Capítulo Seis: Cristal

Egito. Uma dupla de historiadores e arqueólogos caminhavam arduamente pelo deserto egípcio, onde havia apenas pirâmides como testemunhas daquela caminhada, com suas mochilas cheias de objetos de trabalho para estudo às costas. Àquela altura, o sol se preparava para se pôr no horizonte desértico, após mais um dia quente.

– Acho que já deu por hoje, Jasmine. Deixemos as nossas pesquisas para amanhã – disse o homem. Ele parecia exausto por sua profissão ser realmente desafiante.

– Aguenta apenas mais um pouco, Christer. Talvez, encontraremos respostas ainda hoje.

– Mulheres: sempre são teimosas. Ainda mais quando são líderes de algo – comentou consigo mesmo.

– O que disse, moço? – interrogou a mulher, que ia adiante de seu assistente, parando e olhando-o em relance.

– Não, nada. – Intimidado por aquele olhar feminino sério, ele levantou a mão direita à meia altura. – Eu juro.

– Hun.

Jasmine, a líder das pesquisas, continuou caminhando enquanto seu auxiliar a acompanhava logo atrás sem ter o mesmo pique. De repente, ela ouviu um barulho às suas costas. Virando-se, viu seu parceiro agachado na areia e voltou até ele para se certificar.

– O que houve? – Ela olhava curiosa.

– Ainda não sei. Mas eu tropecei em algo.

Christer tirou uma espátula do bolso, e começou a fazer uma escavação rasa na região em que tropeçara. Algo soterrado na areia tornou-se visível aos seus olhos. Tirando-o do raso buraco feito, ele o aproximou de sua visão para observar, e constatou que se tratava de um azulado diamante. Jasmine também o identificou ao olhá-lo nas mãos dele, demonstrando perplexidade. Tal diamante era aquele suposto Cristal do Conhecimento, que ascendera aos céus da Floresta Amazônica e se perdera até então pelo mundo afora.

– Esse diamante é tão... diferente – admirou-se Christer.

– Guarda-o na mochila. Depois veremos sobre ele – instruiu Jasmine.

Tomando posse do cristal, eles prosseguiram com a caminhada, que ainda parecia longe de terminar mesmo anoitecendo.

Finalmente, chegaram ao destino tão insistido por Jasmine: era uma pirâmide em específica para estudo. A dupla entrou nela sem dificuldades, não havia a esperada fiscalização do lugar. Eles admiravam-se com tantos hieróglifos registrados nas paredes dos corredores enquanto andavam. Quanto mais eles entravam, menos visibilidade tinham devido à pouca iluminação interna. Mas tal fator não foi motivo para a historiadora líder desistir em chegar ao verdadeiro alvo abrigado pela a antiga arquitetura egípcia. Eles acabaram por entrar em uma parte do ambiente com a iluminação quase nula, apenas com a possibilidade de enxergar silhuetas. Mesmo assim, ainda não havia razões para regressar.

– Pegue uma de nossas tochas da mochila, se não quiser forçar a sua preciosa vista – orientou Jasmine, sendo piadista. Houve-se ecos.

– Se eu conseguir enxergar alguma coisa...

Christer abriu sua mochila em meio àquela parcial escuridão, deixando algumas coisas caírem por ali. Ele esbravejou consigo mesmo. Mas conseguiu achar duas tochas, e as acendeu com uma espécie de fósforo. Com o ambiente sendo mais iluminado, era possível ver que a dupla se encontrava em uma tumba, havendo mais hieróglifos entorno, nas paredes. Ele entregou um daqueles iluminadores para a mulher, que o pegou simpaticamente e começou a andar pelo lugar, e voltou para recolher as coisas que caíram da mochila. Uma delas foi o raro cristal, que caíra de forma ilesa bem próximo ao sarcófago. Quando ele se aproximou para pegá-lo, sem intenção, aproximou também sua tocha. O fogo teve um rápido contato com o diamante, que reagiu com um repentino e moderado brilho em sua superfície, mas o suficiente para que ofuscasse a visão do observador. Ele pegou o cristal em mãos. O modo em que olhava para o objeto era de estranheza, pois notou que o mesmo parecia ter ganhado vida com o calor e voltado ao seu estado normal. O seu lado incrédulo o fez relevar, e guardou o cristal na mochila.

– Você está muito estranho hoje. Está com fome? – perguntou Jasmine olhando de lado. Ela estava diante do sarcófago, o analisando.

– Sim... Talvez seja – respondeu, pensativo.

– Ainda pode aguentar mais um pouco? – perguntou-lhe sorrindo, tirando de sua pochete uma câmera fotográfica; Christer tronchou a cara, ele estava muito cansado.

Eles tiraram algumas fotos dos desenhos cravados nas paredes sob as luzes das próprias tochas. Terminando, deixaram o local, para tamanho alívio de Christer, que estava literalmente fadigado.

– Amanhã tem mais, Christer – disse Jasmine enquanto eles tomavam distância da tumba, sendo guiados pela iluminação da tocha. – Vamos pedir uma pizza quando chegarmos no hotel.

A tumba ficou totalmente na escuridão, e o silêncio passou a ser absoluto. Uma leve brisa invadiu o ambiente, sendo estranho para um lugar tão isolado e inoperante para fortes correntes de ar. Aquele vento começou a se concentrar em volta do sarcófago, criando um pequeno redemoinho em sua base. De repente, uma mão com punho fechado perfurou a tampa de dentro para fora, e ela foi jogada ao chão, havendo um grande barulho, e poeira. Duas pernas parcialmente cobertas por faixas brancas se posicionaram para o ato de sentar; os pés nus tocaram o solo, e uma silhueta ereta e malhada movia-se no escuro, onde apenas os olhos tinham brilho próprio, tendo uma luminescência azul-neon. Deixando a tumba, tal pessoa pôde ser identificada como um homem, e sua postura era de um alguém importante. Os olhos antes azuis brilhantes deram lugar às cores naturais do olho humano, revelando a cor castanha, mediante a melhor luminosidade possível do corredor.

– Tomarei posse do cristal, e finalmente serás minha... bela Mãe Natureza. – A voz grossa e imponente ecoou pelo corredor.

Ele andava pelo caminho rumo à saída da pirâmide, na convicção de que conseguiria realizar seus planos. Planos esses que já devem ter sido traçados há milhares de anos atrás...

Londres, Inglaterra. Na sala dos professores da universidade, George estava sozinho assentado à mesa. Havia muitas folhas sobre ela. Aquelas folhas eram as provas que aplicara às suas turmas um tempo atrás, e ele finalmente conseguira encontrar um tempo para suas correções dentro do prazo letivo. A prova que ele estava corrigindo naquele momento era a de Nathaly. Ele não conseguia achar sequer um erro no questionário, fazendo-o levar sua mão ao queixo, talvez estando impressionado por sua aluna, que não tivera tempo para se preparar antes. Não havia outra nota a não ser a máxima daquele exame, e tal nota foi anotada na lista.

– Muitas provas para corrigir, Me. Hall? – Uma voz familiar chegou aos seus ouvidos, vindo da porta. Então, ele ergueu seu rosto. – Boa noite.

– Sr. Butzek? Sente-se, por favor.

– Agradeço a hospitalidade, mas não costumo assistir correção de provas – disse Eduard, humorado. – Será uma conversa breve.

Hall foi instigado pela introdução do cientista, e parou as correções, levantando-se da mesa e indo até ele.

– E o que seria? É sobre a Srta. Kate?

– Não – respondeu. – Preciso fazer uma viagem, e, já que você tem acompanhado toda a situação, precisarei que cuide da minha filha enquanto eu estiver ausente. Minha esposa vai comigo.

– E... qual seria essa viagem, Sr. Butzek?

– É apenas uma viagem de trabalho. Estarei partindo amanhã pela manhã.

– Como queira, Sr. Butzek. Estarei à frente aos cuidados da sua filha enquanto você não voltar, mas respeitando a minha disponibilidade. – George olhou às suas costas em direção à mesa e endireitou-se para frente novamente. – Como bem sabe, às vezes, professores universitários têm suas agendas cheias.

– Como um empresário, tenho que entender isso. Portanto, não se preocupe – compreendeu. – Bem, preciso ir. Boa noite, Me. Hall.

– Boa noite. Tenha uma ótima viagem.

Antes que rodasse a maçaneta da porta para sair, Eduard virou-se, demorando alguns segundos para responder ao professor.

– Obrigado, Me. Hall.

Eduard sorriu sem mostrar os dentes e deixou a sala, cumprindo com a breve conversa. O professor ainda permaneceu por um tempo no mesmo lugar, como se estivesse pensando em algo, antes de voltar à mesa.

