Doze - A Lenda do mar Drogo

O mestre disse: Não é grave se os homens não te conhecem, grave é se tu não os conheces.

Confúcio

Anos antes.

Os ventos sempre soavam forte no oceano, essa era uma das coisas que mais deixava o aventureiro Drogo com delírio pela sua vida. Quando todos fugiam do mar, ele enfrentava as mais temidas tempestades em nome do seu coração, que só tinha um amor: O oceano.

O convés do seu navio é o único lugar onde podia caminhar e sentir liberdade correndo nas veias. Fazer tudo que desejasse, sem sentir nada de repulsa pelas coisas que fazia para sobreviver. Pelas coisas que fazia para não dar brecha aos olhos que queriam vê-lo como um monstro, que não conseguia enxergar nada além do navio a que chamava de mar.

As pessoas não entendiam, que para Drogo, o mar seria a coisa mais próxima que teria de um lar, levando em conta a forma desumana como fora largado pela família ainda muito cedo. E hoje não havia culpa alguma, não havia ódio algum. Drogo renasceu no mar e era exatamente sobe as ondas e abaixo do céu, onde ele escrevia liberdade em cada raiar do sol.

Mas as pessoas continuavam falando muito. E falando sobre ele, levando seu nome a todos os reinos que podia conhecer. Diziam que onde há Drogo, há destruição e caos. Ele entra, tira o pouco que as pessoas tem e zarpa para longe sem nenhum remorso e sem enxergar nada que não fosse do seu interesse.

Estavam certos sobre isso. Mas estavam enganados sobre algo: Drogo enxergou bem mais quando ancorou ao Reino de Wen-mar. Ele viu Bela, a Princesa que o fez suspirar de desejo e formigação. Bela Lipphaus, a Herdeira do Trono de Sangue do Reino de Wen-mar. E Drogo a quis para si. Um pirata ambicioso que viaja entre os reinos buscando se entupir de riquezas não podia ignorar a jóia mais bela na qual pôs seus olhos.

Essa era a maior ganância de Drogo.

Ele queria ter muito mais e sempre. Não importa o quanto conquistasse, ele sempre precisava de mais.

E esse também é um conhecimento que nunca entendeu: como as pessoas podiam se sentir tão bem, fincadas em um único lugar. Drogo viajava o mundo buscando tudo que nunca encontrou dentro de si mesmo, e achava injusto que mais ninguém se sentisse tão perdido quanto ele.

Ele amava o mundo.

E esse fato tornava ele o único que merecia toda a riqueza do mundo. A final, ele foi o homem que desbravou os mares em todas as suas fases. E nada podia deter seu egoísmo e ego elevado. Drogo era uma supremacia.

Até vir parar em Wen-mar.

Grace não era a mulher mais corajosa do mundo, mas com certeza era a mais astuta. E ficou vagando nos pensamentos do Pirata Drogo o motivo pelo qual, a Rainha o desprezou tanto a devolver sem nem hesitar o pedido de Drogo para possuir sua única filha.

— Minha filha é uma Herdeira e isso não é uma piada, senhor pirata. — Escárnio, ignorância, descrença. Drogo amava a leitura que fez da velha.

Grace era como todas as mulheres ambiciosas com quem ele tivera o prazer de trombar. Elas eram duras na queda e tinham uma luta interna muito grande. Mas cada uma delas tinha um preço.

— Sua filha é o que desejo.

— Faço mais por você do que qualquer um faria. — Grace sinalizou com as mãos e a grande porta de abriu. Dois soldados vieram carregando uma garota que não fazia esforço algum Lara fugir deles. Drogo olhou para a garota com certa curiosidade. — Leve-a no lugar da minha filha.

— Eu quero uma Princesa.

— E eu estou lhe dando uma mulher melhor do que poderia encontrar em qualquer lugar de Wen-mar.

A menina não tremeu, não hesitou, não olhou para ele. Sequer piscou. Ela era tão pequena, e o fato de estar tão imóvel só a fazia diminuir mais. Drogo quis perguntar se era por causa dele, mas o silêncio da mulher podia significar muitas coisas.

— Quem é você, garota?

