Capítulo Nove: Metamorfose


Na turma da sala de Nathaly, havia um garoto chamado Aidan Summer, um estudante bem inteligente e que sempre se esforçava para se enturmar mais com as pessoas. A sua maior luta, que o levava a esse esforço, era contra sua má aparência física, consistindo nas deformidades na pele ao lado direito do rosto, indo até o seu pescoço, e em algumas partes do seu corpo, como suas duas mãos. Eram deformidades que se assemelhavam às cicatrizes provocadas por queimaduras. Isso desvalorizava a sua real aparência física, constituinte dos olhos azuis e cabelos castanhos claros lisos, e ele era alvo de brincadeiras fúteis dos seus próprios amigos - quanto mais de outros alunos da escola e jovens que conviviam em sua volta.

Quando todos da sala estavam se preparando para sair, após o sinal anunciar o término do dia letivo, esses amigos estavam aglomerados no fundo da sala. Eles estavam planejando uma festa noturna a céu aberto em uma área verde e próximo de um lago, localizado há alguns quilômetros da escola. Essa festa reuniria o grupo com algumas garotas convidadas. Aidan percebeu aquela movimentação atrás e decidiu chegar mais perto para participar da conversa.

- Olá, pessoal - saudou Aidan. - Haverá uma festa hoje à noite?

- Olá, Summer, meu amigo - recepcionou-o o encarregado da ideia da festa. - Sim, haverá. E convidamos algumas garotas da escola para participar.

- Haverá garotas na festa? Que demais! - alegrou-se. - Se eu não viesse até vocês, nem saberia dessa festa. Agora, eu poderei encontrar alguém...

- E não era para você saber mesmo - disse ele.

- Como assim? - Ele perdia o entusiasmo com aquele comentário.

- Se você for, cara... não sobrará nenhuma para nós...

- Por quê? Estão com baixa moral assim?

- Não. Com sua feiura, é capaz de todas da festa saírem correndo como se elas tivessem visto uma barata. - Os outros do grupo riam e zombavam do garoto. - Mas calma: chegará sua vez, quando houver uma festinha própria para sua classe. - Tornaram a rir dele.

Aidan ficou com sua altoestima lá embaixo. Era chegado o seu limite em aguentar tanta humilhação que, muitas vezes, eram relevadas por ele, tratando como singelas brincadeiras dos seus companheiros. Por chegar a esse limite, parecia não encontrar um refúgio contra aquilo que começava o aprisionar em sua própria pessoa. Saindo de cabeça baixa, ele esbarrou-se em Nathaly e Juliana, que estavam arrumando seus materiais e as colocando na mochila.

- Opa - disse Juliana. Um dos seus lápis caiu de sua mão por causa do esbarro.

- Desculpa, Srta. Butzek. - Aidan se agachou para pegar o lápis, e o deu para Juliana com vergonha da sua mão defeituosa. - O seu lápis.

- Obrigada, Aidan - agradeceu, sorrindo simpaticamente.

O garoto a olhava em seus olhos e apreciava o seu sorriso.

- E não precisa me chamar pelo sobrenome.

- É costume. Desculpa - disse ele, acanhado.

Nathaly percebeu que ele estava muito desanimado com algo. Não veio outra coisa em sua cabeça a não ser uma possível e nova brincadeira envolvendo a sua aparência física. Sim. Tanto Nathaly como Juliana já sabia de seu histórico como vítima de brincadeiras a seu respeito. Mas esse dia era o ápice da situação.

- Está tudo bem, Aidan? - perguntou Nathaly.

- Mais ou menos... Mais para menos - respondeu. - Os meus amigos não param de me zoarem por causa da minha aparência, não me convidaram para uma festa de hoje à noite, garotas que não querem papo comigo... E por aí vai.

- Como não querem papo com você? Olha nós aqui, conversando contigo - disse Juliana, tentando descontrair.

- Paramos para ouvi-lo - sorriu Nathaly. - Não liga para os seus amigos e àqueles que lhe rejeitam. Ao seu tempo, os lados se inverterão.

- Olha, meu pai pode lhe ajudar com algum tratamento científico - propôs Juliana. Ela passou a mão no rosto dele para senti-lo nas partes deformadas. - Apenas preciso conversar com ele.

- Obrigado, meninas - agradeceu.

- Precisamos ir agora, Aidan. Cuida-se, hein - disse Juliana, que estava bem mais atenciosa com ele.

Elas tomaram seus rumos. Mas antes, Juliana ainda o beijou no rosto para se despedir. Nathaly, que já estava à porta da sala, sorriu de longe.

- Hm... Senti uma intimidade entre vocês dois - comentou Nathaly, brincando com a amiga, quando elas saíam da sala.