No dia seguinte, em Cairo, capital do Egito, Eduard e sua esposa desembarcaram sob um clima praticamente diferente do clima europeu. O cientista precisou deixar de lado o seu praticamente inseparável terno executivo para aderir-se de vestimentas mais leves, usando camisa social com as mangas longas dobradas e uma calça mais folgada. Luiza também trajou vestimentas mais leves. Ambos carregavam consigo aquelas malas de rodinhas pelas principais ruas da cidade.

– Ainda não entendo o porquê de virmos para cá, Eduard.

– Como eu já havia dito, soube de uma descoberta nessas terras. E queria me certificar disso, querida.

– E voltaremos rápido para Londres? Eduard, não podemos protelar com a situação de nossa filha.

– Luiza, querida. – Ele parou e fixou seu olhar nela. – Não fique preocupada. Nós vamos conseguir tirar Juliana daquele estado. Aliás, você sabe que eu designei uma pessoa para nos substituir nos cuidados dela.

– Não é o momento certo para deixar alguém observando Juliana juntamente a nossa equipe por nós, Eduard. Isso é um verdadeiro desfalque.

– Mas não podemos parar no tempo, Luiza. Assim como a vida, o trabalho continua – advertiu. – Agora vamos.

Luiza calou-se. Então, eles se dirigiam a um hotel para se hospedarem.

Londres, Inglaterra. Pela primeira vez, Raphaela recebeu a visita de sua amiga Nathaly em seu apartamento. Elas estavam conversando bastante na cozinha para aproveitar ao máximo aquela visitação e o momento entre amigas, engajando muitos assuntos. Um momento mais do que importante para que elas pudessem se conhecer ainda mais, e melhor. Mas a conversa tomou outro rumo, provocado por um incômodo na consciência:

– Eu ainda não entendo o porquê meu pai não aceita a minha amizade com Jennifer, mesmo havendo provas de que ela mudou – disse Nathaly.

– Ele apenas quer lhe proteger, Nathaly. Diferentemente da sua mãe, ele ainda precisa se acostumar com sua boa intenção em querer manter a amizade com ela. Até porque, a Jennifer tem um histórico bem ruim, com todo respeito.

– Mas o fato é que ela mudou. E para que ela não volte a fraquejar, preciso estar ao lado dela.

– Sabe... Admiro sua pessoa, Nathaly. Nunca vi uma pessoa tão boa e piedosa quanto você – disse Raphaela, abrindo um largo sorriso de satisfação. – Sinto-me orgulhosa em ser sua amiga.

Aquelas últimas palavras e o sorriso de Raphaela fizeram Nathaly ter uma rápida lembrança de Juliana. Observando-a por alguns instantes, ela chegou até a imaginar sua amiga de tempos de escola diante dela. Parecia que aquela amizade atual era literalmente o recomeço de uma amizade que estava em própria Juliana, que poderia ter sido perdida.

A conversa entre elas não teve continuidade quando Nathaly calou-se repentinamente, para estranheza de Raphaela, que a olhava. Ela começou a sentir leves pontadas em sua cabeça, até que os sintomas ganharam força, fazendo-a levar suas mãos à cabeça.

– Nathaly? O que você tem? – perguntou Raphaela, indo rapidamente até sua amiga.

– Pontadas em minha cabeça... – Uma voz imprensada saiu dos lábios de Nathaly.

– Vamos tomar um remédio, então. – Raphaela já ia buscar a medicação.

– Não. – Nathaly a segurou pelo braço. – Não posso tomar nada industrializado... Eu já sei quem está por detrás disso.

Nathaly levantou-se e, apressadamente, saiu do apartamento sem deixar explicações à Raphaela, que, preocupada, chegou a ir atrás dela, mas parou à porta. E ali ficou.

Em meio às altas vegetações da Floresta Amazônica, Nathaly surgira andando entre as folhagens, tendo algumas eventuais dificuldades ao longo da caminhada; ela olhava para um lado e outro, para se certificar de tudo à sua volta e evitar que alguém a visse por ali teoricamente perdida. Ela chegou ao ponto onde sempre se encontrava com a Mãe Natureza. Em um rosto fechado, sério, ergueu seu invejável olhar verde para o alto, passando a encarar o invisível.

– O que ainda quer de mim? Por que me traz essa dor de cabeça? – Não houve resposta, senão ecos de sua própria voz. Ela ainda ouvia o barulho das folhas das imensas árvores tropicais da floresta. – Por que não me responde?

– Nathaly. – A voz da Mãe Natureza veio precedida por uma brisa, e um brilho em terra surgiu detrás das árvores à frente, surpreendendo Nathaly, que a esperava surgir do alto com seu brilho. – Que bom que vieste. Preciso que intervenhas contra uma iminente situação: o Cristal foi achado no Egito, e preciso que recuperes das mãos erradas. E saibas que as dores de cabeça não sou eu quem as provoco. A tua resistência ao chamado tem lhe trazido consequências. E quando o reino precisa de ti, então torna-se inevitável.

– Não farei mais nada em seu nome. Estou cansada de ser colocada às provas, como se eu fosse a sua empregada, ou serva. Eu quero ter vida! Como todo ser humano tem direito. – Nathaly começou a encarar o brilho, enfrentando consequentemente a própria Mãe Natureza. E houve um efêmero intervalo no diálogo.

– Filha, sei que carregas dentro si um grande conflito ao meu respeito, tu e tua família, não confiando em mim; porém, se fores ao Egito, saberás da verdade enquanto recuperares o Cristal.

Nathaly certamente não se agradou ao ser chamada de filha. E Mãe Natureza provavelmente percebera a insistência de sua rejeição para com a intimidade. O silêncio da jovem continuava.

– Se esta condição ainda não convence-lhe, permita-me que eu mesma lhe conte o que precisas saber.

Tomada por um mero coração aberto para ouvir, Nathaly permaneceu ali, imóvel. O brilho intenso que emanava da presença da Mãe tornou-se ainda mais intenso aos olhos de Nathaly, que praticamente foi envolvida pela luz.

Egito. No hotel, Jasmine analisava as fotos dos hieróglifos tiradas do interior daquela pirâmide. Enquanto ela estava distraída com as figuras, tendo muita atenção nelas, Christer estava com o cristal em mãos, o observando. Cansado de analisar o diamante, ele foi até sua companheira.

– Alguma novidade, Jasmine? – Christer aguardou para ter uma resposta.

– Sim... Muitas coisas dessas figuras batem com as nossas expectativas: Parece que realmente somos viajantes nesta Terra. E há muitas outras coisas também.

A resposta de Jasmine o impressionou. Ela notou em seu rosto que ele ainda estava um pouco confuso com a tal conclusão. Então, a historiadora começou a organizar as fotos em uma espécie de linha do tempo e começou a contar com base naqueles hieróglifos egípcios nas fotos, e nas histórias ouvidas, levando-os a uma viagem mental no tempo.

A Terra era rochosa e vazia. A luz da grande estrela amarela, o sol, raiava sobre a face do planeta em meio a um céu negro. Após milhares de anos naquela situação, uma grande força desconhecida provocou uma gigantesca evolução por toda sua superfície: vegetações de diferentes espécies começaram a crescer em perfeita harmonia, criando extensas áreas verdes, e águas jorravam em grande volume debaixo da terra, formando rios e mares; a luz solar sobre as águas formou um novo céu, passando a ser azul, e o vaporar das águas e novas composições químicas criaram as nuvens para servirem como sombra aos vegetais e irrigação através da chuva, criando um perfeito ciclo.

A Terra se tornara em um lindo e admirável paraíso terrestre quando todas aquelas coisas surgiram. Porém, era um paraíso morto, sem sinal de vida, com exceção das vegetações. Então, uma voz em meio ao vento soou, e os animais foram criados, desde o menor ao maior. E a maior criação foi os dinossauros, sendo os mais imponentes animais sobre a face do planeta. Todos viviam em perfeita harmonia, alimentando-se dos frutos que as plantas os davam. No final, tudo foi constituído por um ser, que se apresentou aos animais e passou a viver com eles, dando início a um reinado, o reinado da Mãe Natureza. Ela notara que havia pouquíssimo oxigênio para tantos seres criados, e criou a sincronia das trocas gasosas entre os animais e plantas; as plantas passaram a produzir oxigênio para o ar enquanto recolhiam o gás carbônico da aspiração dos animais para se sustentarem.

Porém, anos mais tarde, a Terra sofreria um grande bombardeio dos céus. Asteroides de diversos tamanhos destruíram tudo o que a Mãe Natureza fizera, devastando seu reino perfeito. Uma dura realidade se fez presente na vida da criadora, se vendo forçada a reconstruir tudo o que fizera. Mas, após a queda dos asteroides, ela notara que as pedras destruidoras não vieram sozinhas. Estranhas naves aterrissaram bruscamente em meio àquela chamada chuva de meteoros, trazendo seres cujo a própria pessoa da Mãe Natureza de alguma forma os conhecia: os humanos. Poucos sobreviveram à queda, mas precisou de pouco tempo para se multiplicarem e tomarem posse do novo lar que fora reconstituído pelas mãos da Mãe, que recriou os animais – exceto os dinossauros, que mostrava sinais da consideração da Mãe Natureza aos seus visitantes, os humanos – e todos os recursos naturais de antes.

Entre os quatro cantos do mundo, uma ascendente civilização formou-se ao norte da África: a egípcia. O povo egípcio sempre admirou as belas coisas que a Mãe Natureza os oferecia sem saberem sobre sua existência. Além disso, não havia conflitos entre os animais e humanos. Tudo era harmônico. As espécies não eram abatidas para servir como alimento, pois o povo se alimentava de frutas, verduras e legumes. Dentre tantos outros episódios magníficos, o Egito chegou a sofrer de seca com a ausência das chuvas, mas elas vieram pelas mãos da Mãe Natureza. As pessoas ficaram maravilhadas, e uma forte cogitação da existência de um ser entre elas permeou os quatro cantos do Egito.

Do alto da varanda de seu palácio, um faraó chamado Radamés observava a cidade e a tamanha fartura que a terra dava.

O que fazes aí, meu esposo? O que tanto prende o teu olhar? perguntou sua mulher, sendo formosa em sua beleza, que veio por trás colocando o queixo em seu ombro.

– Estou admirando a terra que vivemos. Este lugar é realmente bom para se viver, longe da prisão que os nossos antepassados viviam antes de fugirem para cá – disse Radamés, com as mãos para trás e peito ereto. – Há mesmo neste lugar um governante, ou governanta, que tem nos proporcionado tudo isto? Se houver, realmente se importa conosco.

– Não sei lhe dizer, querido. Mas temos aos nossos deuses, e, portanto, não estamos sozinhos. Olhe para trás, e veja quantos sinais presenciamos. O livramento da grande seca do Egito foi o maior sinal de que devemos a eles.

– Tomarei um ar – disse ele virando-se, deixando sua esposa o acompanhar no olhar.

Ele saiu do palácio e deixou a cidade sozinho montado em seu cavalo. Ele recusara a escolta de seus guardas, no intuito de ficar só no meio do nada, o que não era comum. Quando desceu do animal e se distanciou dele, ele elevou seus olhos para um céu alaranjado provocado pelo fim de tarde, e meditava. Logo, tirou seus olhares de observância, passando a olhar adiante, para o horizonte.

– De fato, tudo que há nesta terra não foi criado em vão. Vegetais, animais, água, absolutamente nada pôde ser feito sem alguma intervenção – falou. – Portanto, quem és tu, que formaste tantas coisas? Revele-se ao grande faraó.

Um vento começou a soprar, chocando-se em suas costas e balançando suas nobres vestimentas. Olhando para seu cavalo à frente, percebeu um comportamento diferente, como se estivesse dando reverência a alguém ao inclinar sua cabeça. Sua feição mudou, como resposta àquele fenômeno da brisa e reação de seu animal. Então, um brilho emergiu atrás dele a poucos metros. Não havia como ele não notar tal brilho.

– Quem está às tuas costas é a pessoa de quem falas e procuras. – Uma voz suave, doce e feminina, penetrou fortemente os ouvidos de faraó. De imediato, ele se prontificou a virar-se. – Não tornes teu rosto para mim. Ainda não estou pronta para que humanos vejam a minha pessoa.

– Então... é você. A pessoa que salvou e prosperou Egito com os meios que esta terra possui – disse ele, olhando de lado em respeito ao pedido daquela voz, a voz da Mãe Natureza. – Por que tens feito tudo isto a nós, já que és desconhecida diante de mim?

– Quero que tudo seja diferente da escravidão que os seus antepassados viveram em outra terra, que sacramentou a perigosa fuga da raça pelo universo, caindo aqui.

– Acabaste de dizer que é a mesma que governa a outra terra com seu jugo impetuoso, como os nossos pais contaram-nos. Como saberei que mudaste? Será que tudo o que nos tem feito não seja para nos enganar?

– Na verdade, sempre fui a mesma. Não sou aquela que cativa as espécies às suas leis. Eu sou outra a quem ninguém chegou a me conhecer, que sempre procurou intervir contra a rigorosidade encontrada naquela terra cujo seus semelhantes escaparam. Mas fui excluída daquele reino como braço direito por conta das minhas intenções benignas.

– Se és outra a governar toda esta terra com suas criações, e queres ser transparente, permita-me que eu contemple a sua verdadeira face.

– Torno a dizer que não estou pronta para isso. Contudo, garanto-lhe, também aos demais, que provarei a minha benignidade, e todos verão quem eu realmente sou, e a proposta que tenho a toda a Terra.

– Então, ao menos diga-me quem és a outra cujo tu eras o braço direito. Quero saber mais sobre ela através de sua boca.

– Importa-me que a tua geração e a tua descendência esqueçam do passado, pois não mais os agrega para o futuro. Apenas confies em mim.

Radamés, diante da grandiosa Mãe Natureza, firmou a aliança oferecida por ela com o propósito de incluir os humanos ao seu democrático reinado, depositando a confiança nela. E assim retornara ao palácio, anunciando as boas novas primeiramente à sua esposa, que creu nas palavras de seu esposo. De fato, havia um ser que prosperava a Terra, trazendo sustento às suas criações e, consequentemente, eram contemplado pelos humanos por muitos anos, sem o real consentimento de que era Mãe Natureza.

A margem de tempo para que a correspondência à aliança fosse feita pela Mãe foi curta. O Egito passou a ter muitas áreas verdes, extinguindo as areias, para melhor plantio e fauna; os animais nunca estiveram tão harmônicos com os humanos como começou a ser naquele novo tempo: muitas espécies passaram a ser domesticadas entre as famílias em maior número. As crianças brincavam livremente com eles, não havia perigo algum; outras espécies serviam como auxiliadores de trabalho humano, como transportar colheitas indiscutivelmente prósperas. Mãe Natureza tinha total liberdade em operar sua supremacia natural, e o povo maravilhavam-se a cada dia com a tamanha bondade demonstrada por ela.

Certo dia, Radamés convocara todo o seu povo para o imenso pátio proclamatório da cidade. E eles estavam lá. No centro do pátio, um altar de pedra fora levantado pelos sacerdotes egípcios de faraó; logo, outros servos traziam consigo um bezerro recém-nascido mobilizado por cordas, e o colocaram sobre aquelas pedras. Ao lado de sua mulher, e também acompanhado pelo governador, Radamés assistia.

– Povo do Egito. Com imensa satisfação, estamos reunidos para reconhecer aquela que tem trazido todos esses benefícios à nossa civilização, tornando-nos uma nação privilegiada e próspera. Devemos reconhecê-la como uma mãe, assim como ela já é a todos animais da terra, do céu, e do mar, todos em seus sangues, e à toda vegetação; pois ela cuida dos seus. Por isso, digo-vos que ela não será mais anônima entre nós. Lhe será dado um nome. Por sua majestade e criadora desta natureza, e por cuidar de todos que nela há, seu nome será por Mãe Natureza. Os nossos deuses se orgulham dela!

Houveram aplausos e gritos após o pronunciamento do faraó, que batizou a Mãe Natureza com o seu atual nome.

– Agora, ofereçamos este animal – Apontou em referência, sob uma pausa – como oferta de reconhecimento a ela, pois de suas entranhas ele veio, e para ela voltará – continuou o faraó.

Todos ficaram em silêncio. Um dos servos sacerdotais posicionou-se diante do altar e puxou um punhal recém-afiado para realizar o sacrifício do inocente bezerro. Lentamente, ele posicionava à meia altura o objeto cortante em paralelo ao abdômen do sacrifício. Mas o animal foi possuído por uma força descomunal, soltando-se das cordas e fazendo fuga dali sem êxito de captura, desfazendo o ritual. Radamés olhou aleatoriamente para o nada, e logo uma mensagem viera aos seus pensamentos: Mãe Natureza o teria advertido indiretamente, condenando sacrifícios de suas criações pelos homens. Mais uma vez, era vista a sua benignidade, e todos puderam comprovar naquela reunião; o faraó ficou ainda mais encantado, se não, temeroso.

A relação entre os homens e a Mãe Natureza ficou bastante estreita. Tudo ia realmente bem, como ela planejara. E em um certo dia, Radamés retornou ao mesmo ponto onde eles tiveram a primeira conversa. Lá, apreciava a paisagem, que agora era verde e bonita. E, então, Mãe Natureza se apresentou a ele:

– Radamés – chamou-o. Ele foi tomado pela sua doçura voz, e não ousou a se virar para ela, sabendo o que fora lhe ordenado antes. – Eis que é chegada a hora: Decido mostrar a minha face, pois vejo que todos estão preparados para me conhecer, e assim estou também preparada para estar junto a todos, face a face, assim como a sou com toda a minha criação desde o princípio.

– Grandiosa Mãe Natureza. Que honra sua presença – disse o faraó, que já parecia estar animado com a notícia. – Então, poderei tornar o meu rosto para ti. Agora.

– Ainda não vires. Não quero apenas revelar minha pessoa para ti. Quero que todos me conheçam simultaneamente – introduziu. – Marque uma cerimônia com todo o povo de sua nação. Irei aparecer diante de todos; porém, advirto-lhe: não quero que me façais como uma deusa entre vós, incluindo-me aos seus deuses e fazendo sacrifícios ou levantando estatuetas que possam me representar.

– Como desejas, Mãe Natureza. Convocarei o povo para este grande feito.

– Deposito minha confiança em ti. Até a grande cerimônia, Radamés.

O brilho às costas de faraó se desfez, terminando aquela importantíssima conversa.

– Isso não me convence – contestou Nathaly, olhando seriamente para um brilho já menos intenso, interrompendo as explicações e relatos da Mãe Natureza. Tais explicações, até então, coincidiam com o que os próprios historiadores abordavam no hotel em Cairo naquele mesmo momento. – Por que ainda se esconde de todos, então?

– O que lhe contei até aqui foi registrado pelos servos de Radamés; no entanto, o que contá-lo-ei agora não foi registrado em meio algum. Preciso que confies em minha própria palavra, Nathaly...

Radamés voltou ao seu palácio, dando a grande notícia à sua esposa. A forma como ele noticiou à sua amada o fez parecer estar hipnotizado. Aquilo perdurou de modo a enfraquecer o momento íntimo entre o casal no quarto naquela mesma noite, onde ele simplesmente se recusou a ter relação com sua mulher, para a estranheza dela.

No dia seguinte, Radamés chamou o seu governador para a sala do trono, e o entregou um projeto em pergaminho. Ele o abriu, e olhou atônito para faraó.

– Decerto, não ferirás a lei dos homens, mas desonrará a confiança da qual Mãe Natureza repousou sobre ti, majestoso Radamés – comentou o governador.

– A onisciência não é a sua maior virtude. Portanto, fareis sua imagem, e colocareis na sala de nossos deuses, ao lado deles estará – disse Radamés. – Chamai a todos os prestadores, para que tal obra seja realizado o mais breve possível.

O governador deixou a sala com o pergaminho em mãos. A natureza religiosa egípcia enraizada em Radamés o fizera transgredir a ordenança dada por Mãe Natureza: não fazer uma imagem dela.

Em pouquíssimo tempo, a estátua representativa foi levantada, e colocada sobre o pedestal reservado na sala dos deuses egípcios. Sua aparência imaginária era impecável: curvas femininas precisas formadas pelo desenho de um vestido em seu corpo e cabelos longos até a cintura; rosto erguido, belo e delicado, ao mesmo tempo que era imponente, e com uma das mãos levadas ao peito. Diante daquela estátua, estava Radamés admirando a obra, parecendo cobiçar a própria imagem.

Deixando o que fizera de lado, Radamés acelerou a organização da esperada cerimônia proposta pela Mãe Natureza, que levo poucos dias. Quando o grande dia chegou, faraó se encontrou com o governador na sua sala do trono. Naquela altura, estavam sós, pois ele ordenara que seus guardas e servos se retirassem.

– Já está tudo pronto?

– Sim, senhor Radamés.

– Ótimo. Mais planos para esta cerimônia há de vir...

– E o que as tuas palavras sugerem, meu senhor?

Radamés levantou-se do trono, desceu os degraus e começou a andar pelo lugar.

– Tomarei Mãe Natureza para mim. Digo isto não somente por causa de seu poder, mas por sua beleza já ter me dominado. Aquela voz, sua serenidade, a imagem de escultura que não se desprende dos meus pensamentos... – Radamés virou para ele, estando sério – Esta cerimônia será a minha chance de tê-la para mim. Espero contar contigo para que não contes nada sobre isto. Seremos uma só carne, e o Egito viverá uma nova e grande era neste mundo, sendo a maior das nações.

Sua esposa aparecera às redondezas da sala, e acabou por ouvir aquela conversa. Ela estava prestes a ser traída pelo seu marido naquela cerimônia. Assustada, ela tomou distância da porta e correu pelos corredores do palácio sem dar explicações aos seus subordinados, que ela eventualmente os encontrara no caminho. Tal atitude a levou para fora da cidade, isolando-se, no intuito de alertar. Ela retomou o ar após correr muito, antes de falar qualquer coisa no meio do nada.

– Oh! Tu, quem atendes por Mãe Natureza: sei que podes falar conosco, pois tu se apresentaste ao meu esposo no primeiro encontro, e anunciaste a cerimônia da sua revelação – disse a mulher, que recebeu o silêncio às suas palavras. – Embora não queiras conversar por estar se preparando ao evento, venho-lhe dizer que, além de ter levantado uma imagem tua para adoração e cobiça própria, o meu marido conspira contra ti, querendo lhe possuir. Ele também quer tragar para si a sua exclusiva majestade. Portanto, não apareças nesta cerimônia. Desista!

O vácuo ainda se apresentava como resposta. Com receio de seu marido sentir sua falta, ela apressou seus passos para retornar à cidade, com a missão de alerta cumprida. Em contrapartida, outro problema poderia a afligir: ter que aguentar a estar ao lado dele sabendo de seus próprios interesses.

Tudo estava preparado conforme orientado pela Mãe Natureza. O local da respectiva cerimônia era aquele mesmo imenso pátio da cidade. Radamés apareceu ao povo ao lado do governador, e de sua esposa; às suas frentes, havia um corredor formado por guardas, que se estendia até as gigantescas portas da entrada da cidade, enquanto o povo ficava ao redor como espectadores daquele evento supremo.

– Povo do Egito. Hoje, temos um grande encontro. Nos encontraremos com aquela que livrou a nossa nação da terrível seca e trouxe fartura ao Egito e aos nossos celeiros, e cestos. A mesma experiência que tive estando diante dela todos vós a terão – disse o faraó, imponente na voz. – Agora recebam-na, a mãe de toda a natureza, a também por sinal a nossa mãe adotiva, e rainha... Mãe Natureza.

Após bradar o nome da Mãe Natureza, ele estendeu seu braço direito em direção às portas. Os sentinelas que ali estavam codificaram aquele gesto, e as abriram; Radamés abriu um sorriso provocado pela expectativa traçada, e seu governador o olhou naquele mesmo instante. Todos dirigiram seus olhares à entrada, também munidos de uma expectativa. Mas nada passara pela porta a não ser uma mera corrente de ar. Aquilo frustrou a faraó e seus planos. Era perceptível em seu rosto. Ele olhou lentamente de lado para sua esposa, parecendo adivinhar o que ela fizera sem seu consentimento; ela devolveu aquele olhar tentando manter o êxito em sua neutralidade. E um grande burburinho começou entre o povo.

– Silêncio! – gritou, dando uma pausa, e todos se calaram. Radamés estava imbuído de ira. – Vejam! Olhai para aquela porta. Eis que ela fugiu do que prometera, que era mostrar a sua face. Ela não passa de uma mentirosa, que tem nos comprado com seus feitos, se aproveitando de nossas necessidades. Agora, verdadeiramente conhecemos a Mãe Natureza. É uma aproveitadora para querer estar sobre os nossos deuses, e exercer as suas leis sobre cada um de nós! Verdadeiramente, ela é a impostora que os nossos pais sempre nos contavam!

Todos que ouviram aquele discurso esbravejante de Radamés foram persuadidos – exceto a esposa, que sabia da atual verdade, e o governador, o cúmplice do esquema conspiratório – e começaram a protestar em voz alta, ora ovacionando seus deuses, ora dizendo palavras contra a Mãe Natureza. Dois extremos. As vozes de revolta soaram como música aos ouvidos de faraó, pois viu que as pessoas tinham compreendido suas palavras – as falsas palavras –, jogando todo o povo contra a Mãe. Uma vingança para repor seus planos fracassados.

Ao mesmo tempo que ocorria aquilo, na sala das estátuas de deuses egípcios, dois sacerdotes mantidos em sentinela andavam pelo local quando começaram a sentir um leve tremor, fazendo-os parar próximos à estátua feita de Mãe Natureza; a escultura começou a se rachar debaixo para cima. O tremor ia aumentando, e, olhando para aquela imagem, os homens viram as rachaduras crescendo cada vez mais, até serem surpreendidos pelos primeiros pedaços caindo ao solo. Eles correram a tempo, e a estátua foi totalmente destruída pela força do tremor repentino.

