Capítulo Quinze: Mistérios
Sob o iluminar da lâmpada da cozinha, John estava envolvido com os seus livros sobre a mesa, formando pilhas, estudando para as provas de final de ano, as últimas que dividiriam um jovem estudante de um novo e futuro soldado.
- Tornou-se coruja, meu filho? - perguntou o pai, que descera as escadas - Ainda aqui nesse horário.
- Ah, foi mal, pai - disse John, olhando para o pai e voltando a olhar para o livro. - Desculpe se a luz da cozinha ou algum barulho tenha lhe acordado ou não o deixado dormir.
- Não é isso, filho. Não desci por essa causa, se não beber água. Mas aproveitando, dê uma pausa nos seus estudos para as provas. Apesar de ser depois de amanhã, ainda há tempo para você se preparar.
- Eu sei, pai. Mas estou muito tenso. Nunca passei por isso antes.
Seu pai, após beber da água e deixar o copo sobre a pia, aproximou-se do filho e repousou sua mão no ombro dele.
- A sua convocação para o exército ainda o deixa apreensivo, não é mesmo?
John fechou o livro, e parou para pensar.
- Sim. Mas, ao mesmo tempo, não - disse ele. - O fato de deixar as pessoas que gosto, como a Juliana e Nathaly, e distanciar da minha família já me deixam um pouco frustrado. Londres não fica na esquina. É distante de Manchester.
- Eu entendo perfeitamente, filho. Eu também sentirei saudades. Mas lembre-se que sempre haverá uma oportunidade de reencontrar seus amigos e rever a família.
A conversa acabou por ser breve, pois John foi orientado por seu pai a parar de estudar e descansar um pouco. Afinal, haveria aula, e já era quase a madrugada do dia seguinte. Mas também notara que seu filho já estava mentalmente sobrecarregado com tantas coisas que estavam para acontecer em sua vida, o que seria normal para qualquer ser humano quando algo está cada vez mais próximo de ocorrer.
John entrou em seu quarto, acendeu a luz e começou a arrumar sua mochila antecipadamente, colocando o que precisaria levar à escola. Feito isso, ele foi até o seu guarda-roupa pegar seu coberto e travesseiro, e os colocou na simples cama de solteiro. O sono começou a ser tão forte que ele arrumou rapidamente sua cama para se deitar; e, terminando, apagou a luz, indo direto para cama. Finalmente, ele virou para o lado e fechou seus olhos, que já estavam avermelhados de cansaço.
No ambiente, algo se mexia sorrateiramente em meio à escuridão. Graças à cortina aberta da janela, a iluminação natural do lado de fora entrava no quarto, mesmo sendo em pouca intensidade, sendo possível identificar um vulto humano. Esse vulto parou ao lado da cama, esperando alguns segundos. A pessoa carregava um pedaço de madeira. Por sua vez, John parecia ter um ótimo sentido das coisas, abrindo os olhos rapidamente e permanecendo imóvel. Quando ia ser golpeado covardemente, ele virou-se na cama e agarrou aquela madeira com toda sua força masculina, jogando a força contra o desconhecido agressor. Mais um golpe foi dado, mas John rolou sobre a cama, e a madeira acertou o colchão vazio; John levantou-se e confrontou mais três golpes contra ele, sem sucesso da parte do agressor, que acertava objetos pelo quarto ou apenas o vento.
- Filho!
John ouviu seu pai chamar pelos corredores, e teve a coragem em desarmar e segurar a pessoa que o tentava matar.
- Pai!
Em um descuido, John foi empurrado, e a pessoa teve tempo para abrir a janela e fugir dali. Na mesma hora, o pai apareceu e acendeu a luz, deparando-se com aquela bagunça pelo quarto como se houvera uma verdadeira guerra. Ele ajudou seu filho a se levantar do chão em uma rápida reação.
- John... John. O que aconteceu? - perguntou, sob um olhar preocupado.
- Alguém tentou me matar... de novo.
O pai ficou chocado com a resposta do filho, e olhou para a janela aberta. Direcionando seus olhos para o chão, avistou o pedaço de madeira utilizada para matá-lo à sua frente.
