Capítulo 7 - Amor é ferida que dói e não se sente.
Victória Walker
O cheiro forte de algo que eu reconheci como álcool em gel atingiu minhas cavidades nasais. O colchão levemente desconfortável e uma pequena dor abdominal me fizeram soltar um resmungo bem baixinho.
Arrisquei abrir os olhos com uma certa dificuldade e fui surpreendida por não conhecer o local onde estava. Meu instinto inicial de pânico me fez pensar em saltar daquela cama e correr, contudo, não consegui mover um centímetro sequer do meu corpo e o desespero só aumentou.
-Finalmente você acordou. – Uma voz conhecida soou no meu lado direito e eu virei o rosto.
-Giulia?! – Estranhei. – O que você está fazendo aqui?! Ou melhor, o que eu estou fazendo aqui?!
-Você não se lembra?! – Ela ergueu uma sobrancelha e eu neguei com a cabeça. – Você sofreu um acidente, querida. Foi atropelada em frente ao hotel Pensione Barrett por um conversível azul.
Nesse momento as lembranças vieram como uma cascata em minha mente. Lembro-me perfeitamente de sair enlouquecida do meu prédio debaixo de chuva e ir correndo até esse hotel com o intuito de concertar as coisas com Thomas...
Ah meu Deus! Thomas!
-Droga! Onde está o Thomas? – Perguntei alerta.
-Ei mocinha, fique calma está bem?! Preciso que fique em repouso, ordens médicas. – Giulia me conteve.
-Onde ele está Giulia?! – Voltei a questionar.
A morena tomou uma expressão um tanto quanto reclusa, parecia estar querendo esconder alguma coisa de mim, o que não era uma boa ideia.
-Ele foi embora, Vick. – Ela soltou com pesar.
Um soco no estômago doeria muito menos do que aquilo. Eu tinha total consciência de que as coisas não estavam boas para nós, mas jamais imaginei que o perderia por isso, não por isso. Deixei que as lágrimas que estavam loucas para serem libertas caíssem em minha face. Aquilo havia me arrasado e muito.
-Eu sinto muito, amiga. – A italiana me reconfortou.
-Eu já esperava por isso, mas eu ainda fui iludida o suficiente para achar que ele iria me ouvir. – Suspirei brincando com a barra do lençol.
-E porque ele precisaria te ouvir?! O que aconteceu com vocês?! Pensei que iria conhecer Thomas King de um jeito mais amistoso, eu vi ele de longe saindo daqui do hospital, parecia abalado, não me aproximei porque você sabe como são as coisas, ele nem sabe que eu existo. – Ela sentou na beirada da cama.
-Espera, Thomas esteve aqui?! – Perguntei sentindo meu coração ser esmagado dentro de uma caixinha de fósforos.
-Sim, eu o vi saindo daqui, tenho certeza que era ele. – Giulia disse convicta.
-E isso aconteceu tem quanto tempo? – Engoli seco.
-Se eu não me engano, tem uma hora que eu o vi. – Colocou a mão no queixo. – Mas porque isso aconteceu?! Quer dizer, porque cargas d'água ele iria te deixar aqui em um hospital e ir embora?! E eu sei que ele estava indo para o aeroporto depois que eu vi a mala gigante que ele estava carregando no porta malas do taxi.
-É uma história complicada. – Me ajeitei na cama cuidadosamente.
-Sou sua amiga Victória Walker, quero que me conte tudo, quero poder te ajudar. – Ela segurou as minhas mãos.
-Jantei com Derek Morgan ontem, passei mal de um jeito estranho, ele me levou para casa e eu pedi que ele ficasse para caso acontecesse algo mais grave comigo, de algum jeito alguém entrou na minha casa, tirou uma foto do Derek dormindo do meu lado e enviou para o Thomas, agora você liga os pontos e vai saber direitinho o que aconteceu. – Resumi bufando.
-Uau...na certa ele deve achar que você e o Derek tiveram algum tipo de recaída. – Giulia balançou a cabeça tentando processar as informações.
-Ai é que está, Derek e eu nunca tivemos nada para termos algum tipo de recaída, alguém armou para mim Giu...e conseguiu alcançar seu objetivo. – Deixei uma lágrima pesada rolar em minha face.
A italiana estava prestes a falar alguma coisa quando um homem de meia idade, trajando um jaleco banco e segurando uma prancheta adentrou no quarto.
-Senhorita Walker! – Me saudou. – Fico feliz que tenha acordado, sou Sebastian, seu médico e obstetra.
-Obstetra?! – Arqueei as sobrancelhas e Giulia se remexeu ao meu lado, o que eu perdi?!
-Ah, mas é claro, você ainda não sabe. – Sebastian balançou a cabeça com um sorriso no rosto. – Quer fazer as honras senhorita Fellacio?!
Virei-me para Giulia em busca de respostas e ela deu o mesmo sorriso que o médio e eu já estava começando a ficar extremamente nervosa com aquilo.
-E então?! Vai me falar ou vai ficar sorrindo pra mim para sempre?! – Bufei.
-Você é muito apressada! – Ela riu. – Vick você está grávida.
Senti como se minha cabeça estivesse girando como um peão de brinquedo, olhei descrente para o médico que simplesmente me lançou um costumeiro sorriso encorajador. Voltei meu campo de visão para Giulia que alargou um pouco mais o sorriso. De um jeito automático me vi repousando minhas mãos em meu ventre, um pouco chocada com a notícia.
-Como isso aconteceu?! – Arfei.
-Quer mesmo que eu te explique de onde vem os bebês, Victória?! – Giulia revirou os olhos.
-Não é disso que estou falando, quero saber a quanto tempo estou grávida?! – Reformulei a pergunta.
-De acordo com seus exames, você está grávida de três semanas, você por acaso sentiu alguma coisa diferente durante esse período? – O médico perguntou.
-Eu ando com o apetite mais apurado, mas nunca sequer pensei que fosse por causa disso. – Eu ainda estava um pouco atordoada.
-Esse é um ponto importante, sua alimentação. – Sebastian me encarou por cima dos óculos e cruzou os braços. – Seu colesterol está altíssimo o que pode acarretar em sérios problemas. Não sei o que você possa ter ingerido, só sei que aquela quantidade poderia ter feito você passar mal durante uma noite inteira.
-Espera, uma noite inteira? – Engoli seco lembrando-me da noite anterior.
-Sim...por acaso isso ocorreu? – Questionou interessado.
-Na noite passada sai para jantar, nada demais, um salada e um filé de frango, passei mal pouco tempo depois, uma dor horrível no estômago. – Relatei.
-Provavelmente alguém exagerou no nível de gordura no preparo dos alimentos, tem que ter atenção com isso, Victória, e deveria ter ido ao hospital no momento em que sentiu as dores. – O médico advertiu e eu assenti envergonhada. – No mais, voltarei mais tarde com a sua alta, procure descansar e se preocupar apenas com sua saúde, está bem?!
-Obrigada! – Sorri fraco e acompanhei o médico saindo do quarto com o olhar.
-Thomas sabia da gravidez? – Me vi perguntando encarando o teto.
Silêncio.
-Por favor, Giu...ele sabia?! – Perguntei novamente sentindo as lágrimas queimarem em meus olhos.
-Sinceramente?! – Ela prendeu a respiração. – Eu não sei...eu só vi ele indo embora com algumas malas, não investiguei o que ele sabia ou não.
-Tudo bem... – Limpei a lágrima teimosa. – Vou ter um bebê. – Sorri chorosa.
-Pretende contar para ele?! – Giulia questionou.
-Ainda não sei, preciso ver com o médico antes, preciso que ele me diga se Thomas já sabia ou não. – Fechei os olhos me ajeitando na cama.
-Okay...vou resolver algumas coisas e volto mais tarde para te buscar, está bem?! – Ela segurou minha mão em sinal de força.
-Está bem, vou dormir um pouco. – Sorri grata.
-Faça isso. – Devolveu o sorriso e saiu.
Respirei fundo pela primeira vez, eu estava completamente sozinha naquele quarto de hospital e não tinha ideia do que faria dali para frente. Tudo era novo demais, recente demais, em um dia eu perdia o cara que eu amava por um mal entendido e no outro eu descobria que estava grávida dele.
Acariciei a minha barriga e suspirei. Um ser humano estava sendo gerado ali, fruto dos meus sentimentos por Thomas e vice e versa. Confesso que fui pega de surpresa, esperava qualquer coisa, menos uma gravidez.
