O Portal

KOHAN

Uma comitiva avançava em direção aos imponentes portões do Castelo Invernal. À distância, pareciam apenas um pequeno grupo, mas conforme se aproximavam, o que antes era uma figura pequena e distorcida se revelava uma multidão de faes, todos ansiosos para se despedir de seu Príncipe e lhe desejar boa sorte em sua jornada.

Quando Kohan chegou aos portões acompanhado do seu guarda pessoal Kirk, e de mais meia dúzia de guardas que ele conhecia tão bem quanto conhecia Kirk — afinal, fora ele mesmo quem os escolhera no décimo oitavo dia do seu nome. Cada um deles lhe pertencia; suas espadas eram juramentadas em seu nome, e suas vidas eram dedicadas a proteger a do príncipe. Sempre, a qualquer custo.

Os portões se abriram em um grande arco, revelando a passagem para o príncipe e sua comitiva. O destino? A Árvore Protetora do Reino do Norte. Eles estavam a caminho de Glacial, onde se encontrariam com a Deusa e os demais companheiros de viagem.

O Príncipe deu início à procissão, com seus guardas logo atrás, cada um montado em um alazão branco como a neve recém-caída em um dia frio. Eles eram estranhamente magníficos, quase irreais, destacando-se contra o cenário invernal. Ao passar pelos súditos, Kohan acenava e dava pequenos tchauzinhos para as crianças que gritavam seu nome com entusiasmo. Ao seu lado, Kirk, famoso quase tanto quanto o Príncipe, recebia beijinhos e sorrisos das damas, que ele fingia não notar, como sempre.

— Espero que na minha ausência vocês aproveitem o máximo que puderem por mim — disse o Príncipe em voz alta, para que suas palavras fossem ouvidas acima dos gritos da multidão, que crescia conforme se aproximavam do destino.

— Que assim seja, Vossa Graça — respondeu um dos guardas mais atrás, um homem marcado por uma cicatriz no olho esquerdo, que parecia ter sido feita por garras de lobo ou algo parecido. 

— Alec pode levar vocês até aquela casa de prazeres da Fae Rositta — comentou Kirk com um sorriso, referindo-se à velha Fae que administrava uma casa de moças 'amigáveis' por uma certa quantia de pó mágico.

— Digam à madame Rositta que a primeira rodada de damas fica por minha conta, se for do agrado delas, é claro, se deitar com algum de vocês — gargalhou o Príncipe, e os demais o seguiram com agradecimentos e uivos de divertimento.

O resto do caminho tornou-se quieto, e logo a sensação de incômodo começou a crescer dentro do peito de Kohan. Ele não sabia nada sobre como liderar uma missão, muito menos como comandar outros três herdeiros de títulos reais. Estava certo de que esses outros seriam príncipes e princesas cheios de si, querendo dar ordens, o que poderia transformar a missão em uma pedra nos sapatos dele. 

A procissão diminui também cada vez que chegavam mais próximo do local. Kohan sentia o coração querer subir pela garganta e soltar pela boca. Seus companheiros de viagem estavam quietos e observavam os arredores em busca de ameaças. Mesmo com o reino ainda em paz havia outros tipos de perigos a se temer nas florestas congeladas de reino do norte.

Foram os primeiros a chegarem. Glacial erguia-se majestosa como sempre, com seu tronco forte e coberto de runas de proteção, testemunha de milhares de anos. Os demais ainda não haviam chegado, o que aliviou Kohan. Ele sabia que teria que se distanciar dos amigos antes mesmo da Deusa aparecer, embora duvidasse que ela realmente fosse se manifestar diante deles.

— É aqui que nos separamos meus amigos, retornem para o castelo e digam ao velho do meu pai que estou entregue a morte iminente. - Disse o príncipe parando seu cavalo antes mesmo de chegar a uns cinco metros da arvore. .

— Não seja tão reclamão Kohan,  você está indo para o mundo mortal. Não tem noção de quanto isso é único. - Kirk parou logo atrás dele e assim fizeram-se os demais.