Amanheceu. Nathaly se trocava em seu quarto para o penúltimo dia que antecederia a realização da prova que marcaria o final do ano letivo e determinaria os alunos aprovados e reprovados, e aqueles que estariam aptos a terminar os estudos. Quando estava devidamente vestida, direcionou-se ao espelho de sua cômoda para prender os seus longos cabelos e montar o seu conhecido penteado feminino; após isso, deu uma última olhada no espelho, virando seu rosto de lado para observar seu rabo de cavalo. De repente, uma leve tontura a acometeu. Rapidamente, ela elevou suas mãos às laterais da testa na tentativa de manter o seu equilíbrio. Mas a sequência daquela tontura foi uma aguda dor de cabeça, que já sofrera antes, fazendo-a se encurvar diante da cômoda, sendo inevitável o fechar dos olhos. Uma agonia começava ali, chegando a derrubar um vaso do móvel, que se despedaçou.
- Filha? - chamou Steven, que abriu a porta na sequência - Você vai se atrasar... O que está havendo?
Imediatamente, seu pai correu até ela e colocou suas mãos sobre os ombros dela, no momento em que a dor desaparecera, e ela voltou à sua consciência, piscando várias vezes os seus olhos.
- Filha. Fala comigo. Está tudo bem?
- Sim, pai. Apenas tive uma estranha dor de cabeça - respondeu-lhe, elevando uma das mãos à altura da testa.
- Não quer ficar em casa e descansar para a prova final de amanhã?
- Não... Estou bem, pai... Estou bem.
- Certeza?
Nathaly demorou em olhar nos olhos do pai, mas o olhou estando completamente lúcida.
- Sim - confirmou, sorrindo. - Eu não posso perder esse dia. Quero completar a minha carreira nos mínimos detalhes. E haverá revisão para as provas.
Steven perdeu a seriedade - afinal, não haveria mais motivos para estar preocupado como de início -, e abriu um sorriso.
- Não é à toa que você é uma ótima estudante - comentou, com uma mão no ombro da filha. - Vamos tomar café, minha futura bióloga.
Steven já ia dando às costas rumo à porta quando Nathaly o chamou:
- Pai.
- Sim? - disse ele, virando-se.
- Como sabe que quero seguir essa área? Eu mesma queria contar a você, mas me faltava um pouco de coragem - riu.
- Se achava que sua mãe era boa em guardar segredos, você acabou se enganando. E sabe o que eu acho?
- Não... - respondeu Nathaly, olhando-o apreensiva.
- Eu também apoiarei o seu sonho.
Quando Nathaly ouviu aquilo, correu em direção ao pai, e deu um salto para abraçá-lo.
- Opa. Calma, pois você não é mais uma criança para que eu possa lhe pegar no colo - riu. - Pode contar conosco, filha. Vamos fazer de tudo para lhe ver formada na área.
- Obrigada, pai - agradeceu. - Eu não saberia o que eu seria sem vocês.
Aquele outro abraço dado por Nathaly em agradecimento arrancou uma lágrima de Steven. Qual pai - ou mãe - não se emocionaria vendo seu filho alegre ao saber que poderia contar com ele para realizar um sonho? Somente se esse pai fosse realmente insensível, não merecendo o filho que tem.
John era trazido pelo seu pai até a escola de carro por motivos óbvios. O veículo pôde estacionar bem em frente do portão principal. Ele desceu e foi até a janela do motorista.
- Valeu pela escolta, pai - agradeceu John, sendo cômico ao sorrir.
O pai riu com o agradecimento do filho.
- De nada, filho. Tenha cuidado.
John confirmou com a cabeça, e o homem deu partida no carro, se despedindo com uma buzinada. Ele acompanhava atentamente o carro do pai com o seu olhar, que virou à rua seguinte.
- John.
Alguém lhe chamara. Torcendo mais um pouco o seu pescoço, ele viu que era Nathaly vindo em sua direção, estando ao lado de seu namorado. Apenas em olhar os dois de mãos dadas já gerava uma agonia nele.
- Ei, Nathaly. Bom dia... para vocês.
- Era o seu pai naquele carro?
- Sim - Ele olhou em direção onde o carro virara à rua -, era o meu pai - sorriu com os lábios.
- Eu adoraria conhecê-lo. Pequena que já foi - riu mansamente. - Mas por que ele lhe trouxe hoje? Você sempre veio sozinho.
