Capítulo Quatro: Tóxicos


Equipe de cientistas e pesquisadores marcava presença em uma zona distante da área urbana de Manchester para trabalho noturno, próximo ao lugar onde outros estavam fazendo suas pesquisas anos atrás. Eles estavam fazendo extrações à procura dos mesmos nove principais e perigosos minerais existentes na Terra, sendo o Cinábrio um dos minerais de mais requisição. O número de profissionais era grande naquela noite, e havia bastante movimentação no lugar e dentro de um rochoso túnel feito por eles. Dentro desse túnel, em um setor específico, havia dois mineradores componentes da equipe de pesquisas, totalmente e devidamente equipados.

– Amigo – chamou o minerador o outro –, eu vou tomar um pouco de ar lá fora. Está muito quente aqui dentro, não acha?

– É, realmente. Mas vejo isso como uma justificativa para fumar – disse o outro.

– Pelo visto, não há como enganar você, mesmo.

– Está bem, cara. Vá tomar esse seu ar – autorizou-o. – Olha, volta logo ao trabalho, pois é de suma importância para o pessoal.

– Entendido.

Um deles saiu dali para tragar um cigarro. No caminho à boca do túnel, ele tropeçou em uma mangueira de um aparelho delicado que distribuía gás inflamável para o interior do ambiente.

– Droga! – reclamou – Quase derrubo os meus cigarros no chão. – Ele continuou a andar.

Vendo que ele não perdera seus maços de cigarro que poderiam ter caído da caixa quando tropeçou, acabou não dando atenção à mangueira que quase o derrubou, e muito menos do aparelho que estava ali. Nessa desatenção crucial, o impacto causou um leve deslocamento dela do equipamento, liberando o gás de maneira sorrateira pelo ar.

O forte cheiro do gás chegou até o seu companheiro, que foi o primeiro dos demais que estavam trabalhando na parte interna a perceber um cheiro diferente. Como profissional, ele não perdeu tempo para se certificar do problema, deixando seus afazeres de lado para procurar. A substância gasosa intensificou, prejudicando a sua respiração, mas correu quanto podia.

– Pessoal! – gritou – Saiam daqui, rápido! Há um gás inflamável no ar!

O estado se transformou em uma grande emergência para todos, que começaram a correr para se salvarem. Como estavam bastante distantes da boca do túnel, muitos começaram a pegar cilindros de oxigênio espalhados pelos cantos para evitar a inalação do gás; outros esbarravam e derrubavam carrinhos cheios dos minerais já extraídos para ser levados. Um verdadeiro caos formou-se internamente.

Bem na entrada desse túnel, o fumante estava prestes a acender o seu cigarro. Quando ele riscou o fósforo, ouviu um grito do seu companheiro e dos demais, que corriam por suas vidas:

– Não faça isso!

Mas não houve tempo suficiente, e uma grande explosão ocorreu, indo do começo ao fim do túnel. Os cientistas e outros trabalhadores se assustaram com o imenso barulho, e foram surpreendidos com uma imensa nuvem em suas direções, que trazia consigo uma pressão que os levaram ao chão, juntamente com as mesas, barracas e objetos. Nessa nuvem continha resíduos dos minerais fresquinhos (naturais) extraídos, e o vento começou a espalhá-los pelo ar rapidamente, dissipando a nuvem, rumo à cidade urbana. Foi uma noite marcada por uma grande tragédia.

Era manhã do dia seguinte. Como de costume, Clara estava arrumando a mesa para o café da manhã na cozinha, mas estava sozinha, sendo uma cena rara pelas manhãs.

– Mãe? Cadê o meu papai? – perguntou Nathaly, de forma carinhosa ao mencionar o pai.

– Oi, bom dia, filha. – Clara parou o que estava fazendo para dar atenção à filha. – O seu pai ainda está no quarto. Ele acordou um pouco cansado.

– Talvez seja o ritmo de trabalho dele – pressupôs.

Steven foi o último a aparecer para ter o seu café antes de ir trabalhar. E parecia bastante pálido.

– Falando de mim, pessoal? – disse Steven enquanto se apoiava na parede.

– Pai – Nathaly correu para ajudá-lo –, você está bem?

– Estou, filha – riu discretamente. – Por que me faz essa pergunta?

– Não sei... – Ela o olhou dos pés à cabeça – Você parece... tão pálido e um pouco fraco.

– A nossa filha tem razão, querido. O que você tem?

– Nada, Clara. É apenas impressão de vocês.

Ele tentou ir à mesa para se sentar e tomar seu café. Mas ele começou a ver tudo turvo à sua frente e, aumentando a fraqueza física, ele se desequilibrou, caindo sobre a mesa e derrubando algumas coisas de cima dela.

– Pai! – apavorou-se Nathaly, e logo o colocou sentado na cadeira.

– Meu Deus, Steven! Você não está bem. – A esposa se aproximou. – E você está suando muito.

– Pai, fale comigo – implorou Nathaly, olhando para ele.

– Estou com muita fraqueza, vejo turvo... – Ele fez uma pausa, e colocou a mão no peito – E estou com uma dor no peito.

– Nathaly, chame a emergência. Rápido, filha!

Nathaly e sua mãe acudiram-no. Em questão de minutos, o carro da emergência chegou para socorrê-lo e levá-lo ao hospital urgentemente. Nathaly até desistiu de ir para escola. Afinal, ela não tinha nenhuma condição de seguir o dia normalmente.

Steven chegou ao hospital às pressas através da equipe médica que o atendeu na casa, indo direto para a sala de emergência. Ademais, o hospital nunca esteve tão movimentado até então.

– Sra. Kate, ninguém pode entrar – impediu o doutor, que passou a estar à frente do caso.

– Por que não? Eu sou esposa dele, e ela é a nossa filha – disse Clara, bastante nervosa e preocupada.

– Eu entendo perfeitamente, mas preciso mantê-las aqui, pois ele deve ter sido uma das vítimas da intoxicação molecular, e temos que nos assegurar que isso não seja contagioso.

– Intoxicação? – estranhou Nathaly – Como ele pôde ser intoxicado?

– Vocês estão vendo essa movimentação? – apontou.

Mostrando a atual situação interna daquele hospital da cidade, o doutor explicou o motivo, contando alguns detalhes sobre a explosão no minério durante a madrugada e as intoxicações das pessoas em decorrência das partículas tóxicas geradas e espalhadas pelo ar. E associou os sintomas de Steven com a possível intoxicação apresentada pelos demais pacientes.

– Pai... – disse Nathaly preocupada, colocando a mão à altura do peito.

– Dê-me licença.

O doutor se retirou, rumo à sala de emergência

– Nathaly, vá para casa – sugeriu a mãe. – Eu fico aqui, esperando a posição do doutor quanto ao diagnóstico e saúde de seu pai.

– Mas mãe... Eu também quero estar com você, acompanhando.

– Não se preocupe, filha. Assim que eu receber novas notícias, eu irei ligar para você.

– Mas mãe...

– Vá. Obedeça – insistiu.

Nathaly ia mesmo contra sua vontade. Quando saía do hospital, ela deparou-se com outra cena: John também estava dando entrada no hospital e pressentiu ser a mesma suspeita.

– John! – Nathaly correu para vê-lo na maca. Mas os médicos e enfermeiros impediam-na de continuar ali.

– Afaste-se do meu namorado, garota – ordenou Alice, que estava junto com seu irmão Ryan.

– Calma, maninha – disse Ryan, olhando para Nathaly. – Não é hora de brigar agora.

– Eu não quero saber, Ryan! – gritou. – Essa garota só nos traz problemas desde quando ela apareceu em nossas vidas. Quem sabe na vida das outras pessoas.

Ryan virou-se para dar atenção à Nathaly.

– Nathaly, John passou mal na escola hoje – explicou. – Por favor, mantenha distância, antes que a minha irmã arrume mais um problema para a cabeça.

Ela chegou a encarar com aqueles olhos, não aceitando a posição, e deu alguns passos para trás, evitando qualquer atrito dentro do hospital. Por outro lado, as informações recebidas preocuparam ainda mais sua pessoa. Mas para que não arranjasse problemas com a mãe e, muito menos, com Alice, usou dos tais motivos apresentados para ir para casa.

Dentro do setor político na Grande Manchester, o assunto sobre o agravamento do incidente ocorrido no minério da cidade era inevitável, sendo a principal pauta. E contou com a convocação do prefeito para uma conferência com seus companheiros de gestão e diversos cientistas e médicos locais para ajudá-lo na solução do problema, além da presença da imprensa.

