Estrelas Mortais
GRETA
A missão não se parecia em nada com o que Greta esperava. Preparou-se para enfrentar monstros das histórias antigas, fadas renegadas, ou até mortais que ousassem cruzar o caminho deles. Mas, em vez disso, só havia o silêncio e a imobilidade daquela floresta densa. Horas haviam passado, e a única coisa que realmente os prendia ali era a própria floresta — um labirinto verde e interminável.
Ela olhou para a dádiva do outono pendurada em seu pescoço, o pingente que supostamente deveria guiá-los. Ele emitia uma leve luz amarelada, quase imperceptível na penumbra da floresta, apontando uma direção que seguiam fielmente. Ainda assim, Greta sentia que nada mudava. Só as copas das árvores se estendiam acima, formando um teto de galhos e folhas que bloqueava até mesmo a luz da lua e das estrelas, deixando-a com uma sensação estranha de estar sempre no mesmo lugar.
"Isso é algum tipo de teste?" pensou, tentando entender por que algo tão simples estava se tornando tão... vazio. Era estranho desejar que algo — qualquer coisa — acontecesse. E era mais estranho ainda perceber que se sentia presa.
Será que a floresta estava brincando com eles? Ou havia algo ali, oculto, que os impedia de sair?
Ele se movia como um animal abatido — ferido, mas não inofensivo. Seus ombros carregavam um peso visível, como se a história que ele contara naquela noite tivesse sugado a última centelha de leveza que ainda carregava.
Greta observou-o sumir entre as árvores, sem saber ao certo o que a atraía tanto na solidão que ele parecia buscar. Talvez fosse o contraste entre a imagem fria e disciplinada que ele sempre projetava e aquela vulnerabilidade que agora transparecia, revelando o impacto das próprias lembranças.
Determinada, ela deu um passo silencioso atrás dele e decidiu segui-lo floresta adentro, respeitando a distância. Kohan parecia alheio à sua presença, tão consumido pela tristeza e pelo peso do passado que mal percebia o mundo ao redor — era ali, no profundo da floresta escura e densa, que Greta se via obrigada a confrontar a estranha fascinação que sentia pelo príncipe do inverno.
Quando Kohan parou abruptamente, Greta hesitou e recuou um passo. O som de um galho se partindo sob seus pés cortou o silêncio, e antes que pudesse se justificar ou fazer qualquer movimento, sentiu a ponta fria da espada dele congelando o ar à sua frente, quase tocando seu pescoço.
Seu coração disparou, e um arrepio percorreu sua espinha. A lâmina brilhava intensamente, emanando um frio tão intenso que parecia querer invadir seus ossos.
— Greta! — Kohan murmurou, recuando a espada ao reconhecê-la. — Me desculpe. Eu... não percebi que era você.
Ele abaixou a lâmina, que logo perdeu seu brilho, o frio se dissipando com a mesma rapidez com que surgiu.
— Bela espada. Ela... tem um nome? — disse ela, tentando manter a voz firme.
Ela encarava a lâmina, ainda intrigada e fascinada, enquanto tentava disfarçar o leve tremor em sua voz. Kohan a olhou de lado, parecendo perceber o impacto que causara.
Enquanto Kohan falava sobre a história sombria de sua espada, Greta lutava para acompanhar as palavras, mas logo se perdeu na presença dele. Cada sílaba parecia escapar-lhe assim que seus olhos repousavam na boca de Kohan, na forma sutil como seus lábios se moviam. Havia algo fascinante e perigoso naquela boca que fazia seu coração acelerar e, por um instante, Greta se pegou imaginando o toque daqueles lábios.
Seu olhar vagou, deslizando pelos traços marcantes do príncipe. Os olhos dele eram hipnotizantes, alternando entre um azul gélido e o tom misterioso da ametista. Eram profundos e intensos, e Greta sentia que poderia se perder neles sem nunca querer encontrar o caminho de volta. O nariz, perfeitamente esculpido, trazia uma simetria impecável ao rosto, uma beleza austera e quase cruel que apenas as fadas do inverno pareciam possuir.
Ela admitia para si mesma, com um misto de fascínio e desejo: a beleza das fadas do inverno era realmente perigosa—algo implacável e inesquecível, exatamente como Kohan.
— Você ouviu isso? — Ela não tinha ouvido nada. Nem se quer prestara atenção na historia.
— Não ouço nada. - Com algum esforço ela voltou seu olhar para o topo das arvores, tentando ver o que Kohan via.
— Acho que é uma coruja.
— Você está brincando comigo, não está? — disse Greta, com um leve sorriso no rosto, a voz firme, mas os olhos brilhando com um toque de diversão.
