Capítulo Quinze: Big Ben
– Bom dia, minhas senhoras e meus senhores! Obrigado mais uma vez por me receber em seu lar, ou em seu trabalho, através do seu aparelho radiofônico! Vamos nos aproximando das nove horas da manhã, sempre de acordo com o famosíssimo relógio: o Big Ben. Já, já iremos acompanhar mais uma de suas badaladas, ao vivo. Bem, temos um início de dia típico à nossa cidade, com algumas nuvens no céu e aquele friozinho londrino, mas que não desfaz a beleza metropolitana e natural de Londres...
O radialista de uma importante e maior emissora radiofônica do país iniciava mais uma edição de seu programa matinal diário aos seus ouvintes. Ele era ouvido por Eduard naquele momento. Sua voz vinha da prateleira decorativa do escritório executivo da empresa, onde havia um rádio com o design da respectiva época sobre ela. O cientista alemão levantou-se de sua cadeira, indo ao aparelho para desligá-lo; fazendo aquilo, tornou a sentar-se e massageou suas têmporas antes de encarar novamente seus documentos sobre a mesa – talvez, ele estava ficando desconcentrado com o rádio ligado por tanto tempo. – Aquele pequeno ritual fora interrompido quando alguém bateu na porta.
– Entre.
Autorizada, sua secretária abriu-a, e entrou mansamente com sua prancheta de encontro ao seu colo.
– Bom dia, senhorita – saudou Eduard, sorrindo. Ele apoiou seus cotovelos na mesa e entrelaçou seus dedos para apoiar o queixo sobre as mãos juntas. – Como está a minha eficiente funcionária, e secretária?
– Estou bem, Sr. Butzek. Obrigada por perguntar – agradeceu. – Trouxe novos relatórios e levantamentos da corporação, que fiquei de lhe apresentar ontem.
Eduard simpaticamente estendeu sua mão para receber mais papeladas administrativas. Enquanto as analisava de forma breve, seu olhar sorrateiro e abrangente de um experiente cientista observou a sua funcionária, sem que ela pudesse percebê-lo. Deixando os documentos na mesa, ele se levantou, passando ao lado dela, que pareceu ficar ainda mais nervosa. Ela o acompanhou em seu olhar delineado.
– Tem certeza que você está bem? Já faz alguns dias que você está... diferente – comentou Eduard. – Qualquer coisa, estou aqui para lhe ajudar. Você sabe que não sou um chefe mal, não sabe?
– Sim. Mas... N-não se preocupe, Sr. Butzek. São só alguns problemas pessoais. E... cansaço, talvez. Só isso – disse ela, desconfiada.
Eduard remexeu sua boca e semicerrou seus olhos, em raciocínio.
– A propósito, fez bem tocar nesse assunto. Bem que você está merecendo algumas férias. – O cientista retornou à sua cadeira mais uma vez, acomodando-se. – Checarei no quadro de funcionários para ver esses detalhes. Muito obrigado por me trazer os relatórios. – Ele pegou os papéis em mãos, ilustrando o que falara.
– Não há de quê, Sr. Butzek. Com licença.
– Toda – sorriu.
Quando ela deixou a sala, Eduard desfez seu mero e simpático sorriso. Dando mais uma olhada nos documentos entregues, ele ficava na imparcialidade em seus pensamentos. Parecia não crer muito no que a sua secretária lhe dissera.
Uma pequena equipe de homens trajados com jaleco branco movia-se pelas moderadas extensões de uma sala, que lembrava um minilaboratório de estudos. Aqueles jalecos não eram desconhecidos, eram bem familiares, até que o nome estampado no peito esquerdo de um daqueles profissionais entrou em evidência: "Butzek Corporation". Nos fundos da sala, uma mão destra, e também masculina, escrevia algo tranquilamente em uma folha apoiada em uma superfície plana. Quem estava escrevendo deixou a caneta deitada ao lado da folha, e levantou-se da mesa, a respectiva superfície utilizada. Seus passos eram vagarosos, sem nenhuma pressa, caminhando entre a equipe, e chegando perto de uma mesa maior.
– Tudo pronto? – perguntou a pessoa.
– Sim, Sr. Hall. O dispositivo está pronto para uso.
– Ótimo.
George Hall, o professor universitário de Biologia, e cientista, era o cabeça daquele misterioso e secreto projeto – e o que seria aquele projeto? – Quando o profissional que confirmara o êxito na conclusão tirou o tecido grosso que encobria o volumoso objeto criado, um brilho esverdeado constante emanou dele, iluminando o rosto de George.
– Uma nova era está para chegar... – disse ele, concentrado nas palavras ditas.
Ele esboçou um sorriso, estando satisfeito com o resultado. O seu plano estava se concretizando.
No hospital onde fazia o seu tratamento, Steven estava com a sua família em uma das salas que a sessão fora realizada. Eles estavam aguardando a autorização médica para ir embora.
– Obrigado por vir antes de ir para a universidade, filha. Espero que você não se atrase por minha causa – disse ele.
– Não precisa me agradecer, pai. Quando eu mais preciso, vocês estão comigo. É mais do que uma boa consciência ser recíproca como pessoa e filha.
Ele sorriu com as belas palavras de Nathaly, a abraçando de lado e depositando um beijo no alto de sua cabeça. Uma prova de afeto.
– Talvez, se seu pai tivesse aceitado o favor do Sr. Butzek para ficar um tempo sem trabalhar para repouso, haveria tempo flexível para que nós duas sempre pudéssemos estar presentes no tratamento – comentou Clara, que recebeu um olhar desconfortável de seu esposo.
– Talvez eu esteja errado, mas me parece que o seu comentário não seja apenas uma crítica ao meu recuso de uma das ajudas do Sr. Butzek, e sim porque a promessa de cura da tal Mãe Natureza ainda perturba a sua mente, Clara.
Clara ficou sem palavras com o comentário de seu marido por alguns segundos.
– N-não é isso, Steven... Olha...
– Pai, mãe... Vamos parar. Aqui não é lugar para discutir sobre isso.
Eles escutaram o abrir da porta. Era a enfermeira com a prancheta de paciente.
– Sr. Kate? Antes de ir, precisaremos coletar uma amostra do seu sangue. Faz parte do acompanhamento – disse a mulher. – O senhor e a sua família podem me acompanhar à outra sala?
A família se entreolharam. Eles não esperavam por aquela coleta, que seria do sangue de Steven.
– Claro – respondeu Steven. Ele olhou para a filha. – Nathaly, você já pode ir. Se ficar, você ficará muito atrasada para a aula. Sua mãe estará comigo.
Nathaly concordou com a cabeça, em um sorriso.
– Ótima aula, filha. – Os pais a desejaram.
– Obrigada.
Ela pegou sua mochila da cadeira que havia ali para acompanhante e deixou a sala hospitalar, indo embora.
Quando chegou à universidade, ela deixou seus materiais na sala antes de ir ao banheiro. Estando pronta para ter mais um dia de aula, trilhava o caminho de volta à sala, quando encontrou Raphaela no percurso.