- Não foi nada demais, Nathaly - riu.

Ele começou a se sentir bem após ter a devida atenção e receber aquelas palavras de ânimo, ainda mais depois de receber um beijo de Juliana no rosto e um sorriso largo de Nathaly. Era mesmo de criar ânimo. Para completar, ainda vivia em uma expectativa de um tratamento para ele se livrar das deformações.

Um colega de classe aproximou-se de Aidan assim que Nathaly e Juliana tomaram distância dele. Esse colega observou toda a situação, desde aquela zombaria à conversa tida com as jovens.

- Ei, Aidan - chamou-o. - Tenho uma solução mais rápida para o seu problema. E trará a você a única oportunidade de ir a essa festa.

- Solução rápida? - Aidan posicionou-se de modo a estar de frente com esse garoto. - O que seria isso?

- Horas antes da festa, nos encontraremos em minha casa - orientou-o. - Lá, lhe mostrarei.

Ele topou o que foi proposto por aquele colega, mesmo não sabendo de imediato qual seria a proposta para reverter à situação que enfrentava.

Os dois estavam no quarto. O garoto abriu uma gaveta da sua cômoda e pegou um pote de um produto de cosmético. Quando o recipiente foi aberto, havia um creme esbranquiçado.

- O que é isso? - perguntou Aidan, olhando torto.

- Ué. É um creme para pele - respondeu.

- Os cremes que usei não resolveram o meu problema até hoje - disse ele. - Por que eu insistiria nisso?

- Aidan, esse creme é diferente de todos - afirmou, e deu o pote para ele. - Esse pote caiu de uma caminhonete quando eu passava por perto. E, quando descobri que servia para tratar de cicatrizes, comecei a usá-lo e os resultados foram instantâneos. Experimente!

Com o pote aberto em mãos, ele foi ao um espelho e começou a passar o creme vagarosamente pelo o rosto, pescoço e mãos. Os efeitos não demoraram, e os resultados rápidos testemunhados pelo seu colega apareceram em Aidan, escondendo a parcela dos tecidos defeituosos e rejuvenescendo-os.

- Você fez meu dia, cara! - disse Aidan, observando-se no espelho e passando as mãos nos locais que haviam os defeitos. - Mas preciso passar mais desse creme. Ainda não está no ponto desejado.

- Não faça isso, cara. É uma vez por dia, como diz no rótulo descritivo - alertou. - Você já resolveu uma boa parte do seu problema.

- Não. Você me disse que isso iria me satisfazer por completo - insistiu. - Não posso perder essa oportunidade.

Não satisfeito, Aidan decidiu passar quantidade exagerada do produto para satisfazê-lo por completo com o sumiço do que restou. Nada pôde impedi-lo de fazer tal ação, nem mesmo as indicações para o uso do produto.

Com o produto em demasiado na pele, partes de seu corpo começaram se alternar entre transparências e corpo visível.

- Que diabos você se tornou, Aidan? - questionou-se o colega, com uma cara temerosa.

Ele pegou um guarda-chuva para acertá-lo, mas ele viu Aidan desaparecer em sua frente. Ele ficou estático com o objeto em mãos, e olhava para os lados à procura do seu alvo. De repente, ele foi desarmado e jogado pela janela, que estava fechada, estilhaçando o vidro e caindo nos fundos da casa. Aidan tornou-se visível novamente, vendo a sua transformação diante do espelho. Ele fugiu da casa, mas não levou o pote com o creme. No rótulo descritivo do produto estava escrito:

Novo creme para cicatrização e regeneração da pele, à base de Erionite manipulado.

Erionite era um dos minerais bastante tóxicos que fora modificado para uso humano na indústria.

A festa programada já tinha sido iniciada no local combinado, havendo muitos jovens presentes. Aidan apareceu distante daquele fluxo e ficou parado, observando de longe. O amigo que organizou e o impediu de participar da festa o viu. Mas a ausência da iluminação onde Aidan se encontrava dificultava sua identificação, fazendo-o se aproximar dele e se afastar da galera.

- Summer? - Ele encurvou-se com a cabeça para o lado, tentando ver o seu rosto, e aproximou mais dele. - O que faz aqui?

- Eu vim participar da festa - respondeu-lhe frio.

- Eu já disse para não vir, Summer - disse ele. - Deixe-me voltar à festa agora.

Ele deu às costas e já ia voltando. Mas Aidan o pegou pelo ombro e o virou para ele.

- Não é assim que recepciona um convidado - disse ele.