– Senhoras e senhores da Grande Manchester – disse o prefeito, no palanque do palácio –, convoquei essa importante conferência para anunciar a nossa mobilização contra essa infestação que nos assola desde quando ocorreu aquela infeliz explosão, que vitimou em muitas pessoas, ora sendo na morte, ora sendo intoxicadas e sob uma constante agonia em prol de suas vidas. Primeiramente, gostaríamos, e muito, de podermos contar com algum dos heróis que tanto ouvíamos quando criança; mas eles, infelizmente, não existem. Entretanto, nós podemos contar com a ciência e, vocês, médicos e cientistas, que se puseram à disposição. São vocês quem podemos considerar os nossos heróis da vez, nessa dura batalha. E vamos vencê-la! Quanto aos culpados, vamos também correr atrás, pois se trata de um crime ambiental, ao violar os cuidados. Por que não?

Toda a operação em prol da solução começou. A polícia rapidamente entrou em ação, indo a algumas casas de cientistas suspeitos de realizar tal atividade. A mansão da família Butzek foi invadida à procura de Eduard, que era o dono majoritário da Butzek Corporation, como a corporação era chamada; e, como a empresa era recente na cidade e era estrangeira – ainda mais alemã –, as autoridades a tiveram como prioridade de investigação. Depois de revirar o lugar, os policiais nada encontraram, muito menos os moradores.

– Vamos atrás da sede da empresa desse homem. Talvez, consigamos informações – disse o delegado.

– Entendido, senhor – disse um dos policiais.

Depois que a situação se acalmou, Alice e John "lavavam as roupas sujas" no quarto do hospital:

– Não vejo a hora de isso acabar. – John inclinou a cabeça, olhando seus braços envolvidos com alguns fios de aparelhos médicos. – Ao menos, você está fazendo companhia comigo.

– John – chamou-o –, você leu a minha carta? Você não falou nada sobre ela até aqui.

– Sim, eu a li – respondeu. – E já absorvi a bronca. Não se preocupe.

– Não parece que absorveu, John.

– Aí, Alice... Não é hora para discutir isso – disse ele. – Se é preciso pedir perdão cara a cara, por favor, perdoe-me. Esqueci de dar atenção a você quanto mais precisava.

– Exatamente. E veja que eu poderia muito bem lhe deixar aí, somente sob os cuidados dos seus pais. – Ela olhou firmemente para ele enquanto falava tais palavras. – Veja o meu papel como pessoa de sua vida. Isso mostra que o amo.

– E eu a agradeço por isso.

– Agradecimento não é o suficiente nesse momento, John – criticou. – O fato é que eu soube que você simplesmente trocou a minha situação já superada pela a de Nathaly, que pouco me importo se ela conseguiu ou não resolver o seu problema.

– E resolvemos, sim – revelou, já se exaltando. – E que liberdade é essa de você me espionar? Deve ter sido o seu irmão, cobaia das suas coisas, usando-o.

– Parabéns! – congratulou-o ironicamente – Você realmente é experto. Foi o meu irmão que me ajudou.

– Sabia... – disse ele, já esperando essa resposta. – Alice, entenda: eu a amo. Mas você precisa controlar esse ciúme. No fundo, você me conhece muito bem. Não é à toa que você gostou de mim

– Bem, se você quiser que eu mude, basta me aceitar como eu sou. Caso ao contrário... bye.

Alice levantou-se da cadeira para visitantes e se retirou do quarto tranquilamente, para evitar estresse de ambas às partes.

– O que faço para mudar a cabeça dessa garota? – questionou a si próprio.

No centro de pesquisas e observações científicas, numerosos cientistas estavam mobilizados na busca por soluções contra a infestação pelo ar. E era preciso haver alguma informação sobre a situação, pois o prefeito prometeu marcar presença para saber mais do delicado momento. De forma bem precoce, eles conseguiram levantar informações precisas e fazer relatórios sobre as condições do ar e o grau em que essas estavam.

– Alguma informação relevante, senhores? – perguntou o prefeito, em sua chegada.

– Sim, nós a temos – confirmou o líder cientista. – Ao usarmos os nossos equipamentos disponíveis somados aos nossos conhecimentos, temos duas notícias: uma boa e uma ruim.

– E o que seriam essas notícias, meu companheiro?

– Primeiramente, essas partículas propagadas e misturadas pelo ar são formadas por numerosos resíduos de minerais, de nível perigoso, que estavam sendo extraídos naquele minério... – detalhou. Mas depois hesitou.

– Continue. Qual é a ruim?

– Elas estão se expandido muito rápido, podendo avançar e tomar conta de toda a Inglaterra em questão de algumas horas, aumentando sua resistência. E o pior: não sabemos se acharemos uma solução antes que isso aconteça.

– Meu Deus – clamou consigo. – Continue fazendo o que podem.

– Sim, senhor.

Enquanto isso, as partículas contidas no ar continuavam a avançar rumo às outras cidades e Estados; pareciam ter dobrado em sua velocidade.

Em casa, Nathaly encontrava-se inquieta sozinha, esperando um telefonema de sua mãe, que a prometeu ligar para dar notícias do pai. De repente, a campainha tocou. Para sua surpresa, era Juliana acompanhada do seu pai, Eduard.

– Juliana? Sr. Butzek? Vocês aqui? – estranhou – Como souberam do meu endereço?

– Sim, Nathaly – disse Juliana. – Bem, eu o peguei na direção da escola e pedi para o meu pai me trazer até aqui, pois você não foi hoje.

– Sim, verdade. Eu não pude ir.

– Srta. Kate, acreditamos que sua ausência possa estar ligada ao problema que estamos passando sobre essa infestação do ar contaminado – disse Eduard. – Talvez, podia ter acontecido algo com você, e a minha filha ficou muito preocupada. Mas parece que está tudo bem, não é mesmo?

– Não tudo...

Nathaly os chamou para entrar, e começou a relatar que o seu pai foi vítima da tal infestação e que estaria internado no hospital da cidade. Eduard e Juliana a acalmaram para lidar com o momento difícil.

O clássico telefone tocou. Nathaly rapidamente foi atender, e era sua mãe. Deixando suas visitas esperando sentadas na sala, ela ficou um tempo no telefone, até que ela retornou da ligação:

– Está tudo bem com ele? – perguntou Eduard.

– Embora saibam que ele foi realmente intoxicado pelo ar, o meu pai está instável no hospital sob observação – informou-os sob uma expressão incerta.

– Eu vou ver se posso ajudar em alguma coisa. – Ele levantou-se. – Estou indo para lá. Onde é?

Nathaly anotou o endereço do hospital e deu o papel para ele.

– Juliana. Faça companhia para sua amiga, está bem?

– Pode deixar, pai.

– Qualquer coisa, eu pego o número de telefone com sua mãe e ligo aqui, Nathaly.

– À vontade. Ah! O nosso amigo John também está mal. Se puder ajudá-lo também...

– Verei isso lá. Tchau, meninas.

Eduard saiu com o seu veículo rumo ao hospital para tentar usar de seus conhecimentos científicos para ajudar. Por outro lado, Juliana estava muito quieta estando a sós com sua amiga.

– Nathaly? – chamou-a.

Ela a olhou, dando sua atenção.

– Sabe... Eu ainda estou muito envergonhada por aquele episódio entre nós.

– É sobre aquela discussão envolvendo Rowan, não é? – imaginou, sem muita dificuldade.

Juliana balançou a cabeça com o medo de confirmar.

– Olha, eu já lhe perdoei, Juliana; já nos acertamos – assegurou. – Esqueça. Já passou.

– Mas ainda continua marcado, e gostaria de voltar ao tempo só para refazer essa cena – lamentou.

– Para com isso – repreendeu. – Aliás, é impossível voltar ao tempo, você querendo ou não. Concorda?

– Não sei, não. Pelo jeito que coisas estranhas vêm acontecendo... Tudo se tornou possível.

Um jornal foi entregue pela janelinha da porta, na parte inferior, fazendo o barulho característico de um maço de folhas sendo jogado ao chão. Nathaly foi até a porta e pegou o jornal, começando a dar uma olhada.

– Olha só. Logo na primeira página, fala sobre o incidente naquele minério.

– Nossa. – Juliana aproximou-se para ver.

– Aqui fala onde é esse lugar. Espera... Está escrito que a contaminação pode avançar para outras cidades do país.

– Precisamos fazer alguma coisa...

– Exato, Juliana.

– Vamos nos proteger, então.

– Não. Iremos até lá para checar. – Ela a olhou depois que falou isso. Na sequência, ela olhou para o nada, estando a pensar.

Nathaly teve a repentina ideia de ir juntamente com Juliana ao local do incidente. Com certeza, ela já tinha em mente que poderia ajudar de forma direta estando lá. Juliana achou estranha a decisão.

