Capítulo Quartoze: Vingança

Era intervalo. Diante de um mural da escola, Nathaly, Allan e Juliana estavam lendo algumas homenagens e mensagens de luto envolvendo o garoto Richard. Já fazia sete dias desde que ele morrera dentro daquela cela por enforcamento, mas a escola ainda mantinha sua solidariedade e seus pêsames à família.

- Apesar de tudo, ele não merecia ter esse fim - comentou Juliana, sem tirar os olhos do mural. - Será que ele se matou por tamanha pressão? Ou alguém fez alguma queima de arquivo por ele saber muitas coisas devido aos seus dons?

- Acho difícil que alguém o tenha matado. Ele estava isolado na cela - opinou Nathaly.

Juliana virou para Nathaly, e a olhou.

- Eu soube que os policiais encontraram Richard estirado no chão com o fio enrolado no pescoço, e não pendurado em algo.

- Talvez, ele descobriu alguma verdade dentro da prisão usando seus dons em alguns policiais, e eles se juntaram para matá-lo - argumentou Allan, sendo direto ao coçar o seu queixo. - É o mais provável, pois ninguém de fora poderia cometer o crime e sair ileso do lugar. Afinal, Richard acusou um policial de trair a esposa do delegado quando foi preso.

- Nossa. Parece que você solucionou o caso - disse Juliana, rindo.

Uma troca de sorrisos labiais ocorreu entre eles.

John estava em seu armário, tentando abri-lo de qualquer maneira por um eventual problema. Juliana passara por ele quando ela o viu naquela pequena luta com o armário e retornou, deixando Nathaly e Allan a esperando mais a frente.

- John.

Ele olhou para ela e voltou a prestar a atenção no armário.

- Oi, Juliana.

- O que houve com o armário?

- Eu não sei. - Ele parou de mexer no armário, e virou para a amiga. - Parece que emperrou.

- Escuta... - Juliana baixou a cabeça e colocou as mãos para trás - Estou até envergonhada para falar...

- Agora que você me deixou curioso, não adianta esconder.

- Como está chegando à época de provas de final de ano... - Ela olhava para os lados enquanto John focava nela, estando apreensivo - Você poderia dar algumas aulas de inglês para mim e estudarmos outras matérias em minha casa juntos?

John ficou surpreso. Ele deu uma olhada para a Nathaly, cujo olhar estava sendo supervisionado por Allan. Juliana o esperava responder ao longo daqueles poucos segundos.

- Claro. Podemos, sim - respondeu-a, tornando a olhá-la, sorrindo.

- Ótimo! - Ela se empolgou. - No começo da noite, o meu motorista irá lhe buscar em sua casa. Preciso que anote o endereço para que eu possa passá-lo a ele. Obrigada!

Sob um largo sorriso, Juliana abraçou John fortemente. Parecia que ela iria esmagá-lo no aperto. Depois, ela o largou e foi ao encontro do casal; John continuou parado de costas para o seu trabalhoso armário, observando-a junto aos amigos indo embora dali.

- Qual é o motivo da sua alegria, Juliana? - perguntou Nathaly, curiosa.

- Esse ano, para fechar os estudos com chave de ouro, irei tirar notas melhores. John irá me ajudar com as matérias! Inclusive, me ajudar no inglês.

- John é um grande amigo - elogiou Nathaly.

- Sim!

Juliana sorria para a amiga. Ela também direcionou os seus olhares alegres para Allan, que não sorria. Por outro lado, e por vê-la sorrindo para ele, Allan apenas abriu um sorriso tímido, logo o fechando.

O carro designado para transportar a família Butzek chegava com os seus altos faróis em frente ao portão de luxo da mansão. O portão se abriu, e o veículo entrou, dirigindo-se à fachada principal da mansão e estacionando. Da porta traseira, John saiu do carro, que logo partiu dali. Juliana estava o esperando na porta.

- Faz um tempo que não venho aqui. Já estava sentindo saudades - comentou John, brincando.

- Sim - riu Juliana.

Após subir todos os degraus que davam acesso à porta principal, ele notara quão arrumada a Juliana estava para ele. O jovem ficou mudo por alguns instantes, olhando-a da cabeça aos pés.

- Haverá algum jantar especial que eu não saiba? Se houver, parece que haverá apenas eu como convidado.

- Ora, John. Eu não posso receber as minhas visitas de qualquer jeito. Mas aceito as suas piadas - explicou Juliana, rindo no final. - Venha. Entre.

Os dois entraram.

O local da mansão escolhida para estudar foi a sala de estar. Estando sentados no chão e usando a mesa de centro para colocar os livros, eles estudaram todas as matérias, deixando o inglês por último. Quando chegara a vez da matéria linguística, eles já estavam estudando há quase duas horas, tirando as pausas.

- Não sei por que você não estudou conosco na mesma sala esses anos. Seria bacana contar com a sua inteligência na sala - comentou Juliana, elogiando as capacidades acadêmicas de John.

- Obrigado - sorriu, abaixando a cabeça para olhar o livro aberto na mesa. - Mas não é para tanto.

Com uma das mãos sobre a mesa, John sentiu algo aquecido por cima dela. Percorrendo os seus olhos da página do livro até a mão, ele viu que Juliana repousara a sua sobre a dele. Então, ele continuou a percorrer o seu olhar, passando por todo o braço da amiga, até olhá-la nos olhos.

- É, sim - insistiu. - Obrigada por tudo...

Aqueles olhos azuis foram ficando cada vez maiores diante de John. Era Juliana aproximando o seu rosto dele lentamente, estando cada vez próximo um do outro. Mas o cano de uma arma apareceu ao lado de uma distante parede que demarcava a passagem da sala para o outro cômodo - possivelmente um escritório -, mirando neles. Uma intuição invadiu o ser de John, que olhou para o lado e avistou o revólver sendo mirando neles. Ele ainda notara que a arma estava mais apontada em sua direção.

- Abaixa-se, Juliana!

John se jogou em cima de Juliana quando o primeiro disparo foi efetuado, acertando um abajur de uma mesinha ao lado do sofá.

- Corre, Juliana! Corre!

Os dois correram rumo a um corredor próximo, e novos disparos foram efetuados sem êxito, atingindo e espocando objetos. Os seguranças imediatamente apareceram para proteger os jovens, e John contou da onde vieram os tiros. Chegando ao local, em um pequeno escritório, eles não encontraram ninguém ali. O que mais os intrigou foi que a janela do cômodo estava trancada normalmente por dentro. Com a hipótese de a pessoa ter fugido pela porta principal, os seguranças foram atrás com as suas armas. Abraçada a John, Juliana estava temerosa em seu olhar enquanto John mantinha-se calmo para passar segurança à amiga. Mas recordando daquele revólver mirando o fazia estar assustado por dentro.

Manhã seguinte. A família Butzek estava reunida em sua luxuosa cozinha e farta de alimentos para o café da manhã sobre a mesa.

- Ainda não vejo cabimento. Como alguém pôde se infiltrar em nossa casa? - questionou-se Luiza.

- Também compartilho dessa mesma questão, querida. Mas a pergunta é: Por que essa pessoa queria atacar a nossa filha e o Sr. Mitchell? - disse Eduard, olhando para a esposa e para filha.

- Ou um de nós, pai - comentou Juliana.

Os pais olharam-na ao mesmo tempo. Eduard olhou para a esposa e tornou a voltar os seus olhares para a filha.

- E por que diz isso, minha filha?

- Foi apenas uma intuição, pai. - Juliana abaixou a cabeça e a reergueu. - Você vai viajar hoje, pai?

- Sim. Será hoje à tarde.

- Volte logo, então. Não gosto das viagens que vocês dois fazem.

- As viagens são essenciais para que a nossa empresa possa estar sempre bem supervisionada - ressaltou. - E não se preocupe. Essa viagem será rápida. Não ficarei muito tempo no Brasil.

- Juliana - chamou-a Luiza, e a filha a olhou. - Não se esqueça de mim. Estarei aqui na ausência do seu pai.

Os três caíam nas risadas com o comentário de Luiza. Uma alegria que acabou contagiando toda a cozinha.

