Capítulo 9

- Acho que me deve uma explicação, não é? – pergunto a Noah, me acomodando em um sofá em seu armazém.

- Devo? – ele provoca.

Heitor, quem eu conhecia antes, não era nada parecido com quem está a minha frente. Era carinhoso, não tinha essa mania de provocar toda vez que vê uma chance, e nunca, me tirava do sério. Era meu melhor amigo, desde a infância, até a escolha da faculdade, onde tudo mudou drasticamente. Nunca mais o tinha visto desde e então. E agora me deparo com ele, como o principal suspeito de um crime. E eu que achava que as mudanças drásticas haviam acabado. Já não sei o que pensar, já não sei quem ele é.

- Você ainda pergunta? – resolvo retrucar – Você aparece como principal suspeito de um crime para mim, e desde o primeiro momento que te procurei, você não me disse quem era, nem tentou se defender e ah, você foi grosso comigo, algo que Heitor, nunca havia sido antes.

- Heitor não existe mais – ele responde pegando uma bebida na geladeira – Quer? – ele oferece, mas recuso em seguida.

- Quero respostas Noah – digo já cansada de sua enrolação.

- Está bem, vamos lá – ele passa a dizer sentando em uma cadeira a minha frente – Paul era um amigo meu, e o assassinaram para me culpar. A namorada dele não vale nada, só queria saber do dinheiro dele, e ainda vai receber algo por ajudar a me incriminar e acho que ela tinha uma queda por mim também – ele ri, me fazendo revirar os olhos – e bom, é isso.

Tento raciocinar o que ele acabara de dizer, sendo que na verdade, não me disse muita coisa. Fico a observar ele bebendo a sua cerveja, enquanto me olha fixamente, tentando fazer com que eu acredite nisso tudo.

- Ok, você então está me dizendo que tudo que querem é te incriminar – ele me interrompe.

- Isso mesmo.

- Mas, você não me diz o porquê, querem isso. E pensa que vou simplesmente acreditar em sua palavra, sem uma explicação lógica por trás – respondo calmamente.

- É – ele diz se recostando na cadeira tranquilamente – eu espero que confie em mim, pelo nosso passado. Infância inteira te aturando, não conta nada? – ele diz ironicamente.

- Não, não conta – respondo sem pensar duas vezes. "Pessoas mudam" minha mente complementa.

- E não conta eu estar ao seu lado em seu primeiro fora? Em seu primeiro desespero... – o interrompo, antes que certas coisas saiam de sua boca, coisas que são desnecessárias serem lembradas.

- Tudo bem, você esteve ao meu lado em muitas situações – o observava e via que ele se divertia com a situação – Porém, um tempo longo se passou, você pode ter mudado e acredito muito que mudou.

- Eu mudei Bela! Mas não me tornei um assassino – ele respondeu tentando se aproximar e pela primeira vez em nossa conversa, senti que ele estava sendo sincero.

Resolvo me aproximar também, e noto sua cicatriz novamente. Do pescoço até seu rosto. Não me contive em tentar tocá-la, mas ele me impediu segurando minha mão.

- Por favor! Não – ele diz firme.

- O que aconteceu? – não relutei em perguntar.

Ele se levanta e passa a andar de lá para cá, passando a mão em sua nuca. Não entendia o que estava se passando em sua mente. Falar sobre sua cicatriz é algo que o incomoda, isso ficou visível. Me levantei também e fiquei em sua frente, esperando por respostas. Se tudo o que passamos, era válido para eu continuar confiando nele, também deveria ser valido para ele confiar em mim.

- Você vai ficar aqui, certo? – ele questiona mudando de assunto.

- Não Noah. Só precisava conversar contigo – pego minha bolsa do sofá – e já está na hora de eu ir.

- Bela – ele diz segurando meu braço – Você precisa de proteção, eu já te disse isso.

- Você já se esqueceu por que escolhi essa profissão? Você já falhou uma vez! – as palavras saem de minha boca e em segundos já me arrependo. Sinto seu olhar em mim, um olhar de decepção, de remorso.

- Nem por um segundo eu me esqueço disso – ele responde cabisbaixo, e em seguida me retiro. "Continuar o assunto, não resultará em algo bom", penso comigo mesma. 

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