Capítulo Três: Raio-X


O frio apertava um pouco mais naquela manhã em Londres, sob um sol entre nuvens, deixando em destaque um céu cinzento. Com as janelas do luxuoso quarto da nova mansão fechadas e assentada na cama de casal, Luiza estava com sua cabeça inclinada olhando algo que segurava em suas mãos. Era um retrato de sua única filha e herdeira dos Butzeks. Com as papeladas em mãos, seu esposo passou pela porta, e a notou ali, desolada, fazendo-o retroceder em seu percurso.

– Acontece algo, querida? – Eduard aproximava-se dela lentamente, ponderando. Ele não largava seus papéis.

– A nossa filha, Eduard... – Luiza hesitou. Antes que concluísse, ela levantou-se da cama com o retrato de Juliana em mãos – Precisamos tê-la de volta o mais breve possível. Precisamos parar tudo para achar uma solução.

– Luiza... – Ele repousou a mão desocupada dos papéis sobre seu ombro – Como pai, eu também estou sentindo a mesma dor que você sente. Mas não podemos parar no tempo agora.

– Nós vamos acabar a perdendo se pensarmos dessa maneira, Eduard – contestou, tirando a mão do marido de seu ombro. – Será que não vê isso?!

– É claro que eu vejo, Luiza. Mas somos apenas um, e a empresa precisa continuar girando. – Ele calou-se por alguns instantes. – Você deveria confia mais em nossos profissionais que separei para o caso da nossa filha.

Luiza suspirou, olhando para baixo. Logo, seus olhos direcionaram-se à mão fechada de seu esposo, que segurava os papéis.

– O que é isso? – Ela ponderou.

– São mais alguns documentos da locação do apartamento dos Kates. – Eduard começou a folheá-los, dando a impressão de estar os conferindo mais uma vez. – Preciso ir agora para entregá-los a eles antes de ir à empresa.

Após respondê-la, Eduard deu um selinho nela e já ia se retirando.

– Você não tem tempo para a cura da Juliana, mas tem tempo para patrocinar e dar atenção aos Kates – comentou Luiza, que fez seu marido parar na porta. Ao pensar nas palavras, ele se virou para ela.

– Patrocínio? – Eduard franziu o cenho. – Não entendo o quer dizer com isso.

– Colocando a Srta. Kate em uma universidade, arcando a hospedagem de sua família e remanejando o pai dela para cá... – Luiza deu alguns passos à frente, cruzando os braços em desconfiança – O que prova ao contrário disso?

– A nossa filha – respondeu, diretamente. – Ela é o motivo disso tudo. – Não achando o suficiente, ele se aproximou dela mais uma vez. – Há nada mais gratificante para Juliana do que ver sua melhor amiga realizando seus sonhos. Tenho dito isso aos ouvidos da nossa filha. Estou certo que ela está muito grata por isso; é uma promessa que fiz a ela, por ela.

Um silêncio tomou conta do cômodo, com ambos se encarando.

– Essa fase vai passar, Luiza.

Eduard tomou novamente distância da esposa, saindo em definitivo do quarto, deixando-a sozinha segurando o retrato com os seus olhos azuis vidrados à porta.

Em seu apartamento, Nathaly ia à cozinha onde sua mãe estava como uma nata governanta da residência. Clara estava trabalhando a todo vapor, sozinha, para ver tudo em seu devido lugar para o café da manhã.

– A senhora não para, mãe? Bom dia – disse Nathaly, acompanhando sua mãe pelo seu olhar. De costas, a mãe riu.

– Bom dia, filha – respondeu docilmente. Ela olhou sua filha em relance. Não havia tempo para parar. – Quando você for uma dona de casa bem-sucedida, verá como é se preocupar com o seu futuro marido e com... meu neto ou neta – riu, baixinho.

Nathaly chegou a abrir a boca para respondê-la, mas pensou naquela mensagem, ficando corada com o assunto envolvido. Não sabia o que dizer. Ela apenas cruzou seus braços; sua mãe parou e a olhou de lado abrindo um sorriso, notando a timidez de sua primogênita filha, provocada pelo silêncio.

– Onde está meu pai? – Nathaly notou a ausência – Ele já saiu para trabalhar?

– Eu diria que ele está em outro serviço...

Clara encarou sua filha com um sorriso de lado, recebendo um olhar confuso dela.

Nathaly apareceu no banheiro do apartamento. Lá, viu seu pai todo molhado, lutando contra o registro do chuveiro, que esguichava litros de água – um gasto de água inimaginável.

– Pai! – espantou-se, indo em sua direção. – Deixe-me lhe ajudar.

– Não, não, não. – Steven impediu-a. – Se pensa em usar algum dos seus poderes, melhor não fazer isso.

– Mas por quê?

A campanhia tocou, tomando a atenção dos dois.

– Por isso – disse ele, respondendo. – Mas agradeço sua ajuda. Agora, se arrume para ir à universidade, está bem?

Steven sorriu leve, e deu algumas batidas no ombro dela. Nathaly apenas o acompanhou no olhar saindo do banheiro.

Steven apareceu na cozinha diminuindo seus passos, ora apressados, até parar. Ele deu de cara com Eduard conversando próximo à sua esposa.

– Sr. Butzek? – Tornou a andar, vagarosamente – Bom dia.

– Steven – respondeu o cientista, virando-se com os papéis em mãos. – Desculpe em atrapalhá-los. Como eu estava dizendo para Sra. Kate, eu vim para entregar o que faltou dos documentos do apartamento. – Ele olhou de cima à baixo, notando as roupas molhadas de Steven. – Há goteira por aqui?

– Quase isso. Que bom que você veio – disse Steven, sorrindo. – Você poderia me acompanhar, por favor?

