Capítulo Cinco: Newton
Cambridge, ano de 1672. Carruagens transitavam pela zona central da cidade inglesa. Tal movimento era intenso, agitado com algo naquele dia. Pelas calçadas, Jennifer e Nathaly caminhavam em meio às pessoas. Elas observavam aquele ambiente assim como elas próprias eram observadas por outras pessoas, que as viam trajadas de forma diferente de suas roupas.
– As pessoas estão olhando muito. Creio que elas irão nos abordar por conta das nossas roupas – comentou Nathaly.
– Relaxa, Nathaly. Ao menos, você está de jaleco. Esse tipo de roupa já é familiar há anos. – Jennifer começou a prestar mais atenção à intensa movimentação entre as pessoas, que iam para uma mesma direção. – Por ali.
Elas ignoraram aqueles olhares, e seguiram a parte daquela multidão. Entre as duas, Jennifer estava mais convicta no percurso. Era ela quem estava levando Nathaly para algum lugar daquela cidade. Então, elas chegaram em frente a um lugar onde comumente era realizado assembleias. Elas notavam apenas pessoas bem trajadas atravessando aquela grande porta dupla com duas hastes, uma de cada lado, com a bandeira do Reino Unido.
Dentro daquele local, todos acomodavam-se em suas cadeiras de madeira nobre à época; mais adiante, havia um palanque de concreto. Sobre ele, havia alguns aparatos científicos colocados em segundo plano enquanto o púlpito estava adiante, centralizado no meio. Disfarçadamente, Jennifer e Nathaly conseguiram entrar, e contemplavam aquele ambiente arquitetônico e organizado.
Em uma espécie de camarim, havia dois homens devidamente trajados como pessoas importantes. Um deles pegou seu casaco preto de uma escapa e se vestiu da peça.
– Você sempre me deu orgulho como aluno, não lhe coloquei como professor universitário de Matemática à toa. Não dará errado – disse aquele homem que se vestiu. – Confie em suas próprias descobertas.
– Sim, Sr. Barrow – respondeu o outro homem, com uma voz retraída. Seu rosto ainda não era visto de primeiro momento, sendo impossível reconhecê-lo.
– Hora do show, meu garoto.
Barrow, como fora chamado pelo sobrenome, passou seu braço pelos ombros do outro e "misterioso" professor, e deixaram aquela salinha.
Os convidados estavam na expectativa em suas cadeiras, com alguns burburinhos entre eles. Nos últimos bancos, Jennifer e Nathaly também aguardavam a assembleia científica começar.
– Está demorando muito. Ainda estou curiosa para saber o que haverá aqui, de fato – comentou Jennifer, impaciente.
– Não mais, Jennifer.
Um homem subiu educadamente ao palanque, indo até o púlpito, e arrumou seu paletó. Certamente, era o gestor do evento.
– Senhoras e senhores, é com extrema satisfação que começaremos mais um evento científico nessa cidade, com a presença dos ilustres cientistas e senhores Robert Hooke e Christiaan Huygens em primeira fileira para discussão – introduziu em alta voz, para que todos pudessem ouvi-lo. – Agora, chamarei aqui essa premissa, ou se não realidade no campo da Física, o professor lucasiano de Matemática da Universidade de Cambridge, e físico, o senhor... Isaac Newton!
Aquele anúncio fez os comparecentes aplaudirem aquela entrada. Jennifer mudou sua expressão ao ouvir o nome do cientista, desescorando-se da cadeira, e olhou atentamente para frente; Nathaly também teve seu espanto. Newton surgia em passos lentos sobre o palanque, carregando uma mala preta em sua mão direita, enquanto o anunciante saía de cena. Ele se posicionou atrás do púlpito e encarou aquela multidão com o seu olhar e fisionomia ainda jovem, que parara de aplaudir, estando sob um intenso silêncio.
– Sir Newton – sussurrou Jennifer, visivelmente emocionada no olhar. Seu sussurro fez Nathaly olhá-la.
Um dos maiores cientistas de todos os tempos estava diante de Jennifer, sua seguidora do futuro. Era um momento de extremo impacto para ela.
Quebrando o silêncio, Newton começou a discursar, fazendo Jennifer também ouvir a sua voz pela primeira vez:
– Bom dia a todos. E obrigado por virem. – A saudação em alta voz ecoou fortemente pelo ambiente emudecido, provocando a pausa de sua própria fala por alguns momentos. Então, pigarreou para continuar. – Venho-lhes apresentar uma nova descoberta. Uma nova e completa explicação para um fenômeno bem presente em nossas vidas, mas que, até então, era inexplicável. Para ser mais direto, era tanto quanto confuso. – Ele direcionou seus olhares para um dos cientistas da bancada, o mais respeitado Robert Hooke, que o olhava atentamente. Na sequência, ele olhou para o lado, onde o seu praticamente mentor, Barrow, o apoiava de longe, antes de voltar a encarar o público. – Bem, estou aqui para desvendar de uma vez por todas os mistérios da luz e a natureza das cores.
Todos ali ficaram bastante interessados com o assunto revelado por Newton. Calado, ele deu às costas e colocou sua mala sobre uma mesa. Abrindo-a, havia um objeto retangular de tamanho médio transparente. Era simplesmente um prisma. Ele o pegou da mala e o colocou sobre a mesma mesa.
– Eu tenho uma pequena história a contar para os senhores. – Newton continuava arrumando suas coisas. – Um dia, eu entrei em meu quarto e o escureci totalmente. Decidi fazer um pequeno furo em minha janela para que parte daqueles raios de sol pudesse entrar no meu ambiente de repouso; peguei esse prisma polido por mim e o coloquei diante daquela luz solar. Então, aquela luz foi simplesmente refratada, e me deparei com lindas cores vivas sobre a parede oposta.
Em um simples sinal dado por ele, todo o ambiente foi escurecido por cortinas nas janelas. Do alto, em um determinado ângulo, um orifício foi aberto. Ademais, cópias do artigo sobre as ideias da nova teoria era distribuída para todos. Naquele momento, havia uma nuvem sobre a luz do sol, fazendo todos esperarem por aquele experimento, até então, teórico. Mas circunstâncias pareciam colaborar com o até então jovem cientista, pois a nuvem estava se dissipando aos poucos. Os seus olhares atentos tanto ao prisma quanto ao orifício eram tomados por expectativas, dando um mero espaço para torcer pelo êxito. Enfim, a luz solar ressurgiu, descendo até o prisma e provocando o extraordinário fenômeno de refração e dispersão da luz branca com as sete cores do arco-íris expostas sobre um painel branco. Os olhos de Newton brilharam com o êxito, certamente comemorando dentro de si. Parecia mágica, mas era algo real.
– A luz branca, ao contrário do que muitos pensam, não é pura. Ela é simplesmente a composição destas cores, cada uma de acordo com os seus níveis de comprimento de ondas, cujo os senhores veem – explicou Newton, que andava de cabeça baixa para explanar seus conceitos. Ele parou, erguendo sua face. – Portanto, senhores, essa é a mais nova e confidente proposta teórica sobre o assunto.
As pessoas cochichavam entre elas sob aquela parcial escuridão, aprovando tal conclusão e teoria de Newton, que observava todo aquele burburinho. Ainda havia um receio nele. Lá trás, Jennifer sorria com a apresentação impecável e direta de seu ídolo; na bancada, uma silhueta se colocou de pé. Era Hooke.
– Eu contesto, Sr. Newton. – Todos o olharam para ouvi-lo. Notando que estava tendo uma atenção massiva, ele ajeitou o se paletó como forma de mostrar formalidade e persuasão. – Como tem a certeza de que a luz branca não é realmente pura? O simples fato de refratar a luz não prova muita coisa. Ainda cremos que ela seja literalmente uma só, ou seja, pura. E que tais cores provenientes dela, a da luz, sejam apenas impurezas acrescidas. Estamos até cansados de saber, Newton.
