༆ XXIV

cheguei galera, dedo no cu e gritaria

vai tudo desandar e vai ser hoje

aiai deus

Joguei a espada no chão e me sentei no tatame ofegante. Aceitei o cantil de água que Fellius me estendeu. Limpei o suor escorrendo da testa e bebi o líquido.

— Você foi ótima na Invernal, mas precisa ficar ainda mais rápida. O estilo deles é retaliação. Você tem poderes e uma habilidade espantosa com lâminas gêmeas, assim como Ystria. — Disse me ajudando a levantar. Tínhamos acabado o treino de hoje, aos poucos já ia me adaptando a nova rotina de treinos. Antes tinha que treinar poder e força, separadamente. Agora Fellius está tentando me introduzir um treinamento de luta com os poderes e espada, já que em um campo de batalha os dois são úteis para mim.

— Eu tô tentando, mas é difícil me mover com o peso desse couro. — Resmunguei seguindo até a saída. Passamos o dia inteiro aqui, fazendo uma pausa apenas quando Keala veio avisar que perdemos o almoço e pediu para duas criadas trazerem até nós. Quase agredi Fellius por isso, já que um dos pontos altos do meu dia é almoçar com todos. Cada um tem seus afazeres e ocupações, mas gosto da companhia deles enquanto comemos, mesmo que em silêncio.

— Mas vai ter que se acostumar, princesinha. — Devolveu me fazendo mostrar a língua para ele. Minhas pernas doíam só de imaginar ter que usar isso por mais tempo. Só quero um banho, comida quentinha e me enfiar entre os invasores da minha cama.

— Sabe o que estava pensando, como Milliken soube que eu estava na Invernal. — Expus minha desconfiança. Desde que havíamos voltado, dois dias atrás, estava com essa dúvida. Fomos discretos durante semanas e até mesmo quando estavam alguns metros longe de nós conseguimos despistar, então de repente Milliken sabia exatamente onde eu estaria.

— O que está sugerindo, Alyn? — Encarei meu amigo que me olhava sério. Ele sabia o que eu estava querendo dizer, mas a ideia de que fomos traídos embaixo dos nossos narizes é horrível demais.

— Tudo bem que as pessoas do castelo sabiam que estaríamos indo. Mas se elas trabalham tão próximo do Grão-Senhor é por que são de confiança, nenhum trairia Kallias e Viviane. — Confortei sabendo que Fellius ainda tinha assuntos inacabados com eles. — Só que estou com essa pulga atrás da orelha a dois dias e não consigo pensar em uma forma de Milliken saber exatamente onde estávamos, ela poderia ter atacado qualquer cidade se não soubesse. E isso está me incomodando, ela sabia com quem estava mexendo e não se intimidou com a presença dos Grão-Senhores, ela praticamente jogou seus soldados para a morte e observou de camarote todos nós.

— Ou você pode estar ficando paranóica. — Respondeu erguendo uma sobrancelha. Nem ele acreditava nisso.

— Esse é o ponto, não estou. Se estivesse paranóica não estaria mais aqui, por que agora ela sabe que estou junto de algum Grão-Senhor. Teria deixado Prythian naquele mesmo dia e manteria contato de longe, esperando apenas o momento que seria útil. — Passei por ele seguindo pelo corredor que leva até a cozinha. Cumprimentei as fêmeas, já havia perguntado o nome delas uma vez, mas se recusaram a me dizer até hoje não sei a razão. O cheiro de comida quentinha e temperos fez meu estômago roncar. — O que estão aprontando para o jantar?

— Nada? — Uma fêmea parecendo ter minha idade respondeu. Ela tinha a pele azulada com cabelos verdes em tranças parecidas com as que Darren usa, olhos laranjados brilhantes e um sorriso gentil.

— Como assim? — Perguntei confusa, já estava quase na hora do jantar e eu podia ver as panelas no fogão.

— O Grão-Senhor que não é necessário cozinhar hoje. — A chefe da cozinha, uma fêmea mais alta que eu e esguia com cara de má Respondeu. — Agora para fora da cozinha com essas mãos sujas de suor.

Resmunguei alguma coisa e saí dali o mais rápido que pude, seguindo até o escritório de Helion. Passar o dia trancado trabalhando tudo bem, mas pedir que não façam comida já é demais. Principalmente hoje quando eu tenho certeza que vi um pernil sendo temperado.

Passei por Renard e Ystria como uma bala e logo meu amigo gritou:

— Onde é o incêndio?! — Voltei alguns passos e encarei os dois.

— No escritório do Helion, ele mandou não fazer o jantar hoje. — Respondi brava, estava com fome e cansada e agora de mau humor. Helion teria que ter uma boa desculpa para isso, ou hoje ele vai ser a janta.

— Ele não é nem doido. — Ystria disse me acompanhando e logo nós três estávamos a caminho do escritório. Encontramos Darren Fellius no caminho e explicamos a situação e se juntaram a nós na nossa missão de protesto contra o Grão-Senhor que se recusa a nos dar comida.

Nossas vozes ecoavam no corredor conforme começamos a discutir quem falaria, todos queriam que fosse eu já que as meninas haviam dito diretamente para mim. Decidimos por todos nós pressionarmos ele. Invadimos o escritório sem nem bater.

— Que história é essa de não ter jantar? Bebeu, por acaso? — Grunhi irritada colocando as mãos na cintura. Tinha ciência dos quatro atrás de mim, mas foi a visão a minha frente que me surpreendeu. Azriel e Cassian me encararam surpresos e Helion afundou imperceptivelmente na cadeira de couro atrás da mesa de mogno.

— Toc toc. — Renard disse quebrando o silêncio da sala. Senti minhas bochechas queimarem sob o olhar analisador dos dois Illyrianos. Limpei a garganta me endireitando.

— Não sabia que estava com visita, mas não respondeu a pergunta. — Minha voz estava moderada, mas podia sentir a irritação do mesmo jeito.

— Calma aí, mocinha. — Disse se levantando sério. Me encarou de forma dura com a máscara do Grão-Senhor, mas essas coisas nunca funcionaram comigo.

— Calma uma ova, acabei de sair do treinamento do dia inteiro com o desgraçado do Fellius que não me deixou ganhar uma, nenhumazinha e fui até a cozinha repor toda a energia que perdi aturando ele e Ystria me jogando de um lado pro outro no tatame...

— Você é péssima em luta corporal. — A fêmea retrucou em sua defesa. Lhe olhei por cima do ombro de forma ameaçadora e a mesma me ignorou.

— Não seria se vocês se preocupassem em me ensinar a lutar, ao invés de vir pra cima como dois touros. — Digo seca. Me viro para Helion novamente, ignorando o general prendendo o riso. — Acredita que eles não me deixam usar os poderes na luta corporal?

— Sim, você assaria eles antes que pudessem encostar em você. Qual é a graça? — Respondeu sentando novamente.

— Não é pra ter graça, é sobrevivência. Numa luta normal meu inimigo não vai se preocupar em não usar poderes para machucar, por que, vejam só, é isso que vão estar tentando fazer! — Ironizei brava com o macho. Sentia Renard e Darren prendendo o riso, assim como o general que olhava para o teto. Azriel não sorria, mas não parecia prestes a arrancar minha cabeça. — E não mude de assunto, quero minha comida!

— Você vai ter sua comida, mas não aqui. — Respondeu calmamente, tive que me controlar para não arrancar o sorrisinho arrogante de seu rosto.

— Cuidado Grão-Senhor, está entrando em um terreno muito perigoso. — Avisei, e ele sabia. Eu poderia ficar sem qualquer coisa, menos comida. Foi a forma que encontrei de me distrair de tudo que está desmoronando ao meu redor provando os sabores de cada receita nova para mim.

— Alyn, não seja dramática. Apenas iremos jantar fora. — Disse massageando as temporas.

— Doeu? Poderia ter evitado tudo isso se tivesse respondido com isso na hora que perguntei, sabe que odeio enrolação e... — A frase seguinte morreu em minha garganta assim que percebi uma coisa na parede ao lado de sua mesa. Coberto por uma cortina, um quadro estava encostado na parede perto de uma estante de livros. Parte da moldura dourada aparecendo sob o pano. Reconheci aquela moldura, era igual a do quadro de minha mãe que achei em sua sala de quadros. Me aproximei afastando apenas um pouco o pano dando visão de parte dos cabelos ruivos iguais aos meus, mas foi a coroa que ela usava que me chamou atenção. Era a coroa dele. Porquê ela estava...? — Eu vou querer saber? — Perguntei baixinho, sentindo as engrenagens do meu cérebro começando a juntar as coisas. De repente, o ambiente antes leve pesou e o ar ao meu redor pareceu abafado. Helion estava imóvel. Assenti esbarrando em meus amigos enquanto saia do cômodo.