O luxuoso carro da família chegava em frente ao portão da escola. Era o motorista que trazia Juliana à escola.

- Está quase, Srta. Butzek - disse o motorista, parando o carro. - Mais um pouco, os seus árduos estudos acabarão. Ótimos estudos.

Ela o agradeceu e saiu do carro.

- O que é árduo? - perguntou consigo mesma. - Às vezes, ainda me enrolo com o motorista, apesar de anos.

Juliana conjecturava dentro de si com a tal palavra que ouvira de seu motorista em inglês. Mas guardou aquela palavra para perguntar a um de seus amigos em uma oportunidade. Falando neles, ela avistou Nathaly chegando e já entrando na escola, estando de costas para ela. Juliana acelerou os passos para alcançá-la. No momento em que ela a chamou, Nathaly parou ainda de costas com a cabeça um pouco inclinada para frente.

- Bom dia, Nathaly. Como vai? - perguntou, sorrindo e olhando para ela. - Nathaly?

Sua amiga parecia estar congelada. Quando olhou ao redor, Juliana também percebeu que todos estavam parados, e sons do ambiente totalmente nulos. Inclusive, ela avistara alguns pombos parados em pleno ar! Seu sorriso se desfez.

- Oh, my God... - disse ela, puxando fortemente a expressão inglesa - O que está havendo?

O seu olhar perdido a fazia dar alguns passos para trás lentamente, colocando sua mão à altura do peito.

- Não é o máximo, Srta. Butzek?

Juliana se virou rapidamente para trás, e viu um homem. Era Michael.

- Quem é você?

- Talvez seu pai não tenha contado sobre mim. Mas eu o conheço - disse Michael. - E sei quem é você. - Ele apontou em direção a ela.

- Como fez isso? Você tem dons?

- Eu não. Mas ela tem.

Michael apontou mais uma vez, mas agora para atrás de Juliana. Ela virou, acompanhando o apontamento, e viu Jennifer bastante concentrada nos poderes, embora estivesse olhando-a. Aproveitando-se da distração da jovem, o criminoso fez um sinal para dois comparsas, que a pegaram por trás para levá-la à força até o carro.

- Não! Me solta! O que querem de mim?! Nathaly! !! Ajude-me!! Socorro!!! - Juliana gritava agudamente enquanto era arrastada.

Michael passou pela escandalosa Juliana, e foi até a paralisada Nathaly.

- Não sabia que era amiga dela. Que mundo pequeno - comentou. - Pena que não poderá livrá-la agora.

Ele riu e sorriu diante do rosto paralisado dela. E deu às costas.

O carro fez fuga dali. Os olhos de Nathaly voltaram a piscar, e tudo em volta começou a se mover. O tempo voltara ao normal. Mal imaginavam que acabara de ocorrer um perfeito sequestro.

Com a sua nova chave, John dirigia-se ao seu armário. Chegando e abrindo-o, ele viu um envelope muito bem lacrado em suas extremidades. Pegando-o, abriu e começou e a ler a carta. Era da junta militar britânica.

- John? - Nathaly aparecera, tirando as atenções dele. - Você tem notícias da Juliana?

- Não.

- Estranho... Até agora, não apareceu na escola.

- Sim. Mas acho difícil que ela apareça para estudar a essa altura, no intervalo - disse ele. - E o seu namorado? Eu não o vi com você até agora.

- Allan tem estado muito estranho comigo após uma discussão que tivemos. E hoje ele simplesmente sumiu.

Aquele último comentário era perfeito para John mais uma vez aconselhar sua amiga sobre o seu namoro, mas ficou quieto por outras questões de momento. Por sua vez, Nathaly notou algo indiferente no comportamento do amigo, e o associou à correspondência que estava sendo segurada por ele.

- Está tudo bem?

John olhou para a carta e para ela, e a entregou. Nathaly começou a lê-la.

- Estarei deixando a cidade - contou. - Servirei o exército após finalizar os estudos deste ano. Por sinal, já estamos às portas de terminarmos.

Nathaly o olhou de forma breve, e direcionou o seu olhar novamente para a folha. Ela parecia surpresa; na carta formal, estava escrito a destinação do jovem: Londres.