— Ela é uma das damas de companhia da minha filha, A Princesa. — Foi Grace quem respondeu. — Você não terá minha filha hoje, homem. Mas leve esta como um presente de consolação.

Ele riu.

— Quer dar um presente de consolação a Drogo, rei dos mares?

— Quero que a leve embora daqui e siga o seu caminho para bem longe. Não tem nada em Wen-mar para você e seus homens. — Outro aceno de mão e mais soldados entraram. Estes vinham com cestas que ao repousar no chão, Drogo viu do que se tratava. — Leve ouro e suprimentos. Façamos esse acordo, Drogo Rei Dos Mares. Não irá se arrepender.

É uma promessa, A Rainha disse. E Drogo sorriu vitorioso. É provável que todos sabem como ganhar um Pirata. Ele saiu de lá com todo aquele ouro e com a garota também. E foi seu primeiro erro, sem ainda ter noção disso.

Drogo não era digno coisa alguma.

Ele nem conseguiu olhar nos olhos da Princesa Bela. E isso o deixou com raiva, com vontade de explodir uma ou duas cabeças. E feriu o seu maior tesouro: o Ego de um homem que crê ser o melhor dos homens. Drogo voltou do castelo aquela noite sem a princesa. Mas ele trouxe consigo algo bem mais precioso.

— Senhor, a menina pediu para vê-lo outra vez. — Drogo se olhou no espelho, com uma recém rachadura que dividiu sua face em várias partes.

Ele não podia vê-la. Estava se perdendo em meio a ela. O marujo saiu segundos depois, Drogo ainda ficou trancado no banheiro por 15, talvez 20 minutos. Até tomar coragem e descer para encontrar com ela. Assim que abriu a porta, a garota se levantou do chão e olhou para ele, com olhos desesperados e suplicantes.

— O que você quer? — Drogo não saiu da porta, temendo ter que chegar perto dela. Ele tinha descoberto da pior forma que sua nova hóspede era tóxica para ele como um veneno.

— A Princesa tinha medo de tempestades como essa. — A donzela apontou para a janela pequena, que mostrava o mar agitado e a chuva caindo. Drogo nem se movia. — Ela olhava para a água da janela do seu quarto e chorava todas as tempestades. Ela tinha muito medo que algum dia o mar não fosse tão gentil.

— Gentileza não é um dom do oceano.

— Não é, mas algum dia será. Quando Bela subir ao trono e controlar a natureza e seus recursos, isso dará paz ao mar. E ele será calmo como o coração da Futura rainha.

— O oceano não obedece as ordens de ninguém.

Nem mesmo as minhas, pensou ele. Ela tinha um nome bonito que Drogo não se preocupava em usar. Na verdade, ele gostaria de não poder vê-la mais com os próprios olhos. Kalila. Kalila. Kalila. Kalila. Tudo nela irradiava sentimentos e isso não era uma coisa boa para alguém que só tem uma vida e que vive bem com ela. 

A barco balançou demais, Drogo mal teve que afastar os pés para ficar em pé. Estava tão acostumado a balançar com seu navio que nem se importou. Mas Kalila se importou. Seus olhos ficaram grandes demais, o pirata a viu mudar de cor algumas vezes em poucos segundos. Ele olhou para o chão e chutou um balde que se arrastou até a mulher, que colocou para fora todo o jantar mal servido que tinha comido a poucas horas.

O oceano era uma droga.

— Durma. — Drogo se virou, mas ela o parou.

— Por favor, espere! — Seu grito irritou profundamente o pirata, que se virou para ela. Os olhos dela continuavam tremendo e agora suas mãos pareciam bem mais apertadas na alça do balde. — Por favor, espere.

Esperando.

Olhos cheios d'água, em um pedaço de madeira flutuante que estava sobe a maior poça d'água do universo. Drogo finalmente quis rir, pela primeira vez desde que tinha deixado o castelo com seu ego ferido. Com uma atitude que não reconheceu, ele rasgou a manga da sua blusa surrada e velha, e foi em direção a ela.

O coração dela gritou dentro do peito. Ele ia machucá-la. Já não bastava tê-la tirado de casa, jogado-a em um porão de navio velho e sujo, alimentado seu paladar wenmarniano e bem cuidado com aquelas porcarias que ele trazia em seu navio. Agora ele também ia machucá-la.

