༆ XXVII
tô respostando o capítulo de ontem com algumas alterações, leiam as notas finais é importante
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Terminei de afivelar a adaga em minha coxa e prender as lâminas gêmeas nas costas. O traje de couro preto com verde reluzindo sob a luz amarelada das tochas. Olhei para Shelly que estava cabisbaixo deitado na cama. Ele estava assim desde que eu dissera que iria embora, mas eu vou levar ele junto. Não sabia por quanto tempo havia ficado preso, mas não queria lhe deixar sozinho de novo.
Hoje faziam exatos 30 dias desde minha partida, sabia que em nenhum momento as buscas por mim cessaram. Os ataques haviam diminuído, mas todos ainda estavam em alerta. A última semana foi reservada apenas para mim e quem eu sou. Quem eu quero ser. E eu já havia tomado uma decisão.
Eu havia levado a "faxina" da sala do trono de Amarantha muito a sério e acabei mudando algumas coisas, como a tintura, as luzes, os tronos. O salão não parecia o mesmo, ficou tão diferente. Foi de último momento, quando decidi treinar nele e acabei quase quebrando três pilastras e uma parede — que em minha defesa já estava quebrada. Então, pode ser, que eu tenha roubado o livro de vulpes do bolsão de magia e usado ele para modificar algumas coisas.
Era estranho pensar que um local que até hoje causa pesadelos nas pessoas se tornou um santuário pessoal para mim. Não apaga as coisas que Amarantha fez ali, eu evitei os quartos principais por isso. Queria poder consertar aquela parte da história, nem que apenas uma parte dela. Se alguém entrasse agora na sala do trono encontraria apenas um enorme salão vazio com cores claras. Se tivesse mais tempo iria fazer o mesmo com os corredores.
Conforme eu e Shelly passávamos as tochas atrás de nós iam se apagando. Não ia diretamente para a corte Diurna, primeiro quero ver minha mãe e Nyara, então vou para as terras humanas. Segurei Shelly assim que saímos e atravessei em frente dos portões. Me surpreendi ao ver alguns guardas por ali, e eles também. Acho que não esperavam me ver tão cedo.
Nem eu achava que iria ser tão simples. Certas coisas se resolvem com o tempo, não adianta forçar. Os guardas abriram os portões para mim e eu me detive. A luz da lua iluminando seus rostos.
— Eles estão aí? — Não precisei citar nomes, provavelmente todos já sabiam o motivo pelo qual eu havia ido embora.
— Não, senhora. Apenas Jurian e Vassa. — Franzi o cenho. Para onde Lucien havia ido? Contive um grunhido.
— Levaram elas para a corte, não foi? — Perguntei frustrada. Shelly estava começando a ficar agitado, comecei a fazer carinho nele. Os sentinelas pareceram so agora notar a criatura comigo e ficaram pálidos.
— Na semana passada. — Respirei fundo e endireitei as costas. Iria ao menos trocar algumas palavras com Jurian antes de sair, devo a ele um pedido de desculpas.
— Podem ficar de olho nele pra mim? — Pedi mostrando o grande grifo ao meu lado. Shelly não estava nem um pouco a vontade ali e me arrependi de ter trazido o mesmo comigo. Os sentinelas assentiram rápido meio assustados e joguei um beijinho para Shelly antes de ir até a porta da fortaleza.
Tive que bater duas vezes até que alguém aparecesse. Me surpreendi ao ver uma ruiva com olhos azuis vibrantes, sua beleza mortal era encantadora. Vassa, a rainha mortal que sofria com uma maldição. Mas que não parecia estar sofrendo nada pelos cabelos assanhados e lábios inchados, o rubor de suas bochechas me fez sorrir minimamente.
— Olá, sou Alyn, a irmã do Lucien. Posso falar com Jurian? — Eu disse educadamente. O sorriso nervoso que ela deu me fez prender a ponta do lábio com os dentes. Olhando por cima do ombro ela respondeu:
— Sou Vassa, amiga do seu irmao. Fique a vontade, vou avisar ele. — Assenti e entrei conforme ela deu espaço. Eu era um pouco mais alta que ela, quase nada. Sorri por dentro. A fêmea usava um vestido leve de verão que estava um pouco amassado. Assim que vi um Jurian desconcertado surgir pela soleira da sala cobri o sorriso malicioso com as mãos.
— Queria falar comigo? — Disse se sentando na poltrona de frente para o sofá onde estou sentada.
— Sim, gostaria de me desculpar por ter, sabe, te jogado na barreira magica. Eu estava um pouco estressada. E também gostaria de agradecer por ter acolhido meu irmão e minha mãe aqui, sei que mortais e féericos tem uma longa história de ódio. — Estendi o saco de moedas de ouro para o mesmo. Jurian olhou para minha mão estendida e depois para o meu rosto, impassível.
— Não preciso do seu ouro, não fiz isso para ganhar moedas. Lucien é tão dono daqui quanto eu, sua mãe é a mesma que a dele. — Disse secamente. Contive uma risadinha esperta.
— Sei que não, mas quero garantir que tenham como sair daqui caso algo ruim aconteça. Lucien já teve perdas demais. — Era verdade. Durante meus dias isolada tentei me colocar em seu lugar, não foi tão difícil. Não perdi ninguém que amava, mas vi de perto o quanto Fellius ainda sofria com a culpa e a dor da perda da esposa. Lucien amava Jesminda, e Beron a matou. Eu posso ter seu sangue, mas não estava na sua lista de prioridades.
E preciso garantir que ele não passe pelas mesmas coisas duas vezes, proteger as pessoas que ele ama. Meu irmão merece ser feliz.
— Por que? — Pisquei ao ouvir sua pergunta. Jurian me encarava curioso, parecendo nitidamente interessado em minha resposta. — Pelo que disse, Lucien te abandonou na corte outonal e permitiu que você fosse torturada por anos. Então, de repente, você foge e decide garantir que ele nunca mais seja infeliz? — Sabia que seria julgada assim que as palavras saírem da minha boca, não importa o que eu diga. Sorri triste.
— Lucien e eu somos muito parecidos, não só em aparência. Quero garantir que se algo acontecer vocês vão estar com ele. — Jurian pareceu olhar nas entrelinhas de minha fala, e assetiu. Estendi novamente o saquinho e dessa vez ele pegou.
— O que vai fazer, menina? — Me levantei e sorri minimamente para o homem. Jurian podia ser um babaca arrogante, mas cuidaria de Lucien, e isso já era mais do que eu poderia pedir.
— A coisa certa. Se vai dar certo? Eu não sei.
Saí da fortaleza e encontrei Shelly correndo pelas áreas de dentro dos muros. Jurian paralisou na porta de entrada.
— Onde você... — não concluiu sua pergunta. Ele parecia estar vendo um fantasma. Lhe encarei com uma careta.
— Conhece o Shelly? Vou precisar deixar ele por aqui — Perguntei sorrindo de lado. Ele me olhou e vi ódio gélido por trás das íris castanhas.
— Eu vi Amarantha arrancar as asas dele e jogar para os vermes. — Encarei Jurian com pesar, e desviei o olhar para Shelly. Só Deus sabe o que infernos esses dois passaram nas mãos daquela sádica.
— Sinto muito. — Minha voz saiu tão baixa que duvidei que tivesse escutado, mas o mortal apenas assentiu.
— Alyn, — Me virei novamente ao ouvir seu chamado. — Seja lá o que for fazer, pense bem nisso.
— Não se preocupe, já tive tempo suficiente para pensar.
[...]
Parei na porta do palácio de Helion, decidindo se estava ou não pronta. Minha mãe e Helion teriam reatado o antigo caso? Lucien já sabia? Não havia contado para ele. Disse que apenas que ele precisava conversar com nossa mãe e que eu não sabia de muito então mais atrapalharia do que ajudaria. Respirando fundo atravessei para a sala.
Me surpreendi ao ver que não havia ninguém ali além de Manch, que cochilava com uma almofada cobrindo o rosto. Me aproximei dele e cutuquei seu ombro.
— Darren, pelo amor da Mãe, me deixa dormir ao menos hoje. — Ergui uma sobrancelha para o tom cansado do macho e endireitei a postura.
— Pesadelos, Manch? — No mesmo momento o macho se sentou no sofá me encarando como se fosse um fantasma. Sorri minimamente.
— Ai minha nossa, é realmente você? Renard se tiver tentando enganar a gente de novo eu juro que arranco sua língua e enfio na sua... — Cortei suas palavras antes que se exaltasse ainda mais.
— Não sei o que Renard fez, mas me magoa saber que vocês me conhecem tão pouco ao achar que ele poderia ser eu. — Digo irônica e olho ao redor. — Onde está Keala?
— Sinceramente? Não sei, mamãe geralmente ficava na cozinha agora é raro a encontrar por lá. — Me perguntei a razão para o distanciamento da fêmea do seu cômodo favorito. Será que estava bem?
— E minha mãe? — Perguntei baixinho, sentindo um aperto no peito ao lembrar que nem ao menos lhe dei um "oi" antes de ir embora.
— Está com a grávida, essa se recusa a comer desde a fuga. — Disse sério. Isso é ruim, Nyara está grávida não pode parar de comer simplesmente, isso é egoísta demais até para ela.
— Onde?
— No seu quarto. — Respondeu cauteloso. Isso me fez ficar tensa. Helion havia colocado elas no mesmo quarto que eu estava antes? Porque? Quanto mais tempo passava aqui, mais perguntas sem resposta se formavam.
— Ótimo. — Respondi simples e saí em direção as escadas. Pude jurar que ao passar por uma porta entre aberta vi os cabelos de Fellius espalhados no chão, mas preferi – pelo meu próprio bem, — não entrar. Parei em frente a porta do meu antigo quarto, lembrando das vezes que eles dormiram ali comigo.
Como eles conseguiam dormir ao meu lado e mentir pra mim quando acordavam? Eles não sentiam culpa? Remorso? Eles realmente acreditavam que mentir era a solução? Exalei conforme bati duas vezes na porta.
Não demorou muito e a fêmea de cabelos vermelhos e olhos azuis iguais aos meus abrisse a porta. Seus olhos brilhantes se encheram de lágrimas e sua boca se abriu em choque. Minhas mãos estavam suadas e passei disfarçadamente nas coxas.
— Alyna. — Sua voz sempre baixa e gentil fez um canto de minha boca se erguer. Ignorei o fato de ter errado meu nome.
— Oi, Alaya. — Pude jurar que vi um brilho de tristeza em seus olhos. A mesma deu espaço para que entrasse e assim o fiz, vendo Nyara dormindo encolhida na cama, as mãos segurando a barriga ainda pequena. — Como ela está? — Perguntei sem me virar. Iria enrolar o máximo que puder.
— Péssima, não come nada. Odeia seus amigos por terem tirado ela de lá, de perto de Urie. — Me aproximei da cama e observei o rosto magro de minha cunhada. Grandes olheiras embaixo dos olhos e parecendo muito mais cansada do que antes. Não lembrava de como seus cabelos eram negros.
— Se eu estivesse lá teria soltado ele também. — Isso era óbvio. Conhecendo os três que foram, com certeza não se importaram em atender o pedido da fêmea, achando que estavam fazendo o que eu faria. Esse era o problema, eu faço as coisas pensando no futuro, eles fazem pensando no agora.
— Não tinha controle sobre isso. — Seu sussurro me fez sorrir sem querer. Eu tinha controle sobre algo em minha vida?
— Nada nunca esteve em meu controle, nem minha vida. — Respondi seca. Não me virei quando perguntei: — Quanto tempo faz? — Não precisei dizer nada, ela já sabia do que eu estava falando. Ouvi seu suspiro.
— Vamos conversar sobre isso, mas não aqui. — Lhe encarei séria e assenti. Me afastei e fui até a porta.
— Sei de um lugar que podemos conversar sem interrupções. — Abri a porta e deixei que ela saísse. Seguimos em silêncio pelos corredores, subindo as escadas até chegar no lugar que eu queria. Uma torre aberta que permitia a visão de toda a cidade e da montanha, ventilada e cheia com a luz do sol. Limpei o banco de pedra que tinha ali e me sentei, observando o sol quase se pondo.
— Minha família é da corte outonal e estava procurando mais alianças políticas, então Beron me propôs casamento. Demorei para aceitar, havia conhecido Helion no baile de equinócio do ano anterior, tinha esperança de que ele... — Se interrompeu. Não observei seu rosto. A gentileza de sua voz se foi, a raiva e mágoa dando lugar. — Duas décadas depois, Hybern começou a se fortalecer e invadir a corte. Eris, Urie e Ignner eram pequenos e Beron tentou espalhar nossa linhagem de sangue pela corte, porém deu errado e Hybern atacou a casa onde eu estava com suas tias. Elas me disseram para fugir, que ganhariam tempo para mim. — Estiquei a mão e segurei a mão frágil e com poucas cicatrizes de minha mãe. Sua voz estava embargada e baixa. — Elas foram dilaceradas pelas bestas. Eu fugi, mas acabei sendo encurralada pelas bestas. Helion me salvou.
— Foi quando começou? — Perguntei baixinho fazendo carinho em sua mão. Algumas lágrimas escorriam por seu rosto e não tentei imaginar o quanto havia doído perder as irmãs. Meu relacionamento com meus irmãos é horrível e não ligaria muito se algum deles –, talvez Lucien – morressem.
— Sim. Foram décadas terminando e reatando o caso, eu amava Helion. Beron acabou descobrindo sobre nós quando estava grávida de Lucien. Ele me torturou e humilhou de formas infelizmente já conhecidas por você. — As lembranças surgiram novamente e não doeu como antes, eram apenas cicatrizes ainda visíveis, mas não dolorosas. Mas foi o raciocínio que me fez lhe encarar imediatamente. Se ela esteve com Helion durante todo o casamento com Beron, as crianças... Não havia como saber quem é pai de quem. — Nós nunca deixamos de nos amar. Mas... — Sua voz foi interrompida pelo som de passos na escada. Me arrependi de não ter colocado uma barreira mágica nas escadas.
— Alaya! — Reconheci como a voz de Darren. Me levantei e fui até o parapeito da torre. Minha mãe limpou as lágrimas e eu fiz o mesmo ao perceber que também estava chorando. Alaya havia passado por coisas que nem mesmo eu suportaria.
— Sim? — Sua voz adquiriu um tom gentil, aquele que ela sempre usava quando estava comigo.
— É Nyara. Ela está perdendo o bebê. — Me virei rápido e olhei para a fêmea que estava quase chorando na ponta das escadas. Seu olhar pairou sobre mim e as lágrimas contidas escorreram pelo lindo rosto de Darren. — Alyn...
— Vamos rápido! — Minha mãe disse desesperada e começou a descer as escadas. A segui, passando por uma Darren perplexa. Não falei nada, apenas desci direto para o quarto. Ao entrar as lágrimas retornaram, Nyara estava no meio do uma possa de sangue, as duas mãos na barriga e gritando.
— Salvem o meu bebê! — Não havia nada que pudéssemos fazer, mas mesmo assim fui até ela. Me aproximei e ela então me reconheceu. — Alyn, por favor! Eu imploro! Salva ele, Alyn! — Segurei as lágrimas e me sentei ao seu lado, lhe abraçando e embalando. — É seu sobrinho!
Tentei sentir a criança dentro dela, e quase pulei ao ouvir o fraco coração batendo em sua barriga. Mas precisaria ser cuidado, agora, estava fraquinho.
— Está tudo bem, vai ficar tudo bem. — Beijei seus cabelos e as lágrimas começaram a escorrer. Minha mãe havia entrado no banheiro, provavelmente iria preparar um banho para Nyara.
O choro compulsivo da fêmea estava me destruindo, não conseguia imaginar a dor que ela estava sentindo. Um filho é uma parte de si mesma. Minha mãe, Nyara e Fellius. As três pessoas mais próximas de mim que tiveram a mesma dor. Entrei na mente de Nyara e comecei a lhe acalmar, com medo do que ela faria se continuasse nesse estado de nervos. Poderia acabar agravando a situação.
Ela estava quase sonolenta. Darren e minha mãe saíram do banheiro e vieram ajudar. Logo algumas outras fêmeas que trabalham no palácio vieram ajudar assim como Keala. A mãe de Darren quase chorou quando me viu e depois de uma abraço apertado e um sermão sobre não sumir sem dar notícias ela me deixou sair. Nyara seria bem cuidada por elas, assim como minha mãe que parecia muito abalada.
Me esquivei pelo palácio até chegar na varanda onde tudo começou. Darren sabia desde o dia em que me apresentei como filha de Beron, e Ystria também. Quando chegamos aqui na primeira vez, Fellius descobriu e logo Renard. O sentimento de traição foi substituído pela mágoa e a necessidade de explicações.
Droga, eu realmente queria ficar brava, mas eu simplesmente não consigo. Querendo ou não, a história não é deles, e assim como fiz com Lucien, não poderiam me contar sem saber todos os fatos ou acabariam piorando ainda mais a situação que já estava ruim. A culpa era toda e completa de Helion.
Ele não obrigou os outros a não falarem para mim, mas sabia que eles não se meteriam no assunto que não lhes diz respeito. Queria conversar com o Grão-Senhor assim que minha mãe terminar de contar sua história, para poder colocar meu plano em prática.
Me debrucei sobre o parapeito, observando a cidade aos pés da montanha. Os moradores alheios aos problemas da corte, vivendo suas vidas normalmente. Algumas sentinelas passavam pelas ruas, cumprimentando as pessoas e oferecendo ajuda. Agradeci a Mãe pela vida de meu sobrinho.
— Então é verdade. — Fechei os olhos ao ouvir a voz de Renard. — Você voltou.
— Não pretendo ficar, relaxe. — Respondi abrindo os olhos e focando nas dunas de areia ao longe. Ouvi seu suspiro e logo ele estava ao meu lado. Ninguém disse nada nos minutos seguintes.
— Você bloqueou o elo vulpes. — Disse baixinho, deixando que eu percebesse o quão vulnerável estava.
— Você me tratou como lixo inútil e mentiu pra mim, mas não é uma competição. — Ironizei com um sorriso felino. Renard se mexeu desconfortável ao meu lado.
— Sinto muito. Por tudo. — Abaixei os olhos para a cidade. — Acho que já sabe de tudo.
— É, eu tô sabendo. Não saberia se tivesse continuado aqui. Quando pretendiam me contar que eu estava fora da equipe? — Me virei para encará-lo. Os cabelos loiros acobreados bagunçados pelo vento, o rosto um pouco mais magro, a expressão cansada.
— Você não estava fora da equipe, era sua equipe. — Defendeu. Ri fraco.
— Vou reformular para você então, quando pretendiam me contar que a minha equipe estava saindo sem mim para missões enquanto me faziam passar o dia inteiro treinando para "lutar" nas malditas missões? — Questiono e vejo a expressão de Renard vacilar, os olhos azuis sem o brilho travesso.
— Isso foi uma decisão ruim de várias outras. Fellius, Helion e eu conversamos depois da sua explosão e decidimos que você ainda não estava pronta para missões de grande risco. Darren, Ystria, Keala e até mesmo Manch avisaram que você iria descobrir e odiar todos nós por isso, mas eu precisava te proteger. — Lágrimas cristalinas escorreram por seu rosto. — Sabe o quão horrível eu me senti quando vi você se destruindo aos poucos apenas pra não machucar ninguém com seus poderes? Alyn, porra, você é tudo na minha vida! — Meu coração se apertou ao ouvir seu tom urgente. — Desde que eu me lembre sempre foi nós dois contra o mundo, e de repente, tudo mudou, nós dois tivemos que amadurecer séculos em semanas. Ver você arriscar a vida, ser ferida... é horrível pra mim, porque me lembra de uma época em que você sangrava todo dia por culpa das pessoas que são responsáveis pela nossa situação agora. — Renard respirou fundo e tentou enxugar as lágrimas com as mãos trêmulas. Era a primeira vez que eu o via chorar? Ele continuou com um sorriso triste — Me desculpe se te sufoquei, se te tratei como uma criança, mas é como eu sempre te vi, e eu ainda não estou acostumado com a fêmea que se tornou. Você é forte, corajosa e altruísta, brinca com todo mundo, mas também sabe quando falar sério. Na reunião dos Grão-Senhores eu tinha decidido que iria te contar sobre Helion e sua mãe, mas aconteceu o ataque e depois Helion nos convenceu que seria melhor deixar sua mãe explicar. Darren e Ystria estavam pressionando de todos os lados para que a gente contasse a verdade. Eu sinto tanto. — Sabia que ele não estava mentindo, como? Renard parecia destruído demais para tentar mentir para mim de novo. Todos cometem erros, é natural. Meu amigo se esforçou por décadas para ser perfeito e conseguir me manter viva, entendo o seu ponto de vista.
Renard foi um pai, um irmão, uma mãe e um amigo para mim. Meu protetor e meu vulpes. Minha vida quase toda é marcada pela presença da raposa atrevida que dividia seu tempo comigo. Quero confiar nele como antigamente, mas sei que isso vai ser trabalhoso, então só me resta dar um voto de confiança para ele.
— Entendo suas motivações, sei como é ficar desesperada e ter que escolher fazer algo que não quer por algo que precisa. — Digo, séria. Enxugando minhas próprias lágrimas. — Irei te dar um voto de confiança, mas saiba que se fizer algo parecido novamente não vai ter uma terceira chance. — Ameacei descaradamente. Renard me olhou por um minuto inteiro antes de se ajoelhar e abraçar minha cintura, os ombros tremendo conforme segurava os soluços. Passei as mãos em seu cabelo e apertei ele contra mim. — Vem aqui, me abraça direito. — Puxei seu corpo para cima e exalei ao afundar o rosto em seu pescoço. — Você tá com o cheiro do Fellius. — Resmunguei e ouvi sua risada baixa. Não seria fácil, mas eu devia isso a ele. Já passamos por poucas e boas suficientes para superar isso, eu espero. Ficamos um tempo abraçados então nos separamos, e o mesmo segurou meu rosto entre as mãos.
— O que te deram pra comer? Você parece radiante! — Comentou com um sorriso de lado. Me inclinei em direção a carícia em minha bochecha.
— Isso é resultado do meu novo lugar mágico. — Brinco, lembrando do lago que Shelly me levou. Passei os últimos dez dias indo lá dia sim, dia não. Falando no grifo, tenho que ir amanhã mesmo buscá-lo, ou Jurian vai enlouquecer. — Um dia te levo lá.
— Vou cobrar, agora vamos. Tem biscoito amanteigado na cozinha, os seus prediletos. — Disse me abraçando pelos ombros e me guiando para fora. Revirei os olhos, mas sorri. Ainda temos muito o que resolver, mas pode ficar para depois. Só hoje. — Sinto muito pelo seu sobrinho. — Sussurrou em meu ouvido e deu um leve beijinho em minha cabeça. Assenti, engolindo o nó duro em minha garganta. Urie e Nyara não vão suportar a perda e a distância, tenho medo do que podem fazer.
Eu e Renard fomos em silêncio pelos corredores até a cozinha, onde as meninas que trabalham ali me cumprimentaram e até mesmo a chefe da cozinha sorriu para mim. Ficamos encostados de frente um pro outro dividindo o pote de biscoitos trocando sorrisos calmos e alguns comentários afiados. Renard incluiu as meninas ao comentar sobre o boato de que um guarda havia sido pego traindo a mulher em um bordel.
Rimos tanto que a barriga doeu, e me vi esquecendo dos acontecimentos do último mês. Mas então me recordei dos ataques. Prythian estava perdendo. Não havia condições de lutar outra guerra. Velliard sabia disso, está ciente de que os exércitos não estão recuperados e com números baixos, graças ao seu tio. Ele não iria recuar a menos que consiga algo que valha mais ou o mesmo que Prythian.
Me recordei de todas as ações do macho. Ele não quer apenas vingança, ele quer poder. Se conseguir parar a invasão de valgs teremos uma chance, mas como fazer isso? É por isso que preciso conversar com Rhysand, apesar dos outros Grão-Senhores, ele é o único que pode entender meu plano. E vou precisar da permissão do Grão-Senhor para usar seu mestre espião.
Deus, eu ainda tenho que me resolver com todos daqui. Vai ser uma longa semana, mas esse é o prazo que eu me impus. Sete dias. Seria suficiente. Tem que ser.