— De jeito nenhum. Eu jamais ousaria enganar você — respondeu ele, mantendo o olhar firme desta vez . — Mas, diga-me, princesa, por que está aqui? Não deveria estar descansando?
Greta sabia que devia estar descansando junto dos demais, mas assim que viu Kohan se afastar daquela forma, o cansaço a abandonou, assim como a fome que sentia. A preocupação pulsava dentro dela como um tambor, e ela desejava poder dizer a ele que também se sentia perdida. Que aquela missão parecia estar faltando partes. Que a dádiva estava escondida sob seu traje e queimava cada vez que saíam da rota. Ela devia confiar nele, afinal, ele era o líder. Mas a desconfiança a consumia, pois sua mãe sempre a alertara sobre o Rei da Corte Invernal, e que seu filho poderia ser uma versão ainda mais cruel do próprio Rei.
Enquanto o observava, Greta percebeu que aquele príncipe diante dela era um homem distante e inabalável. Mas havia algo mais em Kohan; cicatrizes que não eram visíveis a olho nu, cicatrizes na alma. E Greta sabia que essas eram as que mais demoravam para curar.
— Você está preocupado, não está? — ela disse, a voz suave, sem saber que estava se deixando levar.
Kohan a encarou, a expressão mudando de alguém que tentava ser inatingível para um olhar que falava de uma vulnerabilidade que ele tentava esconder. Greta se surpreendeu por ter falado em voz alta. Algo dentro dela despertou ao ver que ele, por um breve momento, parecia precisar de alguém.
— Isso não é nada, é só uma velha historia.
— Mesmo assim, ainda é a sua história. A história da sua mãe — insistiu Greta, sua voz carregada de empatia.
O olhar dele se suavizou, e, pela primeira vez, ela sentiu que alguém realmente se importava com ele. Aquilo aqueceu o coração de Greta, fazendo-a querer tocar no príncipe, abraçá-lo e dizer que tudo ia ficar bem. Mas ela não podia se dar ao luxo de ceder a desejos que cresciam entre eles. O medo da conexão a fez hesitar.
No entanto, Kohan se afastou abruptamente, e aquela ligação que se formava entre eles se desfez tão rápido quanto uma chuva de verão. A frustração e o desejo se misturaram dentro dela.
— Você devia voltar e descansar! — disse Kohan, virando as costas para ela, retornando ao seu papel habitual.
Ele parecia um príncipe do inverno, com sua espada assustadora e seu coração de gelo que Greta suspeitava estar todo quebrado. A cena a deixou com um aperto no peito, e ela se questionou se um dia ele conseguiria deixar essa dor para trás.
*****
Greta não se sentia com a menor vontade de deitar e dormir. A conversa que você teve com Kohan há poucos minutos a deixou desconcertada. Ele a deixou nervosa, mas, ao mesmo tempo, sua aura triste e cruel atraía de uma forma que ela não conseguia compreender. Desde que a missão foi revelada, ela se dedicou a ela, mas agora, após horas presa naquela floresta maldita com outros três feéricos de reinos diferentes, sua concentração se dissipava. Sua cabeça latejava, e a dádiva queimava sua pele sob a camiseta.
Decidida a fazer algo a respeito, Greta resolveu que ao menos poderia deitar e observar as estrelas. No seu reino, era possível ver todas as constelações que existiam na Corte Ouronal, e naquele momento, ela precisava de uma fuga. Sua mente vagou por muito tempo, buscando uma memória que há muito ela tinha esquecido.
Lembrou-se de uma tarde na biblioteca do castelo, onde estava com seu pai, estudando mapas sobre a mesa de madeira profunda. A mesa era tão grossa quanto os troncos das inúmeras árvores que habitavam o Reino Outonal. Greta passando as mãos pelos santos que cobriram toda a extensão da mesa. Lugares, castelos, estradas e rios foram talhados há muitos anos, permanecendo intactos. O que mais a animava ao estudar aqueles mapas com o pai era que, quando colocado sobre a mesa, a magia acontecia.
Os rios começavam a fluir, e uma pequena correnteza de água atravessava todo o mapa. Estradas e lugares que já não existiam ou que foram alterados tomavam novas formas sob o toque da magia. Mas entre tantas transformações, uma única coisa se mantinha fiel: as estrelas. Greta sempre se encantava com o brilho delas, que permanece inalterado e sereno, mesmo em meio à mudança.
