Capítulo 11 - Uma noite de cão
Victória Walker
Perdi totalmente a noção do tempo. Os minutos passaram, horas...talvez, e eu ainda continuava ali, sentada de costas para a porta, abraçando meus joelhos com certa dificuldade por conta da barriga que já tinha volume. As lágrimas já haviam secado, minha cabeça doía e eu praguejei internamente por ter passado por aquilo, qual era o problema do universo? Porque ele sempre arruma um jeito de me derrubar quando eu finalmente me encontro novamente?
Fechei os olhos com força e abaixei a cabeça. Escutei um barulho de passos se aproximando de forma vagarosa e eu sabia perfeitamente quem era.
—Não vou perguntar se está bem sendo que é evidente que não. – Derek sentou-se ao meu lado encarando o nada.
—O tempo todo foi ela. – Foi o que saiu dos meus lábios.
—Como assim era ela o tempo todo? – Derek ainda não me olhava nos olhos.
—Alicia adulterou meus alimentos, ela quase matou a mim e a minha filha. – Suspirei derrotada.
—Está falando sério? – Finalmente ele se virou para mim.
Assenti.
—Sempre soube que havia algo de ruim nela, algo vazio. Nunca vi Alicia com algum cara, estava sempre obcecada com trabalho e mais algumas outras coisas que eu nunca me atrevi a questionar. – Seus olhos estavam vermelhos, denunciando o choro.
—Você chorou. – Eu vaguei por suas feições.
—Não importa... – Ele fugiu do meu olhar.
—Derek...eu sei como soa, Thomas ter voltado não muda nada, não vou voltar correndo para os braços dele como uma garota idiota, eu já passei dessa fase, amadureci durante esses meses e acho que no fundo você sabe disso. – Respirei fundo.
—Eu sei que você não vai voltar pra ele de imediato, mas eu sei como as coisas terminam,Vick, eu sei como ele consegue exercer um poder sobre você e não te culpo por isso, eu só não quero alimentar certas coisas com você pra depois você me tirar o chão como foi a última vez. – Ele me olhou como se uma faca estivesse sendo cravada no seu peito.
—Eu te fiz sofrer demais, não é mesmo? – Sorri com amargura. – Talvez tenha sido um erro te envolver nisso tudo, compreendo perfeitamente seu medo e sua falta de descrença em mim, eu caí uma vez a quatro anos atrás, e posso ter te perdido naquela hora, mas se estamos aqui de novo é sinal de alguma coisa naquela época foi feita de forma errada.
—O que exatamente você está me dizendo? – Derek parecia estar curioso ao voltar-se para mim.
—Quando o Thomas estava aqui na minha frente, eu não conseguia imaginar as mesmas coisas que antes, quando nos separamos pela primeira vez eu fiquei totalmente perdida e era você quem estava lá para me ajudar a levantar novamente, e mesmo assim, eu resolvi acreditar em outra pessoa e te deixei partir. Hoje, quando eu olho para as coisas que eu fiz, para as minhas atitudes, meus erros e meus acertos, eu vejo que sempre meu caminho cruza com o seu. Eu queria poder deixar de acreditar em destino e essas coisas, mas os acasos, as circunstâncias, me impedem de fazer tal coisa. Eu gosto de você Derek, sempre gostei, eu não vou dizer que te amo, não agora, mas posso te garantir que o que eu tenho nutrido por você é tão forte quanto o amor que eu jurava sentir por Thomas. – Desabafei segurando suas mãos. – Não vou te perder de novo, não dessa vez.
—Você não vai me perder, e eu já te disse isso, desculpa por parecer um completo adolescente idiota perto de você, mas acho que você entende que o problema não está em você me perder e sim eu te perder. As vezes eu até mesmo esqueço que a Kath não é minha e agora com o King de volta, não sei como vão ser as coisas. – Suspirou derrotado.
—Pare de pensar no Thomas, Derek, ele estar aqui ou no Brasil é a mesma coisa, não vou deixar ele chegar perto de mim de novo, não posso dizer o mesmo da Katherine porque ele pode muito bem pedir a guarda dela se eu me recusar a compartilhar com ele, pretendo tratar com ele somente o necessário e em casos necessários, está bem? – Segurei seu rosto delicadamente.
