Dezesseis - A Herdeira do mar
Todos são sábios, de acordo com seus próprios conhecimentos e perspicácia.
Antônio Cícero Da Silva (Águia)
Senti que meu chão ia ceder. De novo. E em menos de 72 horas. O medo é um sentimento muito difícil de superar, ainda mais quando há mais coisas para se perder, do que a ganhar.
Aaliyah olhava para mim com curiosidade e suspeita. Eu não cederia a pressão dela. Não hoje. E não mais. Olhei por toda ela, analisando seu vestido cor de Fake Peace. Eu quis vomitar, mas isso já era um costume de todas as vezes que eu olhava para a nossa paleta de cores sem graça. E ah, estou usando um praticamente igual, porém ao invés de vômito branco, eu estou vestindo vômito roxo.
— Você não é a Princesa? — Aaliyah pôs em palavras sua curiosidade. Amanda apertou forte a minha mão.
— Vejo que conseguiu tempo para mim. — Abordei outro assunto. Um que importava tanto a ela quanto a mim. — Você sumiu, Rainha. Quase fiquei preocupada.
— Eu tinha assuntos a tratar. — Ela entrou no tema, caminhando em nossa direção. As unhas de Amanda estavam prontas para atravessar o tecido de pele dos meus dedos. — Como Rainha eu preciso resolver coisas. E infelizmente, não pude estar ao seu lado durante um período do seu treinamento.
— Com toda certeza esse é o motivo.
— Aeryn... — Amanda sussurrou.
Eu queria perguntar que medo todo era esse que ela tinha de Aaliyah. Eu entendia grande parte do desconforto, mas esse medo não era uma coisa que eu tinha ciência. Aaliyah depositou um olhar para Amanda, que a fez engolir a seco o ar que entrava nos pulmões. Sinceramente, achei que era a minha deixa. Mas também não consegui sair dali. Não podia apenas deixar Aaliyah, sem dar uma explicação. Naturalmente, me lembrei de agir naturalmente.
— Sabe, Alteza... Eu amo o seu Reino. Não consigo ver lugar mais belo que Wen-mar. Acho que isso também se deve ao fato de que eu nunca sai da minha antiga casa. Então, Wen-mar foi a viagem mais longa que tive o prazer de fazer. Esse Reino é lindo.
— E você não o explorou nem pela metade, querida. — Aaliyah e sua habitual personalidade de recepcionista Real, me dando um sorriso com falsas expectativas estampadas. — Você poderá ver muito mais após sua coroação.
— Acho que não poderei. — Língua, segure a língua. Uma sobrancelha alta na minha direção. Imendei: — Quando eu assumir o Reino de Wen-mar terei muitas coisas para fazer. Acho que vai me faltar tempo.
Aaliyah relaxou. Ela sorriu, e acho que já estava começando a me cansar de todos esses sorrisos.
— Bom, tem razão. Não se preocupe. Você ainda tem 3 Luas cheias antes da sua coroação. Terá tempo, e mesmo quando assumir, daremos um jeito.
Morta?
Engoli minhas palavras, engoli minha indignação. Ela fazia tantos planos que incluíam a mim, mas bem sei que se depender dela eu não viverei para viver nenhum deles. A humanidade é ruim em todo lugar. Pensei que aqui era uma excessão, mas pelo jeito, as pessoas realmente conseguem ser ruins sem nenhum tipo de remorso pela vida que estão tirando.
— Amanda, querida. — Aaliyah parou na frente da garota, que se pudesse teria entrado no meu bolso.
A empurrei de leve e Amanda enfim respirou.
— Será que você poderia nos deixar a sós? — Uma luz se acendeu na cabeça de Amanda Ross, e um alívio escapou de mim.
— Sim, alteza.
Amanda fez a referência mais desajeitada que já vi e então saiu quase correndo da sala. Disfarçar não é um dom de Amanda Ross, logo notei quando a porta bateu e fez um estrondo desnecessário que ecoou por toda a sala.