– Aí está você. – A alemã se aproximou da amiga. – Chegou muito rápida do hospital.
– Tive que usar minhas habilidades – explicou Nathaly, em voz baixa.
– Oh, sim. Seus dons sempre a salvam – riu. – Como foi a sessão de seu pai?
– Ah, foi ótima.
Elas continuaram andando.
– Olha, hoje eu vou dar uma passadinha no apartamento da Jennifer – comentou Raphaela. – Vem comigo?
– Não vai dar. Ainda tenho trabalhos individuais para fazer em casa – explicou Nathaly, entortando a boca. Ela congelou, e olhou de canto para a amiga. – Mas eu já suponho o interesse de sua visita. E estudar Física que não é.
– Muito sem graça você. Saiba que a amizade vem primeiro. – Raphaela falou, cruzando os braços, fechando os olhos e erguendo seu rosto, se garantindo nas palavras.
– Teoricamente, sim.
Raphaela encarou sua amiga com uma expressão séria; Nathaly arqueou as sobrancelhas e alargou seus lábios, mostrando o seu humor. Naquele embate entre as expressões faciais, Raphaela não aguentou se manter na seriedade, na tentativa de promover algum receio em Nathaly, e abriu um sorriso, revelando a sua verdadeira reação.
– Não digo mais nada, Nathaly. Vamos.
Elas iam, até que se separaram rumo às suas classes.
Finalmente de volta à sala de aula, já completa com os alunos da turma, Nathaly se dirigiu à sua carteira. Quando se sentou, ela percebeu que havia algo próximo à mochila, que estava sobre a carteira marcando seu lugar. Era um envelope. Pegando-o, analisou os dois lados, mas não havia nada escrito nele, e a aba estava selada, para que ninguém mais a abrisse facilmente. Uma curiosidade a tomou, decidindo ver o que estava escrito dentro; porém, o professor, ainda substituto à turma, entrou na sala saudando seus alunos. Então, Nathaly acabou não tendo a oportunidade em checar a correspondência anônima, fazendo-a guardá-la na bolsa.
Palácio de Westminster. Os membros da Câmara dos Comuns do Reino Unido estavam reunidos em mais uma reunião legislativa diária para a promoção e mantimento administrativo da nação. Eram muitos os membros, chegando a quase setecentos deles; um, o Presidente da Câmara, discursava politicamente sobre um assunto, sendo ouvido sob um silêncio impetuoso dos demais membros. Tudo estava normal, até que todos foram surpreendidos com um segurança sendo jogado de porta adentro da câmara, e três homens de branco entraram na sequência. Um deles tirou um revólver do bolso e efetuou um disparo para o alto, estilhaçando uma das luminárias góticas suspensa no teto, atemorizando ainda mais a todos, que não entendiam nada do que estava havendo.
– Saiam todos do palácio. Agora! – Aquele que atirou ordenou, fazendo sua voz permear pelo ambiente.
– Apressem-se! Há uma bomba na torre! – anunciou veementemente o outro do trio.
Os parlamentares desesperaram-se para achar as saídas ao ambiente externo do imenso palácio. Um verdadeiro tumulto originou-se ali. E o mesmo ocorria na Câmara dos Lordes, também tomada de assalto por outros dois homens.
Aquele grupo de homens foi muito liso, como ratos, naquela bem-sucedida invasão ao parlamento de Estado do Reino Unido. Uma provável distração, ou falha, da segurança interna foi crucial para o atentado iniciado. Restava saber a razão daquele ataque.
O alarmo interno chegara ao seu auge. Como um rebanho, muitos corriam em uma só direção cortando o hall principal do palácio para chegar a sua saída. A movimentação era extremamente massiva entre funcionários e os políticos para a fuga dali.
Enquanto isso, acima dos trezentos e trinta e quatro degraus que levavam ao mais alto ponto da Clock Tower – que viria a ser chamada de Elizabeth Tower futuramente, em homenagem à Rainha Elizabeth II –, o imponente e mais conhecido Big Ben, o último fio da bomba era conectado ao mecanismo central do relógio. Ao ser descoberta, a bomba iluminava parte do ambiente com o brilho incessante de seu conteúdo interno, que estava dentro de seus dois cilindros médios transparecidos, o que fez a pessoa que instalara o dispositivo explosivo usar óculos especiais para não lhe cegar devido à tamanha proximidade.
– O último fio foi conectado ao relógio, Me. Hall.
– Ótimo. Já, já iniciaremos a transmissão para anunciar o evento que promete separar o joio do trigo.
George estava muito convicto, sem nenhum receio do que estava fazendo.
Como havia planejado, Raphaela fora visitar Jennifer logo após a aula para, de fato, colocar em dia a sua amizade, ainda em desenvolvimento. Conversa ia e vinha no quarto, até que ela não se segurou, e resolveu abordar sobre a magnífica construção da máquina do tempo:
– Nathaly me contou da máquina do tempo. Você é mesmo super inteligente.
– Nem tanto. Quem a finalizou foi outra pessoa que Michael contratou para ajudar em suas ambições.
– Oras, amiga... – Raphaela pausou quando, de forma rara, chamou Jennifer de amiga, mostrando intimidade. Jennifer foi receptiva no olhar, embora soasse diferente para ela, dando segurança à continuação no raciocínio de Raphaela. – Para quem usa seu próprio corpo como uma máquina do tempo, criar uma não é uma dificuldade.
– Poderes é poderes; conhecimento é conhecimento. Ainda tenho limitações. E tenho muito o que descobrir sobre eles.
Jennifer foi até o seu criado-mudo, pegou os seus dois livros de Física – um dado por Nathaly e o outro recuperado das mãos de Michael, seu ex-chefe – e começou a refletir os olhando.
– Mas você já era inteligente antes mesmo de obter os seus poderes. Nathaly me contou que você sempre quis se formar em Física. E estudava muito para entrar em uma universidade.
– Sim. – Jennifer ergueu seu rosto, ainda de costas para Raphaela, segurando seus livros. – Mas tudo se perdeu quando perdi os meus pais e acabei me sujando no mundo do crime. Sabe... Não sei como a vida ainda faz sentido para mim. Eu deveria ter morrido junto com eles naquele acidente.
Seu semblante deu uma caída devido ao ganho de espaço de sua angústia em seu peito. Raphaela deu alguns passos à frente, e falou:
– Mas você renasceu de lá, para fazer cumprir o que um dia você expôs aos seus pais, o seu maior sonho. Assim como você, seu sonho não morreu. E ele tem sido alimentado pelos seus pais no seu mais íntimo. Eles querem vê-la realizada em seu objetivo. Portanto, a vida faz sentido para você, sim.
Jennifer permaneceu calada, ainda sem se virar. Seus olhos ficaram marejados com as palavras ouvidas. Antes que uma gota de lágrima rolasse em um dos lados de seu rosto, limpou a lateral do olho com o seu dedo médio, e olhou para o nada.