—Tudo bem, posso conviver com isso. – Ele sorriu e eu acompanhei. – A propósito, ofereci ficar com a Emma hoje a noite para que o Noah pudesse sair um pouco e distrai-se a cabeça, acha que fiz bem?
—Claro, não vejo problema algum, seu irmão realmente precisa sair um pouco, nem que seja para ir na esquina tomar um café, sair um pouco da rotina de pai que ele tem é necessário as vezes. – Dei de ombros.
—Então acho que temos uma missão hoje, pronta pra treinar suas habilidades de mãe? – Derek me olhou divertido.
—Com certeza. – Ri nasalmente. – E você? Pronto para aflorar suas habilidades de pai? –
—Claro! Nasci pra isso! – Derek falou sem ao menos perceber que iria se arrepender horas depois.
Derek Morgan
Na noite de hoje vou ensinar duas coisas a vocês, meros mortais. A primeira coisa é: se você tem um irmão gêmeo que possui uma filha, pense duas vezes antes de oferecer ficar com a rebenta dele. Segunda coisa: se por ventura você ofereceu ficar com a criança, deixe preparado um kit de primeiros socorros para adultos que incluam tampões de ouvido, remédios para dor de cabeça, máscara de oxigênio e muita, mas muita paciência.
Não é como se eu fosse algum tipo de monstro que agrediria sua própria sobrinha fofa, mas eu confesso que estava quase cometendo suicídio depois da quinta sessão de choro que minha amada Emma soltara.
—Quer me dar ela? – Vick sentou-se ao meu lado no sofá enquanto Emma puxava meus cabelos aos berros.
—Por favor. – Reprimi uma careta ao sentir um puxão forte.
Vick prendeu os cabelos em um rabo de cavalo bem alto e ajeitou o casaco de seda no corpo, estendeu os braços para minha sobrinha viking. Emma a olhou de soslaio e foi de encontro ao seu abraço sem parar de chorar.
—Pronto, titia Vick vai ver o que está te deixando irritada pequena viking. – Victória embalava Emma que agora soltava apenas alguns soluços baixos.
Como ela conseguia?!
—Acho que a fralda dela está cheia...é uma boa hora para nós dois praticarmos certas atividades, o que acha? – Vick me olhou divertida.
—Tenho mesmo que fazer isso? – Olho para minha sobrinha que arregala os olhos.
—Ninguém mandou você inventar de ficar com ela enquanto o Noah se diverte. – Vick deu de ombros.
—Mas a senhorita concordou, logo, não coloque a culpa toda em mim. – Me defendi.
—Só vamos logo trocá-la, isso está realmente um estado de calamidade. – Vick levantou-se indo em direção ao quarto de Emma.
Segui as duas engolindo seco. Já vi Noah a trocando diversas vezes e devo dizer, na maioria delas Emma sempre dava um jeito de fazer alguma traquinagem com meu irmão que em 90% das ocorrências, tinha que tomar banho ou lavar a cara depois.
—Tudo bem, vamos cuidar de você. – Vick depositou Emma no trocador e colocou as mãos na cintura mordendo o lábio inferior.
—O que foi? – Perguntei notando o suor frio que descia pela testa de Vick.
—Trocar bonecos é uma coisa, criança de verdade é outra. – Suspirou.
—Está com medo? – A olhei divertida. – Vejam só, a menina 100% mãe do ano está com medo de trocar uma criança indefesa.
—Se você acha tão fácil assim, faça as honras. – Ela me cedeu um espaço inclinando o corpo para o lado.
Revirei os olhos e focalizei meus olhos nos de Emma. Um serzinho tão pequeno e fofo daquele não deveria dar tanto trabalho assim. Além do mais é só uma fralda cheia de uma coisa fedida, não é mesmo?! Isso.
Com cuidado, abri as abas da fralda e respirei fundo antes de revelar a bomba relógio que estava pulsando abaixo das minhas mãos. Estava tudo indo muito bem, Emma estava quieta e me olhava como se já estivesse me pedindo desculpas de alguma coisa que ela ainda não havia chegado a fazer.
—Derek...Emma já fez essa cara antes com seu irmão, e o resultando não foi muito bom. – Vick deu um passo para trás levantando as mãos em sinal de proteção.