Aidan ficou invisível em sua frente e o surpreendeu com vários golpes. Um dos golpes foi a utilização de um galho de árvore, que o jogou no lago gelado e fundo. Através do reflexo na água, Aidan era visto olhando para onde sua vítima caiu. Ele logo se transformou em seu próprio colega de classe.

- Ainda bem que eu descobri que posso ser quem eu quero também - disse Aidan.

Ele não somente poderia ficar invisível, mas também foi revelado que obtinha a vantagem em ser qualquer pessoa para fazer o que bem entendesse. Nesse sentido, ele tentava se passar pelo amigo, que tanto brincava e o rejeitava em muitas ocasiões, indo para o meio das pessoas da festa como se nada tivesse acontecido momentos antes.

No dia seguinte, Nathaly se remoia de algo dentro de si na mesa. Evidentemente, seus pais não imaginavam o que seria; mas, de alguma maneira, eles percebiam um comportamento diferente dela. Entretanto, eles esperavam que ela tomasse a iniciativa de se abrir ao invés de um deles querer perguntar. Isso foi notório quando Steven e Clara se olharam diferente para tal sinal, e voltaram a tomar o café.

- Eu acho que devo contar para vocês... - manifestou-se Nathaly, notando os olhares de seus pais.

- Há algo a ver com coisas de escola, filha? - perguntou Clara, com a xícara próxima de seus lábios.

- Não - respondeu. - Pelo contrário. Está tudo bem.

- Então... - disse Steven, impulsionando.

Nathaly olhava para eles, desviava seu olhar para os lados e tornou a direcionar seus olhos a eles novamente; seus pais prestavam a atenção nela, esperando resposta.

- Lauren apareceu para mim...

- Como assim? Ela já desapareceu de nosso mundo - estranhou Steven. - Quando foi isso?

- Já faz alguns dias. Foi quando me deitei logo após aquela conversa sobre Ryan, pai.

- E você sabe por que ela apareceu em seu quarto? - perguntou a mãe.

- Ela apareceu para se despedir, e alegou que eu purifiquei a alma dela, sendo que somente eu tenho esse algo puro em mim. Quando eu ia perguntar o que seria, ela sumiu - explicou. O modo como relatou a fazia sentir como se estivesse vivido aquilo ontem.

- Ela não se referia a sua boa pessoa, o seu bom coração? - perguntou.

- Não, mãe. Ela falou de um jeito diferente - insistiu. - Ela disse que essa pureza é indescritível. E acredito que isso possa ser algo muito além das condições humanas... Talvez...

Os três terminavam o café da manhã na mesa com os pensamentos voltados àquele assunto.

Na escola, o único assunto que estava entre as pessoas era o sumiço do estudante que foi vítima do ataque de Aidan. Testemunhas que estavam na festa da última noite apenas falavam que ele havia sumido sem explicação, intrigando a todos. Inclusive, a polícia já tinha sido acionada para a investigação.

- Que coisa mais triste. Uma pessoa da nossa sala sumiu de repente naquela festa - comentou Juliana, que estava com sua amiga caminhando pelo pátio em meio aos demais estudantes. - O que você acha que deve ter acontecido com ele, hein?

- Não tenho ideia. Mas gostaria de saber, Juliana - disse Nathaly, séria. - Onde essa festa aconteceu?

- Soube que ocorreu próximo ao um lago que está alguns quarteirões daqui - informou. Nathaly estava pensativa enquanto ouvia sua amiga. - Nathaly?

- Oi. - Nathaly olhou para ela rapidamente.

- Parece-me que você tem alguma desconfiança sobre o que aconteceu.

- Não estou desconfiada - negou, balançando levemente a cabeça. - Apenas estou tentando me lembrar do lugar. E acho que sei onde seja.

Com a nova feição e mãos livres das anomalias da pele, Aidan se apresentou com sua autoestima mais revigorada. Nem parecia aquele garoto receoso e, muitas vezes, retraído. Pelo contrário, tinha consigo uma liberdade. Foi dessa maneira que ele se aproximou das jovens que tanto o aconselharam.

- Olá, meninas - disse Aidan, que já foi as cumprimentando com um beijo no rosto.

Quando ele encostou o seu rosto em Nathaly para beijá-la à altura da bochecha, as partículas do creme que não foram absorvidas pelos poros do rosto dele a incomodou discretamente com uma fisgada. Uma pequena atração particular para a região de sua bochecha ocasionou essa leve dor.

- O que você fez para ter um rosto e mãos... tão limpos? - perguntou Juliana, super curiosa.

- Eu usei um creme especial para cicatrizar e sumir com as marcas repentinamente - explicou Aidan. - Foi um dos colegas da nossa sala que me apresentou o produto. Que avanço da ciência, não?