— Senhor Drogo, eu...

Mas não. Ele não machucou ela. Apenas abaixou o suficiente e deslizou o tecido no canto da boca dela, limpando resquícios da gosma que ela tinha acabado de jogar no balde. Kalila, que pela primeira vez não se sentiu evaporando de medo, teve que piscar algumas vezes para decidir se aquilo era real ou não.

Gentileza, uh?

Drogo engoliu sua saliva a seco, arranhando a garganta. Aquele homem de quase dois metros, músculos, cicatrizes por todo o lado e um ego tão grande quanto sua ignorância, havia dado uma brecha para a garota assustada passar. E Kalila ainda não sabia se isso era uma vantagem.

Quando Drogo finalmente se afastou, Kalila conseguiu respirar e recompor seu estado psicológico recentemente ativado pelo medo que se esvaiu.

— Meus homens não dormem quando a tempestade vem. — Drogo comunicou. — Você os ouvirá caminhando de um lado para o outro durante a noite inteira, até os riscos irem embora. Se conseguir deitar, durma. Se não não, aprenda a dormir de pé.

Aprenda.

— Amanhã será um dia bom.

Mas é claro que isso não aconteceu. Duas ou três semanas voaram dentro daquele navio. O navio carregando seus maiores tesouros transitava de um canto a outro, com Drogo, seus marujos e Kalila dentro.

Kalila tinha descoberto seu medo do mar da pior forma. Ela não se acostumou com o balançar de sua nova casa, com os sons que o mar fazia durante a madrugada. Ela não entendia nada sobre o oceano, nem sobre os seres que moravam nele. Já tinha visto alguns animais marítimos que roubaram seu sono durante algumas noites.

E após Drogo deixá-la sair da parte debaixo do barco, ela finalmente olhou para a experiência com outros olhos. Podia ter sido tirada de casa com ignorância e contra sua vontade, mas em compensação ninguém havia feito nada mais que isso contra sua vontade. Onde há maldade, há sofrimento.

E ela estava com medo. Mas não estava sofrendo. O que por aí só, já era um privilégio. A porta ao abrir rangia como um dos cachorros da Rainha Grace, e Kalila estava acostumada a passear com eles, e esse foi um dos afins que Kalila logo notou quando a ouviu pela primeira vez.

Drogo desceu com uma pilha de caixotes empilhados. Kalila tirou a atenção da janela minúscula para olhar para o capitão. Ele estava suando, resquícios do trabalho pesado que estavam fazendo lá em cima. Ele deixou as caixas em um canto, com outras muitas mal organizadas, e espirrou antes de terminar.

Kalila observou.

Ele se virou para voltar lá para cima e espirrou mais uma vez. Kalila tinha ouvidos bons e o escutou espirrar durante a madrugada, e ontem antes da noite cair  também ouviu ele espirrando. Enfrentaram uma tempestade duas noites atrás, e ninguém conseguiu dormir. A mulher notou que as tempestades eram constantes no oceano, coisa que raramente acontecia em terra.

Outro espirro.

— Você precisa de uma Varshal. — Ela disse, e Drogo parou, mas sem virar para vê-la. — É uma flor. Ela brota em corais em todo canto. 

— Não preciso de remédio. Isso é coisa de homem fresco.

— Não é coisa de homem fresco. É coisa de gente doente.

— Nariz escorrendo não é doença. — Ele espirrou de novo. Kalila conseguiu um sorriso duvidoso. Drogo ignorou. — Depois que eu dormir, vou melhorar.

— Você pode melhorar agora. — Algo caiu no andar de cima. — Posso pegar a flor pra você. Sou uma boa mergulhadora.

— Você não sairá desse navio, garota.

— Kalila. Meu nome é Kalila e você pode usá-lo de vez em quando.

Ele ignorou. Drogo não queria saber mais nada sobre ela. Voltou para o convés de cima e teve dificuldades para dormir a noite. Não era de se surpreender, ele aguardava que não fosse um problema, mas após a ancoragem em uma das ilhas do Curval de Meiodos, ele se obrigou a sentar e fechar os olhos. Demorou para de fato adormecer. Mas o cansaço das viagens era uma coisa a seu favor. Viajar tem seus privilégios, mas também seus contras. É difícil descansar sem preocupações quando se está em uma bacia gigante de água, onde não há escapatória. O mar era sua casa. Mas ele temia com quem a dividia.