Contudo, antes mesmo que eu pudesse sequer pensar em reagir, minha sobrinha soltou um belo e sonoro pum na minha cara. Se não bastasse o fedor, eu tinha quase 99% de certeza que alguns resquícios de seu presente estavam em minha cara. Ainda de olhos fechados, pude ouvir a risada divertida de Emma e a tentativa falha de Vick em segurar o riso.
—Isso não tem graça. – Virei-me para ela tateando até encontrar um pano.
—Você literalmente está todo cagado. – Vick gargalhou.
—Você acha isso bonito? – Arqueei uma sobrancelha. – Sua vez de terminar o serviço.
—Tudo bem, vai?! – Ela relaxou os ombros. – Vá tomar um banho, eu termino isso aqui.
Ameacei a lhe dar um beijo e Vick fez apenas um sinal de "nem pensar" indo limpar minha sobrinha.
(...)
Victória Walker
Derek dirigiu-se ao banheiro e eu me concentrei a prestar o meu melhor trocando as fraldas da mini Noah. Emma e eu tínhamos uma relação boa, ela parecia gostar de mim e eu não vou negar que adoro essa baixinha.
—Você foi má com seu tio, sabia? – Falei com ela mesmo sabendo que não obteria resposta. – Mas vou confessar uma coisa você, e tem que ficar só entre nós, hein?! Eu achei hilário, toca aqui.
De forma delicada, peguei o bracinho gordinho de Emma e bati na sua mãozinha lhe arrancando uma risada gostosa. Para as pessoas de fora, isso que eu vou dizer pode parecer uma bobagem, mas sabe quando você olha para uma criança e automaticamente sente a vontade louca de ter a sua nos braços? Pois bem, essa era a sensação. Olhando para a pequena viking eu imagina o momento em que seria Katherine ali, me dando uma gargalhada gostosa daquelas.
Suspirei pesadamente e peguei Emma em meus braços nos guiando para a sala. Sentei-me com ela no tapete e comecei a dar alguns brinquedos para ela que parecia já estar entediada com suas opções de distração. E como eu já previa, logo ela abriu o berreiro e chorou, chorou, chorou e eu quase a acompanhei de tanto desespero. Contudo, uma luzinha pareceu acender em minha cabeça e eu me lembrei perfeitamente de como acalmar a rebenta do Noah.
Mais que depressa peguei meu iphone 7 novinho e entreguei nas pequenas mãos gorduchas da garotinha. O choro cessou na mesma hora e logo a tela do celular já estava toda encharcada de baba. Respirei aliviada e acariciei minha barriga.
—Será que você vai me dar trabalho assim? – Falei com a minha bebê que, pela primeira vez em cinco meses, demonstrou um sinal de vida mais forte.
Sorri abobada curtindo aquele momento intimo com minha pequena Kath. Por uns instantes esqueci completamente do pequeno ser humano ao meu lado e aquele foi meu maior erro. Foi tudo em questão de segundos, em uma hora Emma estava mordendo meu celular e na outra ela estava o tampando do outro lado da sala indo de encontro a parede de concreto.
—Emma, não! – Gritei mas já era tarde demais. – Merda!
—Me-me... – Ela ameaçou a repetir.
—Não, por favor não repita isso senão seu pai vai me matar. – Peguei-a no colo que já voltava a chorar.
—O que aconteceu aqui? – Derek surgiu no encosto da porta secando os cabelos.
—Emma acabou de detonar meu celular. – Ninei a garotinha que parecia gritar ainda mais alto. – Calma bebê, está com fome?
—Vou pegar uma mamadeira para ela, espere aqui. – Derek sumiu na cozinha e eu fui catar os restos mortais do meu aparelho de telefone.
—Seu pai vai ter que me dar um telefone novo. – Balancei a pequena em meus braços.
—Pronto, aqui está! – Derek surgiu vitorioso com a mamadeira nas mãos. – Quer me dar ela um pouco? Creio que agora estou protegido contra os bombardeios de pum.
—Vai com o titio. – Transferi Emma para o colo de Derek e a mesma não reprimiu em chorar mais. – Não tenho tanta certeza se ela de fato está com fome, eu sei que não tem nem uma hora que estamos com ela, mas não acha mais sensato ligarmos para o Noah? Quer dizer, ele conhece a filha, sabe do que ela precisa.
