Treze - Uma vida por milhares

Ninguém é assim tão velho que não acredite que poderá viver por mais um ano.

Cícero

Alma era cuidadosa o suficiente para não deixar que eu vagasse com a Herdeira por aí. Por segurança, ela nos levou para O corredor, uma rede de cavernas que o nosso povo usava para guardar coisas que precisavam sobreviver ao fim dos tempos. Histórias armazenadas em amuletos, tecidos que vieram de outras gerações. Remédios, essências, segredos. Quando se corre o risco de extinção, é bom deixar legado para qualquer um que consega sair vivo disso.

Vi Aeryn olhar para um dos potes com certo estranhamente, e fingir logo depois que não era nada demais. Lágrimas da traição Lipphaus em um pote com tampa giratória.

Tohr coçava os olhos, notavelmente a cara estampando o fato de ter saído da cama antes do horário certo. E Alma tinha aquele olhar de dúvida, ora me olhando com desdém deixando mais do que óbvio sua negativa por eu ter aberto a boca. Mesmo que ninguém tenha dito que fui eu quem abriu a boca. Mas fui eu quem odiei a Herdeira primeiro. E fui eu que apareci com ela na porta da casa deles. E Tohr podia estar alheio a esse fato, mas não Alma.

Alma era esperta demais para não perceber.

— Seu pai vai entrar em combustão se descobrir que viemos aqui. — Comentei, Tohr colocou a mão em uma chave que tirou de algum lugar que não percebi e Alma tomou dele objeto.

— Não toquem em nada. Só estamos aqui porque não podemos correr o risco de sermos vistos. — Alma devolveu a relíquia para a prateleira.

Aeryn não conseguia esconder sua curiosidade em olhar para tudo. Ela vasculhou as prateleiras com os olhos, pairou com sua respiração sobre uma bancada de potes com rolhas. Dente de crocodilo ancião, sangue da abelha de Val, pétalas da flor das idéias. Ela olhava para tudo com certa admiração e espanto, mesmo que não dissesse nada sobre a respeito.

— É melhor se aquecerem. — Peguei a manta que Alma estendeu para mim, e logo tirou outra do armário para Aeryn. — E não vou me dar o trabalho de perguntar porquê estão todos molhados.

— É de uma gentileza estranha. — Aeryn se embrulhou, Tohr puxou uma cadeira da pilha escorada na parede.

Tinha um silêncio que entregava tudo no ar. Eu tinha curiosidade em Aeryn, o suficiente para estar ali até agora. Morrer por uma causa que você não acredita é um destino cruel demais. A Realeza já tirou muito de mim, e eu não queria carregar a culpa de ajudá-la a tirar mais de ninguém.

— A Lenda do mar Drogo. — Tohr entregou uma cadeira para a irmã, e eu recusei a que me foi oferecida. — Você já ouviu falar de amor verdadeiro?

— A Disney inventou.

— Quem? — Alma questionou.

— Não vale a pena perguntar. — Tohr não incentivou.

— Enfim, amor é uma mentira com muitos enfeites, Princesa. O que é real, é o sentimento mútuo de felicidade ostensiva e desejo de permanecer unidos. As pessoas podem ser amar e decidirem estar distantes, e essa é a única verdade universal entre nossos mundos.

Eu voltei no tempo enquanto Alma contava a história. Me lembrei dela aos 11 anos de idade, com já todo aquele cabelo ruivo que agredia suas costas. Seus olhos grandes, curiosos e animadores. Kara se sentava a beira de uma fogueira, após todos já terem perdido o interesse em estar lá. Eu sentava ao lado dela e lia as histórias que conseguia imaginar no sorriso de Alma, enquanto ficava cada vez mais entretida com as coisas que ouvia da minha mãe.

Sempre achei que se houvesse um futuro para mim, eu dividiria ele com Alma. Mas ela estava tão distante, tão apagada da minha realidade. E eu não entendia como podia tê-la deixado escapar dos meus braços tão desprevenido, tão fácil. Eu fui tão ingênuo em acreditar que eu era homem para possuir os sentimentos dela para sempre.

Balancei a cabeça, afastei o pensamento.

Tohr tinha um único foco, e não precisei me mover para saber que os olhos dele não saiam da Princesa. Olhei para Aeryn, ele estava tão ausente de nós que parecia flutuar em tudo que Alma dizia, como se significasse mais do que realmente significava.

Uma lenda é uma lenda.

Não se deve acreditar em lendas. Mas ao fim da história, Aeryn tinha lágrimas nos olhos e Alma também. E eu me perguntei como podia um homem tão bem resolvido e confiante como Drogo, o desbravador de todos os mares, se curvar a uma mulher qualquer.

Ingênuo ele nunca foi. Mas comecei a imaginar o que teria sido de sua vida, se ele não tivesse passado por aquilo. E morrido tão abandonado. Um homem que ama o mar, morrer com o oceano. A justiça é divina. Drogo pagou por todos os pecados que cometeu enquanto vivo. E mesmo assim, passando o pente em seu histórico, ainda teria sido pouco.

Ele é apenas mais um homem que se deixou enganar por um rabo de saia bonito.

— Se é apenas isso, ainda acho que seja pouco. — Tohr bocejou, se ajeitando na cadeira. — Ele foi fraco. A primeira mulher para quem ele cede seu coração, vai lá e o traí. Isso não é clichê? Burro demais.

— O que me diz, Princesa? — Alma ignorou o comentário idiota de Tohr. Até eu ignorei. — Era isso que você esperava?

— Não tenho certeza. Drogo era um pirata que abriu o coração para o amor. Kalila o traiu e o fez afundar com seu navio, seu primeiro amor.

— Exatamente.

— Parece um enredo que a Warner escreveria. — Aeryn suspirou, em seguida imendou: — Eu o vejo em meus sonhos, até quando estou acordada. Ele me chama lá de dentro. Minhas lágrimas não são apenas salgadas, elas são água do mar. E é lá onde me sinto mais confortável.

— Talvez não tenha nada a haver com Drogo. — Alma falou, eu não sabia exatamente onde Aeryn queria ir. Mas Alma parecia já ter chego lá. — Você está em um lugar estranho, onde as pessoas te tratam com veemência e amor. É comum que se sinta pressionada e procure um lugar de conforto.

— Não é apenas um lugar de conforto. E com certeza o que vocês sentem por mim, não é amor. O Mar está me pedindo para socorrê-lo e se houver mais alguma coisa que não está me contando a respeito disso, por favor, Alma... Eu te imploro.

Eu te imploro.

Para quem não implorava, Aeryn parecia disposta a fazer isso demais a partir de agora. Me perguntei se valia a pena todo esse alvoroço.

— Quero proteger cada onda que se forma no mar, e com certeza quero poder zelar por cada célula viva que está lá dentro. O Mar parece mais meu lar, do que qualquer outro lugar. E eu preciso saber o porquê. — Me ajeitei na cadeira, vi hesitação no olhar de Alma. — Por favor.

— Surgiram boatos. — Fui em que toquei no assunto. Alma teria pulado no meu pescoço se pudesse.

— Elius!

— Dizem por aí que Drogo nunca morreu. Que ele afundou com seu navio, mas conseguiu sobreviver.

— Graças ao amor dele pelo oceano. — Tohr me ajudou a firmar o que dizíamos. — Ele teria virado parte do mar, se juntando a cada parte do oceano. Ele ama o mar, e tudo aqui em Wen-mar é... Mágico. Coisas assim podem acontecer.

— É apenas uma lenda. — Alma nos lembrou.

— Talvez. — Aeryn se animou: — Mas talvez não. Talvez seja real e o pirata agora é parte do mar. E ele está preso lá, onde o sol maltrata os imperdoáveis e abriga o perdão sem dó.

— Aeryn, isso não é real!

— A Ilha é real. — Tohr falou o que eu pensei durante 15 minutos, mas não ousei dizer. Talvez já tivesse dito coisas demais a ela.

— Existe uma ilha? — Aeryn questionou de imediato. Ninguém respondeu. — Que ilha?

— É apenas uma ilha, Princesa. — Alma tentou convencê-la. — Algumas pessoas dizem que é lá que Drogo foi morar após a traição de Kalila. Dizem que lá é onde os homens vão para confrontar seus pecados e pedir perdão. O Sol é rude com aquele lugar, abandonado, eu diria. Onde o sol maltrata os imperdoáveis e abriga o perdão sem dó. Mas como eu disse, não é nada demais. É apenas um ponto de referência para dar voz a uma lenda antiga.

— Uma lenda que começou a ser contada a 19 anos atrás. — Lembrei desse fato: — É próximo demais do período que Aeryn foi levada de Wen-mar. Talvez, Alma... Tenha alguma ligação. Podemos pesquisar. Descobrir alguma coisa.

— Descobrir o quê, Elius? Me poupe. — Alma levantou da cadeira, empurrando-a para trás. — Cansei dessa reuniãozinha.

Ela não olhou para Aeryn, não olhou para mim. Alma apenas saiu, batendo pé e fingindo que aquilo não tinha acontecido. E que nós, apenas nós, não tínhamos segredos tão cruéis guardados conosco.

Aeryn ficou lá, com aquele olhar perdido e desacreditado. Lágrimas caíram muito rápido, e ela tentou fingir que não eram dela, limpando tão rápido quanto. Não funcionou. Tohr foi para perto dela, e eu levantei, indo atrás de Alma.

Não era difícil saber onde encontraria ela. Alma estava lá, de frente para o lago, rabiscando na terra úmida círculos sem significado algum. Optei por não sentar perto dela, ou poderia ser um alvo fácil para a raiva que estava sentindo de mim.

— Você está errado, Elius. Cometeu um erro hoje.

Mesmo sem poder vê-la de frente, eu sabia que a voz grave era uma desfunção do choro que ela estava segurando. E eu quis muito abraça-la, pedir desculpas, dizer que sentia muito. Mas não podia. Porque eu não sentia, porque eu não podia lamentar que estivesse dando significado a uma vida hoje. Aeryn não ia sair correndo da responsabilidade que era carregar a salvação de Wen-mar, ou ela já teria feito. Uma coisa que a Princesa deixou claro foi que de luta ela não foge. E eu tinha que acreditar que ela também não fugiria dessa.

— Não sinto como se tivesse cometido um erro. É você quem está ignorando o que estamos fazendo aqui. — Alma fungou alto demais, logo se arrependeu, se encolhendo na beira. — Vamos matá-la, Alma. Vamos tirar a vida de alguém para garantir que possamos viver. Isso não é vida.

— Mas é a vida que nós temos.

— Não, não é. É o jeito fácil que escolhemos para viver. Não conhecemos outro jeito de salvar Wen-mar, mas e se houver? — Ela negou. — Se houver nós precisamos tentar.

— Não é uma responsabilidade nossa.

— Você acha mesmo? — Porque eu não achava. — Aeryn é uma garota. Ela é uma criança ingênua, se for comprará-la a nós dois. Temos quase a mesma idade, mas vivemos bem mais do que ela. A vida dela naquele outro mundo era completamente diferente. Mesmo assim ela não hesitou ao chegar aqui. Ela nos salvará e eu não tenho dúvidas disso.

— Eu também não tinha, até você abrir a boca para ela, Elius. Qualquer passo mal dado e Wen-mar vai ruir por sua causa.

— Não carregarei essa culpa, pois não verei Wen-mar ruir.

Silêncio.

E eu odiava o silêncio quando vinha de Alma, quando vinha de nós. A Alma por quem me apaixonei jamais roubaria o futuro de alguém, se houvesse a chance de sobrevivência.

Esperei.

Esperei.

Esperei.

— Há riscos demais, Elius. — Alma disse: — A Ilha é algo que não sabemos onde fica. Não há como chegar lá.

— Daremos um jeito. Eu só preciso saber que você entrará nessa comigo.

— Kara nunca nos deixará ir.

— Eu não preciso de Kara. Eu só preciso de você e do seu irmão. Quero ajudar a Princesa a encontrar um novo rumo, mas não posso fazer isso sem vocês dois. Somos família a cima de absolutamente tudo.

— Elius, eu...

— Se me der um motivo para não ir, eu desisto. Nós desistimos. Mas precisa ser melhor do que 'ela vai destruir Wen-mar.

Não havia um. E eu sabia que não havia. Alma se levantou do chão, ficou de frente para mim e percebi que ela estava sofrendo tanto quanto eu. Ela também não queria que fosse assim.

Nenhum de nós queria.

Mas era uma vida para salvar milhares. Não tinha como abrir mão disso. Eu daria a minha, e Alma daria a dela com certeza. Mas não era uma coisa que estavam pedindo para nós.

— Eu preciso de tempo. — Alma respirou fundo.

Apenas neguei. Pensei que ela entraria com o coração nessa, junto comigo. Mas acho que me enganei.

— Não vou te dar tempo para arrumar uma desculpa. — Tentei passar por ela.

— Espere. — Alma segurou meu braço. — Preciso de tempo para pesquisar. Se vamos sair nessa jornada, eu quero saber para onde vamos e o que vamos enfrentar. O oceano não é gentil.

— Nós também não seremos, Alma. Eu prometo.

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