Capítulo 5 - Gentil
Eu não falei com Maisie pelo resto da semana, nós ficamos em cômodos diferentes da casa, ela na sala de música, tocando para comemorar sua vitória. Eu na biblioteca, tentando manter minha atenção em algum livro, para distrair-me do que estava acontecendo em meu peito.
Ainda sentia que precisava contar a verdade ao duque, mas não conseguia encará-lo, não quando sabia que estava tudo tão terrivelmente confuso em minha mente que eu duvidava de minha capacidade de manter-me firme diante do homem.
— Arrume-se! — Ouvi a voz de Maisie preencher o ambiente. Eu focava o ambiente fora de nossa casa. Os jardins favoritos de minha mãe.
— Qual a ocasião? — Inquiri.
— Vamos a mansão dos Brown, temos um chá com a mãe do meu futuro marido. — Esbocei um sorriso sarcástico.
— Estarei pronta.
— Não tente nada hoje, Maira, estarei com toda minha atenção sobre você.
— Por que eu tentaria algo? O Sr. Brown me parece feliz com você, não vejo razão para não desejar que sejam felizes juntos. — Sussurrei sentindo cada palavra rasgar um pouco do meu coração.
— Parece-me que finalmente criastes alguma consciência de tuas obrigações como minha irmã. — Maisie disse.
— Se você não se importa, quero terminar o capítulo do livro que estou lendo antes de ir. — Sinalizei para que ela saísse sem me importar de virar-me para encarar minha irmã.
Ouvi a porta ser fechada e voltei a olhar para os jardins, me perguntava como teria forças para estar sentada a mesa com o duque, sem poder dizer-lhe que estava prestes a cometer o pior erro de sua vida.
Suspirei cansada de tudo aquilo, casada principalmente de estar sempre encobrindo as mentiras de Maisie. Saí da biblioteca e caminhei até o meu quarto, a criada já separava um vestido azul para mim. Elegante e que tinha um decote generoso.
— Não quero usar este. — Avisei.
— Mas sua irmã...
— Não me importo com as opiniões de minha irmã. Apenas pegue qualquer outro.
A mulher assentiu e levou o vestido de volta ao armário, ela retornou trazendo um vermelho, pouco diferente do azul em questão. Eu adorava aquela cor, então assenti quando permiti que me ajudasse a vesti-lo.
Quando desci as escadas, Maisie já me esperava impaciente, ela esboçou um sorriso perverso ao ver-me naquele vestido. Eu sabia que era um dos que ela detestara, sabia que minha irmã odiava vermelho, exatamente por isso eu amava a cor.
— Parece-me que estás desesperada para conseguir um bom pretendente. — Maisie disse. — Infelizmente, o Sr. Brown não tem irmãos.
— Minha querida Maisie, eu não poderia estar menos interessada nos parentes de Sr. Brown, além disto, estamos indo a um chá em sua casa, uma ocasião privativa, não haverão outros lordes a quem encantar.
— Então queres encantar o próprio? — A sobrancelha dela se ergueu.
— Sr. Brown é o último homem em toda a Terra que eu poderia pensar em ter qualquer interesse.
— Vocês são muito parecidos. — Ela disse enquanto subia na carruagem.
— Não, Maisie, vocês são muito parecidos. Destes a ele, a ilusão de que sois igual a mim, então devo adverti-la que mantenhas este personagem até que consigas se casar, não acho que o homem vá aceitar bem suas mudanças de humor.
— Falas como se o conhecesse. — Rebateu.
— Como tu mesma dissestes, Sr. Brown e eu, somos muito parecidos. — Sussurrei em resposta e tratei de ignorar seus comentários.
A viagem foi curta e eu agradeci a Deus quando saímos da carruagem, Maisie estava completamente disposta a me estrangular para que eu lhe respondesse, quando não o fiz começou a tagarelar a respeito de música.
Nós caminhamos para o interior da casa, Maisie já olhava para a mansão como se planejasse as mudanças que faria quando fosse dona do lugar, eu permanecia quieta, apenas sorrindo para um servo ou outro que passava por nós.
— Não deverias estar sendo tão amável com a criadagem! — Ralhou minha irmã.
— São pessoas como você e eu, estou apenas tratando-os como trataria qualquer um.
— Eles não são como nós!
Ignorando o que ela dizia eu sorri para uma mulher que limpava os retratos da família, ela era jovem e sorriu para mim. Um belo e tímido sorriso, certamente não estava acostumada a ver alguém que estava ali como visitante, sorrindo para ela. Muitos nobres tinham o péssimo habito de fingir que os criados não existiam.
— Srta. Black, Srta. Maira, como é bom recebe-las. Agradeço por terem vindo com vestidos distintos, assim posso conhecer cada uma individualmente. — A duquesa nos recebeu com um sorriso gentil.
— Eu sou Maira. — Sussurrei com um sorriso quando vi que a mulher buscava a informação.
— Venham, Payton está nos esperando na sala de chás. — Ela disse.