Eu estava feliz, juro que estava. Mas não posso dizer que não sentia um vazio terrível em meu peito, eu queria que Thomas estivesse ali, queria poder compartilhar a alegria da dádiva de conceber um filho dele com o próprio. Mas dadas as circunstâncias aquilo não seria possível.
Ajeitei-me um pouco mais para descansar mais um pouco, quando a porta do meu quarto é aberta.
-Desculpe se te assustei. – Sebastian havia voltado. – Já estou com a sua alta pronta e depois de fazer mais alguns exames estará liberada.
-Tudo bem, obrigada! – Sorri gentil.
Ele se virou preparando-se para sair do quarto quando eu o impedi.
-Espere! – Falei de supetão. – Sabe se um homem alto, cabelos castanhos, barba por fazer esteve aqui procurando por mim?!
O médico colocou a mão no queixo e tentou puxar da memória alguém que batesse com a minha descrição, até que por fim soltou:
-Seu noivo, certo?!
Estremeci com a palavra noivo. Não tinha tanta certeza se aquilo ainda se aplicava.
-Sim, meu noivo. – Sorri amarelo.
-Ah sim, ele esteve aqui, ficou um pouco chocado com a descoberta da paternidade, mas parecia feliz, eu acho. – Deu de ombros. – Agora se me dê licença, vou visitar os outros pacientes.
-Claro, obrigada. – Acenei fracamente.
Ele esteve aqui.
Ele esteve aqui e não fez nada.
Era quase impossível conter as lágrimas, eu queria gritar, me descabelar, e me encolher a ponto de caber em uma caixinha qualquer.
Uma ferida havia acabado de ser aberta e sangrava, eu me sentia totalmente sem chão, sem esperanças de que aquele pesadelo acabasse. Conhecia o homem com a qual eu me casaria, ou eu pensava que conhecia.
Deixei que a dor do momento preenchesse o vazio do meu peito e me permiti fechar os olhos com o intuito de sair daquela realidade arrasadora.
(...)
Thomas King
Não foi fácil deixar aquele hospital. Muito menos depois de saber que eu iria ser pai. Me sinto um monstro, um idiota, um troglodita por ter feito isso, mas tudo era muito novo para mim, eu não sabia o que pensar.
Três semanas...
Victória estava grávida de três semanas e nunca percebemos isso. Eu poderia estar com ela agora, comemorando e fazendo planos para o nosso primeiro filho, mas eu não conseguia olhar nos olhos dela e esquecer a foto que eu recebi no dia anterior. Como eu disse, ainda era muito recente e aquilo estava me deixando extremamente confuso.
Eu já me encontrava no avião, voltaria para o Brasil e tentaria organizar minha cabeça, se eu ficasse em Roma provavelmente compraria uma briga grande com o tal Derek Morgan e não iria ajudar muito.
Recostei-me na poltrona e fechei um pouco os olhos preocupando-me em apenas respirar fundo enquanto tentava desligar meus pensamentos.
-Que mundo pequeno... – Uma voz feminina soou em meus ouvidos.
-Alicia? – Perguntei surpresa.
-Como vai docinho? – Ela se sentou ao meu lado.
-Depende do que você entende por bem... – Soltei o ar.
-Como disse? – Ela se ajeitou na poltrona.
-Nada, o que faz por aqui? – Me vi perguntando.
-Tenho negócios aqui em Roma, sou arquiteta, lembra?! – Sorriu de lado. – Mal voltei para o escritório e recebi uma ligação da minha filial no Brasil, logo estou voltando para lá a fim de resolver essas pendências.
-Entendo... – Sorri fracamente.
-Mas e você? O que faz perdido na cidade mais romântica do mundo? – Questionou curiosa.
-Vim resolver alguns problemas, só isso. – Não entrei em detalhes.
-E como vai seu, hum, namoro com aquela ex aluna? – Ela parecia estar escolhendo as palavras certas.
Pensei um pouco sobre aquilo, não me sentia muito confortável com o rumo que aquela conversa estava tomando, e acho que ela percebeu.
-Desculpe, acho que fui enxerida demais, certo?! – Ela se recompôs e eu agradeci mentalmente por isso.
-Não é nada, acho que só preciso descansar um pouco. – Inventei.
-Certo...também preciso. – Respondeu.
Trocamos um sorriso amarelo e fechei os olhos fingindo estar em outra dimensão.
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