- Ele veio hoje? - perguntou Nathaly, referindo-se ao dono do produto.

- Eu não sei o que aconteceu... Ele não apareceu ainda - disse ele, erguendo os ombros. - De qualquer forma, eu agradeço sua intenção de ajudar-me com o seu pai, Juliana.

Ele a abraçou de lado como toda a infinidade aparente.

- Nossa. Seu abraço é bem arrochado - comentou Juliana, toda sem jeito com aquela atitude.

- Calma. Eu apenas vou lhe acompanhar pela escola, se é que Nathaly me permite.

- À vontade - sorriu.

A vontade de Aidan em fazer companhia para Juliana culminou em uma surpresa para ela, que nem imaginava que aconteceria aquela intimidade toda. Nathaly também ficou surpresa, e respeitou o momento entre eles. Ela apenas os olhava caminhando; Aidan ainda olhou para trás em sua direção, e deu um leve sorriso com um piscar de olho.

Na saída, os três estavam se dirigindo ao portão, até chegarem lá.

- Pessoal, eu preciso ir agora - disse Nathaly.

- Mas já? - disse Juliana, lamentando-se. - Acha que seus pais irão brigar com você, se você for conosco direto para a minha casa estudar?

- Quase isso - respondeu. - Tchau para vocês.

Ela se retirou, deixando Aidan e Juliana a sós.

- Estranho. Ela parecia nervosa - comentou Juliana.

- Sim, muito estranho... - Aidan olhou Nathaly indo embora, fazendo aquela cara esquisita. De repente, começou a olhar Juliana dos pés à cabeça. - Mas poderemos ir sem ela, então.

- Ah! Não posso mais... - disse Juliana, sem graça.

- E por quê?

- Acabei de lembrar que meu pai irá acha ruim se ver-me sozinha em casa com algum garoto. Então, até mais.

Juliana o beijou no rosto e saiu andando - daquela vez, ela iria para mansão à pé. - Pela forma como desmarcou o encontro para estudar em sua mansão, era provável que ela teria notado algo, não podendo manter o combinado se Nathaly não fosse. Aidan apertou seus olhos, pensando nas atitudes repentinas de ambas as jovens. Então, saiu dali fazendo mistério.

A desculpa que Nathaly deu aos jovens não era por causa de seus pais. Na verdade, ela foi tomada por uma curiosidade envolvendo o sumiço de um aluno e a ausência do outro. Ela aproveitou aquele tempo para procurar respostas sobre cada caso. Primeiro, foi à casa do garoto que ofereceu o creme cicatrizante à Aidan. Lá, ela se deparou com a comoção dos pais.

- Como isso pôde acontecer? - perguntou Nathaly. Ela e o casal estavam assentados ao sofá.

- Essa é uma questão que procuramos esclarecer, Srta. Kate - disse o pai. - A única coisa que sabemos é que, quando chegamos e fomos ao seu quarto, vimos a janela quebrada e... Você imagina o que nós vimos no quintal.

- Mas a polícia e os investigadores estão à frente do caso - disse a mãe, enxugando as lágrimas com um lenço.

-Vocês poderiam me levar ao quarto dele? - perguntou Nathaly.

À pedido de Nathaly, eles a conduziram ao quarto do garoto, o também lugar da misteriosa morte. A mãe mal conseguia segurar as lágrimas estando no ambiente onde tudo aconteceu; seu esposo a acalmava. Nathaly mantinha-se concentrada em sua observação geral pelo cômodo enquanto andava lentamente. Nessa observação, ela viu o pote do creme deixado na cômoda desde o ocorrido.

- E esse pote?

- É um creme que o nosso filho usava para um tratamento de cicatrização de feridas que ele tinha - explicou o atencioso pai. - Ele acabou pegando esse produto quando caiu de uma caminhonete.

Era tudo que precisava ouvir, e ela resolveu abri-lo. Mergulhando a ponta do dedo no cosmético pastoso e o tirando, a sua unha entrou em processo de corrosão, provocando dores. Rapidamente, pegou um guardanapo e se limpou, tornando a unha em seu estado normal devido à regeneração rápida de seu organismo. Fechado o pote, ela leu as descrições sobre o produto. Assim, descobriu que foi feito à base de Erionite manipulado.

Saindo da casa da família, Nathaly seguiu para o local onde o outro aluno da sala teria sumido durante a festa. O ambiente estava deserto. À sua frente, alguns metros da onde ela se encontrava, via-se o lago. Então, ela se aproximou até sua margem e presumiu que ali poderia haver alguma relação com o caso. A hipótese tornou-se mais consistente quando ela olhou para trás e usou sua visão microscópica sobre o gramado. Sinais de luta foram identificados através dos vestígios das pegadas, mas não conseguia decifrar muita coisa. Quando estava distraída olhando para o solo, um policial surgiu do nada no local.