– Olha, em breve, irá abrir um processo de seleção na universidade onde Nathaly e eu estudamos, através de um exame, que valerá a uma bolsa de estudos integral. E eu gostaria muito que você fizesse. Nathaly também ficará muito feliz.
– Eu não posso. – Finalmente, Jennifer voltou a encarar Raphaela ao se virar. – Vão acabar descobrindo sobre os meus poderes por causa do meu nível de inteligência... N-não vai rolar.
– Bom, Nathaly possui uma inteligência daquelas em Biologia e até hoje ela não teve problemas. Além disso, ela usa muito bem a desculpa de estudar bastante; já eu... Bem, só tenho uma mera visão especial, pouco notável. – Raphaela foi até ela, e colocou sua mão destra no ombro esquerdo da amiga. – Você ainda terá tempo para pensar sobre isso. Preciso ir agora, pois ainda tenho que passar em uma papelaria. Até mais.
Sorrindo amigavelmente, Raphaela se afastou de Jennifer sem muita pressa, e deixou o apartamento. Ainda segurando seus dois livros, Jennifer ficou parada em seu quarto, pensando na conversa que acabara de ter.
Do alto da torre, os olhos vivos de George observava por uma fresta a multidão que deixara o palácio às proximidades do local, e mais alguns curiosos aglomerados por ali. O grande número de pessoas estava obstruindo a Ponte de Westminster.
– Ainda não é o suficiente. – George afastou do canteiro observatório, indo em direção a um aparelho pré-instalado cheio de interligações por fios. – Isso já está pronto?
– Sim, Me. Hall. Mas... isso tudo está sendo muito arriscado. As pessoas lá embaixo estão apavoradas. Quanto mais será a nação inteira.
– Eu não pedi a sua opinião – disse George, perdendo a paciência. – Arriscado será nos deixar a mercê das aberrações escondidas entre as pessoas. E aquilo não é uma bomba, mas sim a oportunidade da aniquilação do que é mal, e haver a recriação.
Bastante sério, George se aproximou do aparelho, tirando da base um microfone, e ligou o equipamento, começando a rodar dois discos sincronizados sobre a base.
– Atenção a todos que estão meu ouvindo por esse sinal. Meu nome é George Hall, professor universitário de Biologia e cientista...
Na sede da principal emissora radiofônica do Reino Unido, um outro radialista notara que o seu programa tivera seu retorno cortado. Um dos operadores entrou na sala acústica para ajudá-lo.
– O que está havendo? Não consigo continuar com o programa – comentou o radialista.
– Eu não sei muito bem. Tudo está normal com os aparelhos. Vou tentar consertar aqui.
Quando os controles no painel foram mexidos, uma frequência de voz externa começou a sair no retorno, os surpreendendo:
– Gostaria de avisar a todos que há ameaças entre nós. Sim. E elas são pessoas, que possuem habilidades sobrenaturais. Exatamente. Vocês podem estar me chamando de louco, mas habilidades sobrenaturais são reais, e esses tipos de pessoas podem estar bem próximo de vocês sem fazê-los notar. Elas são uma espécie que tem que ser eliminada entre nós, entre a humanidade, quanto há tempo. Por essa causa, iniciaremos em poucos minutos a chegada de uma nova era para nós, através de uma explosão magnética, que emulará uma espécie de Big Bang, eliminando todos os sobrenaturais, aberrações, a partir desse evento. Verifiquem se realmente os relógios de vocês estão condizentes com o relógio da Torre, pois é do próximo soar dele que tudo irá mudar nesse mundo. Londres é o centro do novo!
O sinal da rádio havia sido de alguma forma traçado – ou, hackeado nos tempos modernos. – Atemorizados, os profissionais olharam-se, continuando a ouvir o que o professor Hall falava.
Na papelaria onde fora, Raphaela colocava um par de lápis, apontador e uma caneta sobre o balcão do caixa quando o dono do estabelecimento e ela começaram a ouvir a determinada voz de George em rede nacional pela rádio.
– Mas quem é esse louco que está atrapalhando os meus clientes de ouvirem as músicas? – questionou o dono da papelaria, que era um idoso, olhando para o seu rádio.
Raphaela reagiu com um olhar surpreso ao reconhecer de imediato a voz do professor de Nathaly, até então afastado da atividade. O tal afastamento que agora passou a ter uma explicação para ela, porém, não muito boa devido ao motivo apresentado.
– Bem, minha senhorita de lindos olhos azuis, sua compra custou...
Quando o velho homem virou-se para voltar a dar atenção à sua cliente para cobrá-la, ele não mais viu Raphaela diante dele. Havia apenas o dinheiro, deixado no balcão. Pegando aquela única cédula em mãos, ele a analisou, e olhava para um lado e outro, tentando entender a situação.
A movimentação no quartel do exército britânico londrino era grande. E não era período de sessões de treinamentos. Tudo estava a ser motivado pelo já considerado atentado ao Clock Tower, o Big Ben. Em sua sala administrativa, o capitão andava vagarosamente de um lado para o outro com suas mãos para trás e cabeça encurvada para o chão.
– Senhor? – Um soldado assistente entrou na sala sem bater. Parecia já ter sido autorizado a fazer aquilo – Já separamos uma equipe para ajudar a polícia na operação ao atentado.
– Ótimo. Já podem ir.
– Mas um dos integrantes experientes separados para essa missão não poderá mais ir com o grupo. Ele se queixa de uma indisposição, senhor. E foi encaminhado à enfermaria – disse o soldado, aguardando alguma posição do capitão.
Ainda com as mãos para trás para manter sua posição de autoridade, além de manter o peito estufado, o capitão ponderou friamente, sem abrir a boca para pedir detalhes sobre o adoecimento repentino de seu recruta de quartel.
– Mandemos outro em seu lugar.
– Senhor, não há mais recrutas que estejam há mais tempo no exército nessa unidade. Prevejo que o senhor pretenda chamar um de outra unidade da capital.
– Não será preciso, soldado. Chamemos um dos inexperientes da casa. Essa é a hora perfeita para vermos a sua real condição para servir uma corporação de alto nível, e à nossa nação.
O soldado entendeu o recado dado, sorrindo de canto do lábio. Parecia haver uma sincronia perfeita entre eles para aquela ocasião.
– Como queira, senhor. Com licença.
Quando seu assistente deixou a sala e a porta se fechou, o capitão dirigiu-se à sua mesa, abrindo uma das gavetas dela. Erguendo algo que pegara de dentro, ele observava. Era um pequeno frasco transparecido com um pouco de conteúdo em pó sobrado dentro. Havia um rótulo em um dos lados, onde estava escrito algo, que levava a crer que era uma espécie de laxante. O capitão, então, elevou mais o seu rosto, sorrindo de lado enquanto mantinha seus olhos no minúsculo recipiente. Sua cara o entregava. Ele teria esquematizado tudo antes, para provar alguma coisa contra algo, ou alguém.
