia, tá acontecendo de novo.

Ela ergueu a cabeça e olhou para o espelho. Havia alguém atrás dela, observando-a com um sorriso. Tom estava lá novamente, e Leslie então gritou e se sentou no chão escorada na parede, enterrando os olhos em seus joelhos.

— Sai daqui! — ela gritou.

Ele está mentindo, e agora você já sabe o que era. Todos sabem — sussurrou uma voz em seu ouvido.

Ele sabia de tudo, pensou, então por que não me contou nada?

— Eu não contei porque não queria ferrar você. Ele me transformou nessa voz que existe na sua cabeça, e eu não queria que o mesmo acontecesse com você.

PARA! — Leslie gritou, batendo as mãos no chão.

— Leslie?

Ela olhou para cima, com os olhas completamente úmidos, e conseguiu ver Rafaela.

— Tá tudo bem?

— Tá — Leslie enxugou os olhos, e então estendeu a mão para Rafaela, que a ajudou a se levantar. — Eu só... estou com muita dor de cabeça.

— Sei. Vamos pro quarto pra você descansar.

Leslie acenou com a cabeça, e então olhou para trás enquanto saía do banheiro. Conseguiu ver o rosto de Tom no espelho, com uma expressão triste e balançando negativamente a cabeça. Aquela foi a última vez que o viu.

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