Capítulo 1
Meu pai se casou de novo dois anos depois, Carla, sua nova esposa, era o tipo de mulher que eu não queria ser. Apenas pelo simples fato de que ela não conseguia compreender que eu tinha minha vida, precisava do meu espaço e que a adolescência é uma droga.
Admiro meu pai, ele conseguiu cuidar de mim, trabalhar e estudar, se tornando um grande advogado, conheceu minha madrasta numa de suas viagens de negócios. Ela era a presidente de uma empresa que contratara seus serviços, os dois se apaixonaram.
Meu irmão mais novo era o que eu mais gostava na minha casa, ele tinha apenas dois anos e às vezes, eu queria ser como ele, apenas comendo e chorando, vendo desenhos e me preocupando apenas com quando minha mãe viria para me forçar a tomar banho.
Retirei os fones de ouvido enquanto tirava os sapatos, minha madrasta já me observava da cozinha, maldita sala e cozinha sem paredes dividindo, me perguntava se teria sido tão difícil incluir uma no projeto da casa.
— Preciso que você cuide do seu irmão hoje. — Avisou.
— Boa tarde, Carla. A escola foi muito normal, não tive nenhuma experiência anormal nesta maravilhosa sexta-feira.
— É sério Bia, preciso que cuide dele. Tenho uma reunião importante esta tarde.
— Okay. — Respondi, bufando coloquei os fones no ouvido e caminhei para as escadas.
— Não vai comer?
Ela sabia que eu a ouvia, mas eu gostava de fingir que não, subi ao meu quarto e coloquei minha mochila sobre a cama, abri as cortinas e olhei meu ambiente ao redor, tudo completamente arrumado e etiquetado, regra da minha querida Carla, para que tivesse direito a mesada.
Tirei o casaco, permanecendo com a regata, olhei-me no espelho, minha pele era escura como a do meu pai, meus olhos verdes como os da minha mãe e os cabelos sempre a mesma zona, ondulado-cacheada. Meu celular vibrou em meu bolso.
Puxei-o e lá estava a mensagem que eu mais gostava de receber.
“Você estava linda hoje discutindo com a Nádia” — Brendo.
Meu melhor amigo desde o jardim de infância. Brendo e eu costumávamos fazer tudo juntos. Desde ir as formaturas, a assistir filmes até a madrugada.
Nádia era nossa amiga, mas acho que é normal quando adolescentes se afastam, o problema é que Nádia era uma garota normal, não se importava muito com aparências ou com o que as populares pensavam sobre ela. Até que ela fez teste de líder de torcida e foi aprovada.
Minha ex-amiga, mudou completamente, se tornou o tipo de pessoa da qual eu gosto de me manter distante.
“Eu não tenho culpa se ela queria discutir os fenômenos da natureza comigo...” — Respondi.
“Quem é ela? Aquele projeto de chuvisco!” — Eu ri.
Não, Brendo não era gay, apesar de eu nunca tê-lo visto com outras garotas, sempre comigo, nunca apaixonado, ele até mesmo me dizia quando outros garotos gostavam de mim e como evita-los.
Eu não gostava de redes sociais, mas como toda nerd, eu as tinha, com nomes falsos, apenas para ficar de olho nos meus ingênuos colegas que aceitavam qualquer um como amigo, apenas para ter mais um. Mesmo que não conhecessem 90% das pessoas que estavam ali.
Abri o notebook e observei a tela por alguns instantes, assim que tudo foi iniciado entrei nas redes sociais, minha mãe me chamava para uma videoconferência quase imediatamente.
— Oi mãe. — Respondi.
— Oi amor. Como você está? — Minha mãe tinha apenas trinta e um anos, era uma mulher linda, para dizer o mínimo e se dera bem como modelo na Coréia.
— Estou bem e você?
— Eu estou bem. Bia o que aconteceu com o seu cabelo?
Dei de ombros e ela revirou os olhos.
— Você não tem usado os produtos que te mandei, não é? Ao menos usa as roupas?
— Mãe, por favor, tem alguma razão realmente importante para você estar me ligando?
— Quero te dizer que vou para o Brasil em alguns dias.
— Está brincando!
— Não, não estou, você vai poder ficar comigo por todo o tempo.
Lembrei das vezes que imaginei-me realmente morando com ela por um tempo e deixei que minha mente vagasse, meu pai nunca autorizava minhas viagens, então eu apenas via minha mãe quando ela vinha para o Brasil. E nós ficávamos geralmente pouco tempo juntas, já que minhas férias nunca batiam com sua vinda.
Olhei para a hora no canto da tela e suspirei.
— Mãe tenho que ir, Carla vai sair daqui a pouco e eu vou ficar de olho no Matheus.
— Tente não se esforçar demais e use os produtos que te mandei.
— Okay... — Concordei.
— Eu te amo Bia.
— Eu também te amo.
Ela desligou a chamada e eu fiquei alguns segundos olhando para a tela escura. Caminhei para o banheiro e tomei um banho, se ia ficar com uma criança, ao menos precisava de um minuto para mim antes. Quando desci as escadas, Matheus foi jogado em meus braços e Carla apanhou sua bolsa correndo para porta da frente.
— Tchau. — Sussurrei enquanto caminhava com Matheus, o garoto puxando o meu cabelo. — Para!
Chegando na cozinha sentei-o em sua cadeira, o que me alegrava, pois ali eu sabia que o garoto não seria capaz de me incomodar com suas birras e eu poderia obriga-lo a comer.
— Sua mãe te deu comida?
— Ia... Coate... — O encarei.
— Não vou te dar achocolatado agora. — Abri a geladeira e vi a tigela com purê de legumes. Eu não poderia culpa-lo por preferir o achocolatado.