Enquanto isso, John estava mexendo em suas coisas no quarto compartilhado quando aquele mesmo soldado assistente se apresentou diante dele:
– Soldado Mitchell? O senhor está convocado para a respectiva operação do exército, em ajuda ao apoio policial prestado contra o que está acontecendo na região do Palácio de Westminster, após um de nossos colegas experientes, e selecionados, ter passado mal – anunciou. – Queira se trajar devidamente para encontrar o grupo no pátio exterior, de onde sairão com os veículos.
Batendo continência, ele se retirou da presença de John. John ficou muito surpreso pela convocação inesperada, embora soubesse que estaria sujeito às situações como membro do exército, tendo ou não experiência, em prol da segurança e sobrevivência de uma nação.
Cercada por livros sobre a mesa da cozinha, Nathaly estudava e realizava os seus trabalhos da universidade. Ela estava bastante concentrada. Desviando a sua atenção dos papéis escritos, tomou em mãos um livro que estava fechado e o abriu, e viu cair dele aquele envelope em branco. Novamente, ela se conjecturava, sendo outra vez induzida pela sua curiosidade a abri-lo. Quando tocou no selo para abrir a aba, sua mãe apareceu às suas costas ao passar por ela. Ela guardou rapidamente o envelope entre as páginas do mesmo livro de onde ele caíra.
– Filha. Eu sei que você precisa de mais espaço para estudar mas, se você não se incomoda, posso ligar o rádio enquanto eu arrumo a cozinha? Prometo que não irei cantar junto.
– Claro, mãe. – Nathaly abriu aquele sorriso que sempre realçava o seu rosto. – Mesmo que a senhora cantasse, seria uma melodia aos meus ouvidos.
– Espero que esse elogio não seja para ganhar pontos de permanecer estudando na cozinha.
Elas sorriram uma para outra, chegando a rir. Clara aproximou-se do pequeno rádio e o ligou.
– Não tenham medo. Esta é apenas uma nova era a chegar para todos nós. Como um cientista, digo-lhes com veracidade...
Ela ficou parada diante do aparelho, apenas ouvindo aquela estranha programação, um discurso ao vivo. Nathaly parou o que estava fazendo, e se colocou diante do rádio, ao lado de sua mãe. Ouvindo atentamente àquela voz masculina, ela a identificou:
– É o meu professor de Biologia Me. Hall! – disse ela, com um olhar de espanto.
– O seu professor??
Quando Nathaly ia responder à sua mãe, ela retomou a sua atenção para o aparelho.
– Dentro de trinta minutos, um novo Big Bang reiniciará o tempo, sem as atuais ameaças trajadas de pessoas, a partir desse majestoso e pontualíssimo relógio da nossa capital: o Big Ben.
– Ele precisa de ajuda – disse Nathaly, tensa.
Ela foi até a mesa, fechando todos os livros e os guardando na mochila. E, por último, levou todo o material guardado para o seu quatro. Clara acompanhou toda aquela pressa, ainda parada ao lado do rádio, sem dizer nada. Estando ciente de que estava começando a esfriar lá fora, Nathaly reapareceu na cozinha pegando a primeira peça de roupa com mangas longas disponível por perto: justamente o seu jaleco branco. Um trajado incomum para andar pelas ruas sem compromisso com o que a veste realmente representava profissionalmente e academicamente falando. Apesar de tudo, ela já parecia estar bem acostumada.
– O que vai fazer? – interrogou Clara, dando indícios de que já sabia qual seria a resposta da filha.
– Ir até lá.
– Não, Nathaly. – Clara foi até ela, segurando as mãos dela em imploração. – Por favor, não vá. Alguém pode descobrir sobre você. Inclusive o seu professor. Talvez... até a imprensa esteja lá, presente. – Ela suspirou, em pausa. – Todos podem lhe ver!
– Mas ele é o meu professor, está precisando de ajuda. E eu preciso fazer alguma coisa.
Em silêncio, Nathaly desviou seu olhar e largou as mãos de sua mãe; e, estando vestida com aquele jaleco, saiu do apartamento, deixando Clara temerosa. Uma aflição que era perceptível em seus olhos azuis direcionados à porta e suas mãos juntas à altura do colo.
Além da imprensa londrina fazendo a sua cobertura jornalística, muitas viaturas da polícia já estavam presentes na Ponte de Westminster para tentar contornar toda a situação, além de manter as pessoas distantes do Big Ben para evitar algum perigo maior ou mesmo alguma invasão que pudesse comprometer o trabalho da própria polícia. Um dos oficiais pegou um megafone de dentro do carro, o ligando, e apontou o aparelho para o alto da torre.
– Aqui é a polícia. Adiantemos-lhes que não iremos entrar de pronto ao Palácio, e nem ousaremos subir até aí, mas que seja feito um acordo para a desistência da respectiva pretensão denunciada e ouvida pela rede de rádios.
George ouvia tudo ao lado de seus seguidores da missão radical que estabelecera. Ele viera bastante preparado: além de ter em poder um aparelho que traçou as ondas de rádio para estabelecer comunicação em massa, também tinha consigo um megafone. Mas não queria usá-lo, dando o silêncio como resposta.
– É melhor pararmos com isso e desativar o dispositivo, Me. Hall. Já está virando caso criminoso, e não algo revolucionário – comentou o mais temeroso entre os cientistas recrutados.
– ESSA! É a oportunidade de impedir que essas aberrações que se dizem ser pessoas como nós não venham dominar o mundo em tempo oportuno. Já pensou uma delas ter o controle sobre o nosso governo? Até a nossa rainha está em jogo! – O professor deu às costas aos seus cinco recrutas, que se olharam com a exaltação dele, e checou o seu relógio de cordão no bolso. Ele se mostrava muito tenso, ou pela a sua ansiedade ou pelo próprio receio de algo dar errado. A certeza era que havia pressão. – Apenas mais alguns minutos, e todos saberão que estávamos certos em fazer isso...
Atrás de toda a multidão, Raphaela chegava à pé por ali, diminuindo seus passos ao ver aquele mar de pessoas apreensivas aglomeradas. Erguendo o seu rosto para os noventa e seis metros da Clock Tower, tendo os seus louros cabelos esvoaçados por uma brisa do Rio Tâmisa abaixo da Ponte Westminster somada ao vento do tempo encoberto, ela contemplou toda aquela arquitetura neogótica e intrincada, pela primeira vez desde quando chegou à Londres; mas era uma oportunidade nada animadora ao vê-lo ser o refém de um atentado. As suas atenções foram tiradas de sobre o símbolo londrino quando ouviu e olhou a chegada de dois veículos, sendo robustos em verde musgo. Era o exército. John desceu de um dos carros, vendo Raphaela com um olhar surpreso por ver até um comboio de soldados na missão.
– John?
– Olá, Raphaela. – John parou diante dela com aquele uniforme musgo. – Eu também estou surpreso por estar nessa missão. Alguma novidade até aqui?
– Não. Acabei de chegar. Mas a polícia está tentando contato com o professor Hall.
– Me. Hall? O professor da Nathaly? Isso não pode ser.
– Mas é a triste verdade. Ele conseguiu traçar as ondas de rádio do país, e está falando muitas coisas sem muito nexo na rede.