- Não é boa ideia uma jovem como você estar sozinha aqui - disse o oficial.

Nathaly levantou rapidamente a cabeça e o avistou em sua frente, parado.

- Senhor policial... Mas não havia ninguém aqui, e o senhor apareceu do nada - disse Nathaly.

- Estou fazendo uma ronda pelo local que está sob investigação de desaparecimento. E estou sozinho até então - explicou. - Como a encontrei aqui, sugiro que você se retire do local. Pode nos atrapalhar no trabalho.

- Antes de me retirar, peço que a equipe examine esse lago - apontou. - Se possível, examinem o trecho desse solo. Pode haver vestígios.

- Você fala como se fosse um detetive - comentou, estranhando. - Como tem tanta convicção disso?

- Já ouviu falar em intuição?

- Sim, senhorita - respondeu. Ele pensava sobre o que ouviu da jovem. - Vamos considerar a sua sugestão. Agora, por favor, retire-se do local.

Ele fez o sinal de abre alas para ela passar, e sorriu. Nathaly devolveu os sorrisos e passou por ele, indo embora. Com uma expressão indecifrável, o oficial segurou sua boina e foi na mesma direção que Nathaly tinha indo.

Sozinha em casa, Nathaly estava assentada no sofá da sala. Embora lamentasse a perca de dois colegas de sala, ela estava mais tranquila em ter colaborado de alguma forma com a solução dos casos. Desse modo, ela dava uma olhada no livro de Biologia, no intuito de compreender as coisas e descobrir outras novas relacionadas aos seus poderes.

O assunto sobre visão infravermelha, encontrada em algumas espécies da Natureza, lhe chamou bastante a atenção. Ela abaixou o livro que estava na altura dos seus olhos e começou a forçar sua visão para provocar um feito similar ao que era relatado no livro. E deu certo, graças ao poder primário da absorção de DNA animal. Depois de muito esforço e concentração, Nathaly passou a ver os objetos em sua volta através de demarcações por suas silhuetas e manchas variadas sobre suas regiões, marcando as intensidades de calor sobre cada um. Até sua mão não escapou de seu novo modo de visão quando ela a ergueu à altura dos olhos.

A brincadeira com a sua mais nova habilidade acabou sendo interrompida ao escutar batidas na porta. Nathaly achou que fossem seus pais, e já pensava em recepcioná-los contando sobre a sua mais nova descoberta. Deixando o livro aberto sobre o sofá, foi abrir a porta. Quando a abriu, não eram seus pais. Era o seu amigo John.

- Olá, Nathaly - disse ele. - Posso entrar?

- Sim. Entre - permitiu.

Ao saber que era ele, Nathaly voltou a estar acanhada com a sua presença inesperada enquanto ele próprio olhava para todos os lados da casa como se estivesse se certificando de algo. Um comportamento que era de se chamar a atenção.

- Seus pais estão em casa? - perguntou John, ainda olhando para os lados.

- Não. Estou sozinha aqui - respondeu com um sorriso de lado.

Ele ainda viu o livro de Biologia aberto deixado por ela no sofá.

- Olha só. - Pegou o livro e deu uma olha nas páginas expostas. - Interessante esse assunto... Eu não sabia que gostava de Biologia.

- É... Estou começando a gostar - confirmou um pouco nervosa. - Acho interessantes as coisas da Natureza.

- É admirável da sua parte.

Nathaly estava sentindo o seu amigo muito estranho, entendendo que ele queria falar algo a mais para justificar-se da inesperada visita.

- Você veio à minha casa, iniciamos uma conversa, mas não sei o real motivo da visita. Não quero dizer que você está me incomodando, é claro.

Antes de direcionar qualquer palavra a ela, John deixou o livro onde havia encontrado e aproximou-se de modo a estar bem diante dela.

- Assim como você abriu aquele livro para admirar a Natureza, eu vim para admirá-la também - disse John, olhando nos olhos de Nathaly.

- Legal... Legal... Não sabia que você a admirasse, também - disse ela sem graça devido ao olhar dele, que a encarava. - Vamos nos sentar no sofá e começar a estudar, então.

- Não é necessário. Você já é a própria Natureza.

Nathaly ficou assustada com as palavras do jovem. Por sua vez, ele posicionou seu rosto lentamente e começou a beijá-la. Ela cedeu por pouco tempo, e rapidamente virou as costas para ele.

- Não. Isso não é certo - disse ela, cruzando os braços e com um olhar perdido. - Você é comprometido, e eu sou apenas sua amiga.