O questionamento do cientista fez as mesmas pessoas presentes se questionarem, sendo uma semente de dúvida contra os argumentos de Newton.
– Não acredito nisso. Vou defendê-lo – disse Jennifer, fazendo o movimento para se levantar. Mas foi segurada.
– Não, não vá. Somos viajantes. Esqueceu? – repreendeu Nathaly, sussurrando. – Nós já sabemos o fim disso tudo.
Jennifer teve que conter sua ira em prol de Newton. Graças a sua amiga, algo ruim não iria acontecer por causa dela. Por outro lado, Newton nutria dentro de si o desapontamento por tamanha antipatia que tinha por Hooke. Aquilo era notório pela forma como se comportava diante dele, estando calado. Notando a insatisfação de seu ex-aluno, Barrow foi até ele.
– Acalme-se, Isaac. Não valerá a pena colocar sua reputação em jogo por uma discussão boba. – Ele olhou em relance para Hooke e tornou os olhares para Newton. – Continue convicto em sua descoberta. Eu acredito nela, assim como algumas pessoas desta assembleia.
Enquanto ambos estavam conversando indo em direção ao prisma, algo entorno ocorria por ali. Era algo desconhecido e imperceptível por todos. Mas o ambiente estava incomodado, testemunhando alguma coisa. Um olhar externo parecia perseguir os passos deles. Eles tomaram distância daquele prisma novamente quando o objeto simplesmente estourou, em um pipoco que trouxe um estado de alerta às pessoas.
– O que está havendo? – questionou-se Barrow.
Um grito foi ouvido de uma das pontas do palanque. Um homem fora atingido por uma bala perdida. Já sangrava muito à altura do ombro. Todos levantaram-se rapidamente para deixar o lugar, dando-se conta de um perigo. Um clima intenso originou-se ali. Imediatamente, Jennifer usou o seu poder da velocidade, não dando tempo para Nathaly reagir para impedi-la.
– Sr. Newton...
Antes de terminar sua fala, Barrow não avistou mais Newton ao seu lado, e olhava em volta à sua procura.
Em meio ao tumulto, Nathaly passava em direção ao contrária das pessoas. Certamente, ela estava indo de encontro ao homem atingido pela bala. Outro homem bastante apressado passou por ela esbarrando, fazendo-a cair ao chão.
– Deixe-me levantá-la, senhorita.
Um bom cavalheiro a levantou do chão. Ela se ergueu sob uma estranheza.
Paralelamente na área externa, um intenso vento elevou algumas folhas caídas de uma árvore. Era Jennifer quem apareceu com Newton em seu colo; assustado, ele desceu dos braços dela e manteve-se distante, com uma das mãos erguida à meia altura. Ambos se encaravam naquele encontro mais desejado pela jovem.
– Quem é você, jovem? – questionou Newton, quebrando aquele clima observatório.
Jennifer não o respondia, talvez por receio, admiração, ou ambos; dando um goto, ela mantinha seus olhares castanhos fixados nele, quase não os piscando. A mixagem de sensações era o potencial entalo de sua garganta e imobilidade de seu corpo, impedindo-a de dirigir as primeiras palavras ou gestos ao seu admirado cientista.
Aquele momento foi literalmente quebrado quando o ex-professor de Newton chamou por seu nome e o encontrou ali. Ele se virou como resposta ao chamado do professor. Quando voltou a olhar para onde Jennifer estava, ela já sumira de sua presença.
– Aconteceu algo, Newton? O procurei por toda parte.
De costas à Barrow, ele permanecia estático. Seus olhos estavam vidrados, um olhar azul perdido.
Tempo presente. Um cartaz simples foi colado em um muro. Nele, havia a foto do rosto dócil de Nathaly acentuado sob o preto e branco da impressão, além dos dizeres sobre a sua procura. Do outro lado da rua, Raphaela saía de uma loja com outras cópias do cartaz em mãos. Vendo John parado diante daquele cartaz que fora colado por ele naquela parede, ela atravessou normalmente a rua, mas se aproximou do jovem vagarosamente.
– Vocês são muito próximos, não é mesmo? – disse ela, dando um mero sorriso. A jovem não perdia sua simpatia.
– Sim, Srta. Schwanz. Eu a conheço desde o segundo ano escolar do Ensino Médio. Somos... Somos grandes amigos.
– Não precisa me chamar tão formalmente. Pode me chamar de Raphaela, apenas. – Ela deu um sorriso mais largo, sem ter um retorno de ânimo de John, e pôs sua mão em seu ombro. – Iremos encontrá-la, John.
– Já fazem praticamente quatro dias, e nada dela – disse ele, ainda observando aquele cartaz. – Espalhar cartazes e comunicar a polícia ainda é pouco. Precisamos fazer mais.
– E o que pretende fazer?
Virando-se, John apenas olhou para Raphaela. O que ele pensara naquele momento?
Na sala principal do quartel, o capitão analisava papéis sobre seu gabinete quando ouvira batidas na porta. Sob um suspiro, ele autorizou a entrada ao escritório.
– O que quer agora, Sr. Mitchell? – perguntou, olhando em relance o seu visitante – Achou... a sua namorada?
– Ela não é minha namorada, senhor. Apenas minha amiga de longa data – respondeu John, incomodado com a tal insistência. – Não a achamos ainda. Por isso, estou aqui.
– Prossiga, Sr. Mitchell. Não tenho tempo para esperar. – O capitão olhou atentamente ao seu recruta. John respirou fundo antes de continuar.
– Preciso que o exército intervenha nas buscas pela minha amiga.
O comandante levantou-se de sua cadeira, apoiando suas mãos na mesa. Um sorrateiro nervosismo invadira o ser de John.
– Começo a admirar sua bravura e determinação, Sr. Mitchell. Mas a incorporação tem outras coisas de mais importância para o nosso país. Sabia?
– Os pais dela estão sofrendo, senhor. Peço que considere isso. – John falou firme, quase levantando a voz por sua indignação.
Ele endireitou-se, e lentamente se aproximava de seu soldado, ficando ereto diante do jovem de modo a mostrar imponência.
– A polícia e o meu aval em lhe liberar para procurá-la já é o bastante, Sr. Mitchell. Não queira achar que você tenha algum poder de comando no Exército – disse o capitão. – Agora, deixe minha sala. Estou um pouco... ocupado.
John encarou por alguns instantes aquele olhar, mas aquele mesmo olhar o derrotou. Ele deixou a sala sem muita pressa; seu capitão permanecia parado com as mãos para trás, e um olhar ainda sério.
Tempo passado. Era noite. Um olho observador, e em movimento, era visto por um orifício. Era o olhar de Newton através da parede de seu quarto. Ele se afastou dali, e começou a andar pelo simples cômodo, impaciente, nervoso.
– Preciso provar contra o que Sr. Hooke disse. A minha descoberta não pode ser deixada de lado.
– Acalme-se, Isaac. Você deveria mesmo é se preocupar com o que aconteceu no meio da sua apresentação – disse Barrow, que também marcava sua presença no quarto usado como laboratório por seu ex-aluno.
– Acha que o Sr. Hooke planejou me matar, Sr. Barrow?
– Não, Newton – respondeu. – Seja igual a mim não apenas no nome, mas também na vigilância. Há muitos invejosos em nosso meio. – Ele deu uma olhada em seu relógio de bolso. – Preciso ir agora. Está ficando tarde.
– O acompanho até a porta, Sr. Barrow.
Eles foram até a sala, onde ficava a porta de saída. Ali, se despediram:
– Tenha uma ótima noite, Isaac.
– Igualmente, professor.