Quando acordou, estava deitado, e estranhou absolutamente tudo. O navio estava em silêncio, o céu estava claro, o que significava que ele tinha dormido mais do que era esperado. Havia um cobertor sobre seu corpo, ao se sentar ficou de frente com um outro corpo afastado de onde estava. Do outro lado do barco, ele viu Kalila enrolada a um cobertor pequeno, que deixava seus pés para fora. Ela dormia sentada, com a cabeça pendendo para o lado.

Drogo se esticou e sentiu que seus músculos estavam ótimos e nada doloridos. O nariz não coçava mais e sua cabeça havia milagrosamente parado de doer. Foi quando ele viu o cantil que estava descansado ao lado dele. Isso não estava aqui antes. O pegou e cheirou o que tinha dentro, e o cheiro forte da Varshal de Wen-mar pairava no ar.

— Maldita garota.

Kalila conseguiu. E foi enquanto olhava para ela que a viu se mexer com desconforto, e logo massagear o próprio pescoço. Estava com dor, e ele notou isso em seu olhar quando levantou os olhos e encontrou os dele. Kalila logo se arrumou sentada, deixando o corpo ereto, mesmo que isso causasse mais desconforto do que a posição anterior.

— Você está se sentindo melhor? — Ela perguntou.

— O que pensa que está fazendo? — Quando não ouviu uma resposta, Drogo se irritou: — Falei que não a deixaria sair desse maldito navio!

— Eu não sai. Fiz um desenho da planta e um dos seus marinheiros a pegou para mim. Eu fiz o chá, você bebeu e...

— Você poderia ter me matado!

— Com uma planta medicinal? Não era minha intenção. Você estaria morto se eu assim quisesse. Pareço alguém que quer matar você?

Deveria. Ele a sequestrou, a arrastou para um navio sem graça e com muitos homens, a maioria dos quais ela não gostava nem um pouco. Apesar da generosidade de alguns deles, havia um grupo que a dissecava de todas as formas quando a via por perto. Quando Drogo não estava por perto para repreendê-los, ao menos. Kalila não é um brinquedo.

"Ela é um troféu. Ninguém toca no troféu", Drogo dizia e eles sempre.

— Capitão. — Um marujo se aproximou, Kalila encolheu os pés para que se escondessem embaixo do cobertor.

— O que é? — Drogo o amaldiçoou.

— Os homens que mandamos ontem estão voltando com mais mercadoria do que pensávamos.

Drogo olhou para Kalila.

Não houve palavra alguma entre eles.

— Melhor nos apressarmos e irmos encontrar com eles. — O capitão do navio respondeu, se levantando. — Reúna outros dois grupos.

— Sim, senhor.

Kalila também se levantou, sem convite, apenas por achar que era o momento. Ela não devia ter adormecido ali. Seu corpo realmente chorava. Sentia tanta falta da cama confortável que Bela fazia questão de deixá-la dormir. Ah, Bela.

Sentia tanta falta de Bela também. Mesmo que ela fosse tão indiferente a si. Kalila gostava de sua companhia, pois Bela era a única família que ela podia chamar de sua. Mesmo que Bela não a visse assim. E não via mesmo. O relacionamento das duas foi fadado a dores desde muito tempo. Mas elas tinham que ser exatamente o que eram: uma servindo a outra.

— Eu vou ficar sozinha aqui? — Kalila questionou ao ver que Drogo se preparava para sair com seus homens.

— Se for esperta, ficará.

E ela ficou.

Não porque era esperta. Sabia que sua inteligência a levaria para qualquer lugar bem longe dali. Mas simplesmente não pôde ir. Foi impossível ir. Kalila queria sair dali sim, mas sabia que havia lugares piores. Com gente bem pior. E que não teria tanta misericórdia quanto aquele brutamontes estava tendo com ela. Drogo sequer agradeceu por ela ter cuidado dele. Ele era ingrato. Kalila tinha medo de que toda essa ingratidão se tornasse algo pior e que ele a machucasse.

Não seria de surpreender. Era um navio cheio de homens que não viam mulheres a dias, talvez meses. Eles só tinham um ao outro e selvagens do jeito que eram, Kalila temia que já estivessem prontos para abrir mão de sua humanidade. E ficar sozinha, pela primeira vez em meses, foi algo que ela realmente precisava. Para se banhar direito, sem medo de ser espiada, para comer sem vergonha de ter alguém rindo de suas boas maneiras. Parece que selvagens que vivem em uma casinha flutuante se sentem a vontade em zombar de uma pessoa que nunca comeu com as mãos.

Principalmente com as mãos sujas.

Argh. Eles eram sujos em algumas ocasiões. Kalila se perguntava como conseguiam.

Kalila se assustou com um barulho de queda no deque de cima, e isso fez com que ela se levantasse da cama improvisada no chão. Estava limpa e tranquila, e Drogo não voltaria tão rápido. Um alarme soou alto na própria cabeça, deixando-a preocupada. Ouviu passos, mais alguma coisa caiu.

Alguém estava cambaleando lá em cima, e os passos nada sutis começaram a soar em direção a porta da sótão, onde Kalila estava agora. A porta gruniu, um homem entrou.

Kalila ficou lá parada.

Drogo não sabia ao certo o quanto demorou na Ilha. Mas ele sabia que tinha se apressado e apressado seus homens o tempo todo. Geralmente ele ficava em terra mais algum tempo, procurava companhia para virar a noite, enchia a cara em um pub com seus companheiros.

Mas não hoje.

Kalila estava no barco, e ele temia por sua segurança. Ela era uma mulher de garra que não demonstrava fraqueza quando estava diante dele. Mesmo assim, não podia arriscar deixar aquela garota fugir. Sua presença já era uma coisa inexplicável na embarcação. E nem era pelo fato dela ser uma mulher em meio a dúzias de homens barbados. Kalila mexia com ele.

E não devia também.

Entrou no navio antes dos seus homens. Por segurança. Havia apenas silêncio e isso o deixava ansioso.

— Garota?

Ele sabia o nome dela, mas dava trabalho de usar. E ele não se daria ao luxo. Ouviu um barulho no deque debaixo. E sabia que só podia ser Kalila. Mesmo que ela não tivesse dito uma palavra. Ele seguiu seu caminho em direção a ele, mas assim que abriu a porta, a garota colidiu com seu corpo. 

Ela era pequena perto de Drogo, e ele a olhou de cima. Kalila olhou para ele, o suor, a roupa bagunçada demais, os cabelos colados na testa, as lágrimas caindo. E para sua surpresa e satisfação, Ector saiu da cabine com um sorriso branco que se matou logo que viu o capitão.

— O que você... — Kalila ainda estava nos braços de Drogo. Maldito. Ele olhou para ela de novo. — Não. — E ela não parou de chorar.— Eu vou te matar.

Matar.

Drogo não teve delicadeza ao se afastar dela. Ele mergulhou em cima de Ector, e seus punhos foram sem dó para cima dele. Kalila não conseguiu desviar os olhos. Drogo bateu, bateu, bateu, bateu. Ele nem respondia mais, nem se movia. Drogo continuava batendo. Barulho de ossos partindo eram ouvidos, mas ele só batia e batia. Batia mais. Nunca sentiu tanta raiva na vida. Não quis sentir tanta raiva na vida.

Não importava o quanto batia, não pareceria se o suficiente. Seus dedos doíam, ele batia mais. Mal poderia diferenciar o corpo sem vida de um saco de areia. Ector estava morto. Drogo segurou seu pescoço, até garantir que ar nenhum fosse capaz de passar. Ele já estava morto de qualquer forma. E Deus algum cogitaria devolver a vida do verme que estava em sua frente. Drogo o mataria novamente, provavelmente de uma forma mais agonizante.

E foi quando caiu para trás que soube não ter escolhas. O silêncio pairava entre seus homens quando voltou para cima. Kalila estava parada no mesmo lugar onde a deixou. Ele não ousou olhar para ela.

Ninguém ousou.

— O que fazemos com ele, capitão? — Um dos marujos apontou para o corpo caído no seu chão de madeira lisa.

— Joguem no mar com pedras para que não flutue. Não quero nenhum sinal de sua existência no meu navio.

Kalila não chorou depois de vê-lo morrer nas mãos de Drago. Ela não derramou uma lágrima a mais. Nenhumazina. Ela apenas ficou lá sentada no convés, com o resto dos marujos passando de um lado para o outro até tomar coragem para se levantar e se enfiar na cabine do capitão. Drogo era o único que iria ali, mas ele também não veio.

Não imediatamente.

Ele apareceu depois de longas horas. Kalila estava sentada no chão quando ele apareceu, olhando para ela com nenhuma pena e nenhum sinal de qualquer coisa. Nada. Kalila não viu nada. E lá no fundo ela se perguntou como ele conseguia. Foi inevitável não olhar para as mãos dele, que tinham esganado e esmurrado o agressor até a morte. Ele tinha ferimentos leves, cortes leves e alguns calos. Mas as mãos de Drogo já eram tão maltratadas que era quase  inotável. Era difícil distinguir as feridas de uma semana de trabalho duro e pesado, com as de uma surra bem dada que levou alguém a morte.

Drogo era esse tipo de homem, a final.

Para ele, matar aquele homem hoje deve ter sido apenas mais um dia comum em sua vida. E isso fez calafrios percorrerem Kalila, junto com o sentimento de gratidão.

— Eu estou bem. — Não ouve perguntas, não ouve nada. Ele só ficou lá. E Kalila teve que quebrar o silêncio deles.

— Não está.

— Ele não...

— Não achei que nenhum deles teria coragem de tocar em você. Eu pensei que eram espertos o suficiente para escolher viver.

— Ele não fez muito. Ele não fez quase nada. Eu lutei. Eu não me renderia a ele e nem a ninguém.

— As mãos dele ainda estão no seu pescoço. — Kalila logo cobriu o pescoço com as mãos. Sentia a elevação de pequenas runas de alteração na pele. E ardia. — Ele fez muito. Não deveria.

— Eu quero ir embora.

Silêncio.

— Sei que queria a sua princesa, mas não posso ser isso. Não quero ficar aqui, Drogo. Esse navio é sujo e essas pessoas tão sujas quanto. Não me sinto bem aqui, e isso já é um sentimento que vem bem antes de Ector.

— Nem mesmo sussurre o nome dele! — A porta bateu com tanta raiva que poderia saltar da dobradiça. — Ele morreu.

— E você o matou.

— E não é o suficiente para mim. Ele tocou em você e ninguém toca no meu troféu.

— Pare com isso. Você é como ela. Exatamente como ela. — Drogo negou, nem sabia de quem Kalila falava. — Bela é como você. Ela acha que ser ignorante e fingir descaso a protegem de sentir amor pelas pessoas. Mas não. Não protege. Ela é tão transparente para mim, quanto você. Sinta ódio dele por ter tentando abusar de alguém que você gosta.

— Gostar de você? Vou rir para diminuir sua dor.

— Ria o quanto quiser. Mas Ector morreu e você não pode matá-lo de novo. Você não pode fazer isso, mas pode me proteger.

Proteger.

Drogo negou.

Ele não protegia absolutamente ninguém.

— Me leve de volta. Algo assim acontecerá novamente, talvez alguém concretize o serviço. Por favor, Drogo. Por favor.

Não a levarei. Não posso. Não quero.

Ele negou.

— Você não irá embora.

— Irei. Irei sim. E você me levará porque está do meu lado nessa. E não quer que eu morra por conta do seu egoísmo. Capitão Drogo, eu imploro que me leve de volta. E eu nunca implorei por nada na minha vida.

E ela realmente nunca tinha implorado. Drogo viu desespero naqueles olhos e por isso não soube dizer o que sentiu, nem o que passou pela sua cabeça. Mas naquele momento ele a quis salvar.

— Partiremos na metade do próximo dia.

E realmente partiram. Drogo levou seu navio e seus homens de volta para o Reino de Wen-mar. Demorou algumas semanas, mas Kalila sabia que estaria a salvo e que voltaria para casa, isso alegrava o coração dela. Todos os dias Kalila se sentava lá, naquele mesmo deque onde Drogo tinha espancado Ector até morte e chorava. Drogo sempre passava por lá, olhava para ela e depois subia.