– E você tem alguma ideia do que ele quer?
Raphaela congelou na resposta. Ela concluíra algo, que tentava resistir em dizer para não gerar preocupações maiores.
– Creio que ele esteja com uma bomba, que promete criar uma nova era entre os humanos, eliminando... supostas pessoas com dons especiais.
O que ela esperava aconteceu. John mudou sua fisionomia, em preocupação.
– Tudo bem que esses tipos de pessoas devem ser excluídas da humanidade, mas esse não é o caminho, envolvendo inocentes. –Olhou para trás, vendo que os seus colegas do quartel estavam distraídos. E ficou a pensar. Então, voltou a olhar para a jovem alemã. – Vou tentar impedi-lo. Darei um jeito para entrar na torre.
Antes que Raphaela pudesse contestar algo, ele se retirou diante dela, se misturando entre as pessoas.
A sorte estava ao lado de John. Ele conseguiu entrar sem que alguém pudesse o perceber. Chegando ao acesso interno do Big Ben, parou, e encarou os vários degraus que o levariam ao topo; os enfrentou, subindo em passos rápidos. Parecia que não iria alcançar o topo quando ele finalmente pisara o último degrau daquela escadaria. John sacou um revólver que havia em seu bolso, e abriu a porta que daria acesso à sala de mecanismo do pontual relógio, entrando lentamente. Quando deu apenas cinco passos para dentro, ele foi desarmado com um golpe de barra de ferro e surpreendido com um soco na sequência. A inexperiência em missões e combates contribuiu para que a sua sorte chegasse ao seu limite precocemente. Sob o seu desmaio, ele era observado por dois homens recrutas de George, os autores daquela violência.
Raphaela já estava muito temerosa com o que poderia acontecer com John em sua invasão por conta própria à torre, e torcia com olhar fitado na arquitetura para que ele retornasse logo, ou simplesmente que ele desistisse de subir para onde o perigo realmente estava. Nathaly, chegando, a viu por ali, e aproximou-se dela.
– Raphaela.
Ouvindo-a chamar às costas, ela se virou ligeiramente, como se tivesse ouvido a voz de um anjo.
– Nathaly... Há uma bomba naquela torre esquematizada pelo seu próprio professor de Biologia!
– Disso, eu estou sabendo. Mas é preciso manter a calma.
– Sim, mas algo muito sério aconteceu: John se arriscou a invadir a torre sem a autorização de seus colegas de exército. Ele entrou sozinho lá, Nathaly!
Nathaly claramente ficou nervosa, e o medo sobreveio. O seu amigo estava em grande perigo de vida, e algo precisava ser feito. Porém, o seu segredo poderia ser testemunhado por cada pessoa ali presente, inclusive pela a própria imprensa. E havia outro maior desafio para ela: manter o seu próprio segredo a salvo diante de seu amigo John. Ela analisava todo aquele cenário contrário que poderia colocá-la em xeque, mas precisaria tomar alguma decisão.
– Preciso salvá-lo de alguma forma... E-eu entrarei lá.
– Toma cuidado, Nathaly. Todos podem lhe ver e descobrir algo sobre você. Inclusive John.
Ela olhou para Raphaela, ponderando.
– Vai dar tudo certo, Raphaela – disse ela, um pouco insegura nas palavras.
Decisão tomada, Nathaly tomou distância da amiga, se misturando entre as demais pessoas, e trilhou praticamente o mesmo caminho que John fizera para tentar acessar a Clock Tower.
Chegando ao Westminster Hall, o hall – pátio – principal do parlamento britânico, Nathaly andava vagarosamente enquanto o extremo silêncio imperava nos quatro cantos do ambiente; seus olhos percorriam por toda a parte, em vigilância. Ela parou coincidentemente bem no meio do imenso salão e recorreu aos seus poderes, usando a audição e percepção aguçada animal. Enquanto usava as suas habilidades, ela observava todo o lugar, girando em trezentos e sessenta graus em torno de si mesma, até que começou a ouvir uma respiração profunda e sentir o medo humano. Nathaly cresceu seus olhos na mesma hora.
– John.
Ela moveu-se rapidamente em direção à origem daquela percepção, que a levaria exatamente para onde John estava.
John se encontrava sentado no chão com suas mãos amarradas para trás, e com seus pés também presos. Ele estava com a cabeça inclinada para frente em reflexão nos pensamentos quando a porta da sala se abriu, fazendo-o levantar o rosto no mesmo instante.
– Nathaly? O que faz aqui? – perguntou John, surpreso.
Recebida com uma reação de surpresa, Nathaly travou olhando para ele, não sabia o que dizer, principalmente em responder à pergunta feita. Mas ignorou ao ver o suposto dispositivo instalado ao maquinário do relógio da torre, indo em direção ao objeto.
– Cuidado, Nathaly! Isso aí é uma bomba – avisou John.
Quando chegou perto e tirou de cima o que o encobria, aquele brilho resplandeceu fortemente em seu rosto. A irradiação penetrou em sua pele, despertando a sua alergia aos minerais modificados. Dando passos cambaleantes para trás, Nathaly tentava se afastar como podia dali quando foi atingida por um golpe nas costas, caindo de bruços totalmente sem forças e praticamente inconsciente no chão. O seu professor foi quem a atacou. Fitando seus olhos nela, George mantinha-se sério, sem dizer uma palavra.
Nathaly retomou sua completa consciência, e já se via amarrada de forma semelhante à John, sentada no chão. Suas costas estavam involuntariamente apoiadas em algo. E não era alguma parede ou qualquer outro objeto. Olhando como podia para trás, ela viu que estava, na verdade, escorada nas costas de seu amigo. Eles estavam amarrados, um de costas para o outro. Nathaly nada poderia fazer. Ainda estava um pouco fraca, e sua pele ainda recebia moderadas radiações vindas do dispositivo, contribuindo em sua fraqueza. Ademais, uma remota tentativa e esforço de usar seus poderes mesmo com debilidades poderia definitivamente fazê-la revelar o seu segredo.
– Nunca imaginei que você chegaria a este ponto, Srta. Kate – disse George. – Como ousou a invadir o meu palco? Por que disso tudo?
– Professor... Por favor, não cometa uma loucura com essa bomba – suplicou Nathaly. Seus olhos tentavam se manter firmes para encará-lo, pois a moleza em seu corpo tentava prevalecer.
– Bomba? – Ele deu às costas, indo até a sua invenção revolucionária, dentro de suas concepções, completamente à mostra enquanto iluminava parte da sala com seu brilho. – Isso é a solução para a raça humana comum, pura, sem ter dons especiais consigo; pois, uma vez os tendo, é uma constante ameaça. – Tirando seus olhos do equipamento, caminhou até a sua admirada aluna, e agachou-se, recebendo o olhar dela. – Mas me parece que não será algo tão positivo para você. E é por uma certa razão, não é mesmo?
– Sim. O senhor está prestes a matar muitas pessoas.
George pegou delicadamente o queixo de Nathaly, e olhou bem em seus olhos, chegando a apreciar aquele verde da íris.
– Como sempre, a sua esperteza é admirável. Mas você não me engana mais, Srta. Kate. Não mesmo.
– Afaste-se dela, seu maluco. Você nunca deveria ser um professor – disse John.
– Fica quieto, rapaz. A conversa é entre professor e aluna – repreendeu-o, sem tirar os olhos de Nathaly. Sem pressa, ele se colocou de pé. – Agora, está na hora de anunciar os últimos minutos da velha sociedade, corrompida pelas aberrações esparramadas por aí.
Ele foi até a aparelhagem radiofônica. Antes de pegar o microfone, deu uma olhada em seu relógio e, sendo assistido pelos seus seguidores cientistas do projeto, começou a anunciar os momentos finais:
– Atenção, senhoras e senhores. Daqui a apenas dois minutos, o mais novo Big Bang irá acontecer. Todos atentos quando o relógio de nossa belíssima torre marcar o momento da próxima badalada.
Ouvindo aquele anúncio, John ficou cabisbaixo, pensativo.
– Nathaly?
– Sim, John.
– Infelizmente, não há mais o que fazer. Ninguém pode nos salvar. E eu fui um fiasco como soldado, querendo salvar o dia.
Nathaly ponderou a dar uma resposta ao comentário de seu amigo. Ela então, em reação automática, segurou firme as mãos de John às suas costas, algo que ele não esperava, nem mesmo a própria Nathaly. Os dois ficaram mudos por alguns instantes enquanto as mãos entrelaçadas se falavam através do tato.
– Jamais diga isso, John. Você é um grande soldado. Você teve a coragem em entrar aqui na tentativa de livrar as pessoas do perigo. – Nathaly pausou em seu discurso, unindo um pouco mais de força para continuar. – Eu... tenho orgulho de ser a sua... amiga.
– Nathaly, se nós não escaparmos dessa, quero que saiba que eu... – John freou em seu raciocínio, e Nathaly o aguardava terminar atentamente – também tenho muito orgulho de ser o seu amigo. Você também foi bastante corajosa em vir aqui.
A conversa foi interrompida quando novas palavras eram ditas em transmissão pelo professor. Naquele mesmo instante em seu apartamento, Jennifer ligou seu rádio, acabando por ouvir coincidentemente as seguintes e prováveis últimas considerações antes da explosão:
– Ah! Temos duas pessoas conosco, para assistir de camarote o grande evento. Diria que é um casal de jovens: um inexperiente soldado e uma formidável e minha aluna de Biologia. De fato, o Big Ben será um grande palco desse espetáculo evolutivo.
Sua única reação foi deixar tudo o que estava fazendo.
Na ponte, entre os soldados encarregados da duríssima missão, o sargento do grupo foi abordado por um dos soldados. Ele o olhou, aguardando o que seria falado.
– Senhor. Acabamos de saber que a suposta bomba irá detonar em menos de dois minutos – reportou-o.
O sargento continuou calado, desviou o seu olhar e se pôs a pensar.
– E mais uma coisa, senhor: soubemos que um de nossos companheiros subiu à torre.
Ele rapidamente abandonou suas reflexões e olhou para o seu soldado, estando incrédulo da última informação que ouvira. Para se certificar disso, olhou para todos os seus demais subordinados, que aguardavam a sua ordem, e logo percebera que realmente faltava um soldado. Era justamente John. Levando seus olhares à torre, observou que os ponteiros estavam muito próximos de marcar a crucial hora.
– Fomos surpreendidos. Não dará tempo – disse ele, preocupado.
Todas as pessoas ali presentes souberam da indesejável surpresa promovida por uma mentira de George para driblar e afunilar o tempo de quaisquer estratégias adversárias para impedir os seus planos. Agora, a polícia e o exército estavam de mãos atadas à situação.
– Essa mentirinha será para uma boa causa – disse George. – Em menos de sessenta segundos, algo novo acontecerá.
Hall olhou para os seus seguidores, sorrindo de lado para eles. Ele já estava bastante irreconhecível no olhar e sua fisionomia como um todo, deixando transparecer a sua obsessão.
– Sejam bem-vindos à nova era humana, sem aberrações em nosso meio!
Fechando os olhos, abriu os braços e ergueu o rosto para o alto, enchendo os pulmões e soltando o ar, em puro êxtase. Àquela altura, a sua sanidade já era bastante questionável. Enquanto isso, o pequeno cronômetro em número digitais da bomba estava em perfeita sincronia com o mecanismo do gigante relógio.
Os imensos ponteiros de Big Ben estavam cada vez mais perto do momento. O pânico aumentava entre as pessoas, que sequer conseguiam ter reação para correr. O medo as hipnotizava. Raphaela tinha um motivo a mais para ainda estar encarando aquela situação, que era os seus próprios amigos no interior da torre. Jennifer apareceu ao seu lado, já olhando o gigante relógio londrino.
– Nathaly e John estão em perigo lá dentro. E nós todos vamos morrer! – disse Raphaela, já desesperada.
Jennifer a olhou sem dizer nada, sendo absolutamente fria diante do desespero encontrado na jovem alemã, e no âmbito geral. Ela ergueu novamente o seu olhar para o alto do Big Ben. Faltavam apenas três segundos para a bomba ser acionada. Todos arregalaram seus olhos, e tiveram uma única sequência de reações: tapar seus ouvidos, fechar os olhos e agachar, para aguardar o impacto.
De repente, tudo em volta de Jennifer parou, nem mesmo som chegava aos seus ouvidos. Ela começou a correr em direção à torre enquanto tudo estava paralisado, em sua velocidade supersônica, que praticamente parara o tempo.
Em passos teoricamente lentos, ela passou pelo hall principal do palácio e subiu a escadaria da torre, chegando à sala de mecanismo do emblemático relógio. Ali, encontrou um panorama com várias cenas em um único lugar congeladas no espaço-tempo: John e Nathaly no chão com os seus olhos fechados, o professor Hall com as suas mãos seguidas para o céu enquanto os seus seguidores estavam tapando seus ouvidos e, mais a frente, a bomba, em fácil identificação devido ao seu brilho – que também teve a sua luminescência incrivelmente congelada no espaço. – Jennifer decidiu por desamarrar John e Nathaly primeiro, em uma corrida contra o próprio tempo, que já queria vencê-la; obtendo êxito, olhou à sua frente, faltando-lhe apenas a bomba. Fitando no maior alvo, ela foi até o explosivo, desconectando-o do sistema do relógio. Faltava apenas milésimos para detonar. Em um piscar de olhos, ela saiu dali com a bomba em mãos.
No mesmo instante, os ponteiros do Big Ben marcaram o horário, e o sino começou badalar naturalmente no alto da torre. Assim como Raphaela, todas as demais pessoas cautelosamente tiraram as mãos de seus ouvidos e endireitaram-se para olhar para o alto, ouvindo aquele som harmônico do sino. Eles viram que nada mais aconteceu senão o relógio demarcando o horário, surpreendendo-se.