Egito não foi mais o mesmo após aquele episódio. Com o respeito à natureza em decadência, muitas espécies de animais declararam guerra aos homens através de ataques mortais em defesa às suas áreas e até mesmo em defesa à difamada criadora. Esses ataques também resultaram em mortes de espécies em batalha com os homens da terra, acontecimentos que culminaram nos primeiros abatimentos de animais para suas carnes serem usadas como alimento humano. Esse foi o primeiro pico que entristeceu a Mãe Natureza e desiquilibrou totalmente o seu reinado natural, perdendo a harmonia entre os humanos e a natureza; o outro pico de mesma finalidade foi os primeiros desmatamentos para construções civis e outros meios. Isso se espalhou pelos quatro cantos do mundo devido a má fama da Mãe imposta pelo faraó.

As fotografias sobre o gabinete do cômodo do hotel acabaram, terminando a viagem no tempo através da imaginação. Christer se afastou e levou sua mão ao queixo, dando às costas para Jasmine.

– Por isso o Egito é tão desértico nos dias de hoje, e o mundo de hoje é o reflexo de tudo isso – disse ele, voltando-se para sua colega. – Mas isso é tanto quanto confuso. De acordo com os meus conhecimentos, a personificação da Mãe Natureza foi muito popular na época da Idade Média, sendo que pode haver raízes traçadas na Grécia Antiga; além disso, ela me lembra muito a deusa Gaia... De qualquer forma, se formos levar para essa tese, não faz sentido Mãe Natureza ter sido uma propriedade egípcia à galeria de seus milhares de deuses.

– Eu também estou um pouco confusa com isso, mas a civilização egípcia, segundo a história, é a mais antiga de que temos conhecimento... Deve haver algo em oculto na história da humanidade, e precisamos prosseguir para obter mais respostas, embora essa história toda possa ser apenas uma fantasia escrita por homens para explicar o nosso presente. E quem sabe obteremos a veracidade para responder às nossas indagações, sabendo sobre a existência da julgada deusa pelos egípcios e que ela possa ser a responsável pelo o que descobrimos até aqui.

– E como podemos fazer isso?

– Indo ao antigo palácio de Radamés – respondeu, prontamente.

Christer a olhou um pouco surpreso com a resposta. E Jasmine concordava consigo mesma balançando a cabeça, estando assegurada do que dissera.

Quanto aos relatos, eles ainda não acabaram. Mãe Natureza contou mais supostas coisas, dando sequência ao que os historiadores não puderam descobrir e provar por meio dos registros da antiga civilização egípcia.

Os anos se passaram, e o Egito sofrera muitas consequências, perdendo a rica fauna e voltando a ser seco. O amor entre Radamés e sua mulher não era mais o mesmo: ele desconfiava dela por agir indiferente para com ele, e ela tentava o evitar ao máximo sem dar pistas da verdade. Além de estar decepcionada por causa das más intenções de seu esposo, ela não concordava com o decreto contra a Mãe Natureza. Então, ela formou um grupo secreto pró Mãe Natureza.

Após mais um dia em que se reuniu com os membros do grupo, ela retornou ao palácio, e andava normalmente por ele quando um guarda a abordou:

– Senhora?

– Sim?

– O faraó, teu esposo, quer falar com a senhora na sala do trono.

A mulher, então, se dirigiu à sala encarando aquele chamado como algo comum entre um casal. Chegando lá, o avistou bem sentado em seu trono, sendo abanado pelos seus dois servos enquanto tomava sua taça de vinho. Ele de pronto se levantou com a taça em mão quando viu sua esposa indo até ele.

– Onde esteve, minha mulher?

– Estava precisando tomar um ar, Radamés.

– Hm... – Arqueou uma sobrancelha – Nunca a vi precisar de tanto ar ultimamente.

– Tu sabes que o Egito está muito quente por estar novamente seco. E isso tem afetado minha saúde.

Aproximando-se mais de sua mulher, Radamés começou a observá-la dos pés à cabeça enquanto a rodeava. Aquilo a fez engolir em seco. Ele ainda a cheirou pelo pescoço e, dando mais um gole de vinho, fixou seu olhar nela.

– Não parece ser isso... – disse ele, criando um suspense e lançando medo sobre ela – Tu tens sido a líder de um grupo que promove... a Mãe Natureza.

– Como assim, Radamés? – Ela começou a dar sinais de nervosismo, por medo – Respeito o meu esposo e suas decisões. Sou fiel.

– Tenho uma testemunha que é mais fiel do que ti.

O governador apareceu por ali, olhando cinicamente para a mulher. Ela imediatamente obteve a resposta de como seu marido soubera das informações: ele as obteve através do governador, que certamente foi convidado e, juntos, a perseguiram por um tempo. Radamés se afastou dela, dando espaço para que dois guardas a segurassem.

– O que está fazendo?

– Tu não me enganas. Se tu se dispôs a infligir o meu decreto, também estarás disposta a morrer pela Mãe Natureza.

Ela logo se desesperou. Seus gritos por misericórdia ao esposo não o sensibilizavam. Enquanto os guardas praticamente a levavam arrastada, o faraó dava mais um gole de vinho assistindo àquela cena desesperadora, sendo literalmente frio.

E tal frieza não pararia por ali. Ainda naquele mesmo dia, ele sentenciou sua própria mulher, e logo houve uma caça em massa dos seguidores do grupo pelos guardas egípcios, e ninguém conseguira fugir da sentença à morte.

O pátio principal era o palco da execução. Lenhas foram colocadas no chão, e uma fogueira foi feita. Dentre todos sentenciados, Radamés fez questão em fazer sua esposa ser a primeira a encarar a morte.

– Tenho vergonha dessa mulher como minha esposa. Ela nos afrontou, envenenando outras mentes para seguir a Mãe Natureza, a traidora e mentirosa, quebrando a lei que há no Egito, e indo contra aos nossos deuses. Por esta razão, e para o bem de todos e à nossa liberdade, ela e seus seguidores devem morrer de modo a não sobrar nada de seus corpos, para que não sejam lembrados de que existiram.

Os cidadãos gritavam contra o recém-movimento em favor da Mãe Natureza, e apoiavam as execuções. Um guarda segurou a mulher amarrada por cordas em seus membros superiores e inferiores, e ela via as chamas cada vez maiores conforme ela era forçada a se aproximar do fogo. Em um sinal de Radamés, o guarda deu um único empurrão na condenada, e ela caiu de bruços na fogueira. Apenas gritos agudos foram ouvidos enquanto as chamas engoliam todo o corpo da mulher; Radamés mantinha-se impiedoso, permitindo que as mesmas chamas que consumiam sua mulher viessem ser refletidas em seus olhos, e os gritos serem simplesmente ignorados pela sua cruel consciência...

– Esta é toda a verdade, Nathaly finalizou a Mãe. – Não obrigar-te-ei a crer em minhas palavras. Cabe a ti me dar ouvidos.

Nathaly ponderava ao inclinar a cabeça, e não respondia. O livre arbítrio de pensamento apresentado pela Mãe Natureza talvez teria feito as palavras penetrarem no mais íntimo de seu ser. Seus olhos percorriam o solo enquanto processava muitas coisas em sua mente. Ela rapidamente girou seus calcanhares, dando às costas e já se retirando a passos rápidos.

– Onde vais?

Parou por um segundo.

– Para o Egito – respondeu.

– Espere por um instante, Nathaly. Ainda não é a hora. Precisas de mais instruções de mim.

Ela olhou de lado. Sem dar chances para Mãe Natureza a impedir por meio de mais palavras, Nathaly seguiu em frente, a passos rápidos, desaparecendo de mato a dentro. Era claro de que ela queria resolver logo a situação para ter paz.

Enquanto isso em Cairo, Luiza estava em uma praça de alimentação cinco estrelas do hotel estabelecido no térreo, havendo muitos hóspedes assentados às suas mesas e outros andando pelo setor naquele momento – sem contar a sonoridade provocada pelas diversas vozes no ambiente. – Em meio às pessoas, Eduard surgiu diante de seus olhos quando aquele mar de pessoas se abriu para sua educada passagem. Ele aproximou-se da mesa onde sua mulher estava e tomou seu assento.

– Está tudo bem com a nossa empresa em Londres? – perguntou Luiza, que recebeu olhares de seu marido antes de ser respondida.

– Não está bem... Está tudo ótimo, Luiza – sorriu. Ele pegou uma taça de vinho e deu um gole.

Olhando para o lado, Eduard ficou estático quando viu duas pessoas com mochila nas costas conversando enquanto iam em direção à saída. Era a dupla de historiadores, Jasmine e Christer. Aquela incessante observância neles o fez esquecer que estava ali com sua esposa.

– O que foi, Eduard?

– Fecha a conta. Precisamos ir agora.

Eles se levantaram e Luiza fez uma cara como se estivesse estranhando seu marido, e deixaram a praça.