Eduard arrumava suas coisas de seu escritório antes de partir para o Brasil. Mas a sua tarefa acabou por ser interrompida quando sua esposa chegou alarmada:

- Eduard! Juliana não apareceu na escola hoje.

Ele virou-se para ela, não entendendo absolutamente nada.

- Como assim, querida? O nosso motorista a levou normalmente para lá.

- Ele me disse que ela não estava na escola quando foi buscá-la... Afinal, o que está acontecendo, Eduard?

A forma assombrosa como Luiza estava tratando sobre o assunto fez Eduard estar pressionado para resolver a questão. A sua viagem ao Brasil estava em xeque, e precisou ser adiada por ele.

Eduard foi até a uma das indústrias da corporação, onde Steven trabalhava, e andava pelos setores do lugar.

- Sr. Kate.

Ouvindo e achando a voz familiar, Steven parou o que estava fazendo.

- Sr. Butzek. - Ele limpava suas mãos de gracha com um pano enquanto se virava. - Aconteceu alguma coisa?

- Sim - respondeu prontamente. - Minha filha sumiu.

Steven retorceu suas sobrancelhas, estando surpreso. Uma eventual conversa se iniciaria entre eles.

De pé em seu quarto, Nathaly segurava o livro de Biologia fechado, observando a capa com o nome da matéria estampado. Ela inevitavelmente estava a pensar em algo.

- Filha? - disse Clara, abrindo vagarosamente a porta.

Virando-se, Nathaly autorizou sua entrada em seu cômodo. A mãe andava lentamente enquanto observava o livro nas mãos da filha.

- Explorando seus dons através das informações do livro?

- Não exatamente, mãe.

- Então?

Ela batia mansamente na capa do livro antes de olhar para a mãe.

- Estou tão envolvida com os meus dons que algo pareceu amadurecer dentro de mim.

- Bem, estou aqui para lhe ouvir - disse a mãe, sendo simpática no sorriso, e aproximando da filha. - O que amadureceu em seu singelo ser?

Nathaly tentou usar da hesitação para deixar o assunto para uma outra oportunidade, mas não funcionou. O olhar de sua mãe a pressionava a contar naquele momento. Então, ela deu um suspiro.

- Depois das altas notas que tenho tirado, os conselhos das pessoas e outras circunstâncias, eu concluí que gostaria de me tornar uma bióloga. - Ela olhava sua mãe sem reação, ainda a observando. - Mas, por favor, não quero que vocês fiquem sobrecarregados com as finanças, e...

Clara não a deixou terminar quando a abraçou com extrema alegria.

- Será uma grande privilégio em realizar o seu objetivo, minha fiha! Seu pai e eu iremos fazer de tudo.

Ela largou a filha, e ambas trocaram sorrisos.

- Obrigada, mãe - agradeceu, tendo os seus olhos encharcados.

De repente, elas ouviram Steven as chamando lá debaixo. Quando desceram, elas o viram ao lado de Eduard. Mas aquela reunião na casa não se resumiria apenas entre os quatro. Era preciso de mais uma pessoa: John. Ele fora chamado para estar na casa da família Kate através da própria amiga Nathaly, estando todos reunidos na cozinha.

- Sr. Mitchell. Tem certeza que você não conseguiu identificar o autor da invasão e disparos em minha mansão? - interrogou Eduard.

- Não, Sr. Butzek - confirmou. - Eu apenas vi o revólver sendo mirado em nossa direção. A pessoa estava se escondendo atrás da parede.

- Vocês foram atacados ontem à noite, John? - perguntou Nathaly, estando surpresa. - Você não me contou isso na escola.

- Eu não queria preocupá-la, acreditando que tudo havia se resolvido - explicou John, olhando para a Nathaly.

- Pode ser algo pesado para você ouvir, mas Allan não está presente entre nós, filha - comentou Steven.

Eduard, captando a real mensagem de seu funcionário, direcionou seus olhares para a jovem.

- Você quer dizer que... Não. Não acho que ele seria capaz de atacar a Juliana.

- É uma hipótese, Nathaly. Por que você acha que ele sumiu dentre nós?