Aaliyah me encarou.
— Você está bem, Aeryn? — Questionou me analisando.
— Eu estou bem. Um pouco cansada, mas bem. Acho que só preciso descansar um pouco mais. É melhor eu ir... — A mão de Aaliyah apertou meu pulso. Nem a vi se aproximar tanto. Congelei. — Rainha Aaliyah?
— Eu sinto muito.
Eu também sinto. Ninguém sente mais do que eu. Respirei fundo, talvez fundo de mais. Em alguns momentos como esse acredito que o medo prove de seu próprio sentimento. Angústia demais para um único coração batendo. Eu quis mesmo que ela tirasse as mãos de mim.
— Aeryn, eu fui injusta com você desde o início. — Tramando minha morte, pensei. — Você é uma menina que nunca me deu motivos para desconfiar de si. Mas eu... sabe, eu preciso proteger o meu povo e preciso que saiba disso. Eu sou como a mãe que eles precisam e preciso verdadeiramente que você também compreenda isso.
— Não compreendo.
— Deveria. Você será a mãe deles também, e você precisa saber que eles vem em primeiro lugar. Amor e sentimentos fortes como esse não podem ser direcionados a uma única pessoa. Você tem um povo que precisa manter aquecido e amado. Então, Aeryn não importa o quanto você ame uma pessoa... você precisa abrir mão dela para amar várias ao mesmo tempo. É isso que ser rainha de Wen-mar significa.
— Abrir mão do amor? — Minha risada foi alta demais para o momento. Aaliyah baixou a cabeça completamente sem jeito. — Desculpa, Aaliyah nada disso faz sentido para mim.
Enfrentamos um silêncio que doeu. Os dedos dela continuavam ao redor do meu pulso, e quis saber quando ela tiraria a mão de mim. Já estava começando a ficar agoniada com os sentimentos em atrito dela. Aaliyah nunca me passou a idéia de alguém que precisava de ajuda. Mas talvez, só talvez ela precisasse de alguém para garantir que ela não fosse desabar.
Era muita responsabilidade ter que cuidar de um Reino inteiro sozinha. Talvez se Kara e Aaliyah não estivessem brigando para decidir quem me mataria e seria dona da nova linhagem do sangue Real, elas teriam visto que o vasto conhecimento de Kara com os cidadãos de todo canto e as intenções de salvar a todos de Aaliyah seria uma boa União. As duas juntas poderiam salvar não apenas o Reino, mas a si mesmas.
— Eu só queria que você soubesse que eu sinto muito por ter batido em você.
Então esse era o ponto.
— Você bate forte. — Fiz uma piada, que não havia ninguém com senso de humor para achar engraçado. — Está tudo bem, Aaliyah, você perdeu o controle.
— E eu não gosto disso, Aeryn. Não gosto de perder o controle.
— É claro que você não gosta. Nenhum de nós gosta.
Eu tinha tantas perguntas, e sabia que para algumas delas Aaliyah teria a resposta. Mas também não podia arriscar perguntar e ser trancada em um calabouço Real, como as Princesas do meu mundo eram tratadas. Um gesto de caridade vindo de Aaliyah não podia dispersar tudo que ela já tinha feito até aqui. E ao mesmo tempo, alguns gestos de maldade não podiam apagar tudo de bom que ela fez por mim até agora.
Pelo menos não deveria, se eu não soubesse que tudo foi pensando no momento em que tiraria minha vida.
— Eu queria te dar uma coisa. — Percebi que a mão livre estava fechada em forma de punho, e Aaliyah a estendeu para mim. — Faz tempo, na verdade que isso pertence a você. — Ela abriu a mão e uma chave apareceu dali.
A peguei olhando a delicadeza do trabalho feito a mão. Era uma obra de arte, bem lixada e com certeza passava longe do padrão canadense do qual eu estava acostumada. Acho que longe do padrão do mundo. Pelo menos do meu mundo.