— Príncipe Kohan, espero que sua viagem seja guiada pela deusa e que seu retorno seja breve e bem-sucedido. — Falou outro dos cavaleiros reais, um rapaz negro, de porte robusto, com olhos em tons de roxo. Sua cabeça era adornada por tatuagens e rabiscos que se perdiam dentro da camiseta, adicionando um toque enigmático à sua presença.

— Eu agradeço as orações, Doniak. Vou precisar de muitas delas — disse Kohan, sua voz um misto de gratidão e preocupação.

— Você não estará sozinho. A Deusa estará com você — respondeu Malik, o cavaleiro mais devoto entre eles, sua expressão um reflexo da fé profunda que nutria pela Deusa.

— A Deusa só abrirá o portal; o resto é por minha conta — Kohan afirmou com um tom resoluto, lançando um olhar compreensivo para Kirk, que conhecia bem a verdade por trás de suas palavras.

— Não é à toa que você é chamado de O Cruel. Vá em paz, meu príncipe — saudou Kirk, sua voz carregada de respeito e um toque de pesar.

Os outros o seguiram com um gesto ritualístico: cruzaram um braço sobre o peito em formato de x, uma saudação reservada aos escolhidos pelo príncipe, um símbolo de lealdade e reverência.

Kirk fez uma última volta em seu cavalo, lançando um olhar final para trás. Kohan, com um aceno de cabeça, sinalizou seu agradecimento e virava-se para a árvore. O silêncio envolveu o grupo, apenas o som dos cascos dos cavalos e o murmúrio do vento quebrando a quietude, enquanto o príncipe seguia sua jornada em direção à Árvore Protetora, determinado e ao mesmo tempo carregado de uma sensação de despedida.

Quando chegou ao pé da arvore Kohan desmontou de seu alazão e o deixou pastando e se alimentando dos pequenos frutos que caiam da arvore. Pequenas ameixas em tons azulado, roxos e algumas ainda branca, recém nascida. Kohan olhou para cima, admirando a Árvore Protetora. O tronco era robusto e coberto de runas antigas que pareciam pulsar ainda mais com a presença  de sangue real por perto. A presença imponente da árvore e o cheiro doce das ameixas criavam um contraste intrigante com a tensão que Kohan sentia por dentro.

Enquanto o alazão continuava a se alimentar, Kohan se aproximou da árvore com reverência. Seus dedos passaram pelas runas, sentindo a energia antiga que emanava delas. O local parecia envolver o príncipe em uma sensação de calma, uma paz que contrastava com a ansiedade que ele carregava.

— Ela sente você — a voz suave e enigmática sussurrou, como um vento etéreo que parecia envolver Kohan. Ele se virou lentamente e, ali, diante dele, estava a Deusa.

Sua presença era uma mistura de majestade e serenidade. Vestida com um manto que parecia mudar de cor conforme o ângulo da luz, a Deusa emanava uma aura que acalmava o ambiente ao redor. Seus olhos, profundos e luminosos, pareciam conter a sabedoria dos séculos.

— Ela sabe quem você é e o que está destinado a se tornar — continuou a Deusa, sua voz reverberando com uma certeza tranquilizadora.

Kohan, momentaneamente aturdido pela aparição, sentiu um misto de admiração e apreensão. A Deusa, com sua presença imponente, parecia mais do que um ser divino; ela era a personificação de tudo o que ele buscava entender sobre seu próprio destino. Ele tentou articular uma resposta, mas as palavras não vinham. A visão da Deusa era ao mesmo tempo grandiosa e intimidadora, e a sensação de estar diante de algo tão sublime fazia com que suas próprias preocupações e dúvidas se dissipassem momentaneamente.

A Deusa se aproximou, seus passos silenciosos como se flutuasse sobre o chão. Ela estendeu uma mão gentil, que parecia brilhar com uma luz suave e acolhedora.

— O caminho à frente será difícil e cheio de desafios, mas lembre-se, a Árvore Protetora está ligada a você e ao seu destino. Confie em sua jornada, Kohan. Você não está sozinho.

Kohan sentiu uma onda de calma e uma centelha de esperança. A presença da Deusa parecia transmitir uma força silenciosa, uma garantia de que, apesar das dificuldades que enfrentaria, havia um propósito maior que guiava seus passos. Ele respirou fundo e, com um olhar resoluto, preparou-se para o que estava por vir.

— Era disso que eu estava falando — a Deusa sorriu, um sorriso que parecia iluminar o ambiente ao redor e transmitir uma sensação de tranquilidade e confiança.

 — Então vamos começar — ela disse, com um tom que misturava autoridade e gentileza.

Kohan sentiu uma sensação de formigamento e uma onda de energia que percorreu seu corpo, como se a própria árvore estivesse respondendo à presença da Deusa e ao início da jornada que estava prestes a se desenrolar. O ambiente ao redor parecia se transformar, o céu ganhando tons mais vibrantes e as folhas da árvore movendo-se de forma quase rítmica, como se dançassem ao ritmo de uma melodia invisível.

A Deusa se posicionou com uma graça etérea, seus olhos fixos na Árvore Protetora como se estivesse em sintonia com uma força invisível que pulsava em seu interior. Com um gesto amplo e fluido, ela estendeu os braços para os lados, e uma aura resplandecente começou a se formar em torno dela.O tronco da árvore, antes apenas imponente e majestoso, começou a brilhar com uma intensidade crescente. As runas antigas, que antes pareciam apenas inscrições antigas, agora brilhavam com uma luz prateada e vibrante, como se estivessem ganhando vida própria. A energia emanada delas era quase palpável, criando uma sensação de eletricidade no ar.

A Deusa murmurou palavras de um encantamento antigo, sua voz ecoando como um cântico harmonioso. À medida que ela falava, a luz emanada das runas se intensificava, e um vórtice de energia começou a se formar atrás da árvore. O vórtice girava lentamente, suas cores variando do azul profundo ao verde esmeralda, como uma tempestade cósmica em miniatura.O espaço atrás da árvore parecia se distorcer, e um buraco circular começou a se abrir, revelando um portal cintilante que parecia flutuar no ar. 

O portal era uma espiral de luz e sombras, suas bordas definidas por uma energia pulsante que mudava de cor conforme o movimento das energias místicas ao redor.A Deusa avançou um passo em direção ao portal, e a luz ao redor dela se intensificou, envolvendo o portal em um brilho etéreo que iluminava a clareira com uma luz suave e misteriosa. O ambiente parecia vibrar com a magia antiga, e o som sutil de uma melodia celestial acompanhava a abertura do portal.

Kohan observava, absorvendo a magnitude do momento. O portal se estabilizou, revelando uma visão do mundo mortal do outro lado — uma paisagem que parecia tanto familiar quanto estranha, um reflexo do reino ao qual ele estava prestes a enfrentar.A Deusa se voltou para Kohan, um olhar de encorajamento em seus olhos profundos.

— O caminho está aberto — disse ela, sua voz um sussurro suave, mas carregado de uma autoridade inconfundível. — Vá e siga seu destino.

Kohan deu um último olhar para a Deusa, sentindo a imensidão e a importância do que estava prestes a enfrentar. Com um passo resoluto, ele atravessou o portal, mergulhando na luz e na energia que o guiavam ao mundo mortal.

****

O brilho era tão intenso que quase o cegou no momento em que deu o primeiro passo para dentro do portal. Tudo ao seu redor começou a girar vertiginosamente. A majestosa Árvore Protetora, que ficara para trás, transformou-se em um borrão indistinto de verde e marrom, sendo rapidamente substituída por novos borrões de cores e formas indistinguíveis.

Enquanto era arrastado pela corrente mágica do portal, ele percebeu sombras embaralhadas passando rapidamente diante de seus olhos, sem que tomassem qualquer forma concreta. Era como se estivesse atravessando um túnel de luz e escuridão, onde a realidade se misturava com o irreal.

