Capítulo 4 - Ameaça

Não me foi surpreendente que Maisie estivesse tão animada no caminho de volta para casa, ela dizia que logo o duque de Edimburgo seria seu noivo e eu não duvidava disso. Afinal o jovem era um rapaz muito interessante, com toda certeza, Maisie que sabia fingir ser eu com muita facilidade, o convencera de que dançara com ele em sua primeira dança.

Ela sequer me permitiu ter uma dança com o rapaz, temendo que eu dissesse ao Sr. Brown, exatamente o que vi em um dos cômodos de sua casa.

Nós entramos em nossa casa e eu ignorei as minhas esperanças de seguir para o quarto e pensar em uma forma de avisar o Sr. Brown. Minha irmã, envolveu o meu braço e puxou-me consigo para o meu quarto, quando entramos ela parou de sorrir.

— Nós precisamos de um bom casamento, Maira! — Afirmou.

Observei-a sem conseguir acreditar que ela estava tentando dar-me lições sobre nossas necessidades.

— Nós precisamos estar livres de escândalos, Maisie. — Sussurrei.

— Eu não me importo com isso, tudo está prestes a mudar, convidei o Sr. Brown para um chá aqui amanhã a tarde. Espero que você se comporte perfeitamente. Ou eu serei obrigada a tomar medidas.

— O que você faria? Mandaria o seu amigo brincar comigo? Até mesmo você possui limites para suas loucuras, Maisie. Sou sua irmã, nós dividimos tudo em nossa vida, você jamais me machucaria dessa forma.

— Atrapalhe minhas chances com o duque e você verá. — Ela esboçou um sorriso. — Durma bem.

Com essa ameaça, minha irmã saiu do quarto deixando-me sozinha com meus pensamentos, trancando a porta, eu peguei tinta e papel. Escrevi uma carta relatando tudo que minha irmã fizera nesta noite.

Eu sabia que jamais poderia confiar em um servo para que entregasse a carta, minha irmã certamente poderia ser capaz de interceptar a carta, ou pior ela poderia cair nas mãos erradas e isto seria um grande escândalo.

Minha única saída era esperar e entrega-la diretamente ao homem na tarde seguinte. Arrumei-me para dormir, mesmo tendo plena certeza de que aquela seria uma das piores noites de sono da minha vida.

Estava revendo a cena deplorável de minha irmã, cogitando uma forma de entregar a carta ao duque, sem que Maisie notasse.

Ao amanhecer levantei-me e comecei a me aprontar para o longo dia, apanhei um livro e escondi a carta dentro dele, passaria toda a manhã lendo-o, para que durante o chá ainda estivesse com ele.

Maisie não desconfiara, uma vez que eu costumava devorar livros em dias, assim que tivemos um tempo livre pus-me a ler o livro ignorando qualquer tentativa de Maisie de narrar regras sobre como eu deveria me comportar naquele chá.

Eu lhe dava respostas que demonstrassem meu desinteresse no assunto. Minha irmã sentou-se a minha frente e desamarrotou o vestido, eu a observava com minha visão periférica.

— O que estás lendo?

— Um romance a respeito de uma golpista. — Sussurrei, amaldiçoando-me pela resposta, mas Maisie não se moveu, apenas riu.

— Ah! Maira, seu humor está fascinante, apenas lhe advirto para que tomes cuidado com o que disseres diante do Sr. Brown. Seus comentários sobre cavalgada ontem foram completamente enfadonhos e irritantes, precisei mentir para o meu futuro marido.

— Não se preocupe, querida, você já está acostumada a mentir para toda a sociedade, seu futuro marido não seria exceção. — Respondi o que lhe arrancou outro riso.

Nós ficamos em silêncio e eu passei mais uma página do livro sem realmente lê-lo. Minha irmã tamborilava os dedos impaciente por observar-me.

— Devo começar a me arrumar, creio que devo estar perfeita diante dele. — Avisou.

— Faça isso. — Respondi quando notei que ela não se levantara.

— O que vais vestir? Quero saber para que eu vista-me igual a ti.

— Sabes eu devo concordar com você, não há sentido em continuarmos com esta regra absurda de nossos pais, vá Maisie, use seu melhor vestido, eu permanecerei com as roupas que estou.

— És realmente hilária, mas estou falando seriamente, se não querias desistir disso anteriormente, não vou fazê-lo agora.

— Certo... ­— Falei enquanto virava outra página do livro.

— Então... — Ela gritou e eu a encarei. — O que vais vestir?

— Já te disse, permanecerei com as roupas que estou, mas se insistes tanto que eu me troque, diga-me o que usarás e eu me vestirei como ti. — Ela me encarou irritada.

— A criada te ajudará a trocar-se.