– Mas é claro.

Steven virou-se para conduzir Eduard ao banheiro, e encontrou Nathaly vindo em sua direção. Como estaria ocupado antes de ir trabalhar, ele a pediu para que fosse a uma marcenaria comprar alguns pães, dando-lhe o dinheiro que, de alguma forma, fora salvo da água.

Nathaly fizera o que fora pedido pelo pai, pegando alguns pães do estabelecimento mais próximo do apartamento e do bairro como um todo; ela agora enfrentava uma pequena fila, mas que a fez se distrair facilmente enquanto aguardava o andar dela.

– Ei, moça. Não tenho muito tempo para esperar você voltar do mundo da lua. – Uma voz masculina soou às suas costas.

Graças ao aviso do cliente, ela voltou a prestar a atenção na fila. Era sua vez. No momento em que ela deixou o saco com os pães na mesa do caixa, seu olhar se encontrou com outro cujo foi imediatamente reconhecido por ela:

– Jen... Jennifer?

– Nathaly?

Os olhares se congelaram. Uma sentada e acomodada no caixa enquanto a outra estava paralisada em pé. O tempo parecia ter parado ali. Era mais um reencontro na vida de Nathaly. O mundo já era pequeno naquela época!

Em uma das ruas da capital londrina, um caminhão de pequeno porte estava estacionado diante de um estabelecimento, onde recebia alguns sacos para transporte. Os ocupantes do caminhão entraram nele após terminar a primeira parte da tarefa. O motorista deu partida, deixando o local, ao mesmo tempo que um carro a alguns metros também ligou seus motores e virou à mesma esquina onde o caminhão de carga virara.

– Ei – chamou o carona ao motorista do caminhão –, nós não estamos sendo seguidos?

O motorista retorceu as sobrancelhas com aquele comentário, e olhou em seu retrovisor. Ele notou que eles estavam realmente sendo seguidos por um veículo escuro.

– Droga – esbravejou. – Se segura.

Seu pé pisou fundo no acelerador, na tentativa de despistar o carro. Mas os ocupantes daquele veículo já haviam notado a percepção das vítimas e também aceleraram. Uma perseguição começava por ali, onde desvencilhiavam de carros em ziguezagues e, quando preciso, andavam pela contramão; as pessoas presenciavam tudo, e nada de uma viatura da polícia estar por perto para combate naquele momento.

Com sua mochila nas costas, Raphaela caminhava rumo à universidade. Ela parecia estar distraída em seus próprios pensamentos, possivelmente sobre seus estudos. De repente, o caminhão entrou na rua já desgovernado pela perca do controle devido à forma como virou naquela última curva. O motorista buzinava incessantemente. O caminhão ia em direção à Raphaela.

– Meu Deus! – clamou o motorista junto com o seu companheiro, que viam a jovem às suas frentes.

Em puro reflexo, o motorista conseguiu desviá-lo dela; Raphaela também teve um bom reflexo ao se jogar para o lado. Uma imensa poeira surgiu, atingindo os olhos dela antes de cair no chão, e o motorista se saltou do caminhão, que bateu violentamente em uma mureta com o carona dentro. Raphaela levantou-se, limpando seus olhos da poeira que entrara neles. Quando pôde enxergar com mais nitidez, teve a surpresa do terrível acidente.

Ela acabou vendo o homem que se jogou do caminhão caído no chão. Sua atitude foi socorrê-lo. Ao virá-lo da posição em que se encontrava, de bruços, ela viu seu braço esquerdo bastante inchado. Ele certamente caiu sobre o braço em uma tentativa de apoio. Sua paixão pela medicina a motivou a pegar naquele braço ferido e analisá-lo. Inesperadamente, seu campo de visão começou a ficar um pouco incômodo quando ela teve uma nova e intrigante surpresa: ela passou a enxergar claramente os ossos do braço daquele homem, constatando que ele quebrara o membro em duas partes; Raphaela paralisou-se, ainda segurando o braço.

– Moça? O que ele tem? – Uma voz feminina soou atrás dela.

Ouvindo aquela voz, ela voltou a si, estando perdida, mas com sua visão normal. Ela olhou a mulher que a perguntara e logo depois olhou para o homem, que gemia de dores; por último, olhou para si mesma, tirando a conclusão do porquê aquela mulher perguntara a ela: ela estava trajada de seu jaleco branco. Sua posição acabou por ser de uma médica diante de todos, que já se aglomeravam por ali.

– Ele... fraturou o braço em duas partes. – Raphaela enfim respondeu àquela mulher, ainda perdida no olhar.

Ela saiu de cena sem dizer mais nada, deixando que outras pessoas ajudassem aquele homem. Ela pegou sua mochila do chão, a colocou nas costas e passou ao lado do caminhão batido, que derramara pó de um dos sacos que se abriu junto com a porta do baú. O veículo estava transportando nada mais e nada menos do que os minerais modificados triturados em minúsculas partículas.

Minutos após o susto e um acontecimento anormal, Raphaela estava na porta da universidade, cabisbaixa, até que uma voz lhe chamou. Era sua amiga Nathaly, acompanhada por Jennifer.

– Desculpa a demora, Raphaela – desculpou-se Nathaly, chegando até a amiga. – Tive que fazer um favor para meu pai.

– Não se preocupe, Nathaly – sorriu. Ela olhou para Jennifer. – Quem é essa?

– Ah! – Nathaly olhou para Jennifer, e virou o rosto novamente para Raphaela – Essa é Jennifer, a minha... amiga – sorriu.

– Olá – disse Jennifer, bem madura no cumprimento.

Raphaela apertou a mão cedida pela jovem norte-americana. Naquele aperto de mão, ela observava muito o braço dela, quase não a soltando. Talvez, ela esperara algo que acabou não acontecendo desta vez.

– Ela é uma norte-americana – continuou Nathaly.

– Sim... Já notei no sotaque.

– Está tudo bem, Raphaela? – notou. – Você está um pouco área.

– Ah... Deve ser esse começo de semestre agitado... É-é melhor irmos.

Raphaela simplesmente deu às costas para Nathaly, deixando-a ao lado da Jennifer.

– Ela é tímida mesmo? Pois é ao contrário do que você me contou.

– Talvez, você a pegou em um dia turbulento, Jennifer... – respondeu, olhando para o interior da universidade. – É melhor você voltar ao trabalho logo. Senão...

– É verdade. Adorei conhecer onde você estuda. – Jennifer olhava para aquele imenso lugar, e olhou para Nathaly. – Será que seus pais vão me aceitar quando eu for visitá-la?

Nathaly colocou sua mão sobre o ombro dela.

– Apenas aceite o meu convite.

Ela sorriu para a amiga e se despediu para ter mais um dia de aula. Jennifer ficou mais alguns segundos diante da porta, estando a pensar, e regressou dali, descendo as escadas.

Em meio à aula, o professor que exercia uma das matérias ligadas à Medicina promoveu uma atividade em dupla na turma de Raphaela. Todos se ajuntaram com suas respectivas duplas. Os alunos pareciam ter uma intimidade entre eles há muito tempo, com exceção da estudante alemã e outro jovem a alguns metros dela. Raphaela o olhou, o vendo quieto, retraído em sua carteira, até que seus olhares se encontraram; no final, os dois fizeram dupla para a realização da atividade.

Eles faziam a atividade e pouco conversavam para debater as coisas com os demais faziam com suas duplas. Nem pareciam que era uma dupla. Mas isso devia-se à demasiada privacidade do estudante, que se excluía, até o momento que Raphaela o questionou com sua simpatia:

– Você é sempre quieto, é...

– Nicholas. Esse é o meu nome – interrompeu-a, sendo direto e um pouco seco na fala. – Sim, eu costumo ser mais reservado.

– E isso não é por causa da minha nacionalidade ou...

– Não, Raphaela. – Mais uma vez, Raphaela é interrompida por Nicholas, que foi mais uma vez ríspido na fala. – Não é nada por causa de preconceitos inúteis desta humanidade.

– E então?

Nicholas a olhou rapidamente e inclinou a cabeça, suspirando.

– Não. Você não poderá me ajudar. Deixa para lá.

– Não diga isso. Talvez eu possa, sim. – Ela fez uma expressão de preocupação e mostrando interesse para ouvi-lo. – Me conta. O que você está passando?

Ele demorou a responder.

– É por causa da minha mãe... – Mais um suspiro foi ouvido – Ela está passando por um delicado problema de saúde, e os médicos ainda não sabem o que ela realmente tem. Para isso, eles sugeriram que minha mãe passasse por um procedimento diagnóstico complexo. O problema é que não temos condições para pagar esse tipo de exame. Ou eu continuo estudando ou sacrifico a minha vida acadêmica pela vida dela. Mas ela insiste que eu não feche a minha matrícula, preferindo morrer me vendo se formar futuramente. Não sei o que faço.

Raphaela ficou inerte, não sabia o que aconselhar naquele momento. Aquela breve conversa fora da matéria rendeu a chamada de atenção do professor, que estava diante deles os observando com um olhar de poucos amigos. Rapidamente, eles se tocaram, e retornaram às atividades. Por outro lado, aquela conversa criou uma brecha de intimidade, sumindo aquele incômodo silêncio da dupla.

Em paralelo aquilo, George – o Mestre Hall – colocava em debate sobre duas grandes teorias sobre o surgimento da vida no planeta Terra: biogênese e abiogênese. Sua introdução sobre o assunto o fez perguntar aos alunos, no intuito de receber opiniões. Nathaly ouvia seus colegas as expressando ao professor e mestre. Mas ela os ouvia ao longe, simplesmente. Ainda estava cismada com o comportamento estranho de sua amiga Raphaela. Isso agravou sua distração, estando apenas seu corpo assentado na carteira e a mente muito distante dali.

– Srta. Kate?

Aquela voz a fez olhar rapidamente para a direção de onde ela viera. Ela proviera dos lábios de seu professor; Nathaly permaneceu assustada em seu olhar, sem entender o porquê do chamado.

– Gostaríamos de saber seu ponto de vista sobre essas – George apontou ao quadro negro – teorias. – Ele caminhou mais a frente, parando na sequência. – Poderia nos dizer?

Nathaly hesitava em sua carteira, até que resolveu se levantar. Como todo aluno, um receio tomou conta dela. Para piorar, todos a olhavam, e George a esperava responder paralisado com uma sobrancelha arqueada. O silêncio absoluto pairava na classe.

Ela suspirou, encarando o chão.

– Não é possível que todos os seres vivos provenham de uma matéria inanimada. – A firmeza como Nathaly falara no início impressionou os seus colegas enquanto seu professor apenas a olhava atentamente. Ela chegou a pausar por alguns segundos para olhar à sua volta. – Somos frutos de uma outra matéria, que seja viva.

– Então, acredita que... – O mestre brincava com o seu giz em mãos, dando uma olhada para baixo – todos os seres vivos são criações de algum ser, Srta. Kate? Já que diz que, para haver um ser vivo, é preciso haver outro que o faça, e, assim, possam se evoluir ou procriar.

