༆XLVIII
bom dia!
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A rainha encarou o espelho no canto da cela com determinação. A fêmea que refletia de volta parecia uma sobrevivente, não uma vítima. Ela repetiu para si mesma, como um mantra que precisava ser entoado.
Juntando uma força que não sabia de onde vinha, se levantou da cama onde estivera deitada sabe-se lá por quanto tempo. Poderia ter sido algumas horas, dias, semanas, quem sabe. