Capítulo 1 Baile
Aquela manhã iniciou-se com um céu nublado sobre a pequena cidade, dezenas de pessoas nas ruas, agentes das forças nacionais batendo na lustrosa porta da residência mais cara da região, o objetivo, a filha intermediária da casa Saint'Ana. Um palanque a aguardava no centro da cidade, um julgamento que não poderia ser impedido por seu pai e que o amor da sua vida a havia condenado.
Lágrimas escorriam por sua face e perguntas enxurravam sua mente, entre todas, a que mais a perturbava, era como poderia ter chegado aquele ponto. Sua família toda estava em perigo graças as suas ações e elas haviam sido consequências daquele fatídico dia.
Seis meses antes o Duque de Amarantes chegou à cidade e com ele, sua guarda pessoal, mais especificamente, o cavaleiro de Melro. O Duque atraia a atenção de todos por onde sua comitiva passava, para ela, suas irmãs e o pai não era diferente.
A casa Saint'Ana era uma das mais proeminentes de todos as colônias, talvez até mesmo do Reino, isso garantia a família um dos três melhores status da região e o próprio Rei Guilherme havia entregado o controle daquelas terras da colônia à eles. Mesmo que um conde sonhar em casar uma de suas duas filhas menores com um duque ainda fosse um sonho que dificilmente haveria possibilidade de se realizar, pois lhes faltava muito prestígio. Um sonho que poderia restaurar o título de duque que havia se perdido há três gerações.
O Duque tirava suspiros da irmã caçula da casa, mesmo sendo a mais nova, já possuía idade para se casar, a intermediária não derretia-se como todas as outras mulheres da colônia, mesmo que destacar-se logo dentre as demais poderia lhe garantir o melhor casamento que fosse possível na região, mesmo o pretendente não se tratado de nenhum príncipe.
Todos no Reino poderia dizer que a mesma estivesse louca, como poderia não interessar-se por um casamento com um homem rico e belo? Mas a jovem simplesmente responderia que isso não teria real valor para sua felicidade, mesmo que não soubesse definir quais outras coisas poderiam e todos os outros de seu tempo preferindo agarra-se a uma vida de conforto e abrir mão de ideais inalcançáveis, como a felicidade e liberdade.
A comitiva terminou em frente a mansão Richsmont, a mesma estava inabitada desde antes do atual duque nascer e era uma das propriedades que herdaria de seu pai após casar-se e assumir como o líder de sua dinastia.
Assim que o último cavaleiro da guarda do Duque entrou na mansão e as portas se fecharam, o evento terminou e aos poucos todos se dispersaram.
A família Saint'Ana se retirou, mas sendo a responsável pela Colônia, logo eventos envolvendo a família e o conde seriam organizados e a presenças dos membros mais jovens da família eram obrigatórios, eventos que deveriam ser usados para as mesmas se destacarem entre todas as outras jovens. Mesmo que a irmã do meio não tivesse pretensão de seguir por esse caminho.
Kate, a mais nova, embora não tivesse tido contato nenhum com o Duque, dizia-se completamente apaixonada, mal sabia o que é o amor. Quem dera os jovens estivessem certos e fosse como pensam que é.
Durante o percurso para casa Fabiana, a irmã do meio buscou manter-se distraída ouvindo a conversa da irmã enquanto olhava para a roda da carroça que deslizava sob o caminho recém pavimentado. Pensar em toda a politica que os velhos parlamentares estavam desenvolvendo para a cidade era uma ótima esquiva para os olhares de reprovação de seu pai e ao mesmo tempo mantinha sua mente focada em algo para a viagem ser menos extenuante do que havia sido até então, a mesma podia até mesmo ouvir os sermões de seu pai quando ela rejeita-se formalmente a intenção dele casá-la com o Duque e empurrasse abertamente sua irmã mais nova para os braços dele, assim como havia feito com todos os outros pretendentes que se puseram a declarar qualquer intenção à ela ou seu pai e afortunadamente a mais nova jamais recusava.
Quando Kate casasse, ela não conseguiria mais fugir do matrimonio, exceto optando pela castidade e a vida no convento também não lhe agradava. Por que sua família, com atenção ao seu pai, não podia simplesmente aceitar sua vontade? Ela possuía mais capacidade para administrar os negócios de seu pai do que qualquer homem da Colônia ou do Reino.
Quando chegou em casa, a irmã mais nova foi praticar seus dotes no piano, uma das muitas práticas que não agradava Fabiana que precisava manter com frequência por exigência da sociedade em que estava presa. Trocaria a vida na cidade pela do campo se pudesse, as aulas de comportamento pelo convívio dos animais em uma fazenda, a etiqueta tão regrada pela possibilidade de subir em uma árvore ou banhar-se em um rio em um dia ensolarado. Qualquer um a chamaria de louca se ouvisse seus devaneios.
Querendo evitar a continuação da chata conversa que teve com seu pai pela manhã sobre não perder essa oportunidade de conseguir o Duque como marido, decidiu procurar o padre Aloísio, o mesmo lhe ensinara gramatica, teologia e artes na juventude e auxiliava a família há duas gerações. Mesmo que ela não possuísse mais idade para as aulas dele, seu pai não a perturbaria se estivesse estudando e com o senhor, poderia aprender muito mais do que ele era instruído a ensiná-la.
Nas aulas do padre podia aprender sobre os feitos dos homens que viveram antes dela, guerreiros e reis que pareciam fantasia, aprendia sobre as estrelas, fenômenos da natureza e o estudo do comportamento do homem que o senhor estava desenvolvendo. Eram conhecimentos que o padre havia adquirido em sua vida no monastério reescrevendo livros profanos, mas os mesmos possuíam tanto conhecimento que era um crime contra a humanidade não distribuí-los entre o povo, mesmo que de forma sigilosa e a excomunhão sendo seu destino caso fosse descoberto.
A semana passou-se sem grandes mudanças sobre a pacata cidadela da Colônia, todos ainda falavam sobre o Duque, era a maior novidade no ano e não poderiam esperar por algo maior que isso.
Naquela manhã, Harold, o membro mais velho dos Saint'Ana chegou em casa noticiando que o duque daria uma festa a fantasia e suas filhas, assim como ele estariam presentes. Todos da alta sociedade estaria presente e seria muito oportuno para ser o estopim do casamento de suas duas filhas mais novas.
Fabiana recebeu a notícia com pesar, sabia que odiaria a festa, queria poder ir, comer doces de festas, conversar com a única amiga e ouvir música, mas sabia que teria de dançar e muito provavelmente com mais de um parceiro de dança, todos os solteiros que possuísse alguma pretensão de conquistá-la com um sorriso comum e uma conversa ensaiada mil vezes.
Os preparos para a festa já pareciam lhe torturar, duas criadas lhe colocavam um espartilho enquanto o pai do outro lado do biombo ditava como ela deveria se comportar.
— Eu quero que essa noite seja perfeita minha filha, se tudo correr bem, como deve correr, até a primavera teremos um casamento. — dizia o pai, aos olhos da jovem a ideia parecia horrenda, mas sua opinião não possuía valor e não haveria barganha. — Sua idade para tal está se esgotando e eu já fui muito tolerante com suas rebeldias.
A mesma permaneceu calada, nada que pudesse falar iria ajudá-la, naquele momento, apenas iria estender o monólogo de seu pai e isso era o que mais queria evitar.
A lua se destacava no céu, imponente, seu brilho azulado banhava a cidade que se encontrava mais movimentada do que era de costume e na terra, a beleza dos Saint'Ana se destacava, não eram apenas abençoados com riqueza e a graça do Rei, mas também com a beleza. Os cabelos de Fabiana caiam-lhe sobre os ombros nus, os olhos negros destacados pela maquiagem modesta, porém disposta de forma ideal, um dos seus melhores vestidos de festa e os caros acessórios finalizavam a aparência digna da mais bela princesa dos contos populares.
Chegaram a mansão do Duque quando a maioria dos convidados já estavam presentes, dentre as virtudes da família, a pontualidade não era uma delas, mas não sendo os anfitriões, pouco importava a hora de sua chegada desde que o baile ainda não havia começado. A segurança no local havia sido reforçada e os soldados eram os únicos que não portavam máscaras.
Todas as pessoas proeminentes da cidade se reuniam naquele ponto, os Ávilas, fazendeiros de maior riqueza foram os primeiros que Harold cumprimentou e por cortesia Fabiana e a irmã fez o mesmo com o senhor, sua jovem segunda esposa e seu filho, Dário Di Ávilas havia visto as filhas de Harold crescer, tendo-os como parceiros de negócios, era impossível que não se vissem com uma frequência maior do que ela poderia desejar e sabia que em algum momento daquela noite teria que dançar com ele mesmo que odiasse seu comportamento sempre tão arrogante e mimado, era a imagem perfeita de um aristocrata, a imagem que ela devia representar, mas que repudiava.
Giulia surgiu para livrá-la da presença de Dário, a amiga segurou em seu braço e a arrastou dali.
— Obrigado. — falou destacando cada sílaba para dar a maior ênfase possível, sentia que seria eternamente grata a amiga.
— Quem deixaria a amiga perder tempo com o Dário, tendo o Duque no mesmo local? Veja... — disse mostrando o torso da mão.
— O que era para eu ver? — Estavam caminhando para o salão central, onde havia a escadaria para o piso superior e onde a festa realmente estava ocorrendo.
— O Duque beijou minha mão, nunca mais vou lavá-la. — o sorriso estamapava-lhe a cara como se tivesse sido moldado por um escultor.
— Uma hora vai ter que lavá-la ou vai apodrecer e cair.
Não houve tempo para elas conversarem, não podiam se reunir por cinco minutos sem que surgisse alguém para tirá-la para dançar e ela tinha que interromper a conversa com a amiga.
Em todas as danças, seus companheiros puxavam diferentes tipos de assunto, mas ela não abri muito espaço para conversar, não chegava a ser rude, mas os rapazes mais atentos percebiam e se afastavam assim que a música terminava.
Fabiana podia enxergar claramente a intenção deles, só podia ser de duas naturezas, financeira ou luxuriosa e esses eram atributos que ela possuía mais do que qualquer um naquele salão e todos sabiam disso. Podia estar cometendo um ato ultrajante, mas as vezes preferia ter nascido camponesa.
Aproximando-se das dez da noite o Dário se dirigiu até ela, não sendo uma garota inocente como as demais ao seu redor, ela pôs-se a caminhar, a noite toda evitou as investidas dos homens presentes, mas agora qualquer um poderia a tirar para dançar, menos ele, era o pior de todos
Fugindo de seu odiado aristocrata a jovem deparou-se com o Duque, o corpo dela encontrando-se com o dele, ele sorriu de modo a contrange-la de imediato, sorte era de que poucdesconhecido.
ua façanha vergonhosa.
— Aceita dançar comigo dama?
A jovem olhou para Dário, ele estava parado encarando os dois e tudo que podia fazer para fugir das investidas dele era aceitar a mão do Duque para mais uma dança acompanhada de uma conversa chata.
Mal não lhe faria dançar mais uma música com um desconhecido.
Ela aceitou o convite, a mão indo a seu ombro e a dela encontrando sua cintura sem malícia.
Seu pai havia os apresentando, mas não haviam trocado mais que comprimentos.
Se o pai os estivesse vendo naquele momento, devia estar comemorando, enquanto Kate e Giulia, ficariamm possessas de inverja, poucas eram as que atraiam a atenção do nobre e menos ainda que tiveram a chance de dançar com ele aquela noite, a maior parte do tempo, ele ficara entre homens discutindo política e economia. Na verdade esse era um assunto que ela escolheria debater, podia ficar horas falando desses assuntos, mas uma mulher entender sobre isso era um tabu grande demais para ela enfrentar sem estar prontamente armada.
Então, o tema da conversa começaria com o clima, como todas que tivera aquela noite. Como podiam conseguir alcançar o coração de uma mulher sendo tão superficiais? Ela não conseguia entender, talvez fosse por que todas sempre eram tão desesperadas por um casamento, provavelmente sem amor ou felicidade e certamente sem liberdade, mas não ela.
— Esta cidade é bela, lembra os condados costeiros do Reino, mas tem um charme próprio.
— Já esteve na Capital Real, Duque?
— Se já estive? Minha família possui uma cadeira no conselho do Rei, debatemos e decidimos todos os feitos do Reino.
— Então é o homem responsável pela administração? — disse ela com um tom de crítica, mas ele não percebeu, como poderia sem esperar que tal ato viesse de uma filha de um conde da Colônia.
— Um deles. - vangloriou-se sorrindo, se soubesse o que passava nos pensamentos de Fabiana, ele não riria.
— Que impressionante. — disse fingindo falsa admiração, sua real intenção, que lutava para ocultar, era debater por que foram cortados os gastos para a construção de uma ponte de pedra para substituir a de madeira que se encontrava em ruínas ou o por que de mandarem soldados em uma invasão a Mairen, que se saiu custosa demais, para uma expansão em terras inférteis e pobres de recursos, gerando ainda um confronto diplomático e arruinando as relações comerciais com os vizinhos.
— Sempre viveram na Colônia, senhorita?
Não, minha família tem origem no Ducado de Santana, não estranho se não o conhecer, viemos a mando do Rei criar um ponto de controle e aqui estamos.
Havia mais naquela história que ela contatara, mas o número de pessoas que conhecia os detalhes não precisava aumentar.
— Interessante, é a filha solteira mais velha de sua família e está em situação análoga a minha, então mesmo sendo uma dama, posso lhe dizer qual é minha missão aqui.
— E qual seria?
— É fazer o levantamento dos rendimentos da Colônia.
Então basicamente, é o coletor de impostos da coroa, isso não fazia dele un honem mais atraente como todos achavam, mas certamente o fazia mais rico do que seu título lhe assegurava.
— Isso é incrível. — qualquer um que lhe conhecesse o mínimo que fosse perceberia que sua entonação havia sido exagerada, ato próprio de uma mentira descabida.
Para a felicidade da dama a música parou significando o fim da dança, ambos se afastaram e Fabiana já sabia que jamais aceitaria ser mulher daquele homem, era tão fácil de ler aquilo que ele tentava esconder, era rico e elegante, mas as custas de pessoas pobres e caso tivesse algo ameaçado, mesmo que pela pessoa mais insignificante, se tornaria propenso a cometer os piores atos imagináveis para garantir a execução de seus planos ou manter seus bens. Não era libertino, mas quando contrariado, poderia ser pior que Dário.
Sendo de família nobre não poderia evitar um casamento oportuno por muito tempo, mas iria garantir que seria com a melhor pessoa que pudesse, ela escolheria, mesmo que sua família não quisesse e poderia não ter amor ou felicidade, mas certamente teria liberdade.
Quando o Duque não estava mais em seu campo de visão limpou a mão mo vestido, no lugar em que ele beijou, como podia ser sua amiga tão ingênua ao ponto de cair no jogo de conquista dele.
Fabiana olhou ao redor, o pai conversava com bancários, a irmã tocava piano no centro do salão, enquanto muitos homens a rodeavam, mas nenhum deles era o Duque, a ingênua era a perfeita representação da dama que aquela sociedade queria construir e ela era o oposto.
O relógio no centro da sala marcava vinte e três horas, sendo assim a festa não se estenderia muito mais. A jovem se dirigiu a mesa e pôs-se a comer os diversos doces que estavam perfeitamente distribuídos, a maioria intocado e assim iriam para o lixo enquanto o povo acordavam e dormiam famintos.
Se engordasse demais, o número de pessoas que olhavam para ela com interesse diminuiria, poderia ser vantajoso, mas o pai jamais aceitaria e um regime forçado não seria nada agradável.
Todos estavam distraídos demais para notar a ausência dela, então caminhou pela mansão, o grande salão abria espaço para uma sala mais reservada e esta para uma grande varanda.
A cidade vista daquele ponto era belíssima, havia muito verde no jardim da mansão, uma plantação é de flores com tulipas e as silvestres, flores a encantavam,ta udoindicavahavia conquibemstadpobreo nos poucos anos do regime de seu pai, mas mascarava a periferimea pobre ou os campos agrícolas afastados da cidade e dos próprio cara próprio trabalho daquele povo.
A lua estava linda, era noite de lua cheia e ela banhava aquela varanda como se a intenção fosse despedir seu brilho sobre Fabiana e com isso destacar sua beleza incomum.
— Madame... — disse uma voz masculina vindo de trás dela, a mesma sobressaltou-se e virou para encarar seu possível dalator.
Era um dos cavaleiros do Duque, vira ele entre a guarda pessoal quando estavam adentrando a cidade, um homem bem afeiçoado, alto e forte, não que devesse reparar na aparência da plebe e mesmo ela não costumava fazer isso.
— Estava apenas tomando um ar, é proibido ficar aqui? Desculpe, não quis ser atravida... — disse pondo-se a se retirar de volta ao salão.
— Não, não há nenhuma proibição formal. — A voz também era bonita, um charme que lembrava a elegância da nobreza, mas em seus olhos havia humildade.
— Então posso ficar um pouco mais?
— Se isso não for prejudicar sua saúde.
— Não vai. — disse sorrido, era o primeiro sorriso genuíno da noite.
Seus passos eram diferentes dos nobres e dos camponeses, era rígido, sempre pronto para agir, muito diferente do caminhar que estava acostumada, de forma pomposa como se estivesse desfilando ou aquela que presenciava entre os servos e o povo comum nas ruas, sempre apressados.
— Mas precisa me vigiar? — perguntou ela.
— Preciso garantir a segurança da dama.
— E se eu tentar saltar daqui na piscina no piso inferior? — perguntou em tom provocante.
— Terei que impedi-la, para seu próprio bem. — ele era tão sério.
— Meu bem seria poder sair dessa festa agora, me tire daqui cavaleiro. — pediu mudando do tom de brincadeira para de melancolia, costumava fazer drama para obter aquilo que desejava.
— Não posso fazer isso senhorita. — ela sabia que essa seria a resposta, era tão evidente quanto ler as ações dos aristocratas, mas isso era tudo que ela podia ler sobre aquele homem, seus olhos não transmitiam cobiça, nem suas palavras os desejos de seu corpo e nem os gestos expressam os pensamentos.
Uma vida militar talvez o transformara de uma forma que ela não estava habituada e com isso sentia-se mais a vontade para ser ela mesma.
— Então, me distraía. — disse se aproximando do parapeito da sacada e apoiando seu peso na estrutura.
— E como faria isso dama?
— Primeiro dizendo seu nome... É desrespeitoso perguntar o nome sem antes o dizer, Eu sou Fabiana. — disse sem usar o nome de família, qualquer que fosse a pessoa, por mínimo que fosse sua riqueza, burguês ou nobre, jamais deixaria de vangloriar-se do nome de família, era a maneira mais simples e uma das mais práticas para expor sua importância na sociedade e se impor sua autoridade sobre os demais.
— Armie, cavaleiro de Melro, ao seu dispor.
Disse a reverenciando, não para exibir seu título, mas por respeito.
— Então cavaleiro de Melro, seu título me diz que vem da capital real.
— Está certa, senhorita.
— E seu nome é por que vem de uma longa linhagem de guerreiros? — havia decepção em suas palavras, não estava falando com uma pessoa comum como achava até então.
— Na verdade não, sou o primeiro de carreira militar de minha família.
— Seu nome seria coincidência então? Significa guerreiro, não?
— Sim, sonhos de meu pai, entre o povo comum, o exército é a única forma de não trabalhar no campo... Me desculpe por citar isso, a vida da plebe não é de seu interesse.
— Se engana Armie. — disse usando seu nome pessoal e não o de família. — Como poderia não me interessar, é tão mais interessante que dos nobres.
Embora não tenha demonstrado, o pensamento de que ela estava sendo esnobe passou pelos pensamentos dele, tudo que o povo comum conhece é o trabalho e a fome, ela não poderia conhecer isso, então ele não podia julgá-la por interessar-se por essa vida apenas por ser diferente da dela.
— Já esteve na guerra? - perguntou ela, não admirava a guerra, era realmente contra, mas pensar nas pessoas fortes que passavam por isso e ainda sim conseguiam manter sua humanidade e sanidade era algo tentador.
— Estive, na batalha de Gramado na Colônia e em Monte Oliva.
A batalha do Monte Oliva havia ocorrido devido a uma invasão dos Bascos ao reino a fim de impedir seu avanço e a reconquista do território perdido e a batalha de Gramado havia sido uma revolta de alguns nobres Colonos, a queda deles e perda de seus títulos havia dado a sua família a oportunidade de serem os senhores daquelas terras.
— E como é a guerra?
— Nada gloriosa.
Mesmo falando de algo que marca profundamente uma pessoa, ele não demonstrava emoção. Não havia pesar e nem orgulho, ele vestia de forma perfeita a imagem de uma soldado.
Tudo estava tão calmo até então, era a quietude que precede algo ruim, ninguém havia previsto, ninguém notara que havia um empregado a mais na mansão e nem que o carrinho de bebidas havia sido largado no salão em meio aos convidados, não até ele explodir.
Um estrondo abalou todo o prédio e uma cortina de poeira foi levantada.
O cavaleiro agiu mais rápido que a dama, virou-se e caminhou em direção ao salão já sabendo o que havia ocorrido e que o Duque, quem ele devia proteger, poderia estar morto.
Fabiana o seguiu de perto, mesmo seus passos sendo mais vigorosos que os dela, logo o salão abriu-se e ela pode ver, ao menos conforme a poeira ia se assentando e revelando os feridos em meio aos escombros.
Não havia tanto sangue quanto ela esperou ver e nem tantas pessoas inconscientes, mas podia haver mortos entre eles, além de um princípio de incêndio, o que os colocava em risco.
Seu pai e a irmã foram seus primeiros pensamentos, pôs-se a procurá-los, primeiro a irmã, ela estava no segundo salão, ainda no piano a última vez que a vira.
Chegando no lugar o piano estava abandonado e intacto, então ela devia estar bem e entre as pessoas que deixara o prédio às pressas.
O pai também não estava à vista. Fabiana ainda o procurava quando ouviu um choro. O som baixo e um tanto estridente vinha de debaixo de uma mesa.
Ela se aproximou e puxou o mantel revelando uma garota encolhida, seus cabelos negros cobrinham-lhe o rosto molhado de lágrimas, certamente não possuia mais de dez anos e não deveria estar ali, devido principalmente a hora.
— Oi garotinha. — Foi ignoradam, então tentou novamente. — Está perdida? Vamos encontrar seus pais?
— Meus pais não estão aqui. — disse levantando o rosto, os olhos eram incrivelmente escuros e profundos, a fazia lembrar o oceano com toda sua imensidão e imponência.
— Então está acompanhada de quem?
— Meu irmão.
— Me chamo Fabiana, qual seu nome?
— Sofia. - disse ela, a garota estava assustada, mas não podia culpá-la, era assustador para os adultos, não poderia imaginar como era presenciar a explosão aos olhos de uma criança, ainda mais ser tirada de sua cama no meio da noite por um som alto e na sala principal encontrar pessoas aparentemente mortas, mesmo não tendo certeza se ela tinha passado por lá.
— Vem comigo. — disse estendendo a mão, a garota limpou as lágrimas nos pulsos e aceitou a ajuda. — Quem é seu irmão?
— Lúpin... o Duque. — completou percebendo que ela ainda não sabia de quem se tratava, de fato, sem o nome de família ou título, ficava difícil identificar alguém que não fosse próximo, mesmo entre conhecidos.
Sendo familiar do Duque, certamente o cavaleiro estava o procurando, mas o mais sensato era se retirar do prédio e foi o que destinou-se a fazer. Voltou ao salão principal, dentre as pessoas que estavam inconscientes agora havia apenas duas, os outros deviam ter sido retirados pelos guardas da mansão, o princípio de incêndio estava se expandindo lentamente, mas já possuía força considerável.
Havia três soldados no salão, eles não ajudavam os feridos e vinham das escadas para o piso superior, certamente estavam procurando o culpado ou pistas dele, foi o que pensou, no entanto estava errada.
Ela se dirigiu a saída, mas não chegou até ela.
— Espere dama. - chamou um dos soldados, ele vestia parcialmente uma armadura e esta parecia um tanto sucateada, diferente dos soldados da guarda do duque, mas como a inocência cega os ingênuos, ela não percebeu isso.
Fabiana deteve o passo, a garota segurava em sua mão, era quente e possuía um toque tênue, havia confiança por parte da garota e não é errado confiar, ela não possuia nenhuma pretensão, mas não foi capaz de perceber o perigo se aproximando ou iria correr por sua segurança e a da criança, mas não o fez.
— Sofia Richsmont? Ficamos com ela, estávamos a procurando. — disse o soldado, havia nervosismo em suas palavras, mas novamente passou despercebido.
— Acredito que levarão Sofia até o irmão fora da mansão, posso acompanhá-los até esse encontro?
— Qual seu nome Dama?
— Fabiana Saint'Ana.
Se ela soubesse o que estava para ocorrer teria omitido seu sobrenome assim como fez na conversa com Armie ou então teria mentido, pois os olhos do ambicioso homem à sua frente brilharam de entusiamo, a sorte certamente estava a seu favor, em um movimento de sorte havia dobrado a recompensa por aquela ação.
— Claro senhorita, vamos tirá-las daqui em segurança.
Ele sinalizou para outro soldado e todos colocaram-se a caminho da retirada, falaram que havia um bloqueia na porta principal e seria necessário um desvio.
Pegaram a saída a esquerda que dava para o jardim. Se fosse o caso, outros pessoas deveriam ter pego a mesma saída, contudo não havia ninguém mais ali.
Fabiana deteve-se onde estava, os soldados não as conduzia em direção a frente da mansão e já se encontravam do lado de fora, mas ela não teve tempo de exigir uma explicação, um punho fechado foi em direção ao seu abdômen.
O ar lhe escapou e a consciência também.
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