- Eu sei que você gosta de mim. Pude sentir em seus lábios. - Ele tirou um pedaço de fio de seu bolso, enrolou as extremidades em suas mãos e testou a firmeza do material. - Mas a escolha é sua.

Aproveitando que ela estava de costas e distraída pelo o que aconteceu, John surpreendeu ao atacá-la, colocando o pedaço de fio no pescoço dela, rendendo-a. Estando sob seus domínios, ele a levou ao porão da casa.

- John, o que você está fazendo? Você nunca demonstrou ser assim - disse Nathaly. - Esse não é o John que conheço.

- E eu sou John? - riu copiosamente. - Você está certa. Não sou o seu amigo. Olhe para aquele espelho.

Ali, Nathaly descobriu que John não era mesmo o John. Olhando para o espelho, ela viu Aidan a segurando.

- É você - impactou-se.

- Foi bom saber que John era o seu amiguinho - disse ele, rindo.

Quando se revelou a ela, Aidan a jogou sobre uma mesa de madeira e a segurou com as mãos no pescoço. E ali falava com ela.

- Eu também me passei por aquele policial com quem você conversou - revelou. - E não sei como soube de tanta coisa. Você me atrai com isso, sabia?

- Aidan, aquele creme deve ter alterado sua personalidade - disse Nathaly, fazendo esforço para falar.

- Errado! Aquele creme me libertou, e me trouxe grandes benefícios - rebateu. -Mas parece que eu não poderei contar com você.

Nathaly começou a ter seu pescoço apertado por ele. Ela não poderia mais hesitar em seus poderes, e usou a sua força sobre-humana contra ele. Aidan se levantou rapidamente do chão, e ficou invisível. Nathaly ficou girando em torno de si mesma à procura dele. Ela tentou usar sua audição aprimorada após aderir-se de um instinto animal, conseguindo até identificar os passos do invisível garoto. Quando ela virou-se em direção à origem dos passos, foi surpreendida com um golpe de bastão, sendo jogada a uma prateleira que continha alguns frascos de metal. Caindo ao chão, a prateleira caiu sobre ela, e aqueles frascos se abriram, derramando pedras de diferentes tamanhos de alguns minerais modificados sobre ela debaixo do móvel; Aidan tornou-se visível, e andava lentamente, observando sua vitória na luta corpo a corpo.

- Para não chamar a atenção com a minha saída da casa... - Ele se transformou na própria Nathaly - serei você por um tempinho.

Aidan, transformado na Nathaly, saiu calmamente subindo as escadas do porão. Ele havia pegado um carro da polícia para chegar à casa. Então, retornou ao veículo. Antes de sair, ele observava o rosto da pessoa à qual se transformou pelo retrovisor interno.

- Como você é formosa, Nathaly - elogiou-se, mordendo os lábios.

No mesmo retrovisor, via-se o abrir de um sorriso bem maldoso e um olhar que acompanhava aquele sentimento. Aidan ligou o carro e foi embora.

Na mansão dos Butzeks, Juliana cuidava da casa. Do corredor da imensa residência, ela ouviu a porta principal abrindo vagarosamente. Lentamente, Juliana caminhava à sala.

- Pai? Mãe? - disse ela em alemão, como uma estratégia de defesa.

Ela achava que poderia ser os pais ou um deles chegando. Mas o ambiente estava muito quieto para serem eles. E isso foi comprovado quando ela chegou à sala e deparou-se apenas com a porta entreaberta. Tratando como algo normal, ela fechou a porta. Mas quando virou, deu de cara com Aidan sorrindo para ela, disfarçado de sua amiga próxima, com as mãos para trás.

- Ai... - Juliana colocou uma das mãos sobre o peito - Oi, Nathaly.

- Olá, Juliana - sorriu.

- Você não costuma entrar na casa dos outros sem antes bater na porta, não é mesmo?

- É que o pessoal lá fora permitiu a minha entrada. Aí, a porta estava encostada. Então, eu entrei.

- Bem, já que está aqui, por que da visita?

Ele se aproximou dela. Quando fez isso, Juliana percebeu a ausência da corrente da amiga, sendo a primeira suspeita. Mas ficou quieta.

- Vamos subir para o seu quarto.

- Mas por quê?

- Obedeça, Juliana!

Calada, Juliana começou a guiá-lo até o seu quarto. Ela estava disfarçadamente nervosa e estanhando uma Nathaly autoritária e de poucas palavras. Juliana precisava mostrar frieza também, fingindo-se de inocente, até entender o propósito daquela postura.

Steven e Clara apareceram na casa deles com sacolas cheias de compras.