Ninguém mais ousava entrar.

E foi assim até o momento em que chegaram ao oceano que rondava Wen-mar, o Reino do qual Kalila sentia mais falta do que qualquer coisa e qualquer pessoa. Kalila invejava a natureza do seu próprio reino. Ela invejava o poder do seu próprio lar. E sentiu o aroma de Wen-mar se aproximando, ouviu o som dos pássaros nativos de Wen-mar e ficou feliz ao ver a lua de Wen-mar brilhando como só brilhava em sua casa.

Ao olhar para a janela Kalila soube que seria sua última noite naquele navio e estaria de volta em casa.

— Você não precisa fazer isso. — Drogo comunicou, vendo Kalila andar de um lado para o outro na cozinha do navio.

— Eu quero. — Ela sorriu. Era um sorriso tão bonito que ele se pegou pedindo que ela sorrisse mais. — Tive momentos de terror aqui, mas também tive alguns interessantes que vou querer guardar.

— Interessantes não é bom. — Ele segurou a mão dela, e ambos notaram que aquele foi o primeiro contato real que tiveram. — Você não cozinha para eles.

— Hoje eu cozinho. — Kalila mexeu no caldeirão, sentindo o aroma delicioso da sua sopa. — Eu queria poder fazer mais pela minha última noite, mas só posso fazer sopa.

— Você não preci...

— Sopa é bom. — Ela o cortou. — É o que você deve dizer, capitão.

Drogo negou, embora não quisesse discutir sobre o jantar justo hoje, na última noite em que passariam juntos. Então aquele homem gigante de quase dois metros assentiu e se limitou a repetir:

— Sopa é bom.

Kalila sorriu.

Foi uma noite tensa. Em todos os meses que passou no oceano, navegando de um mar ao outro, Kalila nunca se sentiu tão querida por aqueles homens. Alguns falaram sobre a experiência de navegar eternamente até a morte, outros contaram histórias sobre a vida que levavam em terra firme. Kalila ouviu com atenção cada uma delas. Em algum momento alguém perguntou sobre a sua vida. E Kalila riu, mexeu no cabelo, disse que a vida na sombra de uma Princesa era interessante.

Interessante.

Em nenhum momento ela ousou dizer que era boa. Pois não era. Havia momentos e momentos. Momentos ruins, momentos constrangedores, momentos de tensão, momentos em que cogitou a idéia de explodir a própria cabeça e havia momentos suportáveis e... Interessantes. Mas nenhum momento bom o suficiente para que ela quisesse guardar em seu coração, como cada um deles ali tinha.

Ninguém falou sobre o assunto Ector. E ninguém expressou seu descontentamento em voltar para Wen-mar, apesar de Kalila saber que alguns deles não estavam feliz. E era aceitável. Navegar o mesmo Reino duas vezes é bom. Mas navegar reinos novos é melhor ainda. Mas ninguém ousou dizer nada. E Kalila sorriu a noite inteira.

As estrelas estavam flamejantes no céu quando ela entrou no deque do porão para dormir. Sabia que estaria ansiosa demais em voltar para casa e não conseguiria pregar os olhos um minuto. Mesmo assim ela se deitou e aguardou. Mas antes que pudesse relaxar, ele entrou no seu deque e ocupou um espaço que foi apenas dela por um tempo.

— Perdeu o sono? — Kalila puxou as pernas para cima, Drogo ficou parado lá na porta.

— Creio que perdi mais do que isso está noite.

Havia intenções que não passaram despercebidas naquelas palavras. Kalila estava tão nervosa para ir embora que não se preocupou com o suor das suas mãos ao analisarem Drogo de cima a baixo.

Ele hesitou.

Drogo hesitou.

E se odiou por isso.

— Obrigada por me deixar ir embora.

— Não posso fazer mais do quê isso. — Drogo via o brilho dos seus olhos como grandes jóias. — Queria poder fazer mais.