John olhava para o casal e pensava. Não sabia se seria conveniente contar para ela sobre o atentado que sofrera na noite passada ou não. A demora em responder começava a ter uma tensão.
- Você não parece bem, Mitchell - disse Allan. - Podemos lhe ajudar em algo?
Quando Allan soltou-se da mão de Nathaly, John notara que em uma de suas unhas havia um sinal claro de encravamento, característico quando uma farpa de uma madeira entra na unha de uma pessoa, estando avermelhado.
- O que aconteceu com o seu dedo, Allan? - perguntou-lhe, desconfiado.
- Uma farpa de madeira entrou em minha unha - respondeu, sem muito entusiasmo.
- Uma farpa de madeira? - repetiu John, retorcendo uma das sobrancelhas.
- É, John. Um dos brincos caiu da minha orelha e ele o pegou para mim. Aí, ele acabou encravando a unha com a farpa - disse Nathaly.
- E dói muito - comentou Allan, olhando para sua namorada. - Ainda bem que Nathaly me ajudou a tirá-la.
- Então? Algo a dizer para explicar o que fez o seu pai lhe trazer hoje? - perguntou Nathaly, retomando.
Ainda preocupado, John ainda esboçou com os lábios para respondê-la, mas Juliana apareceu e quebrou aquele clima, deixando por isso, vago. Juliana já estava totalmente recuperada e com o seu nariz "renovado" para respirar novos ares e encarar o final de seus estudos antes de trilhar novos desafios, como começar a focar completamente na vida científica de seus pais.
Nathaly, Juliana e Allan caminhavam pelos corredores rumo a sala.
- Finalmente, o seu nariz desinchou. Achei que ficaria com um nariz de palhaço para sempre - comentou Nathaly, descontraindo.
- Essa piada de novo, amiga? - questionou Juliana.
Nathaly tentou segurar o riso enquanto Juliana a olhava séria. No final, as duas riram, assim como Allan.
- O seu pai já lhe liberou para trabalhar na empresa? - perguntou Nathaly.
- Claro. Depois de uma semana, já era a hora - disse Juliana. - Não sei como meu pai permitiu, já que ele não gosta que a minha mãe me surpevione sozinha.
- O seu pai não irá à empresa hoje? - perguntou Allan.
- Na verdade, ele teve que fazer uma viagem científica
- Nossa. Ele é muito importante - comentou Nathaly. - Ele voltou para Alemanha ou foi para algum lugar próximo?
- Eu soube que ele foi visitar uma pequena unidade de pesquisas no Brasil, localizado no Amazonas - explicou. - Agora, não me pergunte para quê.
Imediatamente, Nathaly mostrou-se impressionada com os olhos, tendo uma breve lembrança sobre o que vira por lá, onde haviam pessoas trabalhando e a placa indicando a empresa. Então, ela e seu namorado se olharam; Juliana apenas os observava.
Naquele exato instante, Eduard vinha em um barco motorizado pelo maior rio do mundo, que era o Rio Amazonas. O céu estava parcialmente nublado naquele início da manhã brasileira, com nuvens escuras. À postos em solo, o cientista líder da equipe levantada por Eduard e o porta-voz esperava pelo seu gestor justamente aos demais profissionais.
- Estávamos ansiosos pela sua chegada, Sr. Butzek - disse o cientista.
- Agora, não há por que continuarem ansiosos - disse Eduard, sorrindo com os lábios. - Eu já deveria ter chegado dias antes, mas o mal tempo obrigou a aeronave a desviar o trajeto para o nordeste do país, além de uma turbulência sofrida. Tudo parecia impedir a minha chegada.
- Estamos no período final de primavera no Brasil, Sr. Butzek. É normal acontecer isso.
Eduard balançou a cabeça, concordando com ele. Eduard virou-se e começou a dar orientações ao motorista do barco e a mais dois homens tripulantes. Ele conversou em português com eles. Então, o barco fez uma manobra para que uma rampa maior de madeira resistente ligasse o solo à embarcação.
- Você sabe falar português? - admirou-se o cientista.
O empresário o olhou e sorriu labialmente de lado.
- Não muito. Só o essencial. - Ele continuou o olhando. - Faz parte da lei da sobrevivência, amigo. Vamos levar aquela caixa que está no barco.
