Onze - Talvez uma chance

Quanto mais perto do fim eu chego,
mais tenho certeza de que a esperança
é o meu melhor investimento.

Nietzsche

A minha vida era o preço que Wen-mar estava disposta a pagar pela própria sobrevivência. Se algum dia me perguntei até onde eles iriam, definitivamente até a última gota do meu sangue era a resposta.

Passei a mão no rosto, não notei o quanto tinha chorado, até voltar com as palmas molhadas demais. Elius continuava ali, parado e sem demonstrar nenhum sentimento de arrependimento ou dó alguma. E eu não precisava da pena dele, mas... queria que alguém me abraçasse de verdade agora.

E ninguém faria isso.

Com certeza, não aquele homem me olhando com descrença. E com mais certeza ainda eu não imploraria por um aconchego. Virei de costas e voltei para a praia. Eu queria voltar para o oceano, me afogar nas ondas brutais.

A morte é uma certeza. Eu só não imaginava que após chegar aqui, me derem tudo de mão beijada e me tornarem uma Princesa preciosa, que depois tirariam tudo isso de mim dessa forma. Eu não teria essa coragem. Essa é uma missão em que eu com certeza falharia.

Estava descalça e senti prazer na areia que escorregou pelos dedos dos meus pés. Me abaixei até fincar com as unhas das mãos a areia, e acho que senti o sangue correndo nas veias. Sentei na areia, abracei os joelhos e lágrimas caíram, salgadas como as do oceano.

- Você tinha que saber. - Elius não saiu dali. Não olhei para ele. - Sou humano demais para pagar minha sobrevivência com a vida de alguém.

- Por isso você não gostava de mim, desde o início.

- Continuo não gostando, Princesa. A realeza não é uma coisa que eu queira abraçar. Nenhum de nós quer.

- Mesmo assim você está aqui me contando isso. Eu poderia me matar agora mesmo e destruir qualquer chance de sobrevivência do seu reino. Vocês precisam de mim viva, não é?

- Seu coração precisa estar batendo no seu peito sim, é uma verdade.

- Então por quê fez isso? Por que está me contando? É egoísmo da sua parte. Pode estar tirando a chance de sobreviver dos outros. Só porque você não tem coragem de fazer, não significa que não deva deixá-los ter.

- Você não vai se matar, Aeryn. É uma certeza que nós dois temos. - Elius se abaixou e sentou ao meu lado. Distante o suficiente para que eu pudesse respirar tranquilamente.

- Eu preferia não saber.

- Morrer sem saber pelo quê é burrice, Princesa.

- Pode... me chamar de Aeryn. É um nome que eu tenho, ao invés de Princesa ou Vossa alteza real. - Elius apenas negou. - Não há mesmo outro jeito?

- De salvar Wen-mar? Penso que não. O valor a ser pago é bem alto. Traição se paga com morte.

- Não é bem assim que as coisas são no meu mundo, mas tem um pingo de verdade nessa afirmação.

O oceano a minha frente estava tão gentil. Calmo. Eu poderia entrar lá agora e sair ilesa. Pelo menos era como eu me sentia em relação a isso. Ilesa. Algumas coisas eu sabia. E a calmaria do mar no meu coração era uma dessas coisas. A maré subiu um pouco e as pequenas ondinhas alcançaram meus pés. Fechei os olhos. Respirei fundo, meus olhos começaram a formigar. Segurei por um ou dois minutos, até não aguentar mais e esconder meu rosto nas pernas dobradas.

Eu vou morrer por vocês, Wen-mar.

- Você virá?

Ouvi sua voz. Uma voz terna, segurando o choro, presa nas ondas. Minhas mãos suavam agora. E eu toquei ela nos lábios, já sabendo que era do mar. Salgada, grosseira. Aquele ser nas profundas ondas continuava lá, e eu não entendia o quê significava aquilo. Eu salvaria Wen-mar, não é?

Restaurar a paz.

Eu não sentia isso. Nada disso e queria saber o porquê ouvia sobre conhecimento e coisas que alguém escreveu no passado, mesmo todas as informações pela metade me deixando curiosa. O bem mais precioso que Wen-mar me deu foi um passado. Algo que eu nunca soube sobre a minha vida.

Uma história em que acreditar.

Mas toda essa história, todo esse passado é um amontoado de metades. E já sabemos onde essas meias informações me levarão. Mas tem mais. Tem que haver mais. Ninguém me contou a história toda. E eu preciso da história toda. E algo me diz que vou conseguir se encontrá-lo.

- Você virá?

Ouvi a voz novamente. Tive a impressão de que a cada vez que as ondas paravam de agredir as rochas, o nível do mar diminuía. E isso me secava um pouco mais que o sol fervente de qualquer mundo.

- Vou encontrar você. Eu prometo. Onde o sol maltrata os imperdoáveis e abriga o perdão sem dó. Irei encontrar você.

Eu prometo.

- Não sabia que você gostava de colecionar lendas. - Dessa vez era Elius. Virei o rosto para ele. O garoto me olhava, senti um calafrio me percorrer.

- Você já ouviu isso antes?

- Isso o quê? - Ia responder, mas ele veio antes: - Onde o Sol maltrata os imperdoáveis e blá blá blá. Insuportável. É coisa de gente sem ocupação. É uma lenda.

- Sobre o quê? - Elius levantou os ombros. - Cara, faça-me o favor. Você pode pelo menos fingir que se importa um pouquinho? Te custa abrir a boca e me falar um pouco mais sobre o que estou perguntando?

- Alguém ficou estressadinha. - O arqueiro sem capuz e arco se levantou, e tentou caminhar. Fui atrás. - É melhor você voltar para o castelo.

- Não, espera! Elius, me fale mais. Essa coisa dos imperdoáveis. Essa lenda. Eu preciso saber.

- Não é nada demais.

- Para você. Pode não ser para você, mas é algo para mim. Estou pedindo, por favor.

Elius me olhou com raiva, talvez angustiado por alguma coisa que não compreendi. Ele negou, então se deu por vencido, falando em seguida:

- Eu não tenho certeza. É uma lenda antiga. Não tenho informações o suficiente para te falar sobre ela. A primeira vez que ouvi sobre a lenda do mar Drogo, eu acho que tinha 12 anos. Minha mãe gostava de falar sobre ela para Alma, a filha do Líder da Aldeia. E eu gostava de... bom, gostava da alma. Então eu sempre estava perto dela. Sempre. Mas nunca prestei atenção de verdade na história. Tem alguma coisa haver com a traição de um uma mulher com um homem que aprendeu a amá-la. Eu não faço idéia, princesa.

- Pode me levar para ouvir a história diretamente de Kara?

- Kara fará perguntas que eu quero respostas agora. Por que quer saber sobre uma lenda boba?

- Você não entende, não é? Toda lenda vem de um pingo de verdade. E tem alguém lá - Apontei para o mar. Elius negou: - Tem alguém lá que está me chamando. E talvez eu precise ouvir esse chamado. Se houver a mínima possibilidade de eu não precisar morrer, eu quero abraçar ela.

Elius não respondeu dessa vez, e caminhou. E eu fui logo atrás, pensando em como eu entraria nessa para depois conseguir sair. Me virei olhei para o oceano, fiz uma promessa em silêncio e voltei a olhar para a frente. Meus olhos nem acompanharam o quê aconteceu. Num momento eu caminhava e no outro estava prensada contra o corpo de Elius. Ele estava bem a minha frente, mas não prestava atenção em mim.

- O quê aconteceu? - Perguntei confusa.

- Isso aconteceu. - Ele se afastou, abaixou no chão e trouxe consigo uma concha. - Está concha carrega o veneno de uma sibora marinha. Se ferisse você, a única coisa que seria capaz de cura-la está a 10.000 mil metros abaixo d'água, então, olhe por onde anda.

- Sim, eu...

Ele voltou a caminhar e eu precisei aprender a respirar de novo antes de seguir. Elius não virou para trás ao dizer:

- Não podemos ver Kara. Mas conheço alguém que pode nos ajudar.


- Ainda não acredito que você me tirou da cama a essa hora, Elius. - Tohr surgiu na porta, olhando com raiva para o amigo. Mas então seus olhos recaíram em mim. - Alteza!

- Silêncio, idiota. - Elius o xingou. - Ninguém pode saber que ela está aqui.

- Acho que é um pouco tarde demais.

Uma mulher passou pela porta, parou bem em nossa frente. Ela era bonita. Bonita o suficiente para ganhar corações. Esperei que junto com seus passos uma bateria de escola de samba viesse também, porque ela merecia uma alegoria inteira. Com todos aqueles cachos ruivos e olhos perfeitos. Pernas perfeitas. Uau, ela era perfeita.

Engoli em seco, pensando na minha camisola de cor vômito encharcada e meu cabelo bagunçado de quem levantou para bisbilhotar na madrugada. Se fossemos uma escola de samba, eu estaria empurrando um carro alegórico agora.

- Eu preciso falar com você, Alma. - Então essa era a alma. Agora entendia porque Elius disse que a seguia por todo canto. - Essa é...

- A Herdeira.

- Sou Aeryn. - Estendi a mão, ela olhou para a minha mão no ar e ignorou.

- O que ela está fazendo aqui?

- Veio nos salvar, irmã. - Tohr se arriscou.

- Cala a boca, Tohr. - Alma gruniu. - Meu pai vai pirar de vê-la aqui agora. Ele quer que ela fique segura até...

- Até o momento em que irão me sacrificar para salvar o Reino de Wen-mar. - Os olhos de Alma pularam do rosto. - É, eu sei sobre isso. E é por isso que preciso de ajuda. Dou a minha vida pela de vocês. Posso fazer isso. Mas primeiro, preciso ter certeza que não haja outra maneira de salvar este mundo. Quero tentar lutar por mim.

- Isso significa exatamente o quê? - Alma questionou, após colocar a cabeça no lugar. - Não terei pena de você.

- Não quero pena, quero ajuda. - Respirei fundo. - Onde o sol maltrata os imperdoáveis e abriga o perdão sem dó.

- Mas o quê... - Alma tentou questionar, mas ela mesmo se calou. Por um segundo pensei tê-la visto vacilar, mas foi tão rápido que não posso confirmar. - A Lenda do mar Drogo.

- Preciso que me conte tudo e absolutamente tudo a respeito dela. Isso pode salvar a minha vida.

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