—Não sei...eu ofereci ficar com ela justamente para que ele pudesse se divertir. – Derek tentava oferecer o bico da mamadeira para a sobrinha enquanto ela recusava aos berros. – Ele na certa vai ficar preocupado se ver uma ligação minha, devemos continuar tentando acalmá-la.
—Mas de que jeito, Derek? Nós já trocamos a fralda, já demos coisas para ela brincar, demos colo, tentamos fazer ela rir e agora tentamos dar leite para ela, e mesmo assim ela não parou de chorar. – Argumentei sentando-me na poltrona, minhas costas estavam me matando.
—Não sei não... – Derek relutou um pouco.
—Ela está tentando arrancar seu ombro, Derek, precisamos urgentemente de uma solução antes que ela vire uma criança canibal. – Apontei para o ataque enfurecido de Emma nos ombros do tio.
—Okay, você venceu, segura ela pra mim, vou ligar para o Noah. – Derek me passou Emma e pegou o celular.
Esperamos cerca de cinco minutos antes que, finalmente, Noah atende o telefone.
(...)
—Ela está muito brava, está tentando me comer, eu não estou brincando, ela estava me mordendo e chorando. – Derek falou passando a mão nos cabelos.
Noah respondeu alguma coisa e Derek desligou o telefone logo em seguida.
—Ele disse que tem uma pomada na cômoda e que temos que passar na gengiva dela...ao que tudo indica os dentinhos dela estão crescendo, e como eu tenho barba, ele pediu para que você desse seu queixo para ela. – Derek deu as instruções.
—Tudo bem. – Dei de ombros. – Você gosta de queixos, Emma?! Prova um pouco do meu.
Inclinei meu rosto para a garotinha que aceitou de bom grado. Logo sua boquinha nervosa já atacava meu queixo com força, mas ainda assim me fazendo sentir cócegas e consequentemente me provocando alguns risos.
Dentro do quarto, Derek gritou alguma coisa sobre o irmão estar tirando as teias de aranha do órgão genital dele, e eu claro, não perdi a oportunidade de implicar com o cabeçudo e mandá-lo se prevenir.
Aos poucos Emma foi se acalmando até por fim, deixar-se entregar pelo sono que parecia ser maior agora.
—Pronto, cheguei. – Derek surgiu em minha frente segurando a pomada.
—Sem chance de passar isso nela agora, deixe que ela tenha uma noite de sono em paz e que nós também tenhamos. – Apontei para a neném em meus braços.
—Você leva jeito, sabia? – Derek sentou-se de frente pra mim no tapete.
—Não vou negar que fiquei um pouco assustada em passar esse tempo com uma criança como ela, mas é aquele ditado, não é?! Filho dos outros ficam muito mais fofinhos com os outros. – Ri baixinho.
—Você vai se sair bem como mãe, tenho certeza disso. – Derek acariciou minha mão. – Porque não vamos para o quarto com a Emma? Daqui a pouco seu braço vai ficar dormente.
—Boa ideia. – Levantei-me com cuidado e seguimos para o quarto de Derek.
Cautelosamente nos deitamos com a pequena no meio de nós dois e ficamos nos encarando por algum tempo.
—Aconteceu uma coisa muito importante hoje. – Sussurrei.
—O que? – Derek inclinou-se um pouco mais.
—Kath se mexeu... – Eu podia sentir o calor do momento atravessando meus pensamentos.
—Sério? – Derek abriu um sorriso. – Será que eu posso? – Fez menção de tocar meu ventre.
—Claro. – Sorri prontamente.
Derek passou o braço por baixo de Emma e repousou sua mão carinhosamente em meu ventre, resultando em uma nova mexidinha.
—Uau...ela mexeu. – Ele sorriu abobado.
—Sim!! – Eu já sentia as lágrimas de emoção rolando em minha face.
—Logo, logo ela estará conosco e você poderá segurá-la em seus braços. – Derek entrelaçou nossos dedos.
—É tudo o que eu mais quero, nós três juntos. – Encarei seus olhos castanhos.
—Sempre.
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