Então, de repente, o movimento começou a desacelerar, e ele teve a estranha sensação de estar se aproximando do chão a uma velocidade alarmante. Seu estômago revirou ao perceber que estava caindo do céu. As manchas ao seu redor começaram a se solidificar, revelando um cenário que se formava com clareza assustadora. Do alto, ele conseguiu distinguir telhados pontudos e outros retos, e as copas das árvores se aproximavam rapidamente, tornando-se cada vez mais definidas.

Desesperado, ele tentou invocar os ventos com sua magia para amortecer a queda, mas, para seu espanto, algo estava diferente. A energia mágica que ele tanto dominara ao longo dos anos agora parecia zumbir dentro dele de maneira selvagem, como se quisesse escapar e se expandir além de seu controle. Era como se o poder dentro dele tivesse aumentado exponencialmente, tornando-se algo mais vasto e incontrolável. Ele estava mais forte... mas por quê? A resposta parecia escapar enquanto a terra se aproximava rapidamente, e ele percebeu que teria que agir rápido se quisesse sobreviver à queda.

Antes mesmo de se esborrachar no chão, Kohan invocou os ventos do norte com toda a força que conseguia reunir dentro de si. Não havia tempo para tentar entender as mudanças em sua magia; ele precisava salvar sua vida. Fechou os olhos, sentindo a magia pulsar em seu coração, quase como uma fera aprisionada.

A magia de Kohan sempre vinha de diversas fontes, mas uma delas era particularmente poderosa: a raiva que ele nutria por seu pai. Sempre que precisava invocá-la, era essa fúria ardente que ele reivindicava. Lembranças dolorosas afloravam em sua mente, como a vez em que seu pai lhe desferira um tapa no rosto. Esse momento de humilhação tinha sido o suficiente para congelar tudo ao seu redor. Outra memória amarga surgiu, aquela em que seu pai o envergonhou diante de seus cavaleiros juramentados. A vergonha e a raiva foram tão intensas que, ao canalizar sua magia, Kohan mergulhou todo o reino em nevascas e tempestades terríveis, um reflexo da tempestade interior que o consumia. Era sempre o pai infligindo dor, raiva ou vergonha que libertava sua magia.

Ele sabia que essa era uma magia contaminada, envenenada pelas emoções mais sombrias de seu coração e do massacre aos Sufocadores. Mas era a única que ele sabia usar, a única que respondia com a força que ele precisava. Agora, enquanto o chão se aproximava a uma velocidade vertiginosa, Kohan invocou novamente essa fúria, sentindo o poder crescer dentro de si. Os ventos do norte responderam ao seu chamado, envolvendo-o como um abraço gélido e amortecendo sua queda.

A apenas cinco metros da morte iminente, Kohan começou a desacelerar. Os ventos que ele invocara o envolveram, suavizando sua queda e guiando-o para uma clareira no meio de uma floresta densa, onde árvores pontudas se erguiam em todas as direções. A paisagem estava quase desprovida de vegetação, marcada pela dureza do inverno que havia começado há cinco dias. A terra estava fria e implacável, refletindo o rigor da estação.

Quando finalmente sentiu o chão firme sob seus pés, a magia que ainda pulsava dentro dele se espalhou para a terra. Ao simples toque, a grama ao redor de Kohan congelou instantaneamente, criando uma camada de gelo que se espalhou em um círculo perfeito ao seu redor. Ele estava agora em solo mortal, longe da segurança e do conforto que conhecera, e, pelo que podia ver, estava completamente sozinho.

Erguendo os olhos para o céu, Kohan avistou duas grandes esferas que dominavam a vastidão azul. Eram lindas, majestosas em sua grandiosidade. Uma delas pertencia ao mundo mortal, ao qual ele se encontrava. E a outra era sua casa, o lugar que o viu crescer, um mundo lugar que lhe trazia memórias amargas e um desejo profundo de nunca mais retornar.


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