Londres, Inglaterra. Tendo o rádio sintonizado como seu companheiro em momento só no apartamento, Clara realizava seus afazeres domésticos para deixar tudo arrumado e receber seu esposo e a filha. Ela estava na cozinha guardando algumas louças que estavam no escorredor quando sentiu que a temperatura do ambiente havia caído um pouco, uma friagem repentina, do nada. Não demorou muito para que ela identificasse que seria uma leve corrente de ar, provavelmente estimulada por uma típica mudança londrina no tempo. Após desligar o aparelho radiofônico, Clara foi se certificar de onde aquele vento estava vindo, levando-a ao quarto de Nathaly. A janela estava aberta, e as cortinas sofriam o atrito do sopro, que ficou um pouco mais forte e quase produzindo sons. Ela observou a janela por um tempo quando resolveu ir até lá para fechá-la. Quanto mais ela se aproximava, mais a corrente de ar era forte sobre o rosto. Em um dardo momento, aquele vento começou a envolvê-la, fazendo-a parar. Ela já não tinha mais controle sobre o seu corpo, e ele foi levitado eretamente a aproximadamente dois centímetros do chão. Então, as correntes de ar se transformaram em curvas, formando uma única silhueta transparecida, e penetrou no corpo de Clara, que suspirou com o impacto. O seu corpo perdeu a pouca altitude em que estava, e os pés tocaram o solo com certa violência, fazendo seus joelhos se dobrarem e apoiar uma das mãos no chão. Erguendo-se devagar, ela abriu os olhos. E seus olhos não estavam mais azuis. Estavam verdes como de sua filha.

Os olhos, agora verdes, de Clara percorriam por todo o quarto de Nathaly. Ela mexeu no guarda-roupa da filha para tocar em cada peça que ela usava; depois que fechou o móvel, passou a observar a cama de solteiro. Logo, todo o cômodo recebeu aqueles olhares admiradores. Mas em nenhum momento perdia a seriedade. Ela estava realmente estranha. O som da campainha chegou aos seus ouvidos, e rapidamente olhou em direção ao caminho do som.

Clara passava lentamente pela cozinha enquanto observava ao seu redor como se nunca estivesse estado ali, para aumentar ainda mais a estranheza, até chegar à porta principal do apartamento. Abrindo-a, viu Raphaela diante dela, esperando.

– Olá, Sra. Kate... Nathaly está com um sério problema – disse ela, sendo direta. Ela ainda demonstrava estar assustada.

Clara não a respondia, apenas a olhava inerte como se estivesse analisando a pessoa à sua frente. Para sua desconfiança, Raphaela aprofundou seu olhar nos olhares de Clara, e notou a diferente tonalidade dos olhos. Pelas raras vezes que usava, Raphaela voltou a utilizar sua visão de raio-X, passando seus olhos por todo o corpo da mãe de Nathaly; nada anormal pôde ser identificado.

– Você deve ser a amiga da minha... Preciso ir atrás dela até o Egito – disse Clara, ainda estranha em seu comportamento, quebrando o silêncio.

Raphaela foi surpreendida quando os braços de Clara a envolveram, pegando-a no colo, com uma força surpreendente.

– O que está fazendo, Sra. Kate?

Ela não foi respondida. Clara a levou até o quarto de Nathaly, jogando-a sobre a cama. Ela rapidamente se retirou do quarto e fechou a porta; Raphaela levantou-se e correu, pegando na maçaneta para abri-la. Porém, foi em vão. Estava trancada. Ela ainda desferiu algumas fortes batidas na porta, como se adiantasse em alguma coisa. Mas era apenas um instinto comum para quem acabara de ser preso entre quatro paredes.

Egito. De volta à região rigidamente seca, a dupla historiadora mais uma vez enfrentava o calor em busca de mais respostas. Suas caminhadas perduraram até chegar diante de uma imensa e antiga muralha.

– O que era nesse lugar? – perguntou Christer, desafiando os conhecimentos de Jasmine, enquanto mantinha seu rosto erguido observando a muralha.

– Aqui era uma cidade. Foi aqui que Radamés governou o Egito na época.

Eles entraram à extinta cidade pelos portões que já não existiam mais, apenas o muro contornando suas formas os testemunhava de suas existências um dia. Quando adentraram à cidade, avistaram apenas ruínas milenares às suas voltas, salvo uma imensa arquitetura mais à frente. Aquela construção que estava muito bem conservada em sua fachada era o antigo palácio onde o faraó Radamés residia e governava todo o Egito junto ao seu governador, e o partilhava com seus empregados e a esposa. Tomados pelo instinto da profissão, a dupla entrou ao palácio sem hesitar, principalmente Jasmine, que foi à frente. A parte interna do lugar também estava em boa conservação, cativando-os à primeira impressão. Eles começaram a vasculhar pelo hall principal, até chegarem à majestosa e imponente sala do trono de faraó. Por lá, ainda havia o trono, bastante deteriorado pelo tempo; havia quatro estátuas de Anúbis – um deus egípcio – com aproximadamente três metros de altura, inusitadamente nos quatro cantos da sala mandatória. Christer aproximou-se de uma delas para observá-la. O monumento parecia o encarar, embora seu tronco estivesse ereto olhando para frente.

– Pelo que eu sei, esse cara é o protetor das pirâmides. Ele deveria estar apenas naqueles lugares, e não aqui – comentou Christer, coçando o queixo.

– Parece que sua memória ainda está fresquinha – disse Jasmine, que recebeu um olhar de insatisfação de seu colega pela forma como se expressara, no intuito de descontrair. Ela o olhou, e mudou de assunto: – De fato, eles não deveriam estar aqui. Mas talvez o nosso amigo Radamés gostasse de sua presença quadrupla.

– Bem, acho que vou tirar essa mochila das minhas costas. Ela está me matando. – Ele tirou a mochila das costas sob gemidos. – Já não bastasse os nossos materiais, e agora tenho um diamante nada pequeno para carregar junto.

– Não seria um bom negócio deixar o diamante sozinho no hotel.

Jasmine fez pouco caso às queixas de dores dele e retomou seus trabalhos. Christer pensou em colocar a mochila no chão, mas um receio tomou-lhe conta, e preferiu carregá-la na mão enquanto caminhava pela sala. Mais uma vez, ele ficou receoso. A impressão que ele tinha era que estava sendo observado.

– Sei que me acha bonito, mas não precisa me olhar tanto em serviço – disse ele, na expectativa de que fosse a sua companheira a olhá-lo, e assim garantir que não houvesse mais ninguém por perto.

– Você bebeu algo? – perguntou Jasmine, virando-se intrigada. – Acho que você encarou demais aquele Anúbis, e está delirando aí.

Ambos retomaram suas pesquisas. De repente, Jasmine ouviu um grande gemido acompanhado de um forte impacto. Virando-se rapidamente, viu seu colega jogado no chão a certa distância de sua mochila. Olhando mais ao lado, ela avistou uma silhueta, ficando assustada. Aquela silhueta moveu-se em passos lentos entre as sombras que cobriam sua fisionomia, e se revelou a ela, que ficou muda diante do que via.

Londres, Inglaterra. Ainda presa no quarto de Nathaly, Raphaela estava sentada à beira da cama com a cabeça inclinada, olhando para o chão, já exausta por estar tanto tempo trancada e talvez já teria tentado encontrar várias formas de sair dali, sem êxito – em uma situação como aquela, certamente ela daria de tudo para trocar sua visão de raio-X pelos poderes da amiga.

– Querida? Nathaly?

Reconhecendo àquela voz masculina ao longe, Raphaela pulou da cama para ir à porta novamente, com a esperança concreta de ser ouvida.

– Sr. Kate?! – gritou ela. Steven atentou-se àquela voz distante, abafada, vinda do quarto da filha. – Sou eu, a Raphaela. Estou presa no quarto da Nathaly.

Ele acelerou seus passos até o quarto, e finalmente pôde libertar a jovem daquela prisão improvisada. E eles foram para a cozinha.

– O que houve? Por que estava sozinha e presa em minha casa?

– Eu tinha vindo para avisar a Sra. Kate que Nathaly não estava bem. Então, ela acabou me trancando no quarto.

– Por que ela fez isso? E como Nathaly está?

– Ela sentiu fortes dores de cabeça, e simplesmente saiu do meu apartamento apenas dizendo que sabia o que estava por trás daquilo. Já a Sra. Kate estava muito esquisita, parecia possessa de algo, tendo os mesmos olhos da Nathaly.

– Onde elas estão agora?

– Não sei para onde Nathaly foi, mas sua esposa disse que precisava ir ao Egito antes de ter me trancado no quarto.

Steven deu às costas, apoiando as mãos na mesa, assimilando calado tudo o que ouvira. Parecia não estar mais tão surpreso com a situação.

– Eu já sei o que posso fazer, Sr. Kate...

– E o que seria, Raphaela? – indagou, virando-se para ela.

– Se eu disser agora, talvez não creia na solução. Mas preciso que me aguarde aqui. E confie.

Ele assentiu após dar um goto.