Eduard chegou ao hospital. Ele procurava pela Clara em meio às pessoas. E a encontrou:

– Sra. Kate? – Ele estendeu a mão para cumprimentá-la.

– Oi. Sou eu – respondeu e apertou a mão do cientista de forma desconfiada. – Quem é você?

– Sou Eduard Butzek, pai da Juliana, amiga da sua filha Nathaly.

– Prazer, Sr. Butzek. E sou Clara Kate – apresentou-se. – O que lhe traz aqui?

– Soube que seu marido foi infectado. E vim para tentar ajudar, pois sou um cientista.

– Nathaly contou isso para você?

– Apenas soube, porque fui à casa de vocês por causa da preocupação de Juliana por Nathaly não ter ido para escola.

– Bem, agradeço sua ajuda.

– Ótimo. Eu vou ver tanto seu marido quanto a John, amigo de nossas filhas.

Depois de uma visita rápida nos quartos de Steven e John, Eduard voltou à recepção. Quando chegava perto de Clara, ele acabou dando de cara com a polícia.

– Eduard Butzek? – perguntou o delegado, apontando de forma curta em sua direção.

– Sim, sou eu – identificou-se.

– Polícia. – Mostrou o distintivo. – Preciso que colabore e nos acompanhe até a delegacia.

Sem questionar, Eduard tranquilamente acompanhava a corporação. Clara viu aquela cena, mas Eduard, passando próximo a ela e achando que ela poderia pensar algum mal sobre ele, a tranquilizou como sendo nada demais.

Nathaly e Juliana conseguiram chegar ao devastado e agora deserto minério. Elas ficaram impressionadas e imaginaram quão forte foi a explosão. O cenário era como se tivesse havido uma tremenda guerra: fragmentos de equipamentos e ferramentas utilizadas nesse tipo de atividade espalhados pelo local, algumas árvores caídas e outras por um fio, inclinadas... Até carros privados das equipes não escaparam da devastação, estando revirados e outros estando desfigurados devido às apedrejadas recebidas durante a explosão. Quanto ao túnel, que foi o foco de trabalho e a origem do incidente, estava desmoronado, e as autoridades e o socorro isolaram a área, interditando o acesso, para afins de investigação e prevenção de novos problemas.

– Foi uma grande tragédia – comentou Juliana.

– Concordo. – Nathaly observava tudo em volta. – Agora, imagine isso acontecendo na área urbana, onde moramos.

– Melhor nem pensar, Nathaly.

– Fica aqui por um instante, Juliana.

– Aonde você vai?

– Eu vou tentar chegar mais perto da onde era o túnel.

– Nathaly, respeita a sinalização de perigo... Nathaly.

O que foi visto de forma panorâmica do estado atual do lugar não foi o suficiente para que Nathaly contivesse sua curiosidade e cisma sobre o túnel em si. Ela simplesmente ignorou os avisos das placas, fitas demarcando o limite de aproximação e foi em direção do mais próximo possível dali. Estando ali, achou um papel com uma relação das extrações dos minerais e seus nomes. De repente, ela começou a se sentir um pouco mal. Havia ainda o excesso do carbono provocado pelo fogo da explosão, e sua sensação térmica calorosa era presente, sendo o motivo do organismo de Nathaly ter reagido indiferente.

– Nathaly! – correu – Está bem?

– Estou – disfarçou. – Vamos continuar investigando em volta desse lugar.

– Está bem. Já que você disse...

Quando tomou distância, seu corpo passou a reagir em seu estado normal, desaparecendo os sintomas incômodos. Logo, Nathaly escutou um barulho de folhagens, sendo estranho àquela altura, pois não havia vento e ninguém além delas.

– Juliana?

– O que foi? – perguntou, com uma cara que já demonstrava um grau de medo por causa do suspense quando chamada.

– Tem certeza que ninguém nos seguiu até aqui?

– Claro – garantiu. – Por quê?

– Sabe aquela famosa frase que nunca estamos sós?

– Sim.

– Então. Não estamos sozinhas.

Ela observava o lugar em todos os ângulos de forma minuciosa para se certificar, enquanto Juliana já começava a ficar inquieta ao seu lado. Disfarçadamente, Nathaly usou a capacidade de audição aprimorada quando ela reproduziu para si em seus pensamentos o DNA de um morcego, aderindo apenas a sua surpreendente capacidade da audição aguçada. Passos puderam ser ouvidos a certa distância e, em seguida, gatilhos de armas; elas estavam sendo miradas.