Nathaly, olhando para o pai, desviou seus olhos dele para percorrê-los aos demais presentes. Ela não poderia expor diante de Eduard e John qual poderia ser a outra hipótese do sumiço do namorado, que envolvia aquela discussão entre eles sobre segredos. Aquilo poderia despertar curiosidades.

De repente, o telefone começou a tocar. Eduard logo deduziu que poderia ser sua filha, e pediu licença para atender.

- Quem é?

- Esqueceu a minha voz, Sr. Butzek?

- Michael...

- Sabia que não esqueceria.

Do outro lado da linha, Michael estava ao lado de Juliana em um cativeiro montado. Ela estava amarrada em uma cadeira.

- Como sabe esse número?

- Liguei em seu escritório. E adivinhe quem atendeu? Sua esposa.

O cientista começou a ficar temeroso. Era perfeitamente visto em seu olhar.

- O que você quer?

Após ele perguntar, Michael tirou a mordaça da boca de Juliana, e encostou o aparelho.

- Pai! Sou eu... Tire-me daqui! - implorou a jovem, entre choros.

Usando a audição animal aprimorada, Nathaly ouvira a voz de sua amiga clamando por ajuda ao seu pai. Seus olhos cresceram e as sobrancelhas se ergueram, estando assustada dentro de si. Mas mantinha-se concentrada de forma que ninguém percebesse, inclusive os seus pais, que ela estava usando seus dons.

Michael tirou rapidamente o telefone do alcance de Juliana enquanto um de seus comparsas a amordaçou novamente na sequência. Ela chorava muito, sendo abafado pelo pano.

- Nós colhemos o que plantamos, meu caro amigo. - Ele ria, e logo fechou a cara. - Você não deveria ter pegado a minha melhor arma, Eduard - disse, rangendo os dentes para segurar a tamanha raiva que carregava do cientista.

- Deixa a minha filha em paz. - Eduard passava a mão sobre a testa. - O que quer em troca? Se for dinheiro, diga logo. Eu pagarei prontamente.

- Para você aprender, quero mais do que simplesmente cédulas britânicas. - Michael recebeu um papel das mãos de um de seus subordinados, após ele fazer um sinal com a mão aberta. Era um documento impresso. - Quero parte das ações da sua empresa, e você terá que assinar um testamento e levar para reconhecimento. Não lembre apenas da sua filha, que está em jogo, mas também de tudo que já fiz por você. Nada mais justo do que retribuir.

A proposta colocada em mesa fez Eduard estar em um fogo cruzado. Ele mal pensara, e Michael já começou a passar instruções para que pudesse se encontrar para a assinatura do documento. Como previsto, ele exigiu que o empresário alemão fosse até o ponto de encontro sozinho, sem surpresas óbvias. Por outra lado, Nathaly reconheceu aquela voz masculina do outro lado da linha, e se afastou dos pais e John mansamente.

- Não foi o namorado da filha de vocês. Foi outra pessoa - disse Eduard, após desligar o telefone, olhando para Steven, Clara e John.

Quando Eduard olhou para onde Nathaly estaria, percebeu que ela já não estava mais entre eles.

- Onde está a filha de vocês? - perguntou ele, olhando para os pais.

Imediatamente, o casal se olhou, já imaginando que Nathaly fugira para resgatar Juliana. Eduard os olhava incessantemente.

Michael ainda estava na sala onde estava mantendo Juliana em cativeiro, ao lado de sua fiel escudeira, Jennifer. Ele aproximou-se dela, e tirou sua mordaça.

- Vocês se falavam como se conhecessem há muito tempo - comentou Juliana, em voz cansada de tanto ter chorado antes de se acalmar.

Ele teve um breve ataque de risos.

- Aí, Aí... Como você é tão inocente, Srta. Butzek. - Encurvando-se à altura do rosto da jovem, encaixou o seu olhar no dela. - Cheguei a ver você quando ainda era de colo.

Juliana abaixou a cabeça. Ela parecia chocada.

- Não... Isso é uma mentira sua.

O criminoso se endireitou novamente.