Em seu apartamento, Jennifer estava sentada à mesa da cozinha. Diante dela, havia um copo com água e uma caixa de remédio. A cartela com alguns dos comprimidos da caixa estava em posse de suas mãos, já sendo destacado um comprimido do plástico. Erguendo-o à altura de seus olhos, ela o encarava com um semblante baixo; colocou a medicação na boca e logo tomou a água do copo, finalizando aquela ceia medicinal. Logo após aquele momento, batidas na porta foram ouvidas por ela, que atendeu. Era Raphaela.

– Ufa. Acertei o apartamento e o número – disse Raphaela, com um sorriso tímido e sem motivos para empolgação. Bastante observadora, ela ainda conseguiu dar uma rápida olhada para dentro do apartamento, e viu aquela caixa de remédio sobre a mesa . Mas aquilo não seria o foco. – Preciso de você para ajudar a Nathaly, sua também amiga.

Ela levou Jennifer para o apartamento dos Kates. Raphaela entrou sem bater. Steven estava de costas naquele momento, mas ouviu o ranger da porta e os passos, e naturalmente se virou crendo que era apenas a jovem trazendo uma solução abstrata; porém, quando alinhou os seus olhares para Raphaela, viu a Jennifer ao seu lado.

– Não acredito que trouxe ela... Já não é o suficiente os problemas com a minha família por causa daquele ser que se intitula a Mãe Natureza... – disse Steven, já dando sinais de nervosismo.

– Calma, Sr. Kate – pediu Raphaela, indo até ele. – Eu sei que o senhor está inseguro com a pessoa da Jennifer para proteger sua filha, mas nem eu e nem o senhor temos condições para resolver a situação. Porém, ela pode. Por favor, confie.

Steven resistia olhando para o chão. Ele respirou fundo, e ergueu a cabeça, olhando diretamente para Jennifer.

– O que pretende fazer?

– Irei ao Egito usando os meus poderes, em busca da sua... família.

Ele andou em direção a ela, e fixou ainda mais o seu olhar.

– Vá. E não tarde em voltar.

Jennifer olhou para Raphaela, que estava às costas de Steven e deu um incentivo com um mero sorriso labial, e voltou a trocar olhares com ele. A responsabilidade crescia.

Egito. Na abandonada sala do trono, Jasmine arregalava os olhos conforme dava passos para trás. Ela se afastava de um homem muito bem conhecido por ela, trajado de faraó. Era Radamés revigorado.

– O que fazes em meu leito?

Ele mal a deixou responder à pergunta quando fez um movimento com os braços que liberou uma força gravitacional para jogá-la para trás; ela bateu as costas na parede, e caiu desacordada. Livrando-se dela, Radamés pegou a mochila de Christer do chão, abriu o zíper e pegou o cristal, abrindo um sorriso de conquista. Mas aquele sorriso foi obrigado a se desfazer quando um raio caloroso acertou seu pulso direito, fazendo-o soltar o diamante. Imediatamente ele olhou para o lado, deparando-se com Nathaly, séria, que estava à porta.

– Mãe Natureza... Finalmente tiveste coragem em revelar a tua maravilhosa pessoa. E a tua belíssima face, com teus olhos encantadores.

– Não sou a quem procura. – Nathaly olhou para o chão e viu o cristal. – Vim pegar isso.

– Então, tu deves ser a sua enviada... – disse ele consigo mesmo.

Nathaly firmou seus passos de encontro a faraó para pegar o cristal de seus pés, mas ele obviamente não a deixou avançar mais ao expelir mais uma vez o campo gravitacional que a jogou para o alto, e caiu no chão. Radamés se agachou e pegou novamente o diamante. Não demorou muito para que lhe fosse tomado mais uma vez: Nathaly usou sua agilidade animal, e mostrou seriamente o cristal azulado em sua mão.

– Sua peste!

Faraó serrilhou os dentes e fechou suas mãos; os seus olhos brilharam em tom azulado, e ele os ergueu para o alto. Aproximadamente dez cobras najas desceram do teto se rastejando pela parede para tocar ao solo de forma surreal. Elas se posicionaram com a parte de seus corpos ereta, pronto para atacar Nathaly. Ela tentou usar o seu poder telepático animal, sem sucesso.

– Sei que estás a tentar se comunicar com elas. Aliás, tu claramente tens ligação à Mãe Natureza. Mas aviso-te de que elas não podem lhe atender. Elas estão sob o meu controle – disse ele. – Portanto, passe-me o cristal, e garanto-te que nenhum dano terás sobre tua carne. – Ele não obteve nenhum sinal de rendição. – A oportunidade foi-lhe dada.

As cobras começaram a sibilar cada vez mais forte. O ataque era iminente, e Nathaly estava encurralada pelos próprios animais da natureza, altamente persuadidas por Radamés. A conturbação pela a falta de autoridade era sentida na pele. Ela então retrocedia os passos, mas não contava com a parede às suas costas, estando, de fato, cercada. De repente, as serpentes saltaram com suas improvisadas asas de suas cabeças, e suas bocas abriram-se mostrando suas afiadas presas. Como reflexo de reação, Nathaly jogou aleatoriamente o cristal para o ar, que acabou caindo bem no meio da sala, e flexionou seus braços para se proteger dos ataques quando fechou seus olhos; Clara apareceu ali, e estendeu seu braço direito, em direção às cobras. Os répteis foram tomados por um brilho, o que resultou em uma abdução em massa dos animais. Sentindo o retardo do ataque, Nathaly desfez sua posição de defesa, e abriu os olhos.

– Mãe?? – disse Nathaly, incrédula ao vê-la, e associando o desaparecimento místico das najas à ela.

– Filha... – Os lábios de Clara se alargaram com um sorriso – Nunca passou pela minha cabeça que tu me chamarias assim tão cedo. Sempre a esperei confessar com os teus preciosos lábios.

– Você não é minha mãe – respondeu Nathaly, já identificando quem estava no corpo de sua mãe. – O que você fez com ela?

Nathaly ouviu risos irônicos do espectador da cena, o Radamés. Ela o olhou, e viu sua seriedade.

– Este é o maior dos sinais: o que ela fizeste com a tua mãe o mesmo quer fazer com o povo da Terra. E já está fazendo com tua pessoa, fazendo-te uma filha escrava para tragar as nações para si própria – disse ele, tentando segurar os risos de deboche.

– Não é verdade, Nathaly. Ele está levantando falsos testemunhos contra mim. Lembra-te do que eu contei a ti na floresta.

– Fábulas e lendas? Ótimo lugar para contar tais coisas aos pequeninos – interviu o faraó, olhando para Clara apoderada pela Mãe Natureza. E direcionou seu olhar para Nathaly. – Sei que estás confusa, menina. Porém, proponho-lhe uma coisa: pegue o cristal, o dê a mim e mostrar-te-ei a verdade.

– Não faças isso, Nathaly. Ele pretende se apossar de mim, como eu falara a ti, e quer fazer-te o seu braço direito contra mim – argumentou. – Porquanto, destrói o cristal.

– Eis aí a razão. Ela quer destruir o cristal para que a verdade plena não venha à tona. Pense bem no que irás fazer. O futuro está em tuas mãos, menina.

– Sabes que eu não faria mal algum a ti, nem a ninguém.

Nathaly realmente estava confusa com tantas vozes. Ela não sabia em quem confiar. E agora? O que fazer?

Enquanto isso no exterior da cidade abandonada, Eduard chegou ao local junto à esposa. Ele ia à frente dela. Sua estranheza chegou ao auge para Luiza, que exaltou-se nas palavras:

– O que está acontecendo com você, Eduard? O que tanto você busca? O que lhe interessa? Você não respondeu nada até aqui – disse ela. – Deveríamos cuidar da nossa filha, eu já disse!

Eduard parou diante das portas do palácio, e recentes lembranças vieram ao consciente de sua mente, o retrocedendo àquela visita ao hospício:

Se aceitares trazer o que eu lhe designar, certamente saberás da verdade, e ainda tereis a vossa filha, a primogênita e herdeira, restituída do sono profundo, que tanto faz tu e tua esposa sofrerem.

As palavras daquele monge ecoavam fortemente em sua cabeça, esquecendo de tudo em sua volta ao mesmo tempo que lembrava da Juliana sobre a cama. Distante dali, Jennifer chegara ao mesmo lugar graças o uso auditivo a distância proveniente de seus poderes físicos para localizar sua amiga, e avistou o casal alemão diante do palácio; ela saiu dali, evitando possíveis holofotes indesejáveis.

A luta interna de Nathaly ainda era travada na sala do trono. Em quem confiar?

– Confie em mim, Nathaly – disse Mãe Natureza pelos lábios de Clara.

– Tu abrirás o portal do jugo nesse mundo se obedeceres à sua voz, jovem – insistiu Radamés.