- Nathaly? - chamou-a Steven.

- Chegamos, meu anjo - anunciou Clara. - Vem nos ajudar aqui com as compras.

- Nathaly? - estranhou o pai, olhando diferente.

Eles não obtinham respostas da filha. Steven olhou para o sofá e viu o livro de Biologia da escola aberto sobre o assento. Olhando para a esposa, ele resolveu procurá-la no segundo andar da casa para ver se ela estaria por lá; nos demais cômodos, ele teve a mesma disposição para tal ação. Mas não a encontrou.

- Ela deve estar no porão, Clara.

- Por que ela estaria lá?

- É o único lugar da casa que falta para procurá-la.

Essa intuição o levaria à sua resposta, a começar pela estranha forma como a porta fora trancada com a corrente. Como não tinha as chaves, ele destroçou o cadeado com machadadas. Abrindo a porta e descendo, eles viram a bagunça e a prateleira caída no chão, com a mão da filha à mostra debaixo dela.

- Meu Deus. Nathaly! - gritou Steven.

Imediatamente, correu para levantar o móvel de metal de cima de Nathaly. Quando fez isso, ele deparou-se com a filha toda envolvida com as pedras que já estavam prejudicando bastante a pele dela através do contato físico prolongado. Ele a pegou envolvendo seus braços por debaixo das axilas dela e a arrastou para longe do contato com as pedras.

- Pai - chamou-o Nathaly, recuperando sua consciência rapidamente.

- Estou aqui, filha - respondeu. - O que aconteceu aqui?

- Juliana... Depois explico. Preciso ir agora.

- Mas você está machucada - alertou Clara, que viu as marcas.

- Não se preocupa, mãe.

A primeira coisa que Nathaly pensou após acordar do desmaio foi em sua amiga, que poderia estar em perigo diante de Aidan, mesmo não tendo a certeza. Porém, ela já conhecia do que ele era capaz de fazer. Mas antes de sair, Nathaly parou e viu aquelas pedras esparramadas no chão. Ela simplesmente olhou para o pai com uma expressão triste, e depois deu continuidade ao que iria fazer.

- Steven. Por que ela olhou tão abatida para você, de repente? - percebeu Clara.

- Não sei. - Ele tirou os olhos da esposa e olhou para frente. - Só espero que não seja o que estou pensando.

Nathaly, ao subir à superfície, teve suas feridas cicatrizadas e encobertas, deixando sua lisa pele intacta, por causa da regeneração através da energia solar dentro de seu corpo. Ela ainda passou a mão para tirar o pouco de sangue sobre a testa, e foi à procura de Juliana.

Aidan chegou ao quarto com Juliana. Lá, novas instruções foram dadas à jovem:

- Tome. - Mostrou uma algema para ela. - Algeme-se com as mãos para trás.

- O que você está fazendo, Nathaly? Eu... eu não estou lhe entendendo.

Com a outra mão, ele mirou uma arma em sua direção.

- Vamos ver se você entende assim - disse ele. - Agora, algeme-se. E sem trapaça.

Enquanto isso, Nathaly corria contra o tempo para ir à casa dos Butzeks. Durante essa corrida, ela obteve uma impulsão impressionante, correndo em uma velocidade muito alta para uma pessoa comum, na qual as pessoas das ruas sentiam apenas um vento passando por elas. Mas mal sabiam que era Nathaly explorando suas habilidades; em seus olhos concentrados na ação, via-se a impressão do olhar de um guepardo.

Tremendo, Juliana pegava a algema das mãos de Aidan, que ainda mirava o revólver em sua direção, e ela obedeceu ao que ele falara. Ele fez um gesto pedindo para ela se virar e vê se ela realmente havia se algemado.

- Ótimo. Deita-se na cama. Rápido!

De costas para ele, ela tornou a obedecê-lo, caminhando lentamente para se deitar. Tendo a situação sob o seu domínio, Aidan deu um jeito de guardar o revólver no copiado vestido de Nathaly. Juliana percebeu que ele tinha guardado-o e a aproximação dele. Quando ele chegou perto, Juliana reagiu com uma cabeçada.

- Você não deveria ter feito isso, garota.

A verdadeira Nathaly apareceu na porta do quarto.

- Eu não autorizei usar da minha imagem... Aidan.

Ouvindo aquela voz, ele se virou tranquilamente.

- Acabou, Aidan.

- Bem, já que estragou tudo...

Ele voltou à sua aparência física. Na sequência, ele ficou invisível, atacando Juliana com um único golpe que a fez se chocar contra a parede e perder a consciência no chão. Nathaly, estática, olhava para todos os lados à procura dele pelo cômodo.