– Corre por aqui! – gritou Nathaly, direcionando sua amiga.

No momento que as duas correram, quatro homens vestidos e encapuzados de preto começaram a atirar violentamente para exterminar, realmente. Eles foram atrás delas, começando uma perseguição pelas trilhas. Os passos eram tão largos que Juliana perdeu a passada e caiu. A queda provocou um impacto que a fez desmaiar.

– Juliana? – Nathaly se agachou – Acorda. Juliana!

Vendo os quatro homens se aproximando e já mirando com suas armas, Nathaly tentou a sorte em se comunicar com algum animal próximo do lugar com pedidos de ajuda. A alguns metros dali, havia um cavalo ao lado do seu dono. Em uma distração, o animal saiu correndo.

– Ei! Volte aqui! – gritou. – Eu devia ter o amarrado.

O cavalo surgiu para defendê-las do ataque adversário, em uma única tacada, jogando-os contra as árvores e desmaiando-os. Depois disso, o animal ainda se aproximou delas, posicionando-se e olhando para Nathaly. O seu gesto demonstrava a intenção em levá-las dali.

Nathaly voltou ao mesmo lugar da onde correram segurando sua amiga montada no animal. O cavalo se abaixou para que ela descesse, e depois ela deixou Juliana deitada sobre uma rocha. Nathaly retribuiu a ajuda dando um carinho no cavalo, que saiu galopando em disparado em meios aos matos, certamente, voltando ao seu dono.

A preocupação agora era a situação de Juliana, que ainda estava desacordada. Nathaly tentou acordá-la de alguma forma, mas não dava certo. Então, ficou a pensar em como resolver a questão do ar, sendo outra adversidade.

– Já que eu tenho dons... Eu preciso explorar mais eles.

Nathaly não hesitou em se esforçar para extrair mais coisas dos seus dons que poderiam trazer uma solução ao problema. Primeiramente, ela começou a observar o ar em si, mesmo sendo invisível. Mas passou a não ser mais oculto. Em seus olhos, suas pupilas diminuíram em seu tamanho, dando uma visão microscópica. Podiam-se ver, em meio às propriedades do ar, as temíveis partículas assoladoras penetradas nos átomos de oxigênio, revelando a principal causa de muitos terem sido contaminados. Além disso, Nathaly pôde descobrir que aquelas partículas eram os resíduos minúsculos dos minerais. Sem saber o que iria ocorrer, estendeu aleatoriamente as mãos para o alto e, com esse gesto, um campo de força formou-se de suas mãos e saiu purificando todo o ar de forma pouco perceptível a olho nu.

No departamento de pesquisas, os aparelhos apropriados ao acompanhamento climático começaram a detectar atividade incomum em seus relatórios produzidos, acusando e testemunhando as mudanças positivas nas condições da atmosfera inglesa, deixando os cientistas intrigados pela virada e não identificação do fenômeno e propriedade que estava "curando" o ar. Para eles, era surreal.

– Isso é incrível, pessoal – comentou o cientista líder ao lado dos demais.

O poder saído de Nathaly purificou o ar sobremodo que o oxigênio ficou mais do que simplesmente livre das contaminações. Seus átomos estavam novinhos e folha, deixando o ar ainda mais respirável em todo o país. Para se ter ideia, esse renovo foi tão preciso e importante que, aqueles que adoeceram com a intoxicação, passaram a apresentar melhoras em seu quadro no mesmo instante que o respirava. Por sua vez, Nathaly ficou surpreendida pelo o que fez, passando uma das mãos em seus olhos e depois observando suas mãos. Juliana acordou do desmaio e viu ela parada, de costas.

– Nathaly? Por que está imóvel?

– Sinto que tudo já acabou... – disse Nathaly, com um olhar estático para o nada, e virou-se para ela lentamente.

Ela ficou sem entender nada com a resposta e quando percebeu que estava no mesmo ponto de onde ela e sua amiga correram para fugir dos homens.

Na delegacia, Eduard era liberado. Sua esposa, Luiza, estava à sua espera muito preocupada por causa da convocação da polícia.

– Luiza, querida.

– O que houve com você, Eduard? Fiquei bastante preocupada na empresa quando soube.