Aquela objeção colocou em xeque seus pensamentos. Provavelmente, Nathaly não pensava em outra coisa a não ser o seguinte questionamento, que poderia se tornar uma interessante curiosidade: será que, aquela que se diz ser mãe dela, a Mãe Natureza, criou tudo isso? Uma pergunta que ela não poderia expor ora por medo, ora por tentar esquecer mais uma vez daquela que lhe representava uma incógnita. Mas Nathaly precisava se defender daquela contestação amistosa.

– As partículas não vivas não criam, em hipótese alguma, seres extremamente capacitados e bem feitos, como nós, humanos. Se fosse assim, esse prédio se auto construiria sem um dedo sequer da mão humana. A matéria não viva depende de nós – argumentou Nathaly. – Portanto, a biogênese é uma teoria e estudo mais plausível.

Todos os alunos cochichavam entre si, admirados com a resposta tão formal de Nathaly. Por suas vezes, George e Nathaly ainda se entreolhavam mesmo após o final da resposta. E o sinal tocou para o intervalo. Lentamente, Nathaly agachou-se para fechar seu caderno e deixou a sala se infiltrando aos alunos; George ainda ficou na sala, parado no mesmo lugar, olhando para a porta. Ele parecia estar intrigado.

Nathaly andava pelo imenso pátio impactada pelas próprias palavras ditas sobre a questão da aula. Não acreditava que ela simplesmente entrara no automático para discursar com tanta convicção sobre algo que envolve apenas teorias. Não era de se duvidar que Nathaly estaria se conjecturando dentro de si: será que Mãe Natureza a usou para dizer aquilo tudo? Essa era uma questão bastante duvidosa, e intrigante. Agora bastava ter uma coragem. Coragem em ter uma conversa com a sua "poderosa" mãe. Mas tal impactação foi deixada de lado quando ela viu sua amiga sentada em uma das mesas do refeitório.

– Aguardando alguém?

– Oi, Nathaly – disse Raphaela, sorrindo. – Não, eu não estou.

Nathaly tomou assento para estar diante dela.

– Como está indo a aula?

– Ótimo. Ou mais ou menos...

– Mais ou menos? Por quê?

Raphaela começou a contar sobre o problema enfrentado por Nicholas, seu colega e dupla de atividade. Nathaly a ouvia atentamente. Inclusive, Raphaela apontou em direção à cantina onde o estudante estava, acenando. Mas, no meio daquela conversa, ela começou a sentir um incômodo em seus olhos.

– Raphaela? Você está bem?

Então, sua visão piscou, entrando em outro modo de visualização: o raio-X. Ela via todos em volta naquela visão, formando um exército de ossos ambulantes com seus contornos vistos em um raio-X comum. Voltando seus olhares à sua amiga, ela também a viu em modo de raio-X. Aquilo parecia não cessar.

– Preciso ir, Nathaly.

Antes que Nathaly a questionasse, ela se levantou às pressas, andando em passos largos. Nicholas retornou à mesa.

– Cadê Raphaela?

– Não sei, amigo. Ela me deixou aqui de repente...

Raphaela recorrera ao banheiro. Com suas mãos nos olhos, ela estava receosa em ainda continuar vendo daquele jeito quando tirasse suas mãos. Enfim, teve a coragem em tirá-las de sua visão, olhando para o espelho. Sua visão voltara ao normal. Mas ainda tomou outro susto quando avistou um reflexo atrás dela, virando-se rapidamente.

– Raphaela. O que está acontecendo? – disse Nathaly, preocupada, mas firme nas palavras.

Ela não teve opção. Não poderia mais insistir em esconder algo que só piorava. Ela contou tudo, até mesmo sobre o acidente ocorrido no momento que ela ia à universidade e a poeira que invadira seus olhos, sendo a sua explicação para todo o problema.

Nathaly marcara um encontro com ela em seu apartamento no início da noite. Raphaela não somente aceitou teoricamente aquele convite como compareceu lá, conhecendo os pais dela. Mas esse não era o foco, conhecer a família da amiga. Ela estava sentada à mesa com uma maçã diante dela.

– Consegue ver através dessa fruta, Srta. Schwanz?

– Não, Sr. Kate – respondeu, olhando para Steven, Clara e Nathaly. Eles estavam em volta. – Eu ainda estou intrigada. Por que Nathaly me trouxe até vocês... Vocês, por acaso, têm dons estranhos como o meu?

A família se olhou, procurando resposta.

– Talvez você se sentisse mais segura assim – disse Nathaly, inteligentemente.

– Mas você já era o suficiente para saber.

– É... Bem... Vamos mudar o percurso do teste – desconversou Steven, arregaçando uma das mangas de sua camisa. – Se concentre novamente, e tente ver através do meu braço.

Raphaela assentiu com a cabeça, e começou a se concentrar. E nada. Então, Steven a pediu que o olhasse em direção ao seu tórax. Clara temeu que seu esposo tirasse sua camisa abotoada, mas ele a tranquilizou, não tirando. Então, aquele par de olhos azuis de Raphaela ficou fissurado nele. Durou aproximadamente sessenta segundos para que seu recém-poder fosse despertado novamente, agora mais controlado.

– Nossa... Que demais...

– Agora, tente sair dessa visão.

Ela estava olhando muito, não queria desfazer aquela visão. Algo lhe chamara atenção, mas teve que atender ao pedido de Steven, conseguindo fazê-lo.

Quando o teste terminou, Clara fazia companhia a Raphaela enquanto Steven levou Nathaly para um canto.

– O que você fez, trazendo sua amiga até aqui, foi muito arriscado. Veja que ela chegou a desconfiar.

– Eu apenas queria ajudá-la, pai. Só eu sei como é viver se escondendo por causas dos meus poderes. Então, mesmo ela não sabendo sobre eles de mim, pretendo ajudar no que for preciso.

Steven suspirou quando olhou para o chão.