A comida pronta estava guardada ali. Matheus começou a se mover para tentar descer da cadeira e eu o segurei, mexi o purê enquanto começava a forçar o menino a comer. Depois de alguns minutos de luta e de Matheus cuspir o purê em minhas roupas algumas vezes, consegui convencê-lo a comer com uma frase:
— Se você comer todo o purê, eu te dou o achocolatado.
Entreguei a caixinha de achocolatado a ele e fui engolir a comida enquanto o observava a distância. Em um momento de distração de Carla, Matheus jogara achocolatado na enorme TV favorita do meu pai. Como não queria presenciar a terceira guerra mundial em minha casa, fui me refugiar na casa de Brendo.
Quando coloquei meu prato na pia, meu celular começou a tocar, atendi ao terceiro toque.
— Brendo, o que foi? Estou ocupada.
— De babá outra vez? — Ele riu do outro lado.
— Fala de uma vez antes que o pirralho destrua alguma coisa!
— O capitão do time de futebol, convidou todos para uma festa na mansão.
Fiquei em silêncio, Brendo sabia que eu não gostava da mansão do fim da rua, ali tudo me parecia enlouquecedor e sempre sentia que tinha alguém me observando quando passava por lá.
— Você sabe que eu não gosto daquele lugar...
— Ainda não superou seu medo de fantasmas? São apenas lendas, Bia, nenhuma bruxa morou ali.
— Eu não tenho medo de fantasmas, só não gosto de ser completamente incrédula em certos assuntos. Nunca se sabe o que pode haver nas sombras nos observando.
— Você é assustadora. É por isso que sou o único amigo que tem.
— Tanto faz. — Nós ficamos calados e eu pigarreei. — Quando é a festa?
— Sexta que vem.
— É sexta-feira treze...
— Bia, é só uma festa, numa casa sem os pais, se você não quiser ir não vá, mas como seu amigo, tenho que te avisar que você pode se arrepender no futuro, é preciso cometer erros na adolescência.
— Alguns erros perduram pela vida inteira.
— Você parece a minha mãe falando. Você vai?
Olhei para sala e vi Matheus subindo na mesa de centro.
— NÃO OUSE FAZER ISSO! — Gritei enquanto corria para pegar a caixinha de achocolatado.
O menino começou a gritar o que me encheu de raiva. Bufando eu o peguei pelo meio e segurei enquanto voltava a colocar o celular no ouvido.
— Brendo, eu tenho que dar um banho em Matheus, a gente se fala depois.
— Estamos combinados então?
Eu não lembrava do que estávamos falando antes de correr para impedir que Matheus destruísse outra TV, então pensei em perguntar ao meu amigo sobre o que estávamos falando, mas Matheus me mordeu e eu o soltei gritando.
— Está bem! — Gritei no telefone antes de desligar.
Segurei o menino pelos braços e levantei-o para correr com ele em direção ao banheiro. Matheus começou a espernear em meus braços tentando me chutar enquanto eu o carregava para o banheiro.
Abri a porta e a tranquei, o menino tentou correr para que eu não arrancasse suas roupas. Quando a batalha finalmente acabara eu o peguei e coloquei embaixo do chuveiro, o menino sacudia os braços e gritava enquanto me encharcava.
Assim que meu irmão ficou limpo, eu me vi precisando me trocar. Sequei-o antes de vestir roupas limpas nele, o arrastei comigo até o meu quarto e coloquei sobre a cama.
— Não mexa em nada! — Ordenei.
Matheus começou a falar sobre, sabe Deus o quê, enquanto eu me vestia em roupas secas. Sua voz parou e eu temi que tivesse destruído algo em meu quarto, saí correndo do banheiro e o vi dormindo em minha cama. Suspirei aliviada e sentei junto a escrivaninha para fazer a lição de casa.
Carla com toda certeza me daria uma bronca por deixar o garoto dormir durante a tarde, pois ele ficaria acordado até tarde e ela seria obrigada a ficar com ele tentando força-lo a dormir, mas eu precisava de alguns minutos de silêncio para variar.
Quando terminei a lição, Matheus ainda dormia, suspirei enquanto pensava em como matar o tempo até que Carla voltasse. Então pensei em ligar para Brendo.
— O que foi? — Ele disse do outro lado.
— O que você me pediu para fazer mais cedo? Eu estava lutando contra Matheus e não lembro o que foi.
— Ah! Isso é interessante, você sempre cumpre suas palavras e não sabe com o que concordou... O que será que foi?
Deixei-o sem resposta, eu odiava jogos e Brendo sabia bem disso, meu amigo riu do outro lado da linha.
— Você concordou em ir à festa do capitão do time.
Eu quase gritei, mas lembrei que Matheus estava dormindo e xinguei Brendo silenciosamente.
— Lembre-se, você sempre cumpre suas palavras!
— E por acaso eu disse que não iria?
— Calma! Eu sei o que disse, só estou brincando com você.
— Está bem! Vou arrumar algo útil para fazer com o meu tempo, falamos depois.
— Tchau.
Desliguei a chamada e encarei a criança que começou a chorar. Sentei-me ao seu lado e percebi que ele ainda estava dormindo, passei a mão em suas costas e Matheus abriu os olhos, ele ficou de pé e me abraçou.
— Teve um sonho ruim?
Entre lágrimas e fungadas o menino assentiu, coloquei-o nos braços prometendo colocar desenhos na TV para assistirmos juntos. Meu pai chegara antes de Carla e eu aproveitei sua presença para ir de volta ao meu quarto enquanto ele ficava de olho em Matheus.
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