Capítulo 3

O rei Fhilips moveu-se até meu encontro, seus filhos o seguiram andando ao seu lado. Meu pai deu um passo para ficar ao meu lado direito, ele deixou a xícara na mesa atrás de nós. O rei de Arrem parece ser bem mais velho. Não conhecia a família real dos nossos mais próximos vizinhos e aliados.

— Essa é minha filha Rachel, a herdeira do trono de Erdenville — meu pai se enche de orgulho quando fala essas palavras.

— Então, você é a famosa princesa Rachel. Já ouvi falar muito de vossa alteza — ele continuou com o sorriso no rosto.

Reis não se curvam, não mais.

— Não sabia que era famosa — forcei um sorriso.

O rei Fhilips está trajado igual ao meu pai, com exceção da camisa e gravata, ambas azul.

— Mas é. E agora entendo o porquê.

Minhas orelhas queimaram ao me lembrar da cena que acabaram de presenciar.

— Esses são meus filhos, Mason e James — ele disse apontando com a cabeça para os filhos que me cumprimentaram com um aceno. — Mason, assim como você, é o herdeiro de Arrem.

Os príncipes de Arrem são muito bonitos, agora entendo toda a euforia das princesas. Às vezes ouço alguns comentários entre elas durante alguma visita real a outros reinos.

Nunca fui à Arrem, o que soa meio estranho, é inacreditável que os maiores aliados não se vejam com frequência.

O príncipe Mason é um pouco mais alto que o irmão, tem o cabelo loiro cortado mais curto, e uma barba, enquanto o outro possui os cabelos pretos com um corte um pouco maior que o do irmão, e a barba está feita, ambos tem olhos azuis, imagino que tenham herdado da mãe. Embora, os dois tenham a mesma cor de olhos, o príncipe mais novo possui algo diferente no olhar e no sorriso, algo que me chama a atenção.

Os dois usam calças pretas, e botas até o joelho, o mais novo está com uma camisa azul com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, já o outro com uma branca fechada nos punhos.

— Mas ao que devemos a honra de vossa visita? — perguntei.

— Tinha assuntos importantes a serem tratados pessoalmente — ele falou olhando na direção de meu pai.

— A família do rei chegou ontem, a rainha Carolyn está com sua mãe — meu pai falou me olhando.

— Não sabia, afinal eu não estava aqui — falei o olhando. — Realmente foi um prazer conhece-los — me virei na direção do rei Fhilips — mas agora tenho que me retirar, estou cansada da viagem.

— Sinta-se a vontade, teremos tempo o suficiente para conversarmos depois — ele lançou um olhar na direção de meu pai.

— Como desejar — respondi. — Temos um conversa pendente — me voltei para meu pai.

— Tudo bem.

— Com licença — falei me retirando da sala.

Segui em direção ao meu quarto, subi as escadas até o terceiro andar, meu quarto é o último do segundo corredor à direita, o da Melanie é o primeiro.

Não encontrei com ninguém no caminho, abri a porta do meu quarto, as luzes estavam acessas, o que significa que Sophia deve ter acabado de sair ou ainda está aqui — segunda opção. Quando fecho a porta, percebo que ela está abrindo as cortinas azuis.

Me aproximo sorrateiramente.

— Bumm — gritei, batendo os pés no chão, ela deu um salto para trás, levando a mão ao peito com o susto.

— Alteza!? — ela falou com a respiração ofegante.

— Que foi Sophia? Parece que viu um fantasma — caçoei me virando para sentar na cama, meus pés já estão dormentes.

— Não, mas é bem parecido — ela ainda respirava ofegantemente.

— Assim você me ofende — fingi está magoada.

— Até parece — ela se virou para continuar a arrumar a cortina.

Olhei em volta, parecia tudo normal. As paredes brancas sem nenhum enfeite ou quadro, o closet no canto do quarto, a escrivaninha de madeira polida no outro, uma mesinha com três gavetas ao lado de minha cama. Só uma coisa estava diferente: um vestido violeta estendido sobre o sofá branco perto de uma das janelas.

— E esse vestido, Sophia? — perguntei enquanto me abaixava para retirar a bota esquerda.