[...]
Me esquivei pelo corredor puxando Shelly. Havia ido buscá-la com Jurian, que me informou que o grifo na verdade é a grifa. Foi uma surpresa adorável. E isso explicou o porquê de ela não ter me atacado quando dormiu comigo.
Depois que Renard e eu saímos da cozinha conversei com Darren e Ystria, a primeira chorou ao pedir desculpas enquanto a última apenas disse que sentia muito, daquele jeito dela, mas que eu sabia que era real. As duas haviam ocupado um espaço em minha vida que não sabia que estava vago, e novamente percebi que não estava com raiva ou rancor, apenas mágoa.
Não encontrei com Fellius, mas sentia a apreensão de Renard quanto a minha conversa com o macho. Helion já havia me visto e trocamos algumas palavras formais. Os três machos haviam sido diretamente envolvidos nisso, ao contrário de Ystria e Darren. Os três iriam receber o sermão que merecem por serem tão superproterores, e darei um ultimato. Minha conversa com minha mãe foi esclarecedora em vários pontos.
Helion tinha medo que eu julgasse ele por ter se envolvido com minha mãe sabendo que ela estava casada, ou pior que isso estragasse ainda mais minha relação com Alaya. Ao menos era isso que eu havia visto em sua mente. Sim, eu entrei na mente dele. Foi a única alternativa de ter uma resposta sincera.
Não confiava cem porcento neles ainda, e seria de se estranhar se o fizesse. Mas como eu poderia mudar essa parte de mim que ainda confia neles com a própria vida? Não dá. Eles haviam cuidado de mim e tudo que fizeram – apesar de completamente errado — foi pensando em mim. De alguma forma a responsabilidade de cuidar de mim passou para Fellius e Helion. Renard sempre havia sido duro e direto comigo, e isso eu sempre apreciei.
Quero sentar com os três e ouvir suas razões, para poder esfregar na cara deles o quanto eu não preciso de proteção. Sim, eu sou um pouco perigosa para mim mesma quando tenho planos, mas isso faz parte de mim. Prefiro acreditar que não estive de toda enganada quanto meu julgamento sobre eles.
Fellius tem medo da perda. Renard tem medo de ficar sozinho. Helion tem medo de ser julgado. E eu tenho medo de ser presa novamente. E se quisermos resolver isso vamos ter de agir como adultos. Chega de briguinhas.
Meus dias em Sob a Montanha me mostraram que não importa se você se diz madura e preparada se não consegue agir assim. Perdoei Renard, Helion e até mesmo Fellius, e não é como se eu fosse tratá-los como lixo. Essa sou eu, e não posso mudar. Fiquei triste, magoada e me senti traída. Mas guardar rancor vai mudar alguma coisa? Não, apenas irá me consumir até que eu afunde novamente.
Não vale a pena.
❀
Hora de falar sério. Sei que muitos não gostaram do fato da Alyn ter perdoado o Renard tão fácil, e eu não poderia ligar menos, porém ontem vieram até mim praticamente dizendo que eu tinha jogado o desenvolvimento da Alyn no lixo. Então quero esclarecer que, todos os personagens são humanizados, eles erram, aprendem com os erros e mudam. A Alyn teve o tempo dela se curando, mas o mundo não parou. A narrativa está no ponto de vista dela, então é claro que vocês não estão vendo os dois lados da história. O Renard foi um babaca, assim como a Alyn já foi várias vezes e vocês passaram pano.
Desde o começo eu deixei claro que a Alyn é muito humana, ela não consegue odiar as pessoas, e nem quer isso. Alyn conviveu com o ódio do pai e dos irmãos a vida inteira, sabe o quão horrível é, então eu pergunto, vocês realmente acham que a Alyn sendo a Alyn não deveria dar outra chance pra pessoa que esteve a vida inteira ao lado dela? Se você acha que sim, ela não deveria ter perdoado, por favor leia todo o livro de novo, pq não entendeu nada sobre o caráter da personagem.
me esforcei pra agradar todo mundo e só tomei no meu cu.
Obrigada as meninas que foram falar comigo no mural e na dm, vocês são perfeitas <33
feliz dia das mulheres
boa tarde.
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