Barrow colocou seu chapéu e fez o famoso gesto de despedida, deixando a casa. Newton fechou a porta e deu às costas a ela, com a intenção de retornar ao seu quarto. Mas batidas na porta o fez parar e olhar de lado. Era provável que ele pensara que era Barrow novamente. Então, decidiu voltar para atender. Quando abriu a porta, uma mesma cena tomou-lhe forma.
Enquanto isso, Barrow voltava para sua residência em sua carruagem coberta, guiada por seu funcionário particular. A viagem já estava no meio do percurso quando a própria carruagem parou. Ele olhou desconfiadamente para os lados, onde havia janelas, uma de cada lado.
– Por que paraste? – perguntou ao homem que dirigia. Mas não houve resposta.
O professor arqueou uma das sobrancelhas, e levantou-se lentamente do assento. Ele desceu e foi cautelosamente até a parte dianteira. Uma cena o assustou: viu seu funcionário caído para o lado. Quando subiu para vê-lo, houve mais um susto: havia um pequeno dardo encravado no pescoço do homem. A mesma vigilância exigida por ele a Newton agora era requerida à sua pessoa.
– Meu Deus...
Barrow desceu da carruagem com um olhar assustado. Quando se virou, ele foi surpreendido com um forte golpe de punho na lateral do rosto, fazendo-o cair nocauteado no chão. Diante do desmaiado, havia três homens; o autor do golpe estava ao centro.
– Bons sonhos, Mestre Isaac Barrow. Você nos ajudará a chegar ao nosso alvo.
Tempo presente. Steven falava ao telefone. Ele parecia conversar com a polícia para saber mais informações sobre o sumiço da filha, além de estar um pouco alterado devido à preocupação. Desligando o telefone, ele se virou à esposa. Ambos estavam na sala.
– Alguma novidade, querido?
– Não – suspirou, olhando para o chão. – Nada sobre a nossa filha. – Ele ergueu seu olhar à Clara. – Os amigos dela estão demorando muito... Talvez eles possam ter obtido alguma notícia.
– Espero que seja isso, Steven.
Steven notou uma vaga estranheza nela, e a olhou mais fixamente.
– Quer me contar alguma coisa que eu não saiba, Clara?
– Não... P-Por quê?
– Tenho lhe observado desde quando Nathaly sumiu. Você está indiferente.
– Estou apreensiva e nervosa, Steven. Apenas isso.
– Isso se estende a mais coisas, Clara. Conte o que está havendo.
Clara não conseguira desviar o foco, e falou:
– Autorizei a nossa filha de ver a Jennifer no dia em que ela desapareceu.
Perplexo, Steven diminuiu a distância física entre eles, criando uma apreensão em Clara.
– Não era para ter feito isso, Clara. Aquela jovem é perigosa, uma péssima influência à nossa filha.
– Mas Nathaly a considera como amiga. E garante sua mudança.
– Sim. E acabou sumindo no mesmo dia que ela foi vê-la. Muita coincidência – disse Steven, havendo estresse em suas palavras. – E agora estamos como loucos em busca de informações sobre a Nathaly enquanto ela mesma perde seus dias valiosos na universidade. Já estamos no quarto dia.
A campainha tocou, quebrando o clima pesado que se formava entre o casal. Steven respirou fundo, retomando sua postura. Então, ele saiu da presença da esposa para atender a porta; Clara passou a mão em sua testa, ainda muito tensa.
Tempo passado. Apático, Newton estava diante da porta aberta por ele. Passos lentos para trás eram dados conforme duas pessoas entravam à sua residência. Aquelas pessoas eram Jennifer e Nathaly. Newton ficou distante delas. E um rápido silêncio pairou.
– Você... Você é a pessoa que me tirou daquele palanque tão subitamente – disse ele, visivelmente intrigado. – Como pôde fazer aquilo?
– Sir Newton, eu...
– Sir? Por que me chama assim?
Jennifer paralisou-se. Não sabia como explicar sem assustá-lo. Então Nathaly tomou à frente:
– Somos do futuro... Brevemente, você será nomeado como Sir – revelou, sendo bem direta. Ela engoliu em seco devido ao receio.
Estático, Newton apenas franziu a testa. Não era certo saber se ele estava sendo cético aos primeiros argumentos ou não. O fato era que realmente era impressionante ouvir aquilo, ainda mais quando os respectivos ouvidos são de um cientista, e físico.
– Eu posso viajar no tempo, Sir – disse Jennifer, mais uma vez reverenciando ao seu ídolo com a saudação. Ela trocou olhares com Nathaly, e continuou, olhando para Newton, desconfiada: – E posso levar pessoas comigo.
Os olhares do cientista inglês as deixavam mais apreensivas. E aumentava ainda mais a cada segundo de seu emudecimento. Ele então andou para frente, ficando a meia distância delas.
– Como consegue fazer isso, jovem? – questionou Newton, olhando atentamente para Jennifer.
– Descobri por acidente. E estamos aqui.
– Além de ter uma incrível agilidade e velocidade, ainda tem o controle sobre o tempo? Não entendo.
– Ela tem os poderes da Física, Sir Newton – explicou Nathaly.
Newton desviou suas atenções para Nathaly, e começou a analisá-la de modo a deixá-la tímida e ao mesmo tempo assustada no olhar. Era nada mais e nada menos do que o próprio e renomado cientista a observando.
– E você, bela jovem? Também possui algo em especial? Posso prejulgar em seus lindos olhos verdes.
Nathaly olhou para a amiga, que por sua vez fez um mero sinal com o olhar. Passando seus olhos pela sala, Nathaly viu uma vela apagada; mirando-os nela, usou sua visão de calor, acendendo-a. O cientista olhou espantado para trás. Aproximando-se do iluminador que produzia normalmente a chama, observava. Parecia que fora acesa por um fósforo.
– Esplêndido! Está funcionando perfeitamente, de forma harmoniosa.
– Meus dons vêm da natureza – contou Nathaly. – Esses raios provêm da energia solar que absorvo no meu corpo, através de um processo chamado... fotossíntese.
Ouvindo aquilo, intrigado, ele se virou, como todo cientista que descobriu algo, e ia em direção a elas. Novamente, elas entraram em transe, apreensivas com a incógnita recepção dele e o que ele iria falar e poderia fazer com elas.
– Convido-lhes a se hospedar em minha casa esta noite. Gostaria de retribuir o que vocês fizeram por mim.
Finalmente, houve um alívio dentro delas com as últimas palavras de Newton. Era imaginada tamanha honra em receber um convite de uma das pessoas mais importantes na humanidade. Tudo de uma forma natural. Decerto, Jennifer era quem estava se sentindo mais lisonjeada.
Pele manhã, Newton as levou para a Universidade de Cambridge onde ele lecionava. Eles passavam pelos alunos e professores, que analisavam as vestimentas incomuns de Jennifer e Nathaly – como já ocorrera com elas antes. – O cientista ia para a sala dos professores.
– As apresentarei para o Sr. Barrow, o meu...
– Sim. Isaac Barrow. O seu xará e professor que lhe ensinou quando você era aluno daqui. Você foi uma indicação dele para exercer o cargo de professor universitário de Matemática.
– Exatamente... Srta. White – confirmou, consciente de onde vinha tantas informações. – E não se preocupem. Não falarei nada sobre vocês.
Entrando àquela sala, Newton não encontrou Barrow. Estranhando, perguntou aos demais companheiros sobre ele. A resposta foi negativa. Ninguém o viu.
– Nos vemos na casa do Sir Newton – disse Nathaly, de repente.
Sem dar tempo à argumentos, Nathaly se retirou ligeiramente da presença dos dois, desaparecendo em meio às pessoas; Newton e Jennifer não entenderam aquela reação.
Barrow estava inconsciente. Ele estava preso à uma cadeira, amarrado pelas mãos e pés. Um balde de água foi jogado sobre sua cabeça, o fazendo despertar no susto.
– Dormiu bem, Sr. Barrow?
– Quem são vocês? – questionou, olhando para as três pessoas.
– Esses dois ao meu lado são os meus amigos de longa data. Estudaram comigo. Já eu sou o aluno que foi humilhado pelo seu querido aluno na mesma escola.
– O que quer comigo?
– Apenas quero que me diga onde ele mora, e terei uma boa conversa com ele.
– Você quer matar Newton. Foi vocês que tentaram matá-lo naquela assembleia.
– Como adivinhou o meu desejo? – Um sorriso malicioso estampou o rosto daquele homem, mas logo se fechou, desferindo um soco no rosto de Barrow. – Agora me diga onde ele mora. Não queira ver mais sangue como eu já estou vendo escorrer pelo seu nariz.
– Não darei vazão por pouca coisa. Newton é um orgulho da Ciência. E a inveja não o parará.
O homem riu, tratando o que o professor disse como uma piada.
– Parece que você dará trabalho para nós. Mas a escolha é sua.
Mais socos foram desferidos no professor, em várias sequências. Parando por um instante, o irado homem sorriu de lado, acreditando estar próximo de sua resposta, enquanto sua vítima gemia de dor.
Nathaly retornara ao local onde houvera a assembleia científica no dia anterior. Sorrateiramente, ela dirigiu-se aos fundos do lugar. Quando menos era esperado, ela já entrara ao ambiente; não havia ninguém por ali. Chegando ao salão principal, Nathaly começou a observar todo o ambiente. Garantindo que estava só, ela usou o olfato aguçado. Dentre tantos odores, um chamou-lhe atenção, a fazendo ir para uma direção. Tal odor a levou para uma salinha do segundo andar. Entrando ali, ela deparou-se com uma cortina que cobria a janela. Quando a abriu, teve uma ampla visão da lateral do salão, justamente em direção ao palanque de concreto. Imediatamente, uma forte conexão viera em seus pensamentos, e continuou a farejar; e deixou a salinha rapidamente.
Enquanto isso, Newton encontrava-se de volta a sua casa. Ele estava polindo vidraças em seu próprio quarto na companhia de Jennifer, que apenas observava atentamente ao seu considerado mestre. Ele estava no estágio final no processo de polimento, constituindo um novo prisma.
– Finalmente eu consegui obter um novo prisma – disse Newton consigo mesmo. Logo, ele pausou. – Mas não sei se continuo com esses estudos. Já estou cheio de ser afrontado, rejeitado.
Jennifer descruzou os braços, e foi até ele.
– Não desista, Sir.
– Você diz isso porque sabe que o meu futuro espera por um fracasso, Srta. White.
Ambos se olhavam, até que ela pegou o prisma da mão dele, e o posicionou em uma mesinha diante daquele mesmo buraco na parede feito pelo próprio cientista. Por ali, havia outro prisma, um pouco menor do que o outro, e Jennifer também o pegou, deixando-o atrás do maior a certa distância. Newton observava tudo calado, como um professor que assistia ao seu aluno. Então, ela fechou a porta e escureceu todo o quarto, seguindo o mesmo ritual de Newton em sua descoberta; a luz solar atravessou o orifício, passando pelo primeiro prisma, e pelo segundo. Ali foi visto a refração no prisma maior e a continuação no prisma menor. No menor, não houve uma nova refração. Os olhares do cientista era ainda de observância.
– Se um prisma trouxesse impureza aos raios da luz branca, esse pequeno prisma traria novas cores à primeira refração. Logo, a luz branca não é pura, e sim uma junção de cores – explicou a jovem.
Sob aquela escuridão parcial no quarto, Newton aproximou-se de Jennifer, espantado.
– Você acabou de formular e provar a tal justificativa à minha descoberta, Srta. White.
– Na verdade, é o que o senhor mesmo viria a descobrir – revelou. – Eu sempre lhe tratei como a minha principal referência nos estudos de Física, a matéria que amo, para manter o meu sonho de ser tornar uma cientista como o senhor. – Ela parou de falar. Newton apenas admirava aquelas palavras, estando mudo. – A grande parte do meus poderes físicos e o meu conhecimento só são possíveis graças a ti, apesar de eu conseguir mudar... alguns valores quando eu uso os meus poderes.
O cientista não saía daquele estado de êxtase. Ele estava se sentindo muito honrado por ela. Jennifer sorriu sutilmente para ele. Aquele sorriso se desfez quando um mal-estar começou a acometê-la. Era uma fraca tontura. Newton, prontamente, a acudiu, fazendo-o levá-la para tomar um ar em um pequeno jardim nos fundos da casa.
– A Srta. está bem?
– Sim – respondeu com a mão na testa. – Foi apenas uma indisposição... Uma tontura.
– Quero que fique aqui mais um pouco. Voltarei à casa para continuar escrevendo... o meu livro científico que pretendo publicar. Com licença.
Quando pensou em dizer algo, Jennifer já via o cientista de costas para ela, voltando para casa. Um raro sorriso de uma jovem séria surgiu por saber que ele ponderara às suas palavras e as absorveram positivamente. Aquilo foi provado através da atitude do cientista inglês em retomar à escrita de seu respectivo livro.
Em uma ponte, uma carruagem chegava por ali. Parando, Barrow desceu sob o domínio dos homens sequestradores, que o levaram até a beirada daquela ponte. Abaixo dela a alguns metros, águas de um rio percorriam tranquilamente. O professor foi obrigado a ficar imóvel, e os sequestradores o amarram com suas mãos para trás; o líder daquele trio tornou à carruagem e pegou uma pedra que escondera com um pano escuro. Sem pressa, ele voltou, e abaixou-se diante de sua vítima.
– O que está fazendo? – questionou Barrow, que estava sendo amarrado à pedra. – Por que está me prendendo a esta pedra?
O homem se levantou, e encarou o professor por alguns minutos.
– Você sabe o que acontece quando uma massa sólida, e pesada, é jogada em uma composição líquida, Sr. Barrow? Aposto que o seu querido e eterno aluno, Newton, saiba. Na verdade, ambos sabem.
– Prometeste me soltar se eu contasse onde Newton estaria, rapaz.
Um sorriso medonho estampou o rosto dele, e deu às costas a Barrow, indo até o parapeito da ponte, apreciando aquela paisagem das águas.
– Sabe, Sr. Barrow... Às vezes, mudamos os planos... – Lentamente, ele se virou – e você pode nos entregar.
Um sinal dele fez um de seus comparsas pegar Barrow pelos antebraços enquanto o outro pegou a pedra, o forçando a ir até o parapeito da ponte.
– Não precisará ter saudades de Newton. Já, já ele se unirá a você.
De repente, o professor foi erguido para o ar, e ele começou a apresentar resistência em prol de salvar sua vida, sacudindo-se. Mas não conseguia obter êxito. Os homens tinham mais força, e a sua imobilidade era uma grande desvantagem. Então, ele foi lançado às águas, afundando instantaneamente devido à pedra presa aos seus pés. Tendo uma parte da missão cumprida, eles voltaram à carruagem e deram partida.
Submerso, Barrow se debatia muito para tentar se soltar de alguma forma. Isso só o cansava mais rápido por falta de oxigenação. Um desespero e falta de esperança tomavam conta de seu olhar quando silhuetas de dois braços estendidos em sua direção formaram-se no reflexo de cada íris daqueles mesmos olhos, reavivando a esperança. Nathaly era a sua esperança! Ela então despedaçou a corrente que o prendia naquela pedra com a força física unida aos seus poderes de força animal. Segurando-o no colo, ela o levou à superfície e o deitou na grama das margens do rio; o professor expeliu a água que engolira e puxou drasticamente o ar aos seus pulmões, tossindo por algumas vezes. Nathaly o levantou, e ele a encarou.