O cientista principal deu ordem para pegar a caixa do barco. Apenas dois dos cientistas presentes foram o suficiente para pegar a caixa, que não era muito grande e não aparentava ser pesada. O erguer da caixa foi rápido, e os dois cientistas ajudantes passaram diante de Eduard e o líder do grupo.
- Sr. Butzek... Sei que verei na unidade, mas ouso em perguntar: o que há naquela caixa?
- Garanto que não são presentes adiantados de Natal. - Eduard sorriu enquanto olhava para a caixa sendo levada, e olhou para o seu funcionário. - Vamos. E conte-me mais sobre a descoberta que me fez vir para cá.
Eles os seguiram até o contêiner de pesquisas da corporação.
Pelos corredores da escola, John andava de passos largos. Ele parecia muito tenso com as coisas em volta. De repente, uma mão foi colocada sobre um de seus ombros, fazendo-o olhar imediatamente para trás.
- Desculpa, John. Não queria lhe ajustar - disse Nathaly, notando o seu nervosismo. - Está tudo bem?
- Nathaly... Eu não queria preocupá-la, mas acho que eu não deveria esconder.
- E nem deve esconder nada de mim. Eu ainda sou sua amiga - disse ela. - Agora, me conte. O que está acontecendo?
John direcionou seus olhos para o chão, e olhou para Nathaly.
- Alguém tentou me matar durante a madrugada.
- O quê?
Ele começou a contar detalhes sobre a tentativa de homicídio sofrida ao longo da noite, e associou aquela tentativa com o ataque na mansão dos Butzeks, sendo ele o alvo. E o pior estaria por vir naquela conversa:
- Nathaly... Queira me desculpar... Mas acho que o seu namorado está por trás desses ataques contra mim.
Nathaly ficou perplexa com o que ouvira, estando sem palavras como feedback
Eles os seguiram até o conteiner de pesquisas da corporação.
Pelos corredores da escola, John andava de passos largos. Ele parecia muito tenso com as coisas em volta. De repente, uma mão foi colocada sobre um de seus ombros, fazendo-o olhar imediatamente para trás.
- Desculpa, John. Não queria lhe assustar - disse Nathaly, notando o seu nervosismo. - Está tudo bem?
- Nathaly... Eu não queria preocupá-la, mas acho que eu não deveria esconder.
- E nem deve esconder nada de mim. Eu ainda sou sua amiga - disse ela. - Agora, me conte. O que está acontecendo?
John direcionou seus olhos para o chão, e olhou para Nathaly.
- Alguém tentou me matar durante a madrugada.
- O quê?
Ele começou a contar detalhes sobre a tentativa de homicídio sofrida ao longo da noite, e ainda associou aquela tentativa com o ataque na mansão dos Butzeks, sendo ele o principal alvo. E o pior estaria por vir naquela conversa:
- Nathaly... Queira me desculpar o que eu vou dizer, mas acho que o seu namorado está por trás desses ataques contra mim.
Nathaly ficou perplexa com o que ouvira, estando sem palavras como feedback. O que restou foi apenas uma troca de olhares.
Allan estava em uma praça do bairro naquela tarde. Com suas mãos peculiarmente nos bolsos da calça, ele se portava como se estivesse esperando por alguém. Virando-se, avistou sua namorada vindo em sua direção.
- Nathaly, meu amor - disse ele, sorrindo com os lábios.
Ele foi até ela e a abraçou. Nathaly fez pouco caso com aquele abraço, estando concentrada com o eventual propósito de estar ali com o namorado.
- O que você queria conversar comigo para estarmos aqui?
- John foi atacado hoje de madrugada. Ele me contou na escola durante o intervalo - disse ela.
- Por isso ele estava muito estranho hoje cedo - comentou. - E o que acontece?
- Acontece que um dos suspeitos daquele ataque é você - contou. - Diga que não foi você por causa de mim, Allan.
- Mas é claro que não fui eu, Nathaly - defendeu-se. - Se ele afirma tal hipótese, você não percebe que ele está usando desse pretexto para afetar a nossa relação?
- Allan, eu não sou boba. Você mesmo tem se mostrado resistente com a nossa amizade.
- Claro, Nathaly - disse ele, abrindo os braços. - Ele quer puxar o peixe para si. Ele a quer para ele!