- Ingleses e alemães podem se unir, apesar de suas sujeiras políticas - disse ele, abrindo os braços.

- Meu pai é uma ótima pessoa. Jamais ele se uniria a uma pessoa de má índole como você.

- Ah, ótima pessoa? - Ele cruzou os braços - Então me explique o sequestro que ele fez, levando a minha jovem à sua empresa. Algo que motivou a sua vinda para cá.

- Meu pai não vai lhe dar as ações. Ele virá com a polícia ao invés da caneta para assinar o acordo - disse ela, erguendo a cabeça com um olhar que trazia temor a quem olhava.

- Cala a boca, mocinha - ordenou, desmanchando o sorriso e fechando a cara.

A sua ordem não foi atendida. Para piorar, ela começou a repetir as mesmas palavras, traduzindo-as para o alemão. E o idioma começou a irritar Michael, que deu às costas e apoiou suas mãos sobre uma mesa.

- Eu disse para se calar...

Ela persistia na frase em seu idioma. Uma tensão gerava por ali, até que Michael pegou sua arma carregada em balas da mesa e avançou em Juliana com um único golpe de coronhada de baixo para cima no rosto dela, fazendo-a desmaiar. Jennifer, olhando aquilo, colocou a mão na boca, sendo uma rara cena de espanto.

- Tenha mais paciência, chefe - aconselhou-o.

- Fica quieta, Jennifer! - gritou, apontando a arma para ela.

Após olhar sério para Jennifer enquanto apontava a arma, ele reposicionou seu corpo para estar de frente com a desmaiada Juliana, mirando nela.

- O seu paizinho me deu escolha. Mas você não.

Endurecendo o seu braço esticado, ele estava quase apertando o gatilho para atirar em Juliana quando uma mão intercessora apareceu e tomou-lhe a sua arma favorita. Quando olhou para o lado, avistou Nathaly próximo à mesa, segurando o objeto em uma mão enquanto a outra segurava o documento. Ela usara a agilidade animal, sempre combinada aos seus reflexos.

- Safada... É você - disse Michael, reconhecendo-a.

- Acabou, Michael - disse Nathaly, determinada no olhar.

Nathaly soltou a arma no chão, e usou uma pisada equivalente a um elefante, destroçando a arma de fogo. Ela colocou a folha impressa diante de seus olhos, e a queimou com a visão de calor; o atestado tornou-se cinzas na frente de Michael. Ele mesmo tentou encará-la em uma possível batalha corpo a corpo, mas ela o empurrou para o lado com a sua força, jogando-o em cima de algumas prateleiras.

O caminho estava aberto para que Nathaly pudesse desamarrar Juliana e a levasse dali. Indo até ela, ela foi impedida por Jennifer, que a empurrou com a sua força para trás; Nathaly deslizou sobre a mesa e caiu atrás, levantando-se rápido e apoiando-se na própria mesa.

- Acabe com ela, Jennifer - ordenou Michael, que se pusera de pé, levando sua mão ao braço.

- Não, Jennifer. Seus dons não são para matar pessoas.

- São, sim, Jennifer. - Ele olhou para ela e direcionou o seu olhar para Nathaly. - Veja que ela quase me matou agora há pouco.

- Sequestrar pessoas inocentes não é o certo. E mesmo que tenham culpa - disse Nathaly. - Ele apenas faz o que é mau, e quer lhe usar. Escuta-me.

Jennifer estava hesitada por causa de tantas palavras com intenções diferentes para convencê-la. A sua postura firme que sempre demonstrava, chegando a ser fria, já dava lugar a uma mera expressão duvidosa e perdida dentro dela mesma. Até que sirenes assustaram Michael:

- Imbecil!

Já imaginando o que poderia ser, uma enroscada de Eduard com o chamar da polícia, ele preferiu fazer fuga dali, chamando Jennifer, que o acompanhou sem resistência para ajudá-lo com os demais comparsas que participaram da ação. Uma das suas maiores sortes era que o lugar não era o verdadeiro esconderijo, usando aquele lugar exclusivamente para o sequestro relâmpago.