De repente tudo fez sentido. A forma como ele falou dela, o olhar em seu rosto ao me encarar, a frase que Keala disse quando me conheceu. "Se ele colocar os olhos nessa menina ele vai saber" não se referia sobre meu pai, e sim sobre minha mãe. Me senti perdida. Ele havia olhado em meus olhos e dito que eram apenas amigos. Helion havia sido amante de Alaya. E os Grão-Senhores sabiam disso.

Não me importei com os passos atrás de mim até chegar na varanda da sala destruída e bati as portas com força e tranquei. Algumas coisas já haviam sido restauradas, mas outras nem poderiam. Era informações demais. Helion e minha mãe. O macho que me acolheu como uma filha, não por gostar de mim e sim por Alaya, por ainda ser apaixonado por ela. Me debrucei sobre o parapeito da varanda e gritei. A dor da mentira era ainda pior. Eu havia acreditado nele quando ele não acreditava em mim.

Helion havia mentido esse tempo todo para mim. Escondeu de mim um fato importante sobre minha mãe. Eu tinha o direito de saber, eu dei oportunidades para me contar e ele esperou que eu descobrisse por mim mesma e não teve a coragem de confirmar. Odiei ser sensível a tudo, não queria sentir nada agora.

E todos sabiam. Lembrei do olhar de pena no rosto de todos, até mesmo de Azriel e Cassian. Eu era a única ignorante dessa história. O segundo grito parecia ainda mais doloroso que o primeiro, eu precisava colocar aquilo pra fora sem machucar ninguém. Minhas mãos apertavam meus próprios braços e senti as unhas afundarem na carne. A dor emocional sobressaindo a física.

Respirei fundo tentando conter os soluços escapando. Minha respiração estava falhando e não conseguia respirar. Meus pulmões estavam ardendo em brasa e minha mente não parava de repetir todas as vezes que Helion mentira para mim. O dia em que me abraçou e disse que eu seria uma boa filha. O dia em que cuidou de minhas cicatrizes. Quando participou de nossas brincadeiras. As manhãs cheias de sorrisos. Tudo havia sido mentira? Era apenas para manter a lembrança dela por perto?

Não conseguia aceitar isso. Não podia ser. Ele não podia ser um mentiroso. Mentiras me faziam ser punida por guardas. Mentiras faziam eu ter de interpretar um papel na frente de outras pessoas. Mentiras e mais mentiras. Eu as odiava, e evitava a qualquer custo. Não tinha mais força para gritar, os soluços não permitindo que eu o fizesse.

Meu corpo caiu no chão cansado do treinamento e de tudo isso. Observei o chão queimado antes branco e me encolhi no mesmo lugar que alguns dias atrás estive caída. Tentando colocar minha cabeça em ordem, pensar claramente e expulsar os pensamentos destrutivos. Revirar problemas passados não era o ideal no meu estado. Lembranças cruéis de Beron e minha mãe invadiam minha mente, lembranças que haviam sido bloqueadas a mais de onze décadas. Do dia em que fui levada do quarto rosa para a cela úmida e suja.

Não me lembrava desse dia, nunca. É doloroso e trás a tona traumas enraizados em mim. As lembranças de como fui arrastada pelos corredores, a forma como me jogaram dentro da cela antes de trancarem. Senti nas pontas dos dedos as feridas que um dia estiveram ali, quando arranhei a porta por duas noites enquanto gritava pela minha "mamãe".

Os primeiros anos foram horríveis. Era pequena demais para entender o que estava acontecendo, o que eu havia feito de errado, por que minha mãe não estava ali comigo. Até que Renard chegou e por um bom tempo achei que estava ficando louca, mas comecei a conversar com ele e aos poucos aceitar suas palavras e sua amizade. Renard foi minha salvação quando eu nem sabia que precisava ser salva.

E ele com certeza sabia sobre Helion e minha mãe e não me contou. Nunca houve segredos entre nós, e agora ele se afasta, me deixa no escuro e mente para mim. Posso estar sendo dramática, mas tenho esse direito. Sou a porra de uma criança que teve a infância roubada por desgraçados mentirosos e cruéis e agora tem que lidar com tudo isso em meio ao caos de uma guerra.

Encarei a parede a minha frente sem saber o que fazer. Não conseguia pensar direito, não com minha cabeça formando mil e um cenários de Helion com Alaya. E Beron sabia. E por um momento fiquei feliz por isso, por ele ter sido humilhado dessa forma. Por minha mãe ter feito o que fez com ele, por que ela merece muito mais que os dois poderiam oferecer, apenas por ter suportado isso tudo.

Fechei os olhos e encostei a cabeça na parede atrás de mim. Preciso conversar com Lucien, com minha mãe, preciso tirá-la daquele ninho junto de Nyara e o bebê. E não iria deixar para outro dia. Segui até a porta e no momento que abri vi Fellius, Renard e Ystria sentados no corredor de frente. Não esbocei reação, sabia que eles estariam ali.

— Meu amor... — Renard disse vindo até mim, mas o afastei.

— Vou para as terras humanas. — Digo direta.

— Não, você está de cabeça quente e isso... — Tentou me fazer mudar de ideia mas o ignorei.

— Eu disso no plural? Eu quis dizer que eu vou para as terras humas, agredir um pouco e obrigar Lucien a me acompanhar e aí nós dois vamos tirar nossa mãe, cunhada e sobrinho do ninho de ratazanas. — Passei por eles indo para as escadas que leva até os quartos. Manch estava descendo. Eles me seguiam tentando me parar, mas já havia tomado minha decisão e não voltaria atrás. Quanto mais rápido resolver isso, mas rápido vou poder trancar meus fantasmas de volta no porão. — Eu vou, porra! E nada que digam vai mudar isso, não querem ir comigo? Ótimo! Eu vou sozinha.

— Isso é loucura, você não está sendo racional. Fomos atacados dois dias atrás. — Ystria disse duramente me segurando. Me soltei de seu aperto e encarei seu olhar com raiva.

— E eles perderam mil soldados. — Cuspi rispidamente. — Saiam daqui.

Bati a porta do quarto e tranquei. Peguei o traje que havia deixado na cômoda e comecei a me despir, vesti o mesmo sentindo a leveza do material direfente do metal pesado das armaduras cobrindo até o pescoço. A maior parte do traje era preto, mas percebi o diferente tom de verde escuro nas mangas e parte de cima do busto indo até o pescoço. Havia uma ombreira dourada que possuía duas fivelas sobre o peito, abaixo dos seios e um pouco mais acima do corpete preto como acessório. Um cinto também verde para a espada e duas faixas na perna esquerda que descobri ser um suporte para lâminas menores. As luvas pretas com detalhes dourados serviram perfeitamente indo até o antebraço e se diferenciando da manga verde.

A calça era justa, mas permitia que eu me movimentasse com facilidade. Uma joelheira dourada destacava sobre o tecido verde da canela. Uma bota preta descreta e do tamanho perfeito para meus pés. Prendi os cabelos e percebi que preto definitivamente era a minha cor, o verde e o dourado destacava meus olhos e o preto meus cabelos ruivos e minhas sardas. Coloquei os punhais no suporte e encarei o espelho pela última vez ignorando os olhos vermelhos antes de sair do quarto, encontrando os três com seus uniformes.

( sem capa fml)

Percebi que todos eram cor de ébano. O uniforme de Fellius tendo detalhes parecidos com garras de couro vernizado, azul e prata cobrindo o corpo musculoso que conheci durante os treinamentos. Os longos cabelos brancos soltos e um pouco bagunçados. O uniforme de Ystria é totalmente diferente das roupas que costuma usar e de um tom de preto mais puxado para o cinza. Tiras de couro como suporte para adagas nas duas coxas. Da clavícula até abaixo dos seios mais fitas de couro se cruzavam unindo-se na parte de cima de seu abdômen. Pela primeira vez usava luvas, o que significava muito vindo dela.

Renard também vestia preto, apenas o casaco vermelho bordô quebrando o visual sombrio que não parecia em nada com ele. O casaco ia até abaixo da linha dos joelhos e provavelmente escondia o livro de feitiços. Estava sério e tenso, assim como todos. Não iria fingir que está tudo bem entre nós. Escolheram acobertar Helion e sua mentira sabendo o quanto eu odeio.

Passei por eles sem dizer nada. Não era do meu feitio ficar calada, passei anos demais em silêncio então me tornei o mais tagarela possível durante as últimas semanas. Aos poucos percebia que eu projetava minhas inseguranças em mim mesma, me modificando para caber no molde de todos. Tenho problemas comigo mesma e preciso lidar com eles rápido, ou a minha queda será ainda mais alta.

— O que vai fazer nas terras humanas? — Ystria perguntou séria. Renard havia me contado duas noites atrás que Lucien está morando na fortaleza do ex noivo da irmã de Feyre que por acaso é parceira de meu irmão.

Não gostei dela.

— Tenho assuntos pendentes com um certo ruivo perdido por lá. — Desci as escadas com pressa, gostaria de passar na cozinha para pegar ao menos uma fruta para comer. Continuei sendo seguida por onde passei. As meninas da cozinha estranharam nossos trajes, mas não disseram nada. Peguei uma maçã e lavei antes de morder.

Saí da cozinha e parei no meio do caminho ao ver Helion e Darren. Seus olhos estavam vermelhos e pela expressão estava tão destruído quanto eu. Mas não me deixei abalar. Helion não é nenhuma criança, sabe que toda ação tem reação. Mentiras não duram para sempre.

— Se segurem. — Não desviei o olhar de seus olhos quando Renard, Fellius e Ystria seguraram em mim. Em um piscar de olhos estávamos no limite de uma floresta. Era possível ver um chalé ao longe cercado por grama alta. A noite começava a cair e o frio começava a de fazer presente. Ignorando os três comecei a andar pela estrada de barro, era possível ver uma vila ao longe. Detive o passo no meio do caminho.

Renard havia uma vez me contado sobre humanos e seu ódio contra féericos. Culpa da maioria dos nossos ancestrais. E então percebi o quanto essa ideia é ruim. Droga, nos matariam aqui por nada. Quase me joguei no chão.

— Por que parou? — Fellius perguntou vindo até mim. Não lhe encarei.

— Humanos odeiam féericos mais do que Velliard nos odeia. — Percebi quando as casas não acenderam conforme a noite caia. Estava com medo de que encontrássemos algum mortal por aqui, sabia que essas terras haviam sido deixadas a muito tempo. Me perguntei para onde aquelas famílias haviam ido.

— Mas isso a gente já sabia. — Ystria disse de longe com ironia. Travei a mandíbula e ignorei. Não deveria ter trazido eles, estamos com péssimo humor e cansados e isso é um problema só meu.

— Sei onde seu irmão está, vamos. — Renard disse secamente passando a nossa frente. Desviei o olhar para o céu e vi as estrelas brilharem sobre nós, sentindo o ar úmido e frio diferentes das noites quentes da Corte Diurna. 

Seguimos caminho evitando a vila até chegarmos em frente a uma fortaleza com muros altos. A terra ao redor úmida e infrutífera, as marcas do quanto as pessoas daquela região foram afetadas. Observei com calma os portões de ferro erguendo uma sobrancelha.

— Mortais tem lendas que dizem que ferro fere féericos. — Fiz uma careta ao perceber Fellius ao meu lado.

— Que tipo de trava língua é esse? — Resmunguei tentando falar a frase. Desisti e tentei observar dentro da propriedade. Era possível ver uma enorme fortaleza com janelas pequenas lacradas com grades de ferro. — Lucien está em uma prisão?

— Não, essa é a casa temporária dele e de seus amigos. — Renard respondeu baixo também se colocando ao meu lado. Me atentei aos sons, mas nada aconteceu.

— Vamos ficar aqui a noite toda encarando esse portão? — Ystria grunhiu. Pensei em uma solução que não fosse quebrar o portão para entrar.

— Temos que chamar a atenção deles. — Renard disse baixinho. Se abaixou e pegou uma pedra.

— Que droga você vai... ? — A pergunta morreu em minha garganta assim que o macho atirou a pedra na parede da casa. Meus olhos se arregalaram e dei um passo para trás. Vi quando uma luz laranjada encheu uma janela e logo a casa começava a de acender. — Puta que pariu.

— Já está arrependida? — Ystria ironizou observando o estrago que Renard tinha feito. A pedra havia, coincidentemente, acertado uma parede cheia de garrafas que só percebi depois de o vidro espocar.

— Calada! — Rosnei me afastando conforme ouvi o barulho de trancas. Empurrei todos para de trás do muro e me espremi contra a parede sentindo meu coração martelar. Havia sido uma péssima ideia, disso eu já sabia. Mas caralho, eu podia ao menos ter vindo durante o dia.

Ouvi o som de passos e percebi que estavam cada vez mais próximos. Pararam e então começaram novamente. Ouvi o barulho do portão se abrindo e meu estômago revirou. Um macho alto e bonito, até mesmo para um mero mortal, surgiu e gelei no momento que sua cabeça virou em minha direção. Os olhos castanhos cruéis me analisaram e me endireitei.

— Boa noite, vem sempre aqui? — Tentei sorrir e se não soubesse que Renard havia colocado um feitiço sob Fellius, Ystria e ele eu teria temido ainda mais o olhar que o humano me lançou.

Em menos de alguns segundos eu estava presa na parede com uma lâmina fria pressionando meu pescoço. Ironia do destino que serviu para me lembrar de um certo encantador de sombras.

— O que está fazendo aqui? — Grunhiu perto demais do meu rosto. Fiquei desconfortável com seu corpo pressionando o meu, ao contrário de Azriel.

— Estou procurando uma pessoa. — Os olhos varreram meu rosto e o mortal não relaxou nem um segundo. — Preciso falar com Lucien Vanserra. — Minha voz saiu suplicante e quis me bater por isso. Não via Lucien desde a morte de Jesminda, quando Orion e Ignner fizeram questão de irem até minha cela e ficarem falando sobre a féerica que meu irmão um dia amou, e que eles haviam matado.

— Como descobriu esse lugar?!

— Eu tenho um amigo que é bem informado, ele me disse que se eu quisesse achar ele teria que vir até aqui. Sabe onde ele está? É meio urgente. — Não estava lutando, meu corpo e mente concordaram que estavam com preguiça demais para isso.

— Sei, vamos. — Sua resposta não me tranquilizou, e o fato de não ter tirado a faca do meu pescoço enquanto me virava e guiava para dentro dos muros não passou despercebido.

— Gostaria que parasse de pressionar essa coisa na minha garganta, mas se você se sente seguro fazendo isso, não irei fazer objeções. — Digo sentindo um incomodo no lugar onde a adaga está quase cortando.

— E o que garante que não está aqui para matar? — Não me incomodei em revirar os olhos.

— Não é burro, sabe que se eu quisesse fazer isso teria feito no momento que colocou os pés para fora do portão. Tinha o elemento surpresa e sua distração ao meu favor. — Seu grunhido me deixou radiante por ter a razão. Então com calma o mesmo afastou a adaga, e só então percebi que havia uma espada consigo.

— Não tente gracinhas, ou vai virar assado. — Alertou me puxando pelo braço. Percebi que tinha um longo caminho até a casa e assim que chegamos até a porta ele me largou. — Fique aí. — Dito isso o macho entrou e bateu a porta, encarei a porta de ferro desacreditada. Bufei e troquei o peso para o pé esquerdo.

Não sabia o quanto Lucien teria mudado. Me lembrava que tinha cabelos não muito longos da cor dos meus, olhos castanhos avermelhado — que agora pareciam ainda mais familiares, — e a pele um pouco mais escura que a minha quase marrom-dourada. Lucien nunca havia tentado se aproximar, talvez por medo de se apegar a mim. Eu poderia ser morta a qualquer minuto. Não valia a pena sofrer. Olhei para o lado sentindo uma presença e sem falar nada soube que Renard estava ali.

Não tínhamos brigado, mas a distância que impus entre a gente era suficiente para saber que eu estava magoada. E que precisaria de muito mais que um simples pedido de desculpas dessa vez. Estava olhando para as estrelas quando a porta se abriu novamente e me virei encontrando o macho que deveria ser meu irmão. Os cabelos presos com uma trança, o rosto marcante e sério. O ar me escapou dos pulmões ao ver a cicatriz que ia dá mandíbula até um pouco acima da sobrancelha em seu olho esquerdo que agora era dourado.

— Quem é você? — Sua pergunta não me surpreendeu e senti uma imensa vontade de sorrir. Lucien continuava belo, a pele bronzeada, os cabelos carmesim. Vestia uma camisa de linho e uma calça marrom, estava descalço.

— Surpresa irmãozinho.

O macho a minha frente parecia prestes a vomitar. O olhar de pânico em seu rosto me atingiu e o sorriso rapidamente desapareceu de meu rosto. Lucien havia se lembrado de mim.

— Vá embora! — Coloquei o pé na frente no momento que ele tentou fechar a porta novamente, absorvendo a dor da batida da porta.

— Ah, mas não vou mesmo! — Respondi empurrando a porta. O mesmo não havia me impedido, sabia que acabaria me machucando se o fizesse.

— O que você quer de mim, porra?! — Seu rosnado fez com que eu desse um passo vacilante para trás. As lembranças cada vez mais claras dos momentos que ele presenciou, das torturas que os outros me infligiram enquanto ele assistia.

— Quero conhecer a droga do meu irmão! — Ironizei irritada. Meu humor havia ido de "te amo, irmão" para "vou arrancar sua cabeça, filhote de cobra". — Vim aqui por que temos assuntos a resolver e preciso da sua ajuda.

— Não temos nada que resolver e me recuso a ajudar você.

— Eu não estou perguntando, Lucien, eu estou informando. — Meu tom seco fez com que ele ficasse ainda mais tenso. — Agora, se não for pedir muito, se senta. Temos muita coisa pra falar.

— Não temos n... — Lhe olhei com raiva e vi no reflexo de seus olhos o momento que as chamas brilharam nos meus.

— Não se pode fugir da nossa maldição para sempre. E eu, infelizmente, vou ter que te arrastar de volta pro pesadelo real que é ser um Vanserra. — Lucien me olhou com um desprezo tão quando quando as palavras deixaram minha boca que me senti novamente como uma menininha assustada.

— Cale a boca, e vá embora. Eu não sou um Vanserra. — Suspirei só ouvir seu tom raivoso. Lidar com os Grão-Senhores havia tornado ataques de raiva de machos algo simples de se resolver, principalmente se isso vier de seu irmão.

— Abdique do sobrenome, do sangue, da porra da história toda, mas sabe que essa droga vai continuar te perseguindo. Mas não se preocupe, quero tanta distância deles quanto de você. A única razão para estar aqui é a nossa mãe. — Assim que mencionei a fêmea que nos trouxe ao mundo vi um brilho de tristeza em seus olhos.

— O que tem ela? — Apesar do tom seco, percebi um fio de preocupação em sua voz.

— É melhor você sentar, garotão. — Indiquei, já imaginando o quão longa aquela conversa seria.

— Não vai entrar aqui. — Respondeu firmemente.

— Puta que pariu, eu não quero entrar na sua casa. — Rosnei trocando novamente o peso do corpo. — Quer saber? A Corte Outonal foi invadida, Beron está preso em uma masmorra e nossa mãe está na fila para uma execução, assim como a única pessoa inocente daquele lugar, nosso sobrinho. — O rosto de Lucien se contraiu em uma expressão de angústia e dor. E então foi novamente para a raiva.

Seu sobrinho. Como diabos isso aconteceu?!

— Velliard aconteceu. E Eris facilitou um pouco, mas até ele reconheceu a cagada que fez.

— Quem é Velliard? — Perguntou, a voz tensa. Joguei os ombros para trás e desviando o olhar para o macho que agora surgia atrás do ombro do meu irmão.

— Como você conhece esse nome!? — Perguntou, a espada apontada para mim. Ele teria ouvido nossa discussão?

— É uma longa história e eu tenho tempo, ao menos até o amanhecer. — Respondi cruzando os braços, o mortal me analisava da cabeça aod pés.

— Quem é você, afinal? — Perguntou, não resistindo a curiosidade. E limpando uma poeira que não existia do peito, respondi:

— Alyn Vanserra, a irmã mais nova desconhecida que Lucien enterrou junto de seu passado. Muito prazer.

rolou, meus amores

Lucien e Alyn vão tretar muito

vcs não tem noção de quanto rancor, culpa e frustração tem nesses dois

and I think that is beautiful

amo vcs <33

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