- Negativo! - rebateu, fintando-o no olhar. - Ele apenas tem sido um grande amigo. Coisa que você não está demonstrando agora como namorado.
Allan começou a rir ironicamente.
- Ele me acusa e você ainda o defende?
Nathaly aproximou-se dele, e a certa diferença de tamanho entre os dois não a impediu de encará-lo face a face, olho no olho.
- Sim - respondeu. - Ele dá muitos motivos para que eu possa confiar nele.
Houve um silêncio, até que Allan a bofeteou no rosto a ponto de fazê-la cair no chão por não ter esperado aquela atitude dele. Com a mão no lado onde foi agredida, Nathaly o encarava sem dizer nenhuma palavra.
- Acabaste de me chamar de criminoso.
Decepcionado, Allan se retirou diante da Nathaly; ela se colocou de pé, ainda com sua mão elevada ao lado atingido do rosto. Para ser ainda mais constrangedor, ela olhou em volta e viu algumas pessoas a olhando. Com certeza, elas presenciaram aquele momento.
Em seu escritório, Luiza estava à sua mesa lendo alguns papéis que segurava em mãos. Tais documentos eram sobre os andamentos finais da nova sede da corporação, em Londres. Alguém batera na porta, tendo o seu sinal verbal para que entrasse. Era a fiel secretária da empresa, que estava ao lado de Juliana.
- Desculpe-me em incomodá-la, mas eu trouxe a sua filha como me pediste - disse a mulher.
- Não. Não está me atrapalhando. Muito obrigada - sorriu.
- Com licença, Sra. Butzek.
Ela se retirou do escritório. Juliana olhou para trás e endireitou-se, estando diante da sua mãe. Luiza fez um gesto para a filha, que se aproximou da mesa.
- Notícias do meu pai, mãe?
- Sim, minha filha. Ele já está com a equipe no Amazonas - disse Luiza. - Entretanto, não a chamei para isso somente. Preciso que você vá até ao escritório do seu pai para mim, por favor. Estou muito atarefada aqui.
- Claro, mãe - prontificou-se.
Luiza explicou o que ela teria que fazer no escritório do pai, e deu-lhe as chaves.
Entrando no escritório do pai, Juliana deparou-se com uma mesa bem arrumada, sem documentos que, normalmente, ficariam empilhados sobre ela. Ela foi diretamente a um self-storage, onde haviam documentos importantes da empresa arquivados. Lendo as etiquetas de identificação coladas nas gavetas, Juliana abriu a respectiva gaveta onde estaria um documento pedido por sua mãe. Pegando-o, trancou a gaveta.
Juliana dirigia-se à porta quando ela parou subitamente. O movimentar de seus olhos a acusava estar pensando em algo. Ela simplesmente voltou em direção aos documentos arquivados, e começou a ler as demais etiquetas apressadamente. Tal procura mostrava que ela sabia muito bem o que queria achar, mas não tinha ideia onde estaria. Uma gaveta sob a etiqueta "confidenciais" chamou sua atenção, fazendo-a rodar a chave para abri-la. Mal ela procurou pelo documento, e encontrou o que queria. A documentação era aquela sobre o destino das caixas, que foram levadas à Liverpool. Ali, ela obteve mais informações que não obtivera da última vez que viu os papéis, sendo atrapalhada pelo seu pai, como o endereço exato do local.
- Srta. Butzek?
Ela rapidamente se virou, temendo a um flagrante, e viu que era a secretária.
- Sim?
- Não, nada. Eu apenas vim me certificar da porta, e vi que ela estava destrancada - disse a secretária. - Acredito que sua mãe lhe pediu alguma coisa nas documentações... Deixe-me lhe ajudar.
- Não! - disse a jovem, alterando a voz por nervosismo. A mulher parou, chegando a se espantar. - Na verdade, não precisa. Eu já achei o que ela queria. - Mostrou o documento enquanto escondia o outro atrás dela na outra mão.
- Oh, ok - sorriu. - Qualquer coisa, só me procurar.
Juliana sorriu desconfiada e confirmou com a cabeça. Quando a assistente deixou o escritório, Juliana fechou aquele vago sorriso, e mostrou-se aliviada por não ter sido pega em flagrante com a documentação extra em mãos.