– Alarme falso. Invadamos a torre! – ordenou o sargento do grupo do exército.
Os soldados foram os primeiros a ter a iniciativa de entrarem ao Clock Tower para realizar seus trabalhos no lugar da polícia.
George notara que nada aconteceu e, abaixando suas mãos lentamente, olhou para onde a sua invenção deveria estar, não a vendo mais por ali, apenas os cabos desconectados dos maquinários do relógio. Ele estranhou; viu também os seus seguidores cientistas o deixando em fuga, todos com medo, saindo pela porta da sala. Era o início de um declínio em seus planos.
– Não pode ser... – disse ele, cerrando os dentes e fechando seus punhos.
Tomado por um nervosismo, George virou-se, e se deparou com John e Nathaly de pé à sua frente, em certa distância.
– Professor...
Nathaly começou a se aproximar de seu professor. Se sentindo ameaçado, ele tirou seu revólver do bolso do jaleco, mirando propositadamente em John. George suava muito, estava completamente fora de si por estar vendo o jogo virar contra ele próprio.
– Não se aproxime, Srta. Kate – advertiu-a. – Não sei como o meu dispositivo sumiu dali, mas a culpa é totalmente sua. – George engatilhou a arma. – Dê adeus ao seu amiguinho.
Os pensamentos entraram em conflito na mente de Nathaly, a fazendo arregalar os olhos. De um lado, havia o seu amigo John, que poderia descobrir sobre ela se reagisse com seus poderes; do outro, uma arma prestes a disparar em seu próprio e grande amigo. A sua amizade e um instinto de heroína falaram mais alto, e ela usou sua visão de calor em direção à arma, aquecendo-a, fazendo o seu professor soltá-la sob um gemido de dor.
George a olhou surpreso.
Usando a sua agilidade animal, e sobre-humana, Nathaly correu até ele e o empurrou, a ponto de lançá-lo entre caixas de papelão que havia por ali. Ele ficou na mesma posição que caíra, sem nenhuma reação.
Nathaly virou-se e olhou para o chão; observou a arma com o seu cano retorcido devido ao aquecimento ocasionado pela a visão de calor, que já estava resfriada. Erguendo vagarosamente seu rosto, ela tinha a certeza que o seu amigo também estava observando aquela arma deformada. Seus olhares, então, se encontraram.
Houve um parcial silêncio. O sino ainda soando ao fundo.
Os olhos de Nathaly marejaram-se, e, não querendo mais encarar a seu amigo, ela deixou a sala correndo. John sequer moveu seu pescoço para vê-la sair. Ele estava completamente atônito, sem reação para nada. Os seus companheiros de exército entraram à sala, e o viram ali, parado encarando o chão, e o professor, com a batalha completamente perdida, caído entre as caixas ao fundo.
Todos olharam surpresos para o jovem soldado, que ainda estava em estado de ponderação.
Raphaela avistou Nathaly totalmente desorientada enquanto vinha em sua direção em passos rápidos. Preocupada, Raphaela não a esperou se aproximar, indo até ela.
– O que foi, Nathaly?
Nathaly a olhou com um semblante caído e mexeu os lábios para lhe responder, mas eles estremeceram, tirando-lhe qualquer força para contar o que houvera; apenas mais lágrimas sobreviveram aos seus olhos em substituição às palavras, que não poderiam ser decifradas por sua amiga. Ela abaixou a cabeça para tentar esconder o seu choro e se retirou, correndo, deixando Raphaela ali, muito mais preocupada, e eventualmente pensando no pior.
O casal Kate estava na cozinha conversando quando Nathaly abriu a porta do apartamento, deixando-a aberta, e foi direto para o seu quarto, sem querer conversa com ninguém. Clara e Steven se entreolharam.
Novas gotas de lágrimas caíam sobre o chão à beirada da cama. Nathaly estava de bruços com o corpo atravessado sobre o colchão, como se tivesse se atirado assim que entrou ao quarto. Com olhar perdido, via-se um par de olhos verdes sem mais o seu brilho, como um dia ensolarado que foi transformado em um céu cinzento por uma mudança repentina no tempo. Ela ouviu batidas na porta, mas faltava-lhe coragem para abri-la ou falar algo.
O silêncio foi entendido como uma permissão para adentrar. Quando os seus pais entraram, eles se depararam com a filha daquela forma, jogada na cama. Steven teve a atitude de ir até ela, sentando-se na beirada da cama.
– O que aconteceu, minha filha? Você se machucou, ou alguém fez isso?
Enxugando seu rosto com o dorso das mãos, Nathaly se colocou sentada. Seus olhos já estavam vermelhos por tanto chorar. Seu pai a olhou ainda mais preocupado.
– Sim. Eu mesma me machuquei, ferindo o meu coração e a minha temida pessoa – disse Nathaly. Novamente, seus olhos encheram-se em lágrimas, transbordando-os ao escorrer pelos cantos do rosto. – John descobriu o meu segredo, pai! Ele sabe quem eu sou agora.
Não aguentando se segurar, ela abraçou seu pai em busca de proteção e consolo. E chorava muito, molhando a camisa dele.
– Nathaly. Filha. Minha filha. Olhe para mim – disse Steven, mansamente.
Ela atendeu ao seu pai, "estancando" o choro para olhá-lo. Steven fixou seus olhos de amigo e pai nela, e passou o seu dedo polegar na beirada dos olhos dela para enxugar aquelas lágrimas. Ele observava aquele rosto com os olhos e nariz avermelhados. Realmente, nunca viu a sua filha chorar sobremaneira como estava sendo agora.
– Quando isso aconteceu com a sua amiga Juliana, você não ficou tão mal quanto agora. Por que agora reage totalmente diferente, chorando tanto?
Aquela pergunta parecia ter mexido com Nathaly com alguma outra questão. Olhando para a sua mãe às costas de seu pai, ela recebeu um sinal positivo com a cabeça, incentivando-a a dizer algo ao seu pai. Então, ela o encarou.
– Porque eu gosto de John mais do que um amigo... Eu o amo, pai. – Uma lágrima desceu de seu rosto. – O amo muito.
Steven ficou muito surpreso com a resposta. Ele olhou para a esposa, que não estava tão surpresa quanto ele, pois ela mantinha segredo com a filha; por sua vez, Nathaly estava cabisbaixa, olhando para o chão. Um desejo mais profundo do ser de Nathaly acabou por ser revelado. Revelado em um momento nada favorável àquela altura, que agora era cercado por muitas incertezas e medo.
O capitão do quartel estava em seu gabinete trabalhando normalmente vendo os documentos e assinando atas. Ele não recebia nenhuma atualização sobre as informações da missão ao atentado desde a saída da equipe selecionada para a Ponte de Westminster. Era como se ele mesmo não estivesse tão preocupado, sendo sangue frio, ou confiava muito em seus soldados de quartel. Ele começou a ouvir um barulho fora de sua sala. Um festejo.
Abrindo a porta, saiu ao corredor. Seu assistente logo veio ao seu encontro.
