Profecias Profanas
KOHAN
Após terminar de contar a dolorosa história de seu passado, Kohan sentiu o rosto esquentar, um rubor subindo até suas bochechas, agora vermelhas como as flores que sua mãe adorava plantar nos jardins do castelo. Embora o reino fosse marcado pelo frio constante, as estufas sempre mantinham um clima ameno, abrigando as flores vibrantes que cresciam sob os cuidados diligentes de sua mãe. Ele se lembrava do contraste entre o inverno implacável lá fora e a delicadeza colorida que florescia nas estufas, um refúgio que parecia pertencer a um outro mundo.
Essas lembranças o aqueciam, mesmo naquele momento de vulnerabilidade.
A noite caiu sem que eles percebessem. O fogo crepitava no centro do acampamento, soltando fagulhas que subiam em direção ao céu, onde as primeiras estrelas já brilhavam. Sentado ali, olhando para o alto, Kohan pensava em seu reino. O que estariam dizendo sobre a missão que a Deusa lhe confiou? Estariam torcendo por seu retorno ou esperando pelas notícias de que, mais uma vez, o jovem herdeiro do Reino Invernal havia arruinado tudo?
— Agora entendo por que vocês do Norte têm essa fama de serem tão sérios e frios — comentou ela, com um sorriso provocador.
— E qual é o motivo, então? — perguntou Kohan, voltando sua atenção e corpo na direção dela.
— Com um governante como o seu pai, não me surpreende que o filho seja um rebelde contra o próprio reino e que os súditos desprezem qualquer um — respondeu Vixen, sem rodeios.
— Meu pai nem sempre foi assim. Poder, amor e magia são a combinação perfeita para corromper até a alma mais pura. Mas isso não muda o que ele se tornou. Você tem razão.
— Tudo isso é uma grande confusão — disse Art, levantando-se e pegando mais um pedaço de madeira, que ele jogou nas chamas que Vixen havia criado com seu poder solar.
— Talvez devêssemos descansar e, amanhã, encontrar uma maneira de sair dessa maldita floresta — sugeriu Greta, já ajeitando algumas folhas e grama onde pretendia descansar, perto da fogueira.
— E, mais importante, precisamos de comida, e logo — acrescentou Kohan, olhando para os outros.
Ele era o líder daquela missão, mas até agora não havia feito nada para ajudar ou garantir a sobrevivência dos quatro. Era hora de ser o que treinou a vida inteira para ser: um general de guerra e o líder de uma nação.
— Vocês podem descansar. Eu fico com o primeiro turno de guarda.
— Se você insiste, querido — disse Art, já se acomodando em seu canto, perto de uma árvore que o protegeria do sol quando ele nascesse. — Boa noite para vocês.
Sem trocarem mais palavras, todos se prepararam para dormir. Vixen se deitou encolhida a alguns metros de Greta, mais perto de Art do que dos outros dois. Mal Art se deitou, sua respiração suave e o leve ronronar, como o de um gato, já podiam ser ouvidos.
Kohan caminhou em silêncio para dentro da floresta, procurando o melhor ângulo para montar guarda, caso algum animal ou pessoa aparecesse — embora achasse isso improvável.
Quanto mais Kohan caminhava floresta adentro, mais se encantava com as diversas espécies de plantas e árvores que ali existiam. As árvores pareciam tocar o céu com suas pontas afiadas, formando um dossel espesso que filtrava a luz da lua em feixes tênues. Os troncos eram tão grossos quanto as torres das masmorras do castelo de seu pai, imponentes e cheios de histórias. Ele nunca tinha visto tamanha variedade de cores e formas; roxas, azuis, vermelhas, amarelas e até tonalidades que pareciam ter sido tiradas de um sonho. Ao passar a mão por elas, era como se sentisse a vida pulsando sob sua pele, e ele se via transportado para as estufas de sua mãe, onde flores vibrantes dançavam suavemente ao toque da brisa. Contudo, ao pensar nisso, uma sombra de tristeza o invadia. Se voltasse agora, tudo estaria diferente — sem flores, sem sua mãe, sem vida.
O silêncio do lugar fazia os pelos dos braços de Kohan se arrepiarem. Nunca havia estado em um local onde o som era quase inexistente. Se não fosse pelo ritmo pesado de sua própria respiração e o crepitar das chamas a alguns metros atrás, poderia imaginar que estava em um vácuo total, cercado por uma solidão opressora. Cada passo parecia ecoar como um grito no vazio, intensificando sua sensação de estranheza.
Enquanto tentava se distrair, o estalo repentino de um galho se quebrando sob uma bota o fez se virar rapidamente, desembainhando sua espada. Apontou-a para a garganta do intruso, sem ao menos saber quem era. A tensão no ar era palpável, e a floresta, agora parecia esconder segredos sombrios, prontos para serem revelados.