— Isso é a chave de Wen-mar? Tipo, seu lá, a Chave de Toronto que o Presidente deu para o Justin Bieber?
Aaliyah abriu a boca, mas tenho certeza que faltou palavras. Pensei que até aqui as pessoas saberiam quem é Justin Bieber. Todo mundo sabe. A Rainha negou.
— Venha comigo.
E eu fui. Aaliyah puxou meu pulso até sairmos da sala. Ela me guiou por dois corredores diferentes e tivemos que atravessar a escada principal que dava para o andar debaixo. Até pararmos diante de uma porta e eu já sabia quem morou ali, antes mesmo de entrar. Meus calafrios foram mais reais do que a realeza.
— É o quarto da Princesa Bela. — Aaliyah anunciou.
Não que isso fosse necessário. A porta de madeira dividida em duas tinha um enunciado esculpido em madeira pura bem no topo: PRINCESA BELA. Aaliyah colocou a chave na entrada correta e a girou.
Eu fiquei sem ar.
Todo o glamour do lugar apenas confirmava que era Bela que dormia ali. Me lembrei daquela mulher usando jeans e camiseta de manga cumprida que me abandonou na porta. Todo aquele Rosa e aquele brilho não era compatível com aquela mulher. Bela em meu mundo era outra pessoa ao me abandonar, e eu quis saber como ela era aqui em...
Wen-mar.
— Vou deixar você sozinha. — Aaliyah passou a chave para a fechadura de dentro, e então encostou a porta por fora.
Eu ouvi os passos se afastando, e não consegui entender como, mas eu senti cada pelinho do meu corpo se levantar para o que estava bem ali a minha frente. O travesseiro rosa o cobertor rosa, a parede rosa, todos aqueles tons brilhantes que só se encontravam em quartos de bebê. Era tudo muito lindo, apesar de não ser o meu tipo de lindo. Muito delicado.
Bela era uma Princesa mesmo. O conto de fadas mais bem contado não teria acertado cada detalhe da vida de Bela Lipphaus, a Princesa do Reino de Wen-mar. Enquanto a mim, bom... Eu era Aeryn, e nada disso fazia sentido na minha vida.
Algo aconteceu no ar. Uma mudança muito drástica, que eu senti apenas porque não consegui respirar por um segundo. Fechei os olhos, abri os olhos. Tudo continuava igual.
De repente, a porta se abriu e Bela passou por ela. Mais nova, uma jovem muito bonita com todo seu cabelo dourado e seus grandes olhos azuis. Ela usava um vestido rosa e estava furiosa.
— Não posso mais fazer isso, Kalila. — Ela passou por mim, não me vendo parada bem ali. Bom, de certo eu não estava mesmo.
Segui seu caminho e notei, como não havia notado antes, que Kalila estava sentada na cama. Eu teria a visto antes, mas presumi que ela não estava ali também. Não antes da mudança de ar. Os cabelos continuavam bem chamativos, embora agora estivessem em um rabo de cavalo que pendia para fora da cama. Os olhos havidos como os de uma águia também estavam lá, e ela...
Santo Deus!
— Bela, por favor, me dê apenas mais algum tempo. — Kalila passou a mão na barriga já volumosa. Ela estava grávida. Meu deus, ela engravidou. — Eu vou resolver isso, prometo.
— Suas promessas não estão valendo de muita coisa já que você voltou daquele maldito barquinho com um Herdeiro nojento daquele demônio do mar.
Demônio do mar. Céus, o Filho é de Drogo.
— Não fale assim do meu filho. Você não sabe o que diz. Eu preciso ter esse bebê, mas não ficarei com ele. Eu prometo.