– Você está seguro agora, Sr. Barrow – disse Nathaly, quebrando o silêncio.
– Quem é você, senhorita? Como sabe meu sobrenome? Nunca lhe vi antes.
– Apenas chame a polícia para onde aqueles homens que lhe jogaram certamente foram.
– Mas... – Barrow começou a olhar ao seu redor, ainda desnorteado por ter visto a morte de perto – diga ao menos o seu nome.
Virando-se novamente para a posição onde Nathaly estava, Barrow não a viu mais por ali. Ela aproveitou a oportunidade de sua distração para sair da presença dele sem ser questionada com mais coisas.
Em seu quarto, Newton se encontrava assentado em uma escrivaninha escrevendo o seu futuro livro científico, o livro que viria se tornar o mais importante e influente da história da Ciência: Opticks. Ele estava bastante concentrado, como de costume. Sua concentração foi interrompida quando ouviu um ranger da porta de seu quarto, que estava sendo aberta cuidadosamente.
– Srta. White? – Calmamente, Newton se levantou e virou-se em direção à porta.
– Pessoa errada, Isaac.
Vendo três homens diante dele, sua primeira reação foi dar alguns passos para impulsioná-lo à fuga.
– Não se mova. – O líder mostrou a arma. – A nossa conversa está apenas no começo.
– Quem é você? O que fazem em meu leito?
– Não lembra de mim, Isaac? – Cinicamente, o homem sorriu.
Newton começou a olhar fixamente aquele homem armado, analisando toda sua fisionomia. Como um buraco de minhoca, aquele par familiar de olhos o fez retroceder no tempo em sua mente, ainda o olhando no fundo deles.
Pelos corredores da escola, o adolescente e introspectivo Newton regressava à sala de aula após supostamente usar o banheiro. Ele estava de cabeça baixa, martirizando algo. Perdendo a noção das coisas em volta de tanto pensar e olhar para baixo, ele se esbarrou em um aluno, fazendo-o derrubar seus cadernos.
– Olha para onde anda, seu estúpido! – insultou, ao reconhecer que era Newton, seu colega de classe.
– De-desculpa... N-não foi a minha intenção.
– Então, por que você se esbarrou em mim?
– Estava distraído... pensando – justificou.
– Pensando vento? Melhor parar com suas neuroses achando que pode mudar o mundo, Isaac. Você não passa de um aluno comum. – O garoto aproximou-se de Newton, passando a olhá-lo dos pés à cabeça com desdém. – Não sei se já lhe disseram, mas você nunca se tornará um gênio que busca ser. Sempre será um mediano entre nós.
Aqueles comentários tocaram ardentemente a ferida de Newton. Vários pensamentos mesclados entre positivos e negativos bombardeavam-no, fazendo o tempo parar para ele por alguns instantes, até que uma revolta começou a nascer dentro dele. Aquele sentimento aflorou em seus olhos, e um sutil movimento de suas mãos previa um ataque. O tímido jovem deu lugar a uma pessoa agressiva, jogando o colega contra a parede.
– O que está fazendo, seu louco?
– Eu sou capaz! – Os olhos do jovem Newton esbugalharam-se. –Serei o melhor da sala e de toda essa escola.
– Você merece se consultar com um psicólogo, isso sim, Isaac – disse o aluno, que deixou um sorriso irônico escapar. – Você nunca foi normal. Todos têm medo de você por ser assim. Por isso, você é sozinho, e sequer uma namoradinha você tem como eu e meus amigos temos. Que desperdício de vida, ein.
Newton perdeu literalmente o controle de seus sentidos, e continuou a agredi-lo. Após ser derrubado no chão por ele, o estudante resolveu partir para cima do futuro cientista. Os dois se agarraram e caíram no chão, assemelhando-se a um duelo de sumô, generalizando a confusão naquele corredor.
– Parem já com isso! Vamos! – gritou um inspetor, que aparecera na hora.
O inspetor interviu, os separando. O funcionário exigiu explicações sobre a briga, e a vítima contou o ocorrido sob o silêncio de Newton, que não quis se defender e olhava de forma raivosa com a cabeça baixa. Então, os dois foram encaminhados para a diretoria.
Após vivenciar em sua mente todo um passado ocorrido, Newton ainda estava inerte com o seu olhar vidrado, como se o seu corpo acordasse, mas os sentidos ainda não o obedecessem. No final do transe, ele reconheceu o homem à sua frente.
– Então, meritíssimo Isaac Newton. Lembra de mim?
O seu sorriso debochado reforçou o reconhecimento por parte do cientista. Ele estava frente a frente com o seu ex-colega de classe.
No jardim da casa, Jennifer estava de braços cruzados enquanto observava atentamente uma maçã prestes a se soltar de um dos galhos do pé. Ela parecia torcer para que aquele fruto caísse por alguma razão; e, na medida em que olhava àquela direção, recordações vinham à sua mente, sendo uma delas a primeira vez em que ela estudara sobre Newton e ter se deparada com o famoso episódio da maçã, onde houve a criação da Lei da Gravidade por Newton. Mas rapidamente ela voltou de sua viagem mental ao sentir um suave vento, que balançou os galhos da árvore; a tal maçã já madura soltou-se de seu galho, e seu próximo destino seria o solo. Entretanto, o fruto parou na metade do caminho, estando suspenso no ar. Em um simples olhar, Jennifer conseguira anular a gravidade de forma exclusiva ao fruto. Era impressionante.
– Jennifer!
Toda a experiência foi interrompida quando a voz de Nathaly ecoou intensamente em seus ouvidos, e o "feitiço" sobre a maçã se desmanchou, caindo ao chão. Virando-se, a avistou correndo ao seu encontro.
– O que foi, Nathaly?
– Newton está em perigo.
Nathaly olhou em direção à casa do cientista como primeira reação e já deduzindo que os homens já poderiam estar ali – e certamente estavam. – Jennifer criptografou aquele olhar.
Newton ainda estava sob o domínio de seu ex-colega. Ele andava pelo quarto enquanto os seus comparsas vigiavam o cientista. Quase todo o quarto e as coisas foram observados, e até mesmo apreciados, por ele. Ele ainda pegou o prisma.
– Já vi isso em algum lugar...
– Então foi você quem fez aquele disparo na assembleia para tentar me matar.
Os três se olharam e começaram a rir da situação, em deboche a Newton.
– Realmente, você se tornou uma premissa no campo da Ciência, Isaac – reconheceu o homem enquanto brincava com o prisma em mãos. – Até confecciona prismas. Nada mal.
– O que quer de mim?
– Ainda temos pendências daquela briga, e vim resolvê-las – respondeu. – Sabe... Você está trabalhando muito. Então, que tal um merecido descanso ao lado do seu xará e eterno professor Isaac Barrow?
A mensagem logo foi entendida por Newton. Sua morte era iminente. Uma mesma cena dos tempos de escola se repetiu quando Newton avançou em seu adversário. O choque fez o prisma que estava em poder do homem espirrar, saindo pela janela do quarto. Por outro lado, Newton não conseguiu ter êxito, e foi empurrado para trás, havendo distância um do outro.
– Você pode ser um ótimo físico, mas seus conhecimentos não o salvarão da alta velocidade da bala.
O revólver foi apontado em direção a Newton. Seu coração pulsava de forma descompassada ao olhar aquele revólver apontado para ele; o olhar frio do vingativo homem frisava o seu alvo ao mesmo tempo em que degustava o nervosismo estampado no rosto do cientista sob a mira da arma, e o gatilho era lentamente pressionado.