— Sua mãe quem trouxe. É para a senhorita usar hoje, durante o jantar com a família real de Arrem.

— Tinha que ser — continuei tirando as botas.

Levantei descalça, sentindo o chão frio, levei a mão ao coldre com à arma que ainda estavam comigo, os retirei jogando-os em cima da cama.

— Já preparei seu banho — ela falou enquanto se retirava do quarto com seu uniforme — um vestido marrom, e um avental branco. Seu cabelo preto estava em um coque simples. — Vê se não faz bagunça, acabei de arrumar tudo — ela cantarolou parando à porta.

— Pode deixar senhora — bati uma continência debochada, em troca recebi uma careta.

Ela deve ter uns vinte e seis anos, mas parece mais velha, às vezes penso que é o cansaço dos anos. Cuidar de um filho de quatro anos não deve ser nem um pouco fácil, ainda mais sem apoio. Nunca a perguntei quem é o pai, e ela também nunca o mencionou. Dá para perceber as rugas que começam a aparecer, contornando seus olhos castanhos, que à vida dela não é um mar de rosas.

— Obrigada Sophia.

— Não precisa agradecer — ela disse fazendo uma pequena reverência e saiu do quarto.

Tirei o resto das roupas e me dirigi até o banheiro, havia uma banheira com água quente à minha espera. A sensação depois desse dia exaustivo é ótima. Observava enquanto as bolhas de sabão estouravam sobre a água e espalhavam perfume sobre minha pele.

Não gosto que ninguém entre no meu quarto — não que eu esconda algo —, só não gosto de ver nada fora do lugar. Sophia é a única que faz a limpeza dele. Com os anos adquirimos uma amizade que não tenho com outras pessoas. Com exceção de Liam, ela é a única pessoa com quem não uso a máscara de rainha.

Embora eu não seja rainha ainda, ajo como uma na frente das pessoas. Com minha família e amigos tento ser mais amigável, mas acabo parecendo fria às vezes. Não me considero má, porém, algumas pessoas acham que minha frieza é maldade, minha irmã fala que não tenho coração, mas é só quando sou rígida ou a nego algo.

Fico o máximo de tempo que posso no banho — como se a água pudesse apagar o dia terrível que tive. Quando Melanie bateu à porta, já tinha colocado o vestido e fazia os últimos retoques na maquiagem simples.

— E então, já está pronta? — ela falou se sentando na cama.

— Quase — respondi, mexendo no vestido violeta.

Minha mãe tem um ótimo gosto para roupas. O vestido que ela escolheu para mim, era realmente lindo. Ele era solto ao corpo, tinha as mangas até o pulso, porém em tiras de tecido que acabavam deixando meus braços nus. Não usava nenhuma joia especial, com exceção do cordão que minha vó me deu. Optei por usar um salto mais baixo, que me deixasse mais confortável. Também usava uma tiara prata simples, com finas tiras trançadas sobre uma traça complicada que Sophia fez em meus cabelos — que ficou ótima.

Melanie por outro lado, estava coberta de joias, um colar delicado de diamantes, uma pulseira com pequenas flores pratas. Seu vestido era um azul céu, um pouco rodado até os pés, de alças rendadas. Seu cabelo parecia mais cacheado.

— E então, falou com o papai? — ela perguntou rindo.

Me virei para encara-la. Melanie é quatro anos mais nova que eu, mas já está quase do meu tamanho.

— Por que você não me avisou que ele estava ocupado?

— Eu tentei, mas você não me deu tempo — ela falou dando de ombros.

— Eu entrei igual doida na sala, falando sem parar com nosso pai...

Melanie começou a rir sem parar, comecei a ficar com raiva — mas ela estava certa —, devia tê-la ouvido em vez de sair em disparada.

E agora, parando para analisar, a situação até que soa engraçada.

— Ei, não ri — a repreendi, prendendo o riso.

— Deve ter sido muito engraçado, você xingando, falando igual doida, sem perceber que tinha plateia — ela continuava dando gargalhada.

— Não teve graça só para você saber... Pensando bem, parece engraçado — não contive o riso diante da lembrança.

— Posso saber do que tanto as senhoritas estão rindo? — Kit anunciou entrando no quarto.