— Não me prometa coisas! — Bela gritou com raiva, e Kalila mal respirou. — Minha mãe está no meu pé. Ela não pode nem sonhar que você está aqui, no Castelo. Ainda mais nesse estado. Sua gravidez só trará calamidades, querida. Você precisa ir embora.
— Eu não tenho para onde ir. — Kalila lamentou. Você matou Drogo, pensei. E agora está grávida dele. E não tem para onde ir. A justiça é algo divino mesmo.
— Volte para o Mar. — Bela sugeriu. — Fique com Drogo. Você mesma disse que ele não é tanto ruim.
— Não ser tão ruim não é o suficiente para que eu queira estar do lado dele, Bela. Aquele Navio é repugnante.
"E eu o afundei junto com toda sua tropa". Bom, essa informação não foi dita. Mas eu imaginei que elas saíram da boca de Kalila, ou pelo menos passaram em sua cabeça. Kalila não contou a Bela que afundou o navio, não contou que matou Drogo e por isso não pôde voltar.
Bela a abrigou.
E Kalila está mentindo para ela.
O pau não caiu perto da erva daninha, ele foi lançado lá de propósito. Kalila é traiçoeira. E da forma como está agindo, ela levará Bela as ruínas como fez com Drogo. Mas... eu já estou aqui, não é? Isso já aconteceu.
Só me resta descobrir como.
— Madher está cada dia mais animado com nosso casamento. Minha mãe escolheu a dedo o homem com quem eu gerarei um filho e isso é bom e ruim pelo mesmo motivo, Kalila. Você precisa ir embora.
— Madher quer um Herdeiro e você... Bela, você não percebe? — Kalila abriu um sorriso, e eu realmente quis salvar Bela daquela mulher. — Eu não quero um bebê e você não consegue ter um bebê.
— Eu não entendo, Kalila. — Bela andou pelo quarto, desconfortável.
— Posso te dar o meu bebê. — Acho que vi o rosto de Bela mudar de cor. A inocência daquela mulher não se parecia nem um pouco com a maldade da que me abandonou.
— Não quero seu bebê. — Bela revidou com ignorância: — Preciso de um bebê legítimo. Seu sangue é sujo, você não pode gerar herdeiros para a realeza. Não seja burra.
— Somos amigas porque somos amigas, Bela. Mas somos irmãs antes disso. — Bela negou, era um fato doloroso demais e eu senti o aperto que tomou seu peito. Aí. Queria confortá-la. — Posso ser a bastarda do seu pai, mas ele ainda me amava como uma filha.
— Ele está morto e minha mãe só a vê com desprezo e rancor. Sua mãe nunca devia ter se aproximado do meu pai.
Kalila não era apenas a dama de Bela.
Kalila era a meia irmã de Bela.
Céus! Isso só estava se complicando.
— Seu pai foi homem para meter um bebê na minha mãe, e foi homem para me amar como filha.
— Ele nunca assumiu você.
— Ele não poderia. — Com seu próprio consolo, Kalila se explicou: — Sua mãe teria o banido para bem longe por traição, se ele manchasse o nome Real. Grace quer a perfeição. Ela pode ter engolido a traição, mas ela nunca o perdoou por ter ajudado a me colocar no mundo.
— Você foi fruto de um trabalho sujo.
— Está enganada. Minha mãe foi enforcada com um sorriso no rosto e nós duas sabemos o porquê. Eu fui fruto do amor de verdade, enquanto que você apenas nasceu para carregar as obrigações do reino.
— Pelo menos eu tenho objetivo na vida, Kalila. E você? Além de engravidar do demônio do mar o que mais pode querer para o seu futuro, uh?
Foi rápido demais até para mim. Acho que perdi alguma coisa quando elas entraram no silêncio. Ninguém falou nada, apenas ficaram olhando para a cara da outra. Bela segurou demais e foi a primeira a ceder. Depois vi Kalila secando os olhos e batendo no colchão e convidando Bela para se aproximar.