O primeiro disparo à pólvora foi efetuado na mesma hora que Jennifer e Nathaly invadiram o quarto pela porta, iniciando uma ação em equipe: a extrema agilidade proporcionada por Jennifer e compartilhada com Nathaly fez retardar o tempo, e a bala ia lentamente em linha reta enquanto os homens e Newton pareciam estar congelados. Naquele intervalo de tempo, Jennifer jogou o prisma – o mesmo que caíra pela janela – para o alto e Nathaly usou sua visão de calor. Os raios emitidos projetaram-se no material transparente, criando a refração da luz. A intensa carga dos raios fez o prisma se sobrecarregar e estourar com uma intensa luz branca no ambiente. Ao mesmo tempo, Jennifer correu em direção a Newton para tirá-lo da trajetória da bala, e os dois caíram no chão. Tudo aconteceu rápido na sequência: a bala atingiu a parede, coincidentemente ao lado do orifício usado para o estudo da luz, e os homens foram levados ao chão devido a força gravitacional gerada pelo estouro luminoso do prisma, além de terem seus olhos atingidos pelo clarão. Um verdadeiro strike.
Nathaly observava os homens completamente desorientados em solo quando virou o seu rosto e deparou-se com Jennifer levantando Newton do chão.
– Está seguro agora, Sir.
– Obrigado, Srta. White. Obrigado por me salvar mais uma vez. Vocês são anjos.
Vendo sua amiga o ajudando a limpar suas vestimentas, Nathaly não conteve seu sorriso, pois via e apostava em Jennifer o seu lado humilde que não era condicionado apenas por se tratar de Newton. Ela tinha o seu lado humilde no mais profundo do ser. Então, os criminosos foram presos em flagrante com a chegada de Barrow com os oficiais. Tudo estava sob controle.
Já era tardezinha quando Jennifer e Nathaly estavam assentadas à mesa com Newton para fazer uma pequena ceia com algumas coisas. No meio daquela ceia, uma linda pomba entrou à cozinha e acabou pousando sobre a mesa.
– Não é possível isso. Como essa ave entrou aqui? – indignou-se Newton, mantendo o tom de voz sereno. Nem parecia estar intrigado.
Nathaly observou aquela ave docilmente. Quando o animal a olhou, ela usou sua telepatia, que certamente soou como uma sinfonia devido ao dócil som da voz. De pronto, a pomba voou com um pedaço de pão em seu bico. Newton extasiou-se com aquela cena. Quando Nathaly saiu daquele transe mental, ela mesma pareceu não crer na tamanha bondade demonstrada por ela sobre a ave. Uma bondade que foi ao além de sua própria bondade como pessoa.
– Incrível. Como você fez isso, Srta. Kate?
– Eu posso me comunicar com os animais através da telepatia – explicou Nathaly após deixar a condição de pensativa.
– Por que a deixaste levar um pedaço de pão da mesa?
– Ela suplicava por comida, Sir. E não era para ela, e sim para os seus filhotes, que estavam com muita fome.
– Magnífico. – Newton ficou admirado. Logo, olhou para Jennifer. – Como dizem, quem é esta, que até com animais falam?
– É apenas uma mera humana com poderes, assim como eu – disse Jennifer, sendo humorada.
Todos riram naturalmente. Mas o sorrio de Jennifer se desmanchou aos poucos, e um novo mal-estar a acometeu. Agora, ela começou a ver as coisas em sua volta turvo e obtendo profundidade, assemelhando-se à visão de um peixe.
– Jennifer? – Nathaly apressadamente levantou-se e foi até a amiga – O que você tem?
– Uma tontura... Ela me ataca novamente. – Enquanto falava, todo o ambiente começou a se degradar diante de seus olhos, incluindo a imagem de Newton, menos a pessoa de Nathaly; e sua visão logo voltou ao normal. – Tem a ver com os meus poderes, Nathaly – deduziu, espantada.
A sua associação entre os seus poderes e a tontura a fez chamar Newton para o quarto e colocar o assunto sobre o tempo em pauta. Todos estavam em uma pequena assembleia.
– A minha tese é que o tempo é absoluto: Há uma divisão entre passado, presente e futuro. Todos seguem uma mesma linha, direção – disse Newton. – Mas não posso entender sua colocação, Srta. White. O que a minha teoria tem a ver com o seu mal-estar?
– Eu sou viajante do tempo. Onde estou agora não é minha época.
– Mas eu não senti nenhum efeito contrário, Jennifer – disse Nathaly.
– Talvez, por eu ser a fonte desse poder em viajar no tempo, esses efeitos contrários apenas me afetaram.
– Quer dizer que... se esses sintomas persistirem em você, você pode... se perder no tempo? – perguntou Nathaly, inteligentemente.
– Parece que sim, Nathaly. E acabaria a deixando para sempre aqui. – De repente, Jennifer hesitou-se, e fez uma cara de espanto. – Nós temos o tempo determinado para a viagem. E estamos chegando ao tempo limite dela. Precisamos dar um jeito de voltarmos, Nathaly. Não sei por quanto tempo irei nos segurar aqui.
O assunto tomou um novo rumo:
– Quando utilizei pela primeira vez esse poder por acidente, eu havia superado a velocidade da luz. E na insistência para voltar para casa, eu fiz a mesma coisa, nos trazendo para cá. Não entendo...
– Talvez entenda agora, Srta. White – manifestou-se Newton, olhando pela janela do quarto. Vagarosamente, ele se virou. – Se você superou a velocidade da luz por duas vezes e essas duas tentativas a fizeram retroceder no tempo, então você tem a alternativa de apenas igualar seu poder à velocidade exata da luz. Ou seja, não a ultrapassar sequer por um passo.
Jennifer ficou muda, certamente pensando em que dizer.
– Há algum lugar espaçoso por essa região? – perguntou Jennifer, olhando para Newton.
A pedido dela, Newton convidou as duas jovens à sua carruagem para levá-las à tal lugar que ele conhecia. Eles chegaram ao local. Era um terreno baldio, com alguns pontos verdes formados por capins. Apesar do cenário de abandono, o céu alaranjado com o lindo pôr-do-sol minimizava o tamanho impacto negativo do ambiente.
Os três caminhavam lentamente para o meio do terreno; Jennifer ia à frente, parecendo estar bastante concentrada. E devia estar. Nathaly aproximou-se e ficou ao lado da amiga quando ela parou, olhando-a. Após uma margem de tempo sem responder nada, Jennifer virou seu pescoço para ela.
– É hora de irmos, Nathaly.
– Sim, vamos voltar às nossas casas – disse Nathaly, sorrindo.
– Fique aqui, amiga.
Ela virou todo o seu tronco para trás e foi até Newton, que a observava. Diante dele, ela se inclinou e se ajoelhou perante o cientista, permanecendo naquela posição à espera de algo.
– O que fazes, Srta. White? – questionou Newton.
– Quero que ponha sua majestosa mão sobre a minha cabeça, e me abençoe.
– Sou eu quem deveria fazer isso por tudo que fizeste por mim.
Ouvindo aquelas palavras, Jennifer colocou-se de pé, e olhou nos olhos dele.
– O senhor é a minha inspiração desde quando me interessei pela Física, Sir. Você é como se fosse o meu falecido pai para mim. – Ela se ajoelhou novamente. – Portanto, me importa que o senhor coloque sua mão em minha cabeça.
Newton demonstrou certa resistência em atender mais uma vez o pedido de sua seguidora, pois ele não era merecedor de fazer aquilo. Ele era apenas uma mera premissa e futuro homem influente na Ciência. Mas aquela persistente cena diante dele o fez enxergá-la de outra forma... Ele estendeu o braço direito e repousou a palma de sua mão sobre o alto da cabeça dela. Aquele gesto transmitia uma única mensagem: a bênção de Newton sobre Jennifer. Após finalmente atender àquele pedido, Newton a levantou do chão pegando em sua delicada mão e lhe deu um abraço.
– Tenho certeza que serei bem representado. E esse alguém é você, filha.