Imagine um céu noturno repleto de milhares de estrelas que brilham com uma intensidade quase tão forte quanto a da lua cheia. Cada estrela é como uma pedra preciosa de luz prateada, espalhada de forma ordenada e intocável, permanecendo imutável ao longo do tempo. Juntas, elas formam uma tapeçaria sagrada, onde cada ponto de luz parece suspenso no espaço, tão fixo e eterno que se torna um marco imortal na vastidão. Essas estrelas nunca piscam ou mudam de posição; é como se o próprio universo tivesse respirado fundo e congelado o instante. A luz de cada uma delas reflete-se em tudo abaixo, iluminando a noite de forma clara e suave, como se o mundo estivesse sob um luar multiplicado milhares de vezes. Quando olhamos para o céu, é como contemplar uma promessa eterna, um lugar onde as estrelas permaneceram para sempre, vigias de eras incontáveis, oferecendo seu brilho constante e sereno.
— Os mortais tem o céu mais lindo que eu já vi!
Greta foi arrancada de seus pensamentos com um susto ao ouvir a voz doce e melodiosa de Vixen. A garota estivera dormindo desde que ela tinha saído para verificar se Kohan estava bem e quando retornou não lembrava de ter visto Vixen acordada.
Será que ela estava fingindo dormir o tempo todo? Será que escutara a conversa com Kohan?
— Você está perdido em pensamentos, não está? — Vixen, a princesa do Verão, apareceu ao seu lado, quebrando a concentração de Greta.
A jovem se virou e a encarou, tentando esconder sua confusão.
— É, só... lembranças — respondeu Greta, seu tom leve.
Vixen mandou-se para o lado dela, cruzando as pernas. A luz suave da lua refletia em seu cabelo dourado, criando uma auréola ao seu redor.
— Algo em especial que esteja te afligindo? — disse Vixen com um sorriso travesso. — Ou é o príncipe de gelo que fez sua cabeça ficar cheia de "desejos"?
Greta riu, um pouco envergonhada.
— Um pouco dos dois, eu acho. Ele é... complicado.
— Complicado é um jeito sutil de dizer que ele é um verdadeiro enigma — Vixen brincou, piscando um olho. — Você deveria se aproveitar disso. Um príncipe misterioso sempre atrai a atenção, especialmente de princesas como nós. Maravilhosas!
— E quem disse que estou interessada? — Greta se esforçou para parecer indiferente, mas a verdade é que o calor das palavras de Vixen fazia seu coração acelerar.
Vixen inclinou-se mais perto, seu olhar curioso.
— Então, você não se sente atraída por ele? O olhar, a presença... É difícil não notar.
Greta suspirou, lutando contra a tensão que crescia entre elas.
— É complicado, Vixen. Ele tem essa tristeza... E sua espada, bem, você sabe como é. Me da medo. A verdade é que a conexão entre nós é estranha. Às vezes, sinto que ele é apenas um garoto perdido.
— E isso não é intrigante? — Vixen falou. — Você, a sábia princesa do Outono, ajudando um príncipe do Inverno a encontrar seu caminho. Uma história perfeita para um romance, não acha?
— Romance não é algo que eu busco agora — Greta respondeu, um pouco mais firme. — Estamos em uma missão, e isso deve ser prioridade.
— Claro! — Vixen respondeu, um toque de sarcasmo em sua voz. — Mas não subestime o poder da conexão. Às vezes, as melhores histórias surgem nas situações mais inesperadas.
Greta olhou para o céu, onde as estrelas brilhavam com uma intensidade ainda maior. O pensamento de Kohan invadiu novamente, e ela se permitiu um breve sorriso, lembrando-se de seu olhar e da vulnerabilidade que sentia.
— Quem diria que uma princesa do Verão seria tão compreensiva? — Greta disse, voltando a atenção para Vixen, que sorria triunfante.
— Apenas observadora. Agora, venha, vamos trocar de lugar com o príncipe de gelo e deixa-lo descansar por um momento — Vixen sugeriu, levantando-se e puxando Greta para cima.
Greta nunca teve muitas amigas além de Nyliss. Pensar na amiga que deixou para trás causou um aperto em seu coração. Vixen e Greta eram muito diferentes uma da outra. As duas até tinham a mesma altura e talvez um peso parecido, mas as semelhanças paravam por aí. Enquanto os cabelos de Vixen eram loiros dourados, como os raios de sol, os de Greta eram negros como piche, com uma franja que deixava seus olhos ainda menores do que já eram. Além disso, os olhos de Vixen eram tão dourados quanto ao seu cabelo, e ela tinha escolhas imensas que causavam inveja em qualquer feérica, o que dava ao seu rosto proporções simetricamente perfeitas.
A princesa do outono voltou sua atenção a para as estrelas uma ultima vez, mas algo estava diferente. As estrelas haviam desaparecido e só restou um céu negro, deixando a situação mais assombrosa.
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