– Está bem. Mas nem pense em falar sobre seus dons.

Terminado a conversa com o seu pai, Nathaly chamou sua amiga para perto:

– Não conte sobre o seu dom a ninguém, até resolvermos a situação.

– Tudo bem, Nathaly.

Eles se despediram de Raphaela. Após a sua saída do apartamento, a família Kate começou a se olhar. Nathaly era quem demonstrava mais preocupação entre os três na cozinha.

Naquela mesma noite, Nicholas estava ao lado de sua mãe, que estava inconsciente na cama do hospital. Ele segurava a mão dela, estando com a fronte de seu rosto repousado em cima. Levantando a cabeça, olhou para o rosto sereno dela.

– Você vai sair dessa, mãe. Eu vou achar uma solução.

De repente, a cama começou a balançar. Era sua mãe tendo mais um ataque desconhecido. O desespero tomou conta do jovem, que chamou às pressas os enfermeiros. Os médicos o afastaram da mãe. Enquanto eles tentavam sedá-la, Nicholas apenas olhava da porta, com um olhar desesperado e marejado em lágrimas.

Amanheceu. Raphaela acabara de tomar seu café, e estava se arrumando para ir à universidade. Após a noite passada com a família Kate, ela estava mais segura em relação a sua visão de raio-X. Mas no fundo, algo a fazia estar bastante pensativa depois daquela visita. O telefone tocou.

– Alô?

– Raphaela? Sou eu, Nicholas. Você vai hoje?

– Sim. Por quê?

– Me ajuda, amiga... Minha mãe está com seu estado de saúde mais agravado. – Uma extrema hesitação dele tomou conta da linha. – Não posso perdê-la.

Raphaela se conteve na linha. Ela pensava no que fazer para ajudar seu amigo.

À procura de sua mochila, Nathaly fuçava suas coisas. Ela esquecera onde havia a deixado, até que lembrou de uma das portas do guarda-roupas. A mochila estava certeiramente por lá. Mas com um detalhe: a mochila de Raphaela estava ali também.

– Raphaela esqueceu da sua mochila comigo – comentou, já estando na cozinha.

– A novidade sobre o poder dela deve ter a deixado muito envolvida, esquecendo das coisas – disse Steven, levantando-se da mesa.

– E caímos nessa também – completou Clara.

– Deve ser... Pai, já arrumou o registro do chuveiro?

– Ainda não, pois o Sr. Butzek insistiu em pagar um profissional para ajeitá-lo. Ele deve vir hoje à tarde – explicou. – Vamos. Hoje darei carona para você.

– Sério? Ebaaa! Pouparei minhas pernas.

– Olha quem fala. Logo uma pessoa que possui dons magníficos – comentou Clara, rindo.

Seu pai e Nathaly se despediram de Clara, deixando o apartamento. Nathaly ainda voltou para pegar seu jaleco, o levando dobrado no braço.

Chegando à porta da universidade, ela desceu do carro do pai, e deu um tchau a ele, que deu a volta e foi embora para trabalhar. Virando-se à porta, Nathaly não avistou Raphaela por ali, como era o costume em estar. Ela chegou a subir as escadas até a entrada, deu um relance pelo pátio... e nada, ficando com sua mochila nas costas e a de sua amiga na mão.

– Onde ela está? – perguntou, consigo mesma.

Uma ideia viera à sua mente. Ideia que invadiria a privacidade. Nathaly resolveu abrir a mochila de Raphaela. Coincidentemente, encontrou no meio do caderno um pedaço de folha com um número de telefone. Acima daquele número, havia um nome. Esse nome era de Nicholas. Ela acabou lembrando dele e o caso vivido por ele, contado pela sua amiga. Talvez, ela conciliou o caso com o apoio da amiga. Mas qual poderia ser esse tal apoio? Uma seguinte lembrança veio à sua mente, com as palavras de Raphaela:

"... ele disse que a mãe dele precisaria realizar um exame para tentar detectar o problema. Mas a família não tem condições de pagá-lo."

Com uma inteligência implacável, Nathaly acordou de seus pensamentos e lembranças.

– Preciso achá-los – disse ela, arregalando os olhos verdes.

Ela estava temendo a alguma coisa.

Enquanto isso, Nicholas e Raphaela caminhavam pelas ruas, conversando:

– Você só pode estar de brincadeira comigo. Você não consegue ver além do sólido.

– Eu sei que isso é um absurdo, mas acredita em mim. A chance é grande de eu ajudar sua mãe.

– Você apenas quer me confortar com palavras. Médicos fazem muito isso quando querem. Ao contrário de mim, pelo visto você deve estar aprendendo a ser assim para sua futura profissão.

– Se eu estivesse querendo lhe confortar, acharia mesmo que eu faltaria hoje na universidade para isso?

– E por que não? – Ele parou diante dela.

Cansada de ser duvidada, Raphaela mirou seus olhos nele, estando imóvel.

– O que está fazendo? Gostou da minha roupa?

– Você está usando uma corrente à qual sua mãe supostamente lhe deu – relatou. – E seu coração está pulsando muito rápido. Acalme-se.

Nicholas olhou surpreso para ela. Colocando a mão por debaixo da camisa, vagarosamente, ele tirou sua corrente do pescoço, e trocou olhares entre o objeto e Raphaela. Definitivamente, ele estranhou.

Eles chegaram ao hospital. Na recepção, eles estavam sentados aguardando ser chamados. Nicholas não dizia nada. Ele ficou irreconhecível em seu comportamento, superando o seu próprio jeito quieto de ser.

– Venha – disse ele, demonstrando-se impaciente.

Ele se levantou do banco de espera, indo à bancada. A seu pedido, Raphaela foi atrás.

– Eu preciso ver minha mãe, moça – insistiu.

– Desculpe-me, meu jovem. Mas precisa aguardar a autorização do doutor responsável do caso dela para que possa entrar e visitá-la – disse a atendente da bancada.

– Será que vocês não entendem?! – esbravejou alto – Preciso vê-la agora mesmo!

Todos tomaram um susto ali. Inclusive Raphaela.

– Por favor, jovem. Se acalme. Aqui não é lugar para fazer escândalos.

– Ela está certa, Nicholas – concordou Raphaela, pegando-o pelo ombro. Ele se virou para ela. – Não criemos contenda. Eu posso lhe ajudar. Mas não dessa forma. – Sua voz soou baixo nas últimas palavras para zelar o segredo.

Nicholas estava muito transtornado por causa da ânsia em ver sua mãe ao menos diagnosticada e estar ciente, e haver a esperança de vê-la curada. Olhando para um enfermeiro que levava objetos cortantes próximo a ele, pegou um bisturi rapidamente e envolveu Raphaela em seu braço, dando uma gravata e apontando o lado cortante do objeto em direção ao seu pescoço.

– Todos quietos!

– O que está fazendo, Nicholas? – perguntou Raphaela, assustada.

– O que é preciso ser feito agora – respondeu-a. Em seguida, ele começou a olhar para todos lados. – Ninguém ousa se aproximar de nós. – Por último, olhou para a recepcionista. – Leve-nos ao andar onde minha mãe está. Agora!

Nicholas conseguiu o que queria. A recepcionista do hospital designou um enfermeiro para conduzi-lo até ao quarto, sob as mesmas condições: levando sua amiga universitária como refém. Chegando lá, ele simplesmente expulsou o enfermeiro, que foi obediente, e largou Raphaela, fechando a porta.

– Eu já fiz a minha parte. Agora é a sua vez. Ajude-me a descobrir o que minha mãe tem.

– As coisas não funcionam dessa maneira, Nicholas.

– Você provou que pode ajudar minha... – Ele deu uma olhada tristonha para a mãe, que estava inconsciente – mãe. Agora quer se esconder? Anda, fique à vontade. Expulsei aquele funcionário do quarto para manter a salvo o seu segredo.

Raphaela não se movia, apenas o olhava temerosa.

– Vai logo, pois eu mando fazer!

– Não, ela não vai fazer isso. – Uma voz feminina soara no quarto.

Nicholas tomou Raphaela em seus braços novamente, armando o bisturi à altura de seu pescoço, e olhou em direção àquela voz.

– Nathaly? – disse Raphaela consigo mesma.

De fato, era Nathaly. Ela estava usando seu jaleco, sendo uma vestimenta aliada para, de alguma forma, se infiltrar no hospital.

– Como entrou aqui? – questionou Nicholas, franzindo o cenho.

– Nicholas, eu sei que você passa por um momento crítico. Mas sua mãe não deve estar se agradando de você com essa loucura.

Ela não recebeu mais nenhuma resposta da parte dele. Poderia ser o sinal de que ele desistiria daquela loucura. Mas ele tornou a ser agressivo quando Nathaly foi até ele. Agora, ele estava muito próximo à janela com Raphaela ainda sob seu controle enquanto Nathaly estava na posição oposta, onde o próprio Nicholas estava antes.

– Você não sabe o que diz, garota. – Nicholas pressionou o pescoço de Raphaela. – Você vai me ajudar, Raphaela.

– Não... Nathaly está certa. Você está passando dos limites.

– Você havia prometido me ajudar... Traidora!

Uma atitude inesperada aconteceu. Nicholas jogou Raphaela pela janela. Nathaly já estava munida de um instinto animal à qual mantinha-se em alerta para um eventual perigo. Então, ela agiu muito rápido ao aderir da habilidade felina, lançando-se pela janela do terceiro andar. Na queda, ela passou pelo corpo de Raphaela, a pegando em seus braços assim que alcançou o solo; Raphaela abriu seus olhos, e avistou aquele par de olhos verdes a olhando já apreensivos.

Nathaly a colocou no chão, e se afastou um pouco dela. O receio tomava conta de seu ser. Raphaela estava em choque não somente por causa da forçada queda livre, mas também pelo irreal salvamento feito por sua amiga.

– Nathaly... Você... Você é... – Raphaela gaguejava, com seus olhos arregalados.

– Por favor, Raphaela... Eu posso explicar tudo.

Raphaela correu à esquina, que era um beco. Aquela reação preocupou profundamente a Nathaly. Então, Nathaly foi atrás chamando por ela, entrando àquele mesmo beco e vendo sua amiga de costas para ela sem se mover; Nathaly se aproximava lentamente.

– Raphaela, eu sei que, o que você viu, pode ter assustado você... Mas...

Ela foi interrompida e surpreendida com um abraço.

– Você me salvou, Nathaly! Sabia que você era mais do que uma pessoa especial. – Ela pausou. – Eu já estava com medo de ser a única com algum dom.

Nathaly ficou completamente sem ação enquanto recebia aquele abraço e ouvia sua amiga. No meio daquele abraço, elas ouviram um grito de "polícia" no mesmo instante em que um barulho fofo foi escutado por elas. Voltando ao mesmo local da janela do terceiro andar, as duas viram Nicholas estirado no chão. Ele drasticamente decidira se suicidar; Raphaela abraçou Nathaly de lado, impressionada com a cena. E ali ficaram, com olhares de lamento.

De volta à sua casa, Nathaly estava sentada à mesa cabisbaixa, ouvindo algumas broncas de seu pai, que chegara bem mais cedo, antes dela mesma, por conta da visita marcada do profissional designado por Eduard para consertar o registro do chuveiro:

– Não era para ter feito aquilo, Nathaly. Você assumiu um grande risco de ser descoberta. Mas agora sua amiga sabe sobre você.