A ponta da espada de Kohan começou a brilhar e logo a espada se iluminou por completo. Sua lâmina, feita de um gelo impenetrável, brilhou intensamente assim que Kohan a ergueu. Em sua superfície, delicadas runas gravadas refletiam a luz em padrões hipnotizantes, indicando um poder ancestral. Correntes azuis de energia mágica serpenteiam do cabo até a ponta da lâmina, pulsando com uma vitalidade vibrante, como se o próprio gelo estivesse vivo. Ao empunhá-la, o Kohan sentia uma conexão profunda com as forças do inverno, tornando-se um verdadeiro mestre do gelo na batalha.
Quando Kohan percebeu que seu alvo era Greta, uma garota vestida em traje de combate completo, com cabelos negros e olhos penetrantes, ele abaixou a espada imediatamente. O brilho da lâmina apagou-se no mesmo instante.
— Desculpe, Greta. Não imaginei que fosse um de vocês — disse ele, constrangido.
Ele olhou diretamente nos olhos dela e quase se perdeu naquele olhar. Os olhos de Greta tinham um tom castanho claro, mas com delicados fios prateados que se espalhavam pela íris, uma cor que combinava perfeitamente com o formato ligeiramente puxado de seus olhos. Kohan nunca havia visto um feérico com traços tão marcantes, quase simétricos, como os dela. Ele se pegou a observá-la por tempo demais, até que pigarreou, desviando o olhar.
— Bela espada. Ela tem um nome? — perguntou Greta, caminhando até o lado de Kohan, fixando o olhar na lâmina, evitando encará-lo diretamente.
— Tem sim. Seu primeiro dono foi um dos meus ancestrais. Talvez algum rei antes do pai do meu pai. Ele a chamava de Glaciara, que significa Lâmina do Gelo Eterno — respondeu Kohan, sem esconder o respeito em sua voz.
— Chamava? E você, não a chama assim? — perguntou Greta, ainda sentindo seu coração acelerado por quase ter sido decapitada. Havia algo na espada, algo em Kohan, que a atraía de uma maneira que ela não conseguia entender.
Kohan hesitou por um momento, antes de responder.
— Quando eu matei pela primeira vez, a espada sofreu alterações. Achei justo alterar seu nome também, agora eu a chamo de Necroglacia, a Lâmina do Gelo Profanado.
— E como exatamente ela foi alterada?
— Necroglacia se tornou a forma corrompida da antiga espada, transformada pela essência dos seres malignos que me atacaram. A lâmina ainda brilha intensamente, mas agora exibe uma coloração sombria e opaca, com sombras que parecem se mover ao longo de sua superfície. Essas runas que você vê aqui – ele ergueu a espada e apontou para as runas - antes simbolizavam proteção agora são distorcidas, emanando uma aura de malevolência.
— E o que isso quer dizer afinal. - Greta já se sentia mais calma perto da espada, mas ainda sentia a sensação estranha que a atraia até Kohan.
— Agora ao invés de causar apenas danos físicos, os golpes de Necroglacia podem congelar não apenas o corpo, mas também a alma da vítima, prendendo-a em um estado de tormento eterno.
Kohan viu Greta recuar um passo, quase de forma instintiva.
Ele também recuou, criando uma tensão palpável no ar entre eles.
Uma coruja piou no topo de uma das árvores, quebrando o silêncio.
— Você ouviu isso? — Kohan perguntou, olhando para cima, tentando localizar a origem do som.
— Ouviu o quê? — respondeu Greta, também erguendo os olhos, procurando pela coruja.
— Parece uma coruja.
Quando Kohan baixou o olhar novamente, seus olhos se encontraram com Greta. Ele a observou por um momento, o suficiente para sentir seu coração acelerar. Ela ainda estava concentrada em encontrar a coruja, mas tudo que ele conseguia enxergar era o brilho suave e dourado que ela parecia emanar. A luz da lua e das estrelas envolvia seus cabelos, formando um halo que destacava seu rosto, realçando sua beleza de uma forma quase mágica. Ela irradiava o calor suave e acolhedor do outono, e Kohan se sentiu como se estivesse cercado pela própria estação.
Ele não piscou, os olhos fixos na jovem princesa, até que ela desistiu de procurar pela coruja e o encarou diretamente.
— Você está brincando comigo, não está? — disse Greta, com um leve sorriso no rosto, a voz firme, mas os olhos brilhando com um toque de diversão.
Kohan sorriu de volta, apreciando o novo tom no ar entre eles. Gostava quando ela o desafiava assim, sem medo.
— De jeito nenhum. Eu jamais ousaria enganar você — respondeu ele, mantendo o olhar firme desta vez. — Mas, diga-me, princesa, por que está aqui? Não deveria estar descansando?
— Eu só... — Greta desviou o olhar, algo incomum para ela. — Eu só queria saber se você estava bem. Depois da história que contou...
Kohan sentiu o coração acelerar de novo. Jamais imaginara que uma descendente do Outono se importaria tanto com alguém do Inverno, e menos ainda com ele. Qual seria o verdadeiro motivo por trás dessa preocupação?
— Não precisa se preocupar. Foi apenas uma história antiga, sem importância — disse ele, tentando parecer despreocupado, embora soubesse que as palavras não faziam justiça à dor que carregava.
— Mesmo assim, ainda é a sua história. A história da sua mãe — insistiu Greta, sua voz suave, mas cheia de empatia.
Por um breve instante, Kohan foi dominado pelo desejo de cruzar a distância entre eles, de puxá-la para perto e beijá-la. A ideia era tão tentadora quanto perigosa, mas, tão rápido quanto surgiu, o desejo desapareceu. A imagem de Cipria veio à sua mente, e embora ele não devesse fidelidade à jovem serva de cozinha, algo dentro dele não permitia que ele cruzasse essa linha enquanto ela ainda habitava seus pensamentos.
— Acho que você deveria voltar, Greta — disse ele, virando-se de costas. — Você precisa descansar.
Kohan se afastou, deixando Greta sozinha, envolta na penumbra, com apenas as luzes da lua e das estrelas atravessando as copas das árvores.
****
Ele se sentia desprezível por ter virado as costas para ela, como se estivesse fugindo. Mas havia certas barreiras dentro de si que ele não conseguia ultrapassar, e Greta começava a tocar nessas feridas profundas.
A coruja piou novamente. Desta vez, estava bem à sua frente, pousada em um galho seco, cujas folhas marrom-apodrecidas contrastavam com o brilho sobrenatural que a ave emanava. Suas penas não eram apenas brancas; elas pareciam feitas de luz etérea, cintilando como gelo sob a lua cheia, com uma suavidade que beirava o irreal. Um leve nevoeiro dourado circulava ao redor de suas asas, e quando ela movia a cabeça, o ar ao seu redor ondulava, como se a própria realidade se distorcesse em sua presença.
Os olhos da coruja, grandes e brilhantes como dois sóis prateados, se fixaram em Kohan. Ao encontrá-los, ele sentiu seu coração vacilar, como se o tempo tivesse parado. Aqueles olhos continham algo mais profundo, algo além da compreensão mortal ou feérica. Era a mesma coruja que o salvara dos Sufocadores tempos atrás, disso ele tinha certeza. Não sabia como, mas a conexão entre eles era inegável, como se a criatura carregasse um fragmento do destino ou da magia antiga que o cercava.
— Pelo quinto inferno congelado... como...? — gaguejou Kohan, mal conseguindo acreditar no que via.
A coruja inclinou a cabeça, suas penas brilhando com uma intensidade ainda mais sobrenatural. Um vento gelado soprou de repente, e Kohan sentiu o ar ao seu redor pesar, como se uma presença antiga e sombria tivesse se manifestado. Quando a coruja abriu o bico, não foi um som comum que saiu, mas uma voz rouca e profunda, cheia de eco, como se viesse de um lugar entre os mundos, sussurrando uma profecia carregada de mal presságio:
"Na Primavera, florescerá o renascimento; mas o que renasce traz consigo a ruína escondida. Um coração puro erguerá a esperança, mas será manchado pela escuridão oculta."
A brisa fria aumentou, e as árvores ao redor pareceram se curvar ao peso das palavras.
"No Verão, o calor da coragem incendiará o ar; mas aquilo que queima também consome. Um guerreiro surgirá das chamas, mas sua espada cortará o caminho da destruição."
As asas da coruja bateram levemente, e o nevoeiro ao redor dela pareceu crescer, espiralando como sombras vivas.
"No Outono, as folhas cairão como certezas desfeitas; pois o ciclo se desfaz em dúvida e traição. Um sábio trará a sabedoria dos antigos, mas com ela, os segredos que não deveriam ser revelados."
Kohan sentiu o chão sob seus pés tremer ligeiramente, como se o próprio solo estivesse inquieto diante das revelações.
"No Inverno, o gelo cantará o lamento dos reinos; e o frio não será apenas das terras, mas dos corações. Um líder forjará o destino de todos, mas o que ele molda é tanto esperança quanto condenação."
A luz que cercava a coruja piscou como uma chama morrendo, mas seus olhos brilhavam com uma intensidade fantasmagórica.
"Aquele que traz a paz, na verdade, espalha a discórdia, e quando o Grande Mal caminhar novamente entre nós, o mundo conhecerá o verdadeiro significado de renovação — E de destruição."
A última palavra ecoou na mente de Kohan como um trovão distante, e ele sentiu o peso do que estava por vir esmagando seus ombros. A coruja o encarou por mais um segundo, seus olhos ardendo como um aviso sombrio, antes de desaparecer nas sombras, deixando o ar pesado e cheio de presságios sombrios.
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