Nós seguimos a mulher pela casa e eu não encarei Maisie apesar de saber que ela me lançava um olhar de pura fúria. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu, eu quase agradeci por nossos pais não estarem ali para ver o monstro que minha irmã se tornara.
Adentramos a sala e a mulher tratou de apontar para Maisie e indicar que ela era a Srta. Black e eu a irmã mais nova, havia uma mulher ao lado do Sr. Brown. Ela era linda e muito jovem.
— Creio que se lembrem de minha irmã? — Sr. Brown perguntou.
— Claro que sim, como está Sra. Wilson? — Perguntei.
— Estou muito bem, Srta. Maira.
Nós nos sentamos a mesa para o chá, Maisie e Sr. Brown conversavam entre si, enquanto eu tentava manter uma conversa tranquila com as duas mulheres a mesa. Sussurrei algumas vezes que lamentava a perda do antigo duque e as mulheres disseram-me o mesmo por meus pais.
— Tão jovem, ainda nem mesmo casara-se e já enfrenta a perda de ambos os pais. — A duquesa disse.
— Tem sido difícil. Minha mãe faz muita falta, todos os dias... — Engoli seco quando senti minha voz ficar rouca. — Mas devo admitir que a saudade de meu pai, é muitas vezes dolorosa.
— É muito difícil uma filha ser tão apegada ao pai. — A duquesa falou.
— Eu costumava ajuda-lo com os cálculos das finanças. Era uma tarefa que nos unia. — Esbocei um sorriso.
Agradeci a criada que serviu-me mais chá, a mulher assentiu e se retirou, a duquesa me observava, eu não conseguia ler o seu olhar, mas compreendia que ela parecia pesar-me de algum modo.
— A sua casa é realmente linda senhora. — Elogiei.
— Obrigada querida, pertence à família Brown há muito tempo, eu amava demais a minha sogra e seu gosto por decoração, por isso tento manter a mansão exatamente como ela deixou.
— Ela deveria ser uma mulher excepcional. É uma casa linda e a decoração é maravilhosa.
A duquesa sorriu, a filha da mulher perguntou-me a respeito dos meus interesses, além de finanças, admiti que amava passar tempo ao ar livre, que apreciava música, mas não conseguia tocar bem qualquer instrumento além do piano. Contei sobre meu interesse por montaria e os tipos de cavalos que meu pai costumava criar.
— A senhorita deveria visitar minha casa, meu marido insiste em morar em uma fazenda, mas acredito que irias amar o lugar. — Convidou-me.
— Eu agradeço o convite, adoraria visita-la. — Esbocei um sorriso.
A duquesa voltou um pouco de sua atenção para Maisie, questionando minha irmã a respeito dos seus interesses, Maisie tratou a mulher com muita amabilidade, mas eu conhecia minha gêmea bem o bastante para perceber que ela estava desesperada para voltar a conversa com o duque.
Notando ou não a situação de minha irmã, a duquesa voltara sua atenção para mim, Maisie sorriu ao retornar a sua conversa com o duque.
Ao fim do chá nós fomos convidadas para conhecer os jardins da duquesa, eu amava jardins e não recusei a oferta apesar de saber que Maisie detestava estar junto ao pólen das flores.
Quando saímos para o lugar observei as flores com um sorriso, muitas vezes curvando-me para sentir seu perfume, a duquesa me dizia as razões pelas quais escolhera cada planta e porquê estavam naquele lugar exato do jardim.
Eu ouvia tudo animada, pensando em como organizaria meu próprio jardim se um dia tivesse um. O sorriso desapareceu do meu rosto quando vi o Sr. Brown entregar a minha irmã uma rosa, ela sorriu ao segurar a flor pelo caule e abaixá-la longe do vestido.
Assim que o rapaz desviou sua atenção dela, vi quando Maisie jogou a flor e limpou as pontas dos dedos. Suspirei irritada com a situação.
Ao fim do passeio nós já nos preparávamos para ir quando a duquesa entrelaçou seu braço ao meu enquanto me acompanhava.
— A senhorita é uma companhia muito agradável. Sua gentileza realmente encantou-me. — Ela elogiou e senti meu rosto corar.
— A senhora é uma ótima anfitriã, adorei estar aqui e conversar. E sua filha é uma mulher muito bonita e agradável.
— Obrigada querida. — Ela olhou para Maisie e o filho e seu sorriso tornou-se menor, quase não se sustentando.
— Algum problema? — Perguntei sentindo o meu coração acelerar.
— Não consigo entender como duas pessoas tão semelhantes, conseguem ser tão diferentes. — A mulher disse. — Venha me visitar mais vezes, minha filha não ficará muito tempo mais e eu adoraria poder conversar mais com a senhorita.
— Virei com todo prazer. — Sorri.
— Até breve Srta. Maira.
— Até breve Sra. Brown.
Aceitei a mão que o duque estendia para mim e pude notar que ele evitou me olhar enquanto o fazia, subi na carruagem e encarei uma Maisie sorridente. Eu sequer queria cogitar as mentiras que ela poderia ter contado ao duque ao meu respeito, mas se ele era tolo o bastante para acreditar em suas mentiras, merecia ter minha irmã como esposa.
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