— A apresentação majestosa da Rachel ao rei de Arrem — ela continuava sentada na cama rindo da situação.

— O que aconteceu? — Kit continuou em pé perto da porta.

— Depois te conto — Melanie se adiantou.

Kit não é da nobreza, mas se posso dizer que tenho amigos, ela seria a principal, além de ser minha conselheira real.

Hoje ela parece mais pálida que nunca, já chegamos a pensar que isso era uma doença, porque mesmo ao sol ela sempre parece estar pálida. Sua mãe também é bem clara, ambas possuem os cabelos pretos ondulados, e olhos verdes.

Kit está com um vestido prata que a deixa ainda mais clara — se é que isso é possível —, os cabelos caem no ombro como se fossem ondas. Ela parece contente hoje.

Elas moram no castelo desde quando Kit ainda tinha cinco anos — a mesma idade que eu tinha na época —, por isso somos muito próximas. Seu pai era o general do nosso exército e o melhor amigo de meu pai, porém, ele morreu durante uma tentativa de invasão do castelo, dando a vida pelo amigo. Meu pai prometeu a ele que cuidaria de sua família, e tem feito isso até hoje.

— Acho melhor descermos — falei.

— Tudo bem — Melanie falou dando um pulo da cama.

Puxei a porta do quarto quando saímos, caminhamos pelos corredores devagar até o salão de jantar na ala leste do primeiro andar.

— E o que você achou dos príncipes? — Melanie iniciou.

Olhei pelo canto do olho e percebi que ela estava sorrindo.

— Nada, o que deveria ter achado? — respondi secamente.

— Nossa que delicadeza — Kit ironizou.

Continuamos em silêncio enquanto descíamos as escadas.

— O mais novo é dois anos mais velho que você — Melanie recomeçou.

— E daí? — perguntei.

— Só estou dizendo que vocês poderiam se conhecer melhor, sabe...

— Não vejo o porquê.

— O que sua irmã está querendo é um cunhado, ela acha que isso poderia deixar você menos... — ela fez uma pausa tentando raciocinar — rabugenta. — Kit soltou uns risinhos.

— Finalmente alguém que me intende — Melanie levantou as mãos adicionando drama a sua fala.

— Pode esquecer, isso não está nos meus planos... e eu não sou rabugenta — falei terminando de descer os degraus da escada.

— E o que está nos seus planos? — Kit perguntou.

Fiquei em silêncio. Além desse desejo de subir ao trono e provar que todos estão errados, nunca parei para pensar em outras coisas.

A voz de Melanie cortou o silêncio.

— Deixe de ser chata, não vejo nem um motivo para você não fazer isso.

— Eu consigo ver vários — Liam, meu orgulho em não me casar antes de ter a chance de reinar sozinha, ele ser de Arrem, nossos inimigos em pele de cordeiro, etc, etc...

Deixei escapar um leve sorriso ao lista-los mentalmente, mas o contive antes delas perceberem.

— Eu não. Para começar, ele é o príncipe do segundo maior reino, bonito, educado e o mais cobiçado.

— Sem mencionar que seria uma ótima aliança entre os reinos — Kit concluiu.

— Não comece você também — fechei a cara para Kit. Senti um frio na barriga, Kit tem razão quanto a isso, e esse é o meu maior medo.

— Viu, até à Kit concorda— Melanie prosseguiu.

— Só que vocês estão esquecendo algo — falei, parando ao colocar o primeiro pé no salão.

Todos já estavam lá, incluindo tio Felix e Meredith. Não pareceram notar nossa chegada, conversavam entre si, o jantar não fora servido ainda, até porque não está na hora.

É estranho ver os reis que se enfrentaram no passado, sentados a mesa conversando como velhos amigos, como se nada tivesse acontecido, como se nunca tiveram o desejo de se matarem. Uma farsa bem ensaiada, um pequeno teatro, algo que a realeza faz o tempo todo. Ninguém sobe ao trono sem gentileza e bondade, e ninguém permanece nele com esses sentimentos.

— E o que seria? — Melanie perguntou.

Desviei o olhar da mesa de jantar para encara-la.

— Não estamos em um conto de fadas — falei secamente voltando o olhar para a cena à minha frente.

Nessa peça eu também sei atuar.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top