Parada, Nathaly observava a sua amiga desmaiada na cadeira. Ela parecia pensar se interviria, desamarrando-a e levando-a para casa, ou deixaria que a polícia a visse ali e tomasse as devidas ações. Afinal, era a sua amiga à sua frente, precisando muito de socorro até médico. Mas ela resolveu em também fazer fuga dali, temendo ao testemunho e aos seus dons.

Eduard aparecia apressadamente pela porta, acompanhado pelos oficiais, na mesma hora em que Juliana parecia recuperar a sua consciência.

- Filha, meu amor. - Ele agachou-se. - Tudo bem?

Ele observava os danos causados pela coronhada desferida pelo Michael, com o rosto avermelhado e com pouco de sangue coagulado acima de sua boca, que descera de seu nariz. Vendo aquela cena, ele se endireitou e deixou que os policiais a desamarrassem da cadeira. Quando deu às costas, ele avistara a arma de Michael destroçada no chão, e cinzas do documento bem ao lado. O que começou a intrigá-lo foi o fato de que a arma tinha marcas de pisos mais consistentes com demarcações de salto.

Pelos corredores do hospital, Nathaly caminhava. Virando à sua direita, ela viu Eduard conversando com um médico.

- Ótimo início de noite, Srta. Kate - saudou Eduard, antes mesmo de ela chegar perto, olhando-a. Depois, ele foi até ela.

- Boa noite, Sr. Butzek - respondeu-lhe, sorrindo timidamente. - O jeito como você se dirigiu a mim com as palavras mostra que Juliana não teve nada de mais grave.

- Sim. Ela está fora de qualquer perigo. Por sorte, apenas teve algumas escoriações que foram causadas pelo agressor.

- Que bom - disse ela, aliviada. - Mas por que essa pessoa queria fazer mal a ela?

Eduard suspirou com uma de suas mãos sobre a cintura, abrindo um pouco o seu paletó para o lado.

- Ainda estou tentando entender - sorriu.

Ele deu algumas batidas sobre o ombro de Nathaly ao passar por ela. Ela o acompanhou com o seu inocente olhar. Repentinamente, ela virou o seu rosto e continuou a andar em direção ao quarto da amiga.

- Nathaly? Que bom vê-la - disse Juliana, fechando o seu diário, que fora buscado pelo seu pai.

- Esse nariz de palhaço é muito diferente - disse Nathaly, referindo-se aos esparadrapos colocados no nariz da amiga, gerando um volume.

- Engraçadinha.

- Como você está?

- Estou melhorando. Só está sendo chato respirar pela boca. Então, não ligue para a minha voz estranha e desafinada.

As duas começaram a rir mansamente.

- Sabe, Nathaly... - Juliana ergueu mais sua cabeça, e começou a olhar para frente, para o nada - Achei que eu veria as coisas pela última vez, sem me despedir dos meus amigos. Mas parece que eu tenho um anjo forte ao meu lado. Sempre fui salva pelo o congo dele.

Sem graça, Nathaly abaixou a cabeça, entrelaçando os seus dedos.

- Acho que você anda lendo muitos livros do gênero - riu.

Juliana, ora olhando para o nada, virou o seu rosto para a amiga.

- Você nunca teve a sensação de que poderia haver alguém que sempre está disposto a lhe proteger, Nathaly?

Nathaly remexia os lábios e movimentava sua cabeça ainda cabisbaixa. Ela procurava uma resposta que desviasse qualquer obviedade a seu respeito.

- Já, sim. É concluí que somos nós mesmos - respondeu, erguendo seu rosto.

Sem feedback, Juliana apenas a olhava sorrindo com os lábios enquanto Nathaly fazia o mesmo.

Deixando o quarto, Nathaly ainda encontrou uma pessoa conhecida. Era John.

- Ei, Nathaly.

- Oi, John.

- Como está a nossa amiga? - perguntou, cruzando os braços e sorrindo.

- Ela está ótima - respondeu.

- Ótimo.

Os dois ficavam se olhando sob um silêncio.

- Você sumiu hoje. O que houve?

- Nada. Eu apenas estava preocupada com tudo isso. Juliana e você sendo atacados na casa dela, e sequestro dela... Aí, eu resolvi subir para o quarto.