– Nada demais, Luiza – tranquilizou. – O pessoal apenas está investigando sobre o que houve no minério, e algumas empresas científicas estavam listadas para depor. A nossa era uma delas.

– E não obtivemos problemas, certo? Você não ousou se envolver nisso.

– Luiza – riu –, eu ainda mal conheço essa cidade. Se eu quisesse fazer aquela atividade, você seria a primeira a saber da intenção.

– Ótimo. Podemos ficar em paz, então?

– Com toda nossa certeza – sorriu, passando convicção. – Vamos. Precisamos pegar a nossa filha na casa da amiga, a Nathaly. Eu a deixei lá.

– Ah! A garota que ela tanto comenta?

– Exato. – Ele passou a mão no queixo. – Uma garota dos olhos verdes cujos pais não os têm. Hm...

– Disse alguma coisa? – perguntou Luiza, quando ouviu seu marido falar involuntariamente.

– Ah! Pensei alto... Mas é besteira. Vamos embora.

Luiza ficou mais tranquila, e os dois foram embora do distrito policial para buscar a filha antes de seguir para casa, tudo conforme o marido assegurou-a: tudo em paz.

Na volta do minério, Nathaly achou viável passar no hospital com Juliana.

– Pai! – Nathaly correu para abraçá-lo – Você está bem!

– Estou sim, filha.

– E... o que houve? – perguntou por uma curiosidade que já estava certa dentro dela.

– Srta. Kate, seu pai apresentou uma melhora espantosa de alguns minutos para cá, assim como as demais pessoas afligidas do mesmo problema – explicou o doutor. – O fato é que isso ainda é inexplicável para nós.

– Que legal – sorriu.

– Dê-me licença, e esperem-me até que eu traga os papéis de alta – retirou-se.

Aproveitando a oportunidade, Juliana foi apresentada pessoalmente por Nathaly aos pais, que a recepcionaram muito bem.

– Prazer, Juliana – disseram os pais.

– Prazer é meu, Sr. e Sra. Kate.

– Conhecemos o seu pai. Ele é bem atencioso – elogiou Clara.

– Sim. E que bom que o senhor Kate está bem.

Todos estavam felizes com a mudança do quadro. Foi então que Nathaly lembrou-se do seu amigo John, e foi tentar vê-lo sem acompanhamento de ninguém. Com sua extrema educação, ela primeiro preferiu olhar pela janela de vidro antes de pedir autorização médica para entrar. Mas essa intenção ficou apenas na teoria, um pensamento logo esquecido. Quando olhou daquela janela, o avistou com Alice, estando em um momento particular entre eles, conversando e brincando. Ali, Nathaly pôde observar que, em Alice, havia um lado bem humano, não sendo apenas uma garota intolerável. Frisada nisso tudo, Ryan apareceu ao seu lado sem que ela percebesse da sua aproximação.

– Você deve gostar muito dele, não é mesmo? – perguntou, de repente.

– Ah! – assustou-se – Ryan... Você me assustou... Olha, estou apenas fazendo a minha parte como amiga. Não me coloque no fogo.

– Engraçado: não sei se é uma mera coincidência ou fato, mas você falou igual a minha irmã quando ela esteve interessada nele.

– As possibilidades estão aí, Ryan. E a opção correta é a mera coincidência. – Olhando para ele, fez uma cara bem humorada.

– Dê-me licença – saiu.

Nathaly olhava-o indo embora enquanto pensava em tais palavras direcionadas a ela. Ryan ainda parou no meio do caminho. Mas continuou a andar, ainda sob os olhares dela.

Já em casa com seus pais, Nathaly viu mais uma oportunidade em falar sobre mais um dia em que ela pôde colaborar com alguma coisa utilizando-se dos seus dons.

– Pai, mãe... Preciso contar uma coisa para vocês.

– Conte-nos – disse Clara.

Ela contou todos os detalhes que salvou o dia dos cidadãos das temíveis intoxicações provocadas pelos resíduos. Seus pais a ouviram com toda a atenção

– Você realmente tem se aprofundado em seus dons, que já posso defini-los como poderes – disse Clara.

– Filha, agradeço muito pelo o que fez, mas acho que não é esse o caminho. É algo muito perigoso para se expor. Juliana poderia ter descoberto algo de você – opinou Steven.

– Pai. Eu deveria fazer alguma coisa. Você mesmo me disse que isso poderia me definir – defendeu-se. – Mas ainda me pergunto do por que sou assim. Esses dons devem ter algum sentido na minha vida.