- Você é bem dura na queda, não é mesmo, Srta. Kate? - disse Aidan pelo quarto. - Você demonstra muita resistência do que o normal...

Ela usou sua visão infravermelha, passando seus olhos por toda a parte, até que viu a silhueta e o calor de Aidan, que já se posicionava para dar um gancho nela. Antes que fizesse isso, ela reagiu dando um soco nele. O soco foi tão preciso, que o jogou pela a aberta janela do quarto. Eduard tinha acabado de chegar, estacionado o carro em frente à fachada. Quando ele ia abrir a porta para sair do veículo, Aidan caiu em cima do carro, para o susto do cientista que não via o garoto.

Nathaly foi para a janela, e viu a lataria do carro do pai de Juliana amassada. Logo ela pensou que Aidan caiu ali, e voltou para ajudar sua amiga. Vendo-a algemada, ela queria poupar seus poderes para Juliana ou mesmo o seu pai não ter alguma suspeita dela, mas não sabia o que fazer. Graças a uma olhada para o lado, ela viu a chave da algema e a pegou.

Eduard chegou ao quarto com os seguranças.

- Juliana. Filha. - Correu para ajudar Nathaly com Juliana, que já estava acordada. - O que aconteceu aqui, Nathaly?

Ele soube dos detalhes contados pelas duas e retornou em passos largos com os seguranças armados até o seu carro para se certificar do garoto em cima do teto. Passando a mão em cima, nada pôde ser sentido; ele já havia fugido.

- Senhores, não me entendam mal. Eu apenas confio na minha filha - disse ele, olhando para os seus contratados.

Depois, ele se prontificou a levar Nathaly de volta à sua casa, apesar da lataria superior do carro estivesse um pouco amassada.

O dia já findava, anoitecendo. Enquanto levava-a, Eduard não parava de observar Nathaly no banco de trás assim que ele tinha uma oportunidade de dar uma olhada no retrovisor interno.

- Esse olhar é para garantir que não estou fazendo bagunça aqui atrás? - notou Nathaly, olhando-o meigamente.

- Não, Srta. Kate - riu timidamente. - Você está calada desde que saímos.

- É o meu jeito. Não se preocupe.

- Entendo... Como soube que esse garoto chamado Aidan atacasse minha filha?

- Desconfiava dele - respondeu prontamente.

- Você foi bastante corajosa, menina. Ainda mais quando lutamos com alguém que não vemos - reconheceu. - Tem ideia do que o produto era composto que ele usou para ter se transformado naquilo?

- Gostaria de saber também, Sr. Butzek - sorriu, omitindo para ele.

Ele calou-se, erguendo as sobrancelhas. Parecia ter desistido de puxar assunto com ela, talvez, por causa das respostas prontas que recebia.

Eduard chegou à frente da casa dos Kates.

- Obrigada, Sr. Butzek - agradeceu, aparecendo na janela do motorista.

- Fale para seus pais que eu mandei um abraço.

Deixando-a no destino, deu a meia volta com o carro e foi embora.

Nathaly bateu na porta antes de entrar e, quando seu pai a atendeu, ela o olhou séria e entrou com a cabeça baixa.

- Como foi lá, filha? - perguntou Steven.

- Depois eu falo, mãe... - ignorou-o, respondendo sua mãe.

Ela subiu para o quarto sem falar com o pai, deixando-o mais preocupado. Clara, que estava sentada no sofá, apenas observou aquela cena.

- E agora, querida?

- Tente falar com ela - aconselhou.

Ele subiu ao quarto da filha e começou a bater na porta.

- Filha. Por que está assim comigo?

- Você sabe, pai.

- Por favor, deixe-me conversar contigo.

Nathaly não resistiu, e abriu a porta para ele entrar. Mas logo virou às costas para ele.

- Eu preciso saber o que tanto lhe machuca por minha causa.

- Por que guarda mais daquelas pedras em nossa casa?

- Filha, eu as guardo porque eu quero lhe ajudar a descobrir sobre sua alergia. Mas eu ia lhe contar.

Ela se virou para ele de braços cruzados.

- Independente de qual seja sua intenção, aquilo pode me matar em uma única oportunidade, pai! - Segurando as lágrimas, ela se aproximou dele. - Mas acho que você as mantém aqui não somente para me ajudar, mas também para tentar disciplinar uma indomável como eu.

- Mas filha...

- Preciso ir ao banheiro. - As lágrimas já escorriam sorrateiramente nas laterais dos olhos.

Nathaly saiu do quarto passando seus dedos na beira dos olhos, enxugando aquelas lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Com as mãos nos bolsos, Steven direcionava os olhos para o chão, estando a pensar.

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