- Ah, sim. Bem que seus pais colocaram essa hipótese no momento.

Nathaly ficou aliviada por dentro quando soube que seus pais disseram que ela fora ao seu quarto por tais motivos. Talvez isso fez com que Eduard não a questionasse como John fez.

- Sobre o atentado sofrido por nós na mansão, será que há alguma conexão com o sequestro da Juliana?

- Não sei lhe dizer, John. A polícia ainda não prendeu os autores para que possamos saber disso.

John coçava seu queixo. Ele ainda estava com alguma cisma com aquele acontecimento. Não perdendo tempo, se despediu dela, indo visitar Juliana.

Quando saía do hospital, Nathaly levou um susto quando alguém a tocou pelo ombro:

- Aí, que susto!

- Desculpa, Nathaly. Soube que Juliana foi internada devido ao que aconteceu - disse Allan.

- E você andou sumido. O que aconteceu?

- Recebi um chamado de emergência dos meus pais em Cambridge. Faz tempo que isso não ocorre.

- Por quê? O que houve com eles?

- Na verdade, meu pai acabou passando mal. Mas ele está bem agora.

- E por que não me avisou, poxa?

- Achei que você tivesse lido o meu bilhete deixado em sua caixa de correio.

Nathaly ficou maquinando se ela ou alguém de casa tinha visto ou comentado sobre o tal bilhete.

- Vamos. Eu a acompanharei até sua casa, e mostrarei o bilhete - disse ele. - Agora, me conte essa história que cheguei a ser acusado de estar envolvido no sequestro da Juliana.

Allan a abraçou de lado, e deu uma olhada para trás. Pela janela de vidro que continha na porta dupla do hospital, viu John os observando de longe e, lentamente, virou sua cabeça para frente.

Eduard chegara em sua mansão. A primeira coisa que ele viu na sala de estar foi sua esposa o esperando com braços cruzados.

- Achei que já estivesse dormindo, querida. Mas eu lhe disse que não precisava se preocupar. Juliana está bem.

- Está muito cedo para descansar, apesar do cansaço de trabalho. E não estou mais preocupada com a nossa filha. Sei que ela está em ótimas mãos.

- Então?

- Quem é essa pessoa que tanto lhe conhece, que sequestrou Juliana?

Mais um suspirou saiu das narinas de Eduard. Ele não teria escolha para uma situação que se afunilara.

- Seu nome é Michael Dolman. Eu o ajudei a se refugiar quando um grupo de alemães queria matá-lo por ser um inglês em terras germânicas, ainda por causa da Grande Guerra de 1914. Como retribuição, ele nos ajudou a entrar com a empresa aqui. - Sua esposa o observava, e ele a olhou sério, mas temendo. - Mas eu juro que não sabia que ele se tornaria um criminoso tão rude e impiedoso. Aliás, já tentei o ajudar nesse aspecto. Inclusive, oferecendo ajuda médica.

- Eduard... Eu achei que fosse por causa de nossos méritos, que nos fizeram entrar com a nossa empresa neste país. As documentações me iludiram perfeitamente - disse ela, desapontada. - Teria sido melhor termos ficado na Alemanha. Você não deveria ter se envolvido com esse homem. Olha aonde chegamos!

Eduard foi até ela.

- Calma, querida... Por favor, me perdoe. Eu deveria ter pedido sua permissão, ao menos. Agora, já foi. Errei.

Luiza o olhou de lado, parecendo não ceder o perdão pelo erro cometido.

- Está bem, Eduard. Eu lhe perdoo. Mas não tenha mais nenhuma parte com ele. Vamos seguir sozinhos de agora em diante, pois não somos ladrões. - Seu esposo demonstrou-se aliviado. - Mas eu queria saber os motivos que levaram Michael a sequestrar a nossa filha. O que mais você devia a ele?

Aquela pergunta foi direto ao calcanhar de Aquiles de Eduard. Sua mulher o esperava respondê-la, estando muito interessada no assunto sobre a tal parceria entre Michael e seu marido. Ele a olhava sem apresentar sinais que mostrassem insegurança.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top