Bela se sentou, elas trocaram um abraço.
A minha família é louca. Não importa qual das duas é minha mãe. Ambas são loucas.
— Eu sinto muito, não devia ter falado dessa forma. — Bela se desculpou.
— Eu é que devo ter mais cuidado. Você é tão sensível, irmã. — Kalila secou as lágrimas de Bela, não se importando com as próprias. — Desculpe. Você terá um bebê em breve.
— Sou casada a 5 meses.
— E seu bebê logo virá. — Garantiu com ternura. — Eu devo pensar no que digo. Mas é que também estou preocupada. Drogo desapareceu e eu não posso ficar com esse bebê de jeito nenhum. Nem se ele estivesse aqui. Eu não sei o que fazer, Bela. Estou desesperada. Você é a única coisa que eu tenho no mundo.
— Você tem esse bebê. — Bela acariciou a barriga da irmã.
Kalila negou.
— Esse bebê não é para mim. Ele é apenas uma lembrança da tristeza que aquele navio me trouxe.
— Ele está no seu ventre, Kalila. Valorize isso. Você precisa dessa criança, assim como ela precisa de você. Não importa as circunstâncias. Você precisa amá-la. Ela precisa de amor. Você tem esse privilégio, irmã. Então o use.
Havia mais do que amor fraterno ali. Foi como Aaliyah descreveu. Não podiam amar apenas um. A Rainha é o coração de Wen-mar. Ela precisa estar comprometida com todo o Reino para que assim todos os habitantes possam viver em harmonia e paz.
— Eu já amo você, Bela. Não tenho espaço para amar mais alguém. Esse bebê — Kalila olhou para a barriga e chorei vendo que abandono era uma coisa da nossa família. — preciso me livrar desse bebê.
— O que você fará, irmã? Eu quero estar do seu lado, mas não posso. Você sabe que não posso. Eu preciso estar do lado da maioria. Pelo bem do povo. Meu bebê tem que vir em algum momento, mas com ou sem ele eu serei coroada Rainha daqui 1 lua cheia. E preciso estar pronta para assumir a responsabilidade pelo meu Reino.
— Você quer mesmo que eu vá embora?
— Eu preciso que vá, Kalila. Irmã, eu te amo. — E amava mesmo, eu podia ver isso. — E você me distrai.
— Eu sinto muito, Bela.
— Se minha mãe descobrir que você está aqui, ainda mais com esse filho na barriga, ela vai matar. Vai matar vocês dois. E eu não posso correr o risco de perder você. Então você tem que ir embora.
— Eu entendo.
Tá, mas eu não. Se há arrependimento e dor, porque está mentindo para Bela? Kalila, não é assim que as coisas são. Você diz amar, mas mente e faz sofrer. Isso não é amor, isso... é como você sabe amar.
É como você sabe amar.
— Você pelo menos sabe como vai chamar o seu bebê?
— Só tenho um nome em mente. — Kalila alisou a barriga com um sorriso. — Quero chama-lá de luz porque sei que longe de mim, ela terá alguma chance de brilhar.
— Na mitologia wenmarniana do sul, isso significa Aeryn.
Aeryn.
Aeryn.
Aeryn.
— Bom, se for menina sim. Se for menino ainda vou pensar em algo. — Melancolia demais para alguém como Kalila. Ela limpou os olhos e respirou fundo. — Mas também não importa porque não ficaremos juntos.
— Talvez a vida seja um pouco mais traiçoeira, irmã. Vamos aguardar.
E o ar impertigou de novo. O quarto agora estava vazio, e eu olhava para aquela cama sem ninguém sentada lá, como a segundos atrás. Sorri comigo mesma e meu coração pesou bastante.
O meu nome é Aeryn. E Kalila é mesmo minha mãe. Sou filha de Drogo e não sou a Herdeira.
Não sou a Herdeira.
— Mas se eu não sou a Herdeira, então... quem é?
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