O pai ficou pensativo por alguns instantes. Sua expressão ao remexer suas sobrancelhas mostrava que ele estava tendo recordar de algo.

– Querido? Está tudo bem? – perguntou Clara, percebendo o silêncio dele.

– Sim... Mas estou recordando de uma coisa... – Ele levantou a cabeça e olhou para a filha. – Filha. Lembro-me que você me disse que pedras de minerais faziam mal a você... Já que havia resíduos deles pelo ar, por que não lhe afetaram? Você pareceu invulnerável todo esse tempo. Você deveria ser a primeira a sentir os efeitos.

Mais uma incógnita surgia. A dúvida agora era como Nathaly pôde estar tão resistente aos resíduos dos minerais, sendo que ela já se sentiu mal uma vez. Um caso a ser entendido.

Mesmo estando um pouco exausto devido à recuperação, John deixou sua namorada em casa. Como Ryan foi com eles, John aproveitou para ficar a sós com ele, para uma conversa em particular. Para isso, pediu permissão de Alice.

Ele teve essa permissão, e ficou a sós com o irmão dela. Não demorou muito para despertar a curiosidade de Ryan sobre essa conversa:

– Bem, aqui estamos: em um local pouco iluminado, dependendo da iluminação da lua, e passando frio nesse começo de noite, apesar de estar bem em frente da porta da própria casa – disse Ryan, quase que um poeta da vez. – Qual é a conversa?

– Relaxa, pois já vamos entrar. Ok? – disse John. – E não é momento para fazer brincadeiras.

– Diga logo, John – reclamou. – Eu vou pegar resfriado aqui.

– Pois bem... Eu soube que você tem me espionado.

– Como assim?

– É isso mesmo. Não se finja de espantado – apelou. – Como pode sua irmã saber das coisas que eu faço sem que ela esteja por perto? Eu soube sobre isso no hospital, da boca da sua própria irmã.

– Sabe, John? Eu faço certas coisas para ela porque quero vê-la feliz com você – confessou indiretamente.

– Eu não sabia que espionar os outros era um dos meios de fazer alguém feliz. Gozado, não? – ironizou. – E onde fica a minha privacidade? Ela sabe que sou leal a ela, e você deveria ter tomado uma decisão melhor do que essa, cuidando dela enquanto estava em casa se recuperando.

– Eu apenas faço o que ela pede.

– Se ela lhe pedir para se jogar na linha do trem, você irá, então? – duvidou. – Conselho de amigo e futuro cunhado, ou não: não deixe ninguém dominar essa sua cabecinha aí.

Ele passou por Ryan e entrou na casa. Ryan ficou lá fora, apenas olhando para o nada, de um lado para o outro, pensando. Esqueceu até que havia comentado se ficasse naquele frio noturno por mais tempo.

No departamento que foi nomeada pelo governo da cidade para a operação científica contra a infestação, os cientistas receberam uma visita, que não parecia incomum aos seus olhos:

– Senhores, boa noite a todos – saudou Eduard enquanto caminhava de sala à dentro com as mãos para trás.

– Sr. Butzek? – O líder cientista se aproximou. – Achei que não retornaria hoje para vir amanhã.

– Ah... Você sabe que a vida de um cientista é imprevisível – disse ele. – Eu soube que as tais partículas foram contidas. É verdade isso?

– Sim – confirmou. Ele foi até a mesa e trouxe as cópias dos relatórios. – Aqui estão as cópias dos relatórios feitos.

– Ótimo – pegou-os.

– Apesar disso, não conseguimos identificar qual foi o tipo de propriedade que foi capaz de destruir as partículas, sem que os átomos de oxigênio fossem dizimados. Pelo ao contrário, o oxigênio foi restaurado sobremodo a equilibrar o ar – resumiu. E o profissional percebeu que Eduard estava pensando enquanto lia as páginas. – O senhor tem alguma ideia?

– Olha, sinceramente, não – respondeu tranquilamente ainda paginando. Logo, olhou para o companheiro de profissão. – Quem sabe nós não desvendamos esse mistério, não é mesmo?

– Com certeza, Sr. Butzek. A ciência está aí para isso.

– Ah! Devo-lhe essa – sorriu. – Tenha uma ótima noite, prezado.

Eduard cumprimentou-o e foi embora sem muita pressa com os relatórios em mãos.

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