Quando o ouviu chamá-la de filha, Jennifer imediatamente recordou da voz de seu pai. O choro queria vir, mas ela o segurou, evitando molhar o ombro de Newton. Mas logo uma imensa alegria sobreveio ao seu anterior quando ela lembrou que foi o seu ídolo quem a chamou daquela forma. Então, aquele abraço foi se desfazendo lentamente.
– Lembra do que eu disse que eu continuaria a escrever o meu livro quando eu a deixei naquele quintal? – Newton pegou de seu bolso um pedaço de folha dobrada, e a deu à Jennifer, que desdobrou-a e se surpreendeu ao ler. – Eu não sei se em seu tempo irá aparecer quando for procurar em alguma biblioteca, mas registrei o seu nome na nova descoberta sobre a luz. Descobrimos juntos, e quero que leve essa folha consigo.
Jennifer, extremamente lisonjeada, tirou seus olhos de uma cópia da página do livro Opticks, onde havia um trecho mencionando o seu nome no respectivo assunto, para olhar para ele.
Newton sorriu.
Era preciso se despedir. Jennifer tomou distância do cientista após uma pequena relutância. Aproximando-se de Nathaly, ela a pegou firmemente pela mão. Mais uma vez, ela direcionou seus olhares a Newton, que apenas assentiu com a cabeça para impulsioná-la.
– Pronta? – perguntou Jennifer.
– Sim. Estou com saudades da minha casa.
As duas sorriram um para a outra. Então, elas começaram a correr em linha reta. Ambas olhavam para frente, confiantes, enquanto os raios entardecidos do sol batiam frontalmente em seus rostos. Em pouquíssimo tempo, um intenso raio de luz surgiu diante dos olhos de Newton, que também pôde ouvir o estrondo emitido pelo feixe e sentir o vento balançar os seus cabelos. Assim, ele não via mais as jovens à sua frente, se não um sol alaranjado já sumindo entre as nuvens no horizonte. E ficou ali, sozinho, com as mãos nos bolsos de seu casaco enquanto olhava fixamente para frente.
Elas surgiram dentro de um quarto, após a sensação de terem atravessado a janela. Jennifer não teve dúvidas de que elas voltaram para casa. E era noite.
– Eu... consegui. Eu consegui, Nathaly!
– Conseguimos! – repetiu Nathaly.
Elas se abraçaram dando risadas; a emoção excessiva fez os olhos de Jennifer ficarem marejados. A folha dada por Newton caiu entre elas.
– O que é isso? – perguntou Nathaly.
– Newton me deu. Ele registrou meu nome na descoberta da luz e suas cores nessa página do livro Opticks – explicou. – Pelo jeito, consegui trazer esse papel comigo.
Nathaly não poderia ficar mais nenhum segundo no apartamento da amiga. Ela precisava realmente ir. Jennifer a acompanhou até a porta. Na trajetória até a porta, Nathaly notou aquela insistente bagunça na cozinha. O que mais a tocou foi em ver aquele mesmo saco de pão largado sobre a mesa.
– Venha comigo, Jennifer. Quero que jante em minha casa hoje.
– Não, não posso ir.
– Por quê?
– Eu já não sou bem-vinda por circunstâncias naturais, quanto mais quando há motivos concretos. E você sabe o que quero dizer.
Nathaly não insistiu com o seu convite, e se despediu de Jennifer, pois entendera que se tratava de um receio dela aos seus pais.
Assentados à mesa, o casal Kate jantava. Ambos sentiam a tremenda ausência da filha deles naquele momento familiar. Pelo sexo feminino ser mais vulnerável, Clara estava triste com a falta de notícias sobre Nathaly. Mas a porta se abriu, e eles viram Nathaly entrando lentamente. A reação de seus pais não foi outra a não ser abraçá-la, com ênfase ao abraço de Clara.
– Estou bem, meus pais.
– Onde você se meteu, filha? O que aquela jovem pretendia agora? – interrogou Steven, sendo bem direto após o alívio.
– Não tive escolha, filha. Tive que contar ao seu pai – revelou Clara, depois de receber olhares da filha
– Eu posso contar. Mas não agora.
Quando Steven pensava em contestar para ter explicações detalhosas, a porta novamente se abriu. Desta vez, era John. Ele congelou quando os seus olhos se encontraram com os de Nathaly; ela também ficou o admirando nos olhos, até que eles se abraçaram.
– Onde você esteve, Nathaly?
Recebendo aquele questionamento do amigo, ela olhou para trás buscando alguma direção de seus pais através do olhar, mas voltou a olhar para frente.
– Creio que esteja com fome. Você pode jantar conosco, e contarei o que aconteceu – propôs Nathaly, tendo a intenção de desviar a conversa e criar uma pequena história para a omissão do que realmente ocorrera.
John aceitou o convite feito por ela, e todos jantaram juntos. Quando terminaram, Nathaly tinha ido ao seu quarto para se trocar. Após tirar seu jaleco e trajar um novo vestido, alguém batera na porta.
– Pode entrar.
Virando-se para a porta, ela viu que era seu amigo John, não seu pai ou sua mãe.
– Desculpa por não a esperar sair do quarto, mas eu realmente precisarei ir agora.
– Tudo bem, John. – Nathaly sorriu. – Obrigada por se preocupar comigo. E por se oferecer para lavar as louças do jantar também – riu.
– Amigos são para essas coisas. Sua amiga Raphaela também esteve preocupada.
– Imagino. Amanhã falarei com ela.
Houve um silêncio. Eles apenas trocavam sorrisos com os lábios. E olhares.
– Como você está indo no quartel?
– Ah, estou indo muito bem. – John começou a se aproximar dela, e repousou suas mãos sobre seus ombros, deixando-a tímida. – Nathaly... Obrigado pelos seus conselhos dados a mim naquele quarto de hospital. Eles têm sido muito importantes para mim. – Seus olhos ficaram em forte conexão aos olhares verdes de Nathaly. – Obrigado.
A troca de olhares entre eles ainda perdurou por mais algum tempo. Nathaly não imaginara que ela poderia ser tão crucial na vida de alguém quando o assunto era dar conselhos. Entretanto, tal feito já se realizara antes, quando ela resgatou Jennifer do mundo do crime. Então, por que Nathaly poderia estar tão surpresa do que viera dos lábios de John?
– Bem, preciso ir agora – disse ele, que apenas recebeu o assentir de sua amiga com a cabeça, tirando as mãos dos ombros dela. – Boa noite.
– Boa noite.
Ele se afastou e deu às costas. Quando estava caminhando até a porta, ele parou ao tirar aqueles dois ingressos de circo de um de seus bolsos, e analisava-os enquanto pensava.
– John? – chamou Nathaly. E ele se virou, guardando rapidamente os ingressos. – O que foi?
John foi até ela novamente, em passos lentos. Ele chegou a abrir os lábios para dizer algo, mas preferiu desconversar, despedindo-se novamente. Então, saiu do quarto deixando uma possível curiosidade para Nathaly.
Era o dia seguinte. Nathaly subia as escadas da universidade junto a Raphaela. A conversa entre elas era interminável como se elas tivessem tido férias e alguma viagem as tivesse separado uma da outra. Nathaly pôde conversar abertamente – mas discretamente – com sua amiga sobre o que realmente acontecera.
– Impressionante! Sua amiga é muito poderosa em comparado a nós duas – comentou Raphaela. – Vocês conseguiram viajar no tempo!
– E espero não ter perdido muitas coisas enquanto estive em outro... "plano" – disse Nathaly. Elas chegaram ao respectivo andar do prédio. – Em falar em poderes, como está a sua visão de raio-X?
– Para ser honesta, eu não sei. Faz tempo que não a uso – riu. – Mas creio que ainda está aqui, nessas duas bolinhas azuis. – Apontou em direção aos seus olhos. – Mas me diz uma coisa: aquele rapaz, chamado John, ele... é seu namorado?