– Conseguimos, senhor. Conseguimos vencer na missão! – anunciou ele. – Soldado Mitchell combateu ao homem e sua equipe que encabeçava o atentado à torre de Londres, senhor.
Aquela notícia deixou o capitão pasmo. Parecia que ele havia perdido algo, e não ganho. Supostamente, a honra dada à John não estava nos planos dele.
Enquanto isso, John era cercado por todos em comemoração, recebendo palavras de elogio dos colegas. Ele sorria, mas não era um sorriso natural. Pelo ao contrário. Ele sorria com a mente em outro mundo, a ponto de tudo a sua volta estar acontecendo de forma lenta e distante.
Eduard estava com a sua secretária em seu escritório, assentados à mesa. Ele ouviu atentamente os relatos dela sobre as ameaças que sofrera nas mãos de George, antes e após o roubo dos minerais para a sacramento da construção da bomba.
– Por favor, Sr. Butzek. Não me demita. E-eu não queria fazer parte dessa situação. O-o senhor me conhece.
Massageando o queixo, o cientista alemão ergueu seu rosto e a encarou por alguns segundos com aqueles olhos azulados e vivos. Uma apreensão sobreveio na confidente funcionária.
– Não se preocupe. Não irei lhe demitir – disse Eduard, a acalmando. – Mas o fato é que foi um grande risco. Tivemos sorte de um fracasso no plano dele.
A secretária concordou com a cabeça, ainda desconfiada. Não era para menos. Ela colocara em risco o seu emprego e muitas vidas.
A conversa foi interrompida quando Luiza entrou no escritório sem bater na porta.
– Eduard? – Luiza o chamou, parando no meio da sala.
Eduard dispensou sua secretária. Ela passou por Luiza dando seus cumprimentos de funcionário, e saiu. Dando uma olhada para trás, Luiza falou:
– Ainda podemos confiar nela?
– Claro que sim, querida – respondeu Eduard, tranquilo, disjuntando as mãos. – Afinal, todos nós merecemos uma segunda chance – sorriu.
Ele ficou a olhando; levantou-se da cadeira e foi até ela, sem muita pressa.
– Aconteceu alguma coisa, Luiza?
– Recebi um telefonema de nossa empresa na Alemanha. E por isso vim urgentemente para cá – disse ela. – Precisarei passar alguns dias na sede de Berlim para resolver as questões de lá, mais uma vez.
– Tudo bem. Mantenha-me informado de tudo, como sempre.
Luiza se aproximou mais do marido.
– Eu também digo a mesma coisa. E cuide bem da nossa filha. Nesta viagem, eu sinto uma esperança de que, quando eu retornar, eu a veja me esperando ao seu lado. Com certeza, será o meu grande presente de retorno. – Luiza encarava a seu esposo. – Voltarei à minha sala.
Ela deixou o escritório.
Com suas mãos no bolso, Eduard parecia refletir nas últimas palavras de sua mulher. A reflexão devia ter aumentado quando a sua reação foi olhar para o porta-retrato que estava sobre a sua mesa, onde estava junto a sua esposa e filha, todos sorrindo. Uma felicidade distante ao que estava na fotografia naquele momento.
Dedos de uma mão masculina batiam sobre uma mesa harmonicamente. George, vestido todo de branco agora como paciente de um hospício, era quem tentava manter a melodia harmoniosa de seus dedos. Acorrentado em uma das mãos, com uma corrente comprida presa ao chão, ele estava em uma pequena sala reservada à visitas, totalmente equipada por questões de segurança, onde havia também uma janela de observatório de vidro usado para o funcionário acompanhante vigiar o paciente e seu visitante. O agora desligado professor universitário esperava por alguém que viria o visitar. Quando menos imaginava, a porta da sala se abriu.
– Se sentindo em casa, Me. Hall? Ou melhor, ex-mestre universitário – disse Eduard, o visitante, sentando-se na cadeira com as pernas cruzadas.
– Não quanto você, Eduard. Aqui deveria ser o seu lugar – disse George, sério.
Eduard olhou para os quatro cantos do teto, simulando admiração pelo lugar.
– Ótima recepção da sua parte, Sr. Hall. – Eduard abriu um sorriso espontâneo, mas logo fechou sua cara ao aproximar seu rosto do professor. – Por sua teimosia e o seu ataque de loucura por procurar pelo em ovo, se já não bastasse roubar as minhas coisas científicas, você quase fez a minha empresa ser manchada ao contar com os meus outros funcionários para tentar cometer aquela doidice. As autoridades queriam indiciá-la como cúmplice dessa loucura. Mas o meu advogado e as provas intervieram no caso. – Ele escorou suas costas no encosto da cadeira novamente. – Dê graças pela minha misericórdia para contigo. Mesmo nesse estado mental crítico à qual você se encontra, eu poderia muito bem lhe processar e fazê-lo pagar pelos roubos da propriedade da corporação.
George ria. A sua reação quase que "diabólica" era de causar temor. Eduard não demonstrava medo dele, o olhando sério.
– Falas como um cordeiro. Mas as suas atitudes são como de lobos, que espreitam, até que possam tragar suas vítimas. – George calou-se, mas logo continuou: – Sei que há algo muito mais importante do que a sua própria filha acamada precisando da sua ajuda, e muito mais do que os sobre-humanos às quais você não admite que existam. A sua secreta ambição nunca acaba, não é mesmo? Agora que estou aqui, não serei mais usado para ser os seus olhos.
– Não sei onde quer chegar com as suas palavras – disse Eduard, olhando de lado, desconfiado. Algo tocou nele.
– Você sabe muito bem do que estou falando. Trata-se de uma descoberta exclusiva, que está escondida a sete chaves de todos; e que muito breve não estará mais em oculto.
– Não sei do que você está falando. Mas mesmo que você falasse alguma coisa, ninguém acreditaria em um louco como você. Um desperdício para o mundo acadêmico e científico. Uma pena, Sr. George Hall.
De repente, um ataque de fúria acometeu o professor, que levantou da cadeira de uma só vez; a corrente que prendia uma de suas mãos esticaram-se ao máximo com a força aplicada do homem, jogando a carga de resistência aos parafusos rosqueados no solo. Imediatamente, Eduard se afastou. George estava fora de si.
– Eu não sou louco! Você sabe a verdade! A verdade!! – gritou. – Fui eu que lhe mandei aquele aviso em seu escritório, como um apóstolo que alerta a sua igreja! O seu fim está próximo, Eduard!
O funcionário do hospício entrou na sala com mais dois homens para conter o irreconhecível mestre em Biologia. O funcionário tirou Eduard da sala para a sua segurança.
Os homens que contiveram George cederam-no. O nível de estresse caiu sobremodo em seu sistema nervoso, sentando-se na cadeira já sob efeitos do remédio, dopado.
– Você vai pagar muito caro, Eduard. Muito caro – disse o professor. – É apenas o começo do seu próprio tormento, antes de dar entrada ao inferno.
Ele olhava sério para o nada, convicto de uma crença de vitória sobre o cientista alemão. Qual seria essa vitória esperada?
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top