E podia. Kalila levantou de sua cama, estava prestes a ir para casa. Drogo nunca sairia do mar. Provavelmente ela nunca mais o veria e isso era um alívio disfarçado de confusão. Mas ela queria mesmo sair dali e correndo, de preferência. Drogo mediu suas intenções e se afastou ao vê-la se aproximar.

Se pudesse ele teria corrido, assim como ela a alguns minutos atrás.

— Ter desejado a princesa é um dos meus maiores arrependimentos. — Ele disse.

— Eu entendo. Bela é realmente linda. Ela encanta, é dona de uma beleza que provavelmente ninguém nunca alcançará. Tem belos olhos, belas mãos. É bela da cabeça aos pés. Se algum homem não a desejasse, não estaria são. Bela é a certeza de qualquer um que sonha em ter a melhor do seu lado.

Você é a melhor, ele quis dizer.

Mas também não falou.

— Pode ser... — Drogo concordou, outro passo na direção dele e ele se afastou. Kalila segurou a barra de sua camiseta e o impediu de ir mais longe.

— Kalila, por favor, não... Não posso tocar em você.

Kalila.

Era a primeira vez que ele usava o nome dela em meses. A primeira vez que Kalila se sentia mulher e não prisioneira.

— Estou partindo. Pode ser a sua única chance. E eu quero que você toque em mim.

Ele queria, de verdade. Drogo pareceu realmente surpreso, não se moveu por um momento. Ele levantou as mãos e as aproximou do rosto de Kalila, mas sequer a tocou. Ficou com elas ali no ar, congelado na informação que tinha dado a ele. Mas então ele abriu um sorriso. Um sorriso que a desmontou. Ele acariciou seu rosto, seus lábios, contornou seu queixo.

— Me beije, Drogo.

E ele beijou.

E não só sua boca, cada parte do corpo dela também. E passaram aquela noite deslizando um contra o outro naquele deque gelado, já que as cobertas mal cabia um, quem dirá dois. Drogo acordou no dia seguinte com dores no corpo e não soube descrever a sensação de desconforto que o atingiu quando tentou levantar.

Seu corpo doía.

Sua cabeça doía.

Outra tentativa de sair do chão. Sua cabeça girou por alguns muitos segundos.

— Não devia nem tentar. — Drogo enxergou Kalila na porta do deque. Na porta onde ele sempre ficava. Ela estava de pé, com um sorriso no rosto.

Um sorriso estranho e que o feriu de tanta curiosidade. Ele não gostou.

— O que está acontecendo? Não consigo me mexer.

— Posso ter usado ervas para canalizar pontos de movimentação do seu corpo inteiro.

— Por quê? — Ele gritava em pensamentos, sussurrando para ela.

— Porque eu estou partindo. Eu vou embora desse barquinho imundo e não quero nunca mais ver nem ouvir falar de você, nem dos seus marujinhos.

E agora algumas coisas faziam sentido. Todo aquele drama, as noites sem dormir. Ela se sentia sufocando dentro daquele navio, e ele era uma das pessoas que roubavam seu ar. Mas ela não reclamava, pois era esperta demais para isso.

Kalila era esperta.

E foi como ele compreendeu.

— Você me traiu. — A conclusão veio em cheio.

— Nunca fui leal a você para trair você, Drogo. Eu só sobrevivi. E ninguém deve ser condenado por isso.

— Ector não abusou de você. — Ela não negou. — Você armou para eu sentir pena e te trazer de volta.

— Como eu disse, sobrevivência é um dom. E agora que tenho outra chance de salvar a minha vida, vou lutar por mim.

Drogo não tentou lutar contra aquilo. Kalila se despediu com um aceno e subiu as escadas para o deque principal. Os corpos sem vida de cada marujo estavam jogados em um canto do navio.

Ela sorriu.

— Não deviam ter tomado minha sopa, marujinhos.

O incêndio começou na cabine do capitão. Kalila viu o navio incendiar, até não poder mais ficar. Drogo amou o seu navio. Amou cada parte de sua casa com bóias e amou k mar. E morrerá com ele está noite.

— Afunde com seu barquinho, Drogo.

E se torne uma lenda, pensou apenas. E mergulhou no mar, nadando para fora daquele barco e voltando para sua vida, com propostas certas de mudança.

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