– Meu namorado? – Nathaly arqueou repentinamente suas sobrancelhas, claramente assustada e sem jeito à pergunta. – Não – respondeu, franzindo a testa. – Ele é apenas o meu amigo de...
– De longa data? Vocês se conhecem desde os tempos de escola, certo? – interrompeu Raphaela, que continuou: – Não precisa ficar vermelha. Eu sei que vocês são amigos. Ele me contou tudo.
– Você é muito esperta, isso sim. Quer me deixar sem jeito, é?
Elas riam pelo corredor. Mas a conversa precisou ser finalizada para que cada uma tomasse rumo de suas salas de aula. Como previsto, Nathaly se despediu momentaneamente de Raphaela e ia em direção à sua sala. George apareceu ao seu lado.
– Srta. Kate, quanto tempo não a vejo! Sentimos sua falta nas aulas.
– Bom dia, Me. Hall – saudou. – É... Eu estava doente.
– Doente? Bem, soube que você tinha desaparecido.
– Ah... – hesitou-se Nathaly, olhando para os lados – Não, eles não mentiram. Eu apenas não quero expor muito a situação. Por isso, eu disse que estava doente. Desculpe-me.
– Compreendo, Srta. Kate. Mas, por outro lado, tenho uma má notícia para você: durante os dias que andou sumida, apliquei uma prova importantíssima às turmas. – Ele notou o olhar assustado e de preocupação de sua aluna. – Entretanto, tenho-lhe uma proposta.
– Qual seria essa proposta, professor?
– Eu posso aplicar a prova para você na biblioteca.
– Gostei. Quando será?
– Terá que ser feita hoje – respondeu, prontamente. – No final da aula, nos encontraremos lá, aproveitando que estará fechada aos alunos. E desculpe-me por não lhe dar a oportunidade de estudar para a prova. Mas estou com tempo curto para lançar as notas.
Nathaly acabou por aceitar a proposta de seu professor para não zerar na prova perdida. Como combinado, ela estava lá, na biblioteca, realizando a prova praticamente na base da sorte. Assim como ocorrera em sua turma, Me. Hall lhe dera uma hora para realizá-la. Em trinta minutos, ela a terminou, e a entregou a ele.
– Tempo recorde, Srta. Kate?
– Não exatamente, professor – sorriu, acanhada.
– Estava... difícil? – perguntou, erguendo uma de suas sobrancelhas.
– Como eu não havia estudado antes, a tendência era se tornar difícil, professor.
O professor se levantou da mesa.
– Você é muito inteligente. Não há por que você dizer que as coisas são difíceis para você – disse ele, olhando fixamente nos olhos de Nathaly. Por sua vez, ela chegou a temer àquele olhar azulado. – Bem, não quero lhe fazer chegar muito tarde em casa. Está dispensada, Srta. Kate. Até amanhã.
– Obrigada... Até amanhã.
Nathaly deixou a biblioteca, mas George não saiu na sequência. Ele observou a prova na mesa antes de pegá-la. Quando a pegou, continuou a analisá-la, e viu que toda a prova estava totalmente preenchida, sem indícios de lacunas. Sua mão foi levada ao queixo.
Califórnia, Estados Unidos. Jennifer, usando seus poderes, fora à sua terra natal pela primeira vez desde quando fugiu do país por medo de ser o que se transformara. Após buscar informações, sempre tendo cautela e discretamente, ela teve a coragem em ir ao respectivo cemitério onde seus pais estavam enterrados, com seus túmulos lado a lado. Agachando-se diante deles, colocou sua mão destra sobre o lápide do túmulo da mãe, e logo depois repousou-a sobre a de seu querido pai. Não era possível ouvir o que Jennifer falava naquele momento, era baixinho. Mas o jeito como seu nariz estava aspirando o ar mostrava que ela estava bastante emocionada, sendo confirmado com o cair das lágrimas sobre o solo, exatamente sobre os dois túmulos, irrigando uma esperança já morta. Mas distante, havia um carro preto e requintado estacionado em uma das ruas internas do cemitério. Dentro dele, havia duas pessoas; a mão enrugada com traçados femininos do carona levou os óculos escuros à face após observar Jennifer. Quando era esperado ver o rosto daquela pessoa, ela subira o vidro da janela, e o veículo saiu silenciosamente dali.
Eduard estava em sua sala executiva fazendo suas gestões quando o seu advogado entrou e parou diante da mesa.
– Processos ou absolvimentos? – disse Eduard, olhando rapidamente para frente.
– Nenhuma das opções, Sr. Butzek. Na verdade, trago novas informações sobre o caso da falsa prisão e sequestro da jovem Srta. Kate.
No mesmo instante, o cientista alemão parou de encarar os documentos em mãos, e transferiu suas atenções para o profissional jurídico, colocando os arquivos sobre a mesa. Porém, nada falou. O advogado entendeu que ele deveria continuar com as informações.
– Por implicância, os sequestradores tiveram que ser transferidos da penitenciária de Manchester para um dos hospícios de Londres – informou. – O grupo ainda diz veementemente que a Srta. Kate é a ameaça para o mundo. Particularmente, Sr. Butzek, não sei por que eles tanto pregam isso.
Um encarava o outro após o reportar das informações.
No endereçamento onde o grupo de monges estava para viver uma nova realidade de confinamento da sociedade, Eduard era conduzido por um dos funcionários do hospício – que tinha funções similares à um carcereiro penitenciário, pois rondava e atendia os pacientes – entre os corredores. Eles pararam diante de uma porta, que dizia em sua placa:
SALA DE VISITA
O funcionário tirou um molho de chaves do bolso, e rodou uma delas no miolo, abrindo-lhes aquela sala. Eduard entrou, ouvindo a porta se fechar às suas costas, e tomou lugar à mesa; do outro lado dela, estava o líder dos monges. Ele não usava camisa de força, apenas um uniforme de tecido leve, e branco; porém, seus dois pulsos estavam presos às correntes, uma de cada lado, cujo suas extensões estavam bem fixadas ao chão.
– Não esperava sua visita. Logo você, que se mobilizou para resgatar aquela jovem – disse o homem. – Mas talvez a minha vinda à nova casa seja um dos motivos de sua presença.
– Esta "nova casa" não seria sua, se você não sequestrasse uma pessoa inocente. E ainda tentar convencer as pessoas de crerem em seus conceitos e razões para justificar do porquê ter feito aquilo – comentou Eduard.
Risos do monge vieram antes de responder qualquer coisa ao cientista.
– Se ela fosse uma inocente, certamente não chegaria às nossas mãos através dos nossos deuses. Mas ela chegou a estar. – Fechou a cara. –E vocês estragaram tudo!
– Com todo o respeito, mas o meu lado cético não me permite continuar. Boa sorte aqui.
Eduard se levantou, já indo à porta.
– O seu ceticismo, na verdade, tem oscilado bastante, Sr. Butzek. Principalmente quando se trata de sua filha – disse o monge. – Você alimenta muita esperança de que ela se recupere. Essa esperança tem neutralizado o seu lado cético.
Ele parou, olhando de lado.
– Como sabe da minha filha?
– As notícias correm rápidos – respondeu. – Se aceitares a minha proposta, o seu ceticismo cairá literalmente por terra, sem contar com o caso de sua filha a quem amas muito.
O empresário alemão virou-se para o homem, que estendeu sua mão e manteve a palma dela aberta sobre a mesa, aguardando um eventual toque. Eduard se aproximou, e encarou desconfiadamente aquela mão e ao rosto do monge, que nada dizia ou gesticulava. Mas aquela mão e as palavras ditas pareciam o instigar. E ambos ficaram ali, um olhando para o outro, uma troca de persuasões.
Eduard deixou a sala. Então, ele ia embora tranquilamente pelo corredor, sendo acompanhado pelo funcionário.
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