Ela tinha pouco tempo para se decidir, teria que sacrificar uma das vozes em obediência à outra. Faraó ergueu sua mão aberta de forma que passasse certa segurança para convencê-la de entregar o cristal que estava no centro da sala; por outro lado, Mãe Natureza nada dizia e nem gesticulava, apenas exercia o livre arbítrio. Nathaly olhou para a mão aberta do homem e depois olhou para o rosto de sua mãe, que não era ela; mas o olhar fixo para a face dela fez Nathaly pensar profundamente em sua mãe. Esse pensamento trouxe a ela uma certeza repentina, como se Clara realmente estivesse a pedindo aquilo, como uma mãe confidente. Uma lágrima escorreu no canteiro de seu delicado rosto.

Nathaly olhou novamente para Radamés, e suas íris entraram em transição de verde para o avermelhado. Faraó temeu achando que os raios ópticos seriam disparados contra ele, mas Nathaly mirou os olhos para o diamante, e ele foi sobrecarregado pelo calor dos raios, até que estourou em vários pedaços seguido de uma intensa luz azulada.

– Não!! – exclamou Radamés.

Na mesma hora, o corpo de faraó se deteriorou, transformando-se em cinzas, sobrando apenas as vestimentas no chão; pelo lado de fora, Eduard e Luiza avistaram o show de luzes emanado pelo cristal destruído. Estranhamente, Eduard se ajoelhou, e uma imperceptível fumaça saiu de sua boca, caindo ao chão. Após aquele evento, sua esposa correu até ele, e o colocou de pé.

– Eduard. Você está bem? O que houve?

Ele a olhou já sóbrio.

– Foi apenas uma tontura... Melhor irmos.

Luiza franziu a testa, e os dois foram embora.

Nathaly e Mãe Natureza ficaram frente a frente, apesar de Nathaly estar vendo o corpo de sua mãe.

– Obrigada por confiar em mim, Nathaly...

Mãe já ia abraçá-la.

– Fique onde está – pediu Nathaly, que foi atendida. – Não me agradeça. Apenas deixe a minha mãe.

– Permita-me lhe sentir primeiro.

– Após sair da minha mãe. Sentirei o abraço dela de forma que esteja lúcida.

Nathaly virou de lado com os braços cruzados e cabeça baixa, evitando olhar para sua mãe naquela situação, apoderada.

– Saibas que toda a criação de meu reino ainda a espera para que aceites o teu próprio destino. Jurei por mim mesma a eles, que traria uma nova harmonia a esta Terra – disse a Mãe. – Confesso-te, que este juramento está me resultando fortes cobranças de meu próprio reinado, e seu tempo está por terminar. Preciso de ti, minha...

– Saia. Da. Minha. Mãe – interrompeu Nathaly, ainda de costas, já com seus olhos involuntariamente marejados, talvez por um grande e íntimo conflito de sentimentos, ou por decepção.

Mãe Natureza nada mais disse. Ela levou o corpo de Clara até o canto da parede, onde se agachou e sentou, fechando os seus olhos. Então, um clarão e um poderosíssimo som foram sentidos por Nathaly, durando poucos segundos. Houve um silêncio. O silêncio a fez se virar, cautelosamente, e viu sua mãe escorada na parede, inconsciente.

– Mãe! – Ela correu até ela, agachando-se. – Mãe.

– Onde estou? – perguntou Clara, recuperando a consciência. Ao abrir os olhos, eles estavam novamente na cor normal.

Jennifer apareceu naquele momento para socorrer. Elas ouviram os gemidos dos historiadores acordando de seus desmaios. Ambas as jovens se olharam, talvez pensando em um jeito de manter a salvo qualquer descoberta.

Finalmente, elas retornaram ao apartamento em Londres. Raphaela e Steven, que estavam à mesa, foram surpreendidos com a chegada. Clara abraçou seu esposo como se tivesse passado anos sem se verem, e Nathaly também foi no embalo do abraço, formando um abraço em família; Raphaela se afastara para não atrapalhar aquele momento familiar, indo para o lado de Jennifer.

– Meus tesouros voltaram – disse Steven, com toda a sorte de alívio.

Steven desfez os abraços e deu lentos passos até Jennifer, que chegou a encará-lo acreditando que ele iria a criticar ou a enxotar de seu apartamento, mas logo encarou o chão ao baixar sua cabeça.

– Por que fez isso? – perguntou Steven, com uma interrogação muito subjetiva e estranha. Jennifer demorou a respondê-lo.

– Porque... todas as vezes que eu mais precisei de alguém, Nathaly sempre esteve ao meu lado, como uma irmã para mim.

Abraçada de lado à sua filha, Clara sorriu orgulhosa, quase se emocionando com aquela resposta; Raphaela, a mais próxima daquela conversa, também não pôde segurar o seu sorriso. Tão pouco Nathaly, que claramente se mostrava emocionada com seus olhos brilhando.

Jennifer continuava a encarar seus próprios pés, se sentindo ainda indigna de olhar para Steven.

– Tem a minha confiança – disse o pai de Nathaly, em voz serena, procurando ter o olhar da jovem.

Ele estendeu a mão. Vendo aquela palma aberta esperando ser tocada, Jennifer ergueu seu rosto, e apertou a mão dele. Ambos sorriram com os lábios timidamente.

Anoiteceu. No quartel, John arrumava suas coisas em seu armário. Naquela mexida nas coisas, aqueles dois tickets do circo caíram ao chão – provavelmente, caíram de sua outra calça da farda. – Ele agachou-se para pegá-los sem estar certo do que era especificamente; mas, quando fixou seus olhos em um, lembrou deles. Ele atentou-se à data. Faltavam apenas dois dias para o evento circense. Erguendo seu rosto, John estava em um olhar perdido, pensando.

Em seu quarto, Nathaly conversava com sua mãe, ambas assentadas à beira da cama:

– Que bom que meu pai aceitou a Jennifer. Agora, eu posso manter a amizade com ela sem me desviar das "restrições paternas" – disse Nathaly, aliviada. O alívio era notável em seu lindo sorriso.

– Minha filha – riu Clara, que passou sua mão sobre os cabelos de Nathaly. – Eu também estou feliz por isso, pois vê-la feliz me faz também feliz. E seu pai também tem esse mesmo pensamento, lá no fundo. – Ela se levantou. – Vou à cozinha agora, ajudar o seu pai sabichão da cozinha dos Kates.

– Mãe... – chamou Nathaly, fazendo sua mãe voltar da porta.

– Sim, filha – sorriu.

– Tem certeza que... a Mãe Natureza não fez nada ou deixou algo de ruim com você? Ela lhe deixou ilesa?

Clara sorriu.

– Estou bem, Nathaly. Não precisa se preocupar mais. Sou eu – garantiu-lhe. – O difícil é fazer seu pai entender isso. E espero que ele seja a única dificuldade.

– Confio em você, mãe. E desculpa por trazer tantos problemas para vocês. Só queria que esses meus dons sumissem, nada mais. – Nathaly encurvou seu tronco, apoiando suas mãos na mandíbula, na posição de tristeza. – Eles têm sido o imã disso tudo, tirando-me a paz e a segurança de viver normalmente entre as pessoas.

Clara aproximou-se dela novamente, agachando-se.

– Não é a sua culpa, filha. Não deixe que esses pensamentos voltem e encontrem mais uma vez espaço em sua cabeça. E também em seu coraçãozinho tão nobre. Seu pai e eu jamais iremos lhe condenar por isso.

Nathaly direcionou seus olhos verdes para ela, e sorriu de lado. Não se sabia se aquele sorriso era uma concordância ou era apenas para confortar sua mãe, e assim não a deixar preocupada.

– Boa noite, conversadeiras. – Uma terceira voz soou no ambiente, fazendo mãe e filha olharem para a porta. Era Steven. – Desculpe em atrapalhá-las, mas o Sr. Mitchell veio visitá-la, Nathaly.

Clara foi para junto de seu esposo quando John teve a autorização de sua entrada ao quarto. Então, eles os deixaram a sós.

– Boa noite, John. Faz tempo que eu não lhe vejo.

– Pois é... Servir ao exército é isso.

Aquele momento característico entre eles veio à tona mais uma vez: o silêncio provocado pela timidez que ainda persistia no mais íntimo deles quando estão a sós. Certamente, Nathaly aguardava a iniciativa da parte dele para continuar a conversa, seus olhares não mentiam. Ele se aproximou dela, e aquilo a deixou um pouco envergonhada.

– Nathaly... Eu gostaria de convidá-la para irmos... a este evento – disse John, mostrando os ingressos. – Me deram no quartel. Bem, não é lá aquelas coisas, mas ao menos poderemos nos distrair um pouco...

Sob um sorriso sem graça, ela desceu seus olhares em observância aos bilhetes na mão do amigo.

– Você aceita ir comigo?

Ouvindo aquela pergunta, Nathaly ergueu seus olhos lentamente para John. Um olhava para outro sem dizer uma única palavra, principalmente John, que precisaria receber alguma resposta. E qual seria a resposta a receber naquela noite?

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