Nathaly chegava à porta de sua casa. Com a mão ainda passando sobre o rosto bofeteado, ela entrou na casa. Direcionando os seus olhos à sua frente, deparou-se com os seus pais a olhando da cozinha.
- Oi, gente - disse ela, morta em seu sorriso.
- Por que você está com a mão no seu rosto, minha filha? - perguntou Clara.
- Nada, mãe - respondeu.
Steven, desconfiado, andou até ela.
- Não minta para sua mãe, Nathaly. Deixa-nos ver.
Ele pegou a mão da filha e a tirou do rosto, para a surpresa do pai ao ver a vermelhidão e uma mera marca de mão estampado na bochecha da filha.
- Mas o que foi isso, Nathaly? - questionou a mãe, já preocupada.
Nathaly não poderia mais esconder o que ocorrera naquela praça. Ela simplesmente contou sobre a conversa que Allan e ela tiveram, o que resultou naquela agressão covarde.
- Devemos denunciá-lo à polícia, filha.
- Não, pai. - Ela foi até a mesa, repousando suas duas mãos sobre ela, encurvando-se. - Melhor não.
- Como não, Nathaly. Se ele foi capaz de bater em você, é provável que ele também esteja envolvido na tentativa de homicídio contra John - argumentou Steven.
Nathaly refletia as palavras do pai, olhando para a mesa, até que percorreu seu olhar para o anel de namoro, fixando os seus olhos no acessório.
- Preciso pensar sobre isso.
Ela ergueu-se e olhou para os pais, que não estavam entendendo nada com a sua tamanha neutralidade após tantas coisas, sendo o episódio da agressão a mais evidente razão para que ela denunciasse o namorado à polícia. Quebrando aquele clima, caminhou até a pia, ligou a torneira e passou um pouco de água no local afetado pela agressão. Talvez, a pele estivesse ardendo; a vermelhidão e a marca da mão, ora visíveis, sumiram logo após deslizar a mão sobre toda a região, a deixando totalmente branquinha novamente. Evidentemente, Nathaly percebera tal efeito por causa da rápida redução da ardência após a aplicação da água.
Batidas na porta foram ouvidas pelos residentes da casa. Nathaly deu uma olhada para a porta, sendo parcialmente encoberta pelos pais. Steven já se mostrou precavido em seu olhar, acreditando ser Allan. Entretanto, Nathaly ignorou tal olhar de seu pai, e foi atender a porta. Abrindo-a, era a sua amiga, Juliana.
- Juliana? Que surpresa.
- Olá novamente, Nathaly.
- Você não deveria estar trabalhando com a sua mãe?
- Sim. E eu vim aqui como parte do meu trabalho. - Juliana notou a falta de compreensão da amiga. - É que minha mãe lançou sobre mim um "trabalho de campo", e queria muito que você fosse comigo. Você está livre para isso?
Nathaly olhou para trás em direção aos seus pais e virou seu rosto para Juliana.
- Ok - respondeu.
- Ótimo.
Um sorriso meigo abriu-se no rosto de Juliana pela a resposta positiva recebida. Então, coube a ela aguardar Nathaly a se arrumar melhor antes de sair na sala da casa. Quando desceu do quarto, onde se arrumara, Clara chamou a filha para perto, e a abraçou.
- Tome cuidado, minha filha - disse ela, beijando Nathaly no centro da testa.
- Está bem, mãe. - Nathaly sorriu e a soltou, e olhou para ela. - Mas parece que você está prevendo algo com isso.
- Eu não prevejo nada, filha. E nem preciso prever, sendo que algumas coisas já estão evidentes.
Nathaly também obteve do abraço do pai e um beijo no rosto. Então, Juliana e ela deixaram a casa.
Luiza andava pelos setores da empresa, abrindo e fechando portas de salas. Seus ligeiros passos e pressa ao abrir e fechar das portas deixava claro que ela estivesse procurando alguém. A secretária, que estava em um mesmo corredor, acabou avistando sua chefa em momento de tensão.
- Aconteceu alguma coisa, Sra. Butzek?
- Sim. Onde está a minha filha? Você sabe?
- A Srta. Butzek me disse que sairia para fazer um favor para a senhora.
- Favor? - questionou, retorcendo as sobrancelhas - Qual seria esse favor?
- Ela não quis esclarecer o que era, alegando ser caráter confidencial.
A empresária passava sua mão à altura da cabeça, estando a pensar, e sua assistente apenas a assistia, sem ter uma palavra naquele momento.
Na estação ferroviária de Liverpool, as jovens desembarcaram do trem, para desconfiança de Nathaly:
- Ainda não entendo uma tarefa tão distante da cidade, Juliana.
- Calma. Nós já chegaremos, e você irá entender.
Elas seguiram em frente. Ambas chegaram em frente de um estabelecimento compacto. Era praticamente menor do que a sede da Butzek Corporation em Manchester. No portão, havia um segurança. Aquele segurança as barrou no primeiro instante, mas Juliana mostrou o seu crachá, que o fez identificá-la como a filha dos Butzeks, e explicou tais circunstâncias; a liberação para entrar foi de imediata.
Andando pelos poucos setores que haviam na parte interna, Juliana olhou para uma porta dupla à sua frente, que tinha uma placa, estando escrito:
"Somente funcionários autorizados."
O aviso chamou a sua atenção, e começou a andar em direção àquelas portas.
- Juliana, não podemos entrar aí - advertiu Nathaly.
A tal advertência de sua amiga não interferiu em sua decisão de ir até as portas, cabendo-a ir atrás. Juliana abriu as portas, adentrando em um lugar escuro; seguindo-a, Nathaly também entrou, e uma sensação ruim começou a tomar conta.
- Onde acende a luz aqui? - perguntou-se Juliana.
Bastou Juliana encontrar o interruptor e acender a luz para Nathaly dar de cara com vários frascos de minerais modificados em suas gôndolas de ferro. Devido à tamanha aglomeração deles em estados líquido e sólido, havia uma mera pressão radioativa na sala de armazenamento. Nathaly, olhando uma de suas mãos, viu o característico início de corrosão, aparecendo as suas veias, que subia a toda extensão do braço. Ela não teria escolha se não tentar disfarçar e não colocar em risco o seu segredo, além de sua própria vida. Mas já era tarde para isso. Juliana se virou, e a pegou com sinais de fraqueza e marcas corrosivas pelo corpo.
- Eu já desconfiava que você escondia algo de mim, Nathaly. Seus olhos verdes nunca me enganaram.
- Juliana... - Nathaly queixava-se de dor, agachando-se - Eu posso explicar tudo.
- Não há o que explicar mais! - disse ela, decepcionada. - Você sempre esteve envolvida nas soluções dos problemas, você tem nos salvado o tempo todo, sempre vivia dando desculpas por o seu jeito, e nunca admitiu nada! Você poderia ter contado comigo, Nathaly. Por que escondeu de mim?
- Juliana, por favor...
- Como pôde mentir para mim, a sua melhor amiga? - questionou-a, lacrimejando.
Juliana deu às costas e apoiou-se em uma mesinha. Ela chorava muito, em um choro engasgado.
- Juliana... Eu apenas queria uma vida normal, como todo jovem. Então... resolvi me esconder. Queria que ninguém tivesse medo de mim.
- Não! Você é quem tem medo de mim por ser filha de cientistas!
A sua revolta a fez empurrar aquela mesinha para o lado, fazendo-a se chocar com uma daquelas gôndolas. O impacto fez com que aquela gôndola estremecesse e uma lata de pólvora, que estava entre os frascos no último andar, caísse dela. Nathaly, ainda tentando ignorar as dores agachada, olhava aquela queda da lata, que parecia cair em super slow diante de seus olhos. Sem pensar muito, ela tirou suas últimas forças para tentar cair sobre Juliana; a lata tocou ao chão segundos antes, e a combinação explosiva do pó com a radiação presente no ambiente provocou uma faísca que ocasionou uma intensa explosão; a pressão originada debaixo para cima sobreveio à Nathaly, que pulara para proteger a amiga e ainda estava no ar. Tudo ao seu redor começou a se distanciar dela, e ela via Juliana cada vez mais distante de seu alcance; os seus olhos verdes refletiam e registravam as últimas imagens de sua amiga, que estava agachada para tentar se proteger do incidente, e logo encobertada por uma nuvem escura originada pelo o ocorrer do desabamento mesclado ao fogo. Então, via-se Nathaly sendo aspirada para fora do estabelecimento junto aos destroços do teto. E o fogo que ascendia aos céus a sobrepuseram.
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