Com essas palavras minha irmã saiu da sala deixando-me sozinha, fechei o livro e esfreguei as têmporas tentando livrar-me da dor que me atormentava.

As horas se passaram e eu subi para o meu próprio quarto, deixando o tempo passar para que o duque chegasse. A criada viera e retirara para mim o vestido igual ao que minha irmã usava, eu agradeci e pedi que me deixasse sozinha.

Quando um criado chegou dizendo-me que o duque chegara, peguei meu livro e saí do quarto, a criada ficou desesperada por ver-me sair com o vestido simples que ainda usava.

Desci as escadas e vi minha irmã de costas para mim o duque curvou a cabeça em cumprimento e eu sorri, tentando ignorar o que sentia, meus sentimentos não importavam naquele instante, apenas precisava livra-lo de minha irmã.

— Acredito que esta seja a primeira vez que as vejo com roupas diferentes, agora serei capaz de diferenciá-las. — O duque disse, minha irmã se virou dando-me um olhar cruel.

— Sr. Brown, que prazer tê-lo conosco para um chá. — Falei ao chegar a base das escadas.

— O prazer é meu por estar aqui hoje. Srta... — ele se interrompeu demonstrando que não estava ciente de com quem falava.

— Maira. — Sussurrei.

Maisie me lançou outro olhar, dessa vez me mandando calar-me. Ignorando minha irmã completamente eu indiquei a sala de chás ao rapaz que chegava. Ele estendeu o braço para Maisie e estendeu o outro para mim.

— Não se incomode comigo. Estou com minha própria companhia. — Ergui o livro.

— Eu já li este livro. — Disse o homem. — É um de meus favoritos.

— Ah! Eu o adoro, já li duas vezes. — Respondi.

— Sr. Brown, como está sua mãe? — Maisie perguntou e os olhos do homem retornaram para ela.

Os dois começaram a conversar entre si, nós ocupamos uma mesa e os criados nos serviram, Maisie lhes lançava olhares de dispensa e eu agradeci por nos servirem. O duque olhava de minha irmã para mim.

O sorriso de Maisie poderia ser uma cópia exata do meu, os dois começaram uma conversa entre si e eu comecei a folhear meu livro na vã tentativa de chamar a atenção do homem para o papel sobressalente.

Maisie pediu-nos um instante de licença e saiu da sala, meu coração acelerou conforme eu observei minha irmã caminhar para fora da sala.

— Achei que a senhorita não fosse muito de ler. Sua irmã me disse ontem que a senhorita prefere música.

— Ela disse? — Ignorando a pergunta eu comecei a retirar a carta do livro, os olhos do duque ainda estavam na porta. — Sr. Brown...

— Maira... estou com um probleminha com o meu espartilho, podes me ajudar? — A voz de Maisie preencheu a sala e eu engoli seco, sabia que ela tinha visto a carta, apenas pelo olhar que me lançou.

— Claro. — Levantei-me caminhando até ela.

Deixei a carta ainda presa em minha mão escondida as minhas costas para que o duque a visse e de algum modo conseguisse perceber que havia algo que eu queria lhe contar.

Maisie me segurou pelo braço quando saímos da sala e me arrastou para o cômodo ao lado. Ela arrancou a carta de minhas mãos e a leu, engoli seco deixando que o fizesse e escondendo o pavor que eu sentia.

— Achou mesmo que eu não ia notar que estavas planejando algo? — Perguntou.

— Ele merece saber a verdade!

— Eu vou dizer o que vai acontecer... Você vai voltar lá, vai se sentar e ficar calada durante toda essa reunião, se você abrir sua boca para falar algo, eu farei com que se arrependa.

— Você é uma bruxa! — Esbravejei.

Ela segurou meu rosto entre os dedos e ficou com o rosto a centímetros do meu.

— Você não faz ideia de como eu sou.

Minha irmã saiu da sala deixando-me sozinha e eu cogitei novos modos de contar ao duque a respeito dela, planejei cada pequeno detalhe em minha mente, consumindo um tempo que talvez não tivesse.

Retornei a sala determinada a contar tudo assim que entrasse, mesmo que Maisie me ouvisse, eu não me importava queria apenas livrar aquele homem de minha irmã, abri a porta com força e vi-a o beijando.

O homem segurava o rosto de Maisie com uma das mãos e envolvia sua cintura com a outra. Os dois se sobressaltaram ao verem-me.

— Srta. Maira... — O duque começou.

— Com licença. — Sussurrei e dei as costas a sala.

Subi as escadas para o meu quarto, dizendo a mim mesma que aquele era o fim, que o homem estava realmente apaixonado pela imagem que a minha irmã pintou de si mesma. 

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