– Eu tive que salvá-la, pai. Não tive escolha – argumentou, erguendo sua face. E continuou: – Agora, ela é igual a mim, possuindo dons. Ela não contaria meu segredo para ninguém assim como ela não quer que ninguém conte sobre ela. Além do mais, ela teve uma reação positiva.

– Mas e as outras pessoas, como o seu amigo John? Ele é uma pessoa comum, como sua mãe e eu. Ele teria a mesma reação que sua amiga teve?

Notando a alteração de seu esposo, Clara, que estava presente na cozinha, foi até ele.

– Calma, querido. Creia que ela é responsável, como sempre foi. Não se exalte ao extremo, por favor.

Steven olhou para sua filha e para sua esposa, e suspirou.

– Ok... Pelo menos, não falte na aula para salvar o mundo.

O interfone tocou. Clara o atendeu. Steven já se aprontava para receber o técnico. Ao telefone, Clara retorceu um pouco suas sobrancelhas, mas autorizou a subida de alguém. Quando a própria Clara abriu a porta, houve uma surpresa, que fez Steven novamente mudar sua fisionomia quando olhou àquela direção.

– Ela de novo...

Nathaly entrou na frente, gesticulando calma.

– Sim, é ela de novo – confirmou. – Por favor, pai. Jennifer é minha amiga. Ela mudou. E quero ajudá-la a melhorar ainda mais.

– É melhor eu ir embora. Sabia que eles não iriam me recepcionar novamente – disse Jennifer.

– Não. Fica, por favor. – Nathaly olhou para Steven. – Pai...

A cara de Nathaly implorando para que Jennifer ficasse fez Steven conceder àquele pedido, sem dizer mais nada. Mais uma vez, ele depositara sua confiança na filha.

Elas foram para o quarto. E ali conversavam, assentadas na cama:

– Seus poderes são extraordinários, eu confesso. São melhores do que os meus. – Nathaly ria ao falar aquilo no final. – Como eles são definidos?

– Meus poderes são muito complexos. Eles são baseados na Física, a matéria que sempre amei desde criança – explicou.

– Como você os adquiriu?

– Eu não sei muito bem. Apenas lembro que eu voltava da casa dos meus familiares no carro do meu pai na volta do Natal, há quase dois anos atrás. Estávamos felizes com o término do meu Ensino Médio, e já planejando o meu futuro. Minha mãe e ele estavam no banco da frente enquanto eu estava no banco de trás com o meu inseparável e único livro de Física, dado às custas deles; estávamos em alta estrada da Califórnia, quando de repente, apenas vi uma imensa luz na contramão, ocasionando um terrível acidente. – Jennifer, enfim, suspira antes de continuar, levantando-se da cama. – Quando eu acordei toda dolorida no hospital, a primeira notícia que recebi... foi a morte dos meus pais. Aquilo mexeu muito comigo, pois eles eram as minhas referências e me apoiavam na realização do meu grande sonho, que era se formar em Física. Só sei que comecei a descontar a minha angústia e ocupar minha mente com meu livro recuperado nos dias em que permaneci internada em observação no hospital. E do nada notei que eu não era mais a mesma pessoa; acabei fugindo do hospital com meu livro, com medo da pessoa que eu me transformei. Mais tarde, comecei a entender que os meus poderes provinham estranhamente da absorção dos conhecimentos que eu obtinha através do meu livro. Quanto mais me envolvo com essa ciência, mais evoluo nos meus poderes e os mantenho, como se isso fosse minha bateria. Aí, acabei vindo para seu país e conheci Michael, que me ofereceu um falso acalento...

– Interessante. E meus pêsames pela morte dos seus amáveis pais – disse Nathaly, entristecida com a perca de Jennifer. – E sobre o livro? Você ainda o tem?

– Eu o perdi quando resolvi me desligar da quadrilha que tanto me cegou, como foi a de Michael. E...

– E? – Nathaly notou sua vergonha em continuar. Ela se levantou, dando alguns passos até a Jennifer, que estava de costas. – Pode confiar em mim. Não me esconda nada.

Jennifer pegou um livro de sua bolsa e deu para Nathaly. Por sua vez, Nathaly analisou a capa, e viu que se tratava dos principais conceitos e estudos realizados por grandes nomes da Física, sendo encabeçados por Isaac Newton.

– Eu... furtei um exemplar desse livro de uma biblioteca... E é da sua universidade – confessou. – Minhas condições financeiras ainda não são das melhores.

Nathaly não dizia nada com o livro nas mãos. Apenas olhava para sua amiga.

– Não fiz isso apenas por causa dos meus poderes. A Física é a minha paixão. Eu... não queria fazer isso. Quando deixei aquela gangue, prometi a mim mesma que não iria usar mais os meus poderes para roubar. – Jennifer não aguentou, e inclinou a cabeça diante de Nathaly, ressentida. – Continuo tendo o instinto de ladra.

Passos foram dados em direção à desolada Jennifer.

– Não se culpe, Jennifer. Você não perderá minha amizade por isso. Você apenas foi ensinada a ter esse instinto. Mas o mais difícil nós conseguimos, que foi tirá-la das mãos daqueles que lhe ensinavam o roubo – disse Nathaly, colocando uma mão no ombro da amiga. – Apenas lhe peço uma coisa: devolva esse mesmo exemplar no mesmo horário em que roubou. Assim, ninguém a verá devolvendo. Faça pelo bem da sua própria consciência, pela a nova Jennifer que está nascendo em você.

Aquele pedido tornou-se difícil para Jennifer, pois ela precisava alimentar sua paixão em estudar Física. Além disso, de alguma forma, servia como uma fonte de conhecimento e aprimoramento de seus poderes. Porém, o pedido dócil de Nathaly a fez corresponder ao pedido quando pegou o livro das mãos dela, recebendo um sorriso.

– E você, Nathaly? É a sua vez de contar sobre você.

Nathaly hesitou em contar sobre ela, pois teria que envolver a Mãe Natureza e seus supostos planos para ela como destino, ainda todos confusos, que dividiam sua vida literalmente ao meio, gerando a temível incerteza que alimentava a dúvida. Ela respirou fundo ao fechar por alguns instantes aqueles olhos quase cristalinos, e se viu na obrigação de contar todos os detalhes, já que Jennifer fora transparente quando ela contou sobre seu passado. Nada mais justo.

Após uma conhecer melhor a outra, elas deixaram o quarto, e iam à cozinha para se despedirem. Elas depararam-se com Clara, Steven, Eduard e o encanador no cômodo conversando entre eles. Imediatamente, um rápido flashback veio à mente de Jennifer quando ouviu a voz do cientista alemão:

"Qual é o seu nome?"

"... Deixe-me lhe ajudar, minha jovem."

Essas foram as frases-chave que a fez reconhecê-lo quando estava trancada e vendada em uma das salas da empresa em Manchester naquela oportunidade.

Virando-se, Eduard avistou Jennifer ao lado de Nathaly. Houve um congelamento de olhares entre eles por alguns instantes.

– Bem, senhores e senhoritas, eu estou indo. Espero que o problema no banheiro venha finalmente ser solucionado – disse Eduard. – Boa tarde a todos.

Ele se retirou do apartamento, e Steven conduziu o encanador ao ponto do problema. Não perdendo tempo, Clara foi atrás de seu esposo, sorrindo para as jovens quando passou por perto. Jennifer e Nathaly ficaram a sós.

– Nathaly, esse homem é perigoso. Mantenha sua família distante dele.

– Mas por quê? O Sr. Butzek tem ajudado minha família em tudo. Ele conseguiu aquela bolsa de Biologia para mim, e até está arcando com os custos de hospedagem aqui, em Londres. Tudo em prol da filha dele, a minha amiga, que... está em coma.

– Ele me sequestrou, Nathaly. Esqueceu? – lembrou-a. – Se não fosse você, nem sei o que ele seria capaz de fazer comigo. Acho que até sei: explorar meus poderes também de alguma forma.

– Talvez ele queria apenas lhe ajudar, tendo a mesma intenção do que eu; pois, de alguma forma, ele soube que você usava seus dons para roubar sob o controle de Michael – argumentou.

Aquelas palavras sobre Eduard pareciam ter convencida a Jennifer. Até porque, elas vinham da boca de sua confidente amiga. Ela não insistiu mais, se despedindo.

Quando Nathaly voltou ao seu quarto, foi direto ao criado-mudo. Abrindo a única gaveta, pegou uma caixa. Abrindo-a, havia dinheiro. Era a mesada acumulada, que recebia de seus pais. Então, uma ideia fora despertada.

Eduard chegava ao edifício da empresa. Como sempre, ele estacionou seu carro no estacionamento dos fundos. Ainda dentro do carro, ele ficou em transe em seus pensamentos com as mãos ainda sobre o volante, até que pegou sua pasta do banco do passageiro e desceu do carro; ele trancou normalmente as portas do veículo e começou a caminhar pelo estacionamento rumo à porta do prédio. No meio do caminho, ele sentiu um ruído por ali. Então, parou e olhou para trás. E não viu nada. Quando se virou para retomar seu andar, ele deparou-se com Jennifer, que o pegou pelas argolas da camisa.

– O que quer dos Kates?

– Eu que lhe pergunto, jovem. Qual a pretensão da sua amizade com a Srta. Kate? Ainda trabalha para aquela máfia toda de Michael?

– Não lhe interessa. – Ela o empurrou, fazendo-o cair com a pasta, espalhando os documentos. – Mantenha-se longe da família, principalmente da Nathaly.

Um dos seguranças da empresa apareceu por ali na hora.

– Sr. Butzek. – Ele correu até o empresário. – Você está bem? O que houve?

Quando Eduard olhou novamente para frente, não viu mais Jennifer por ali. O seu funcionário da segurança o ajudou a se levantar.

– Apenas caí. Nada demais – respondeu, ajeitando seu terno. – Por favor, peça ao pessoal da limpeza para resolver esse chão tão encerado.

– Sim, senhor.

Ele, então, retirou-se da presença do segurança após arrumar suas papeladas.

Era início de noite. Jennifer chegava ao seu simples, mais humilde e barato, apartamento encontrado por ela para recomeçar a vida na capital britânica por aquela região considerada de classe média. Parando diante da porta, viu uma caixa embalada com um bilhete anexado nela. Pegando-a do chão, entrou. Ela colocou a caixa na mesa e destacou o bilhete, lendo o que estava escrito nele. Apenas havia os seguintes dizeres:

"Para você, amiga. Mas com uma condição: me prove que você devolveu aquele livro à biblioteca.

Ah! Notei que você é admiradora de Sir Isaac Newton. Ele deve estar muito feliz por tê-la como seguidora.

Até mais!

Assinado: Nathaly Kate"

Deimediato, Jennifer rasgou o que embalava aquela caixa de papelão e a abriuainda com pressa. No fundo dela, havia um livro, o que ela pensara. Aquelelivro era do mesmo que ela deveria devolver. Nathaly comprara outro exemplar paraela usar sem nenhum peso em sua consciência. Ela sorriu com os lábios,segurando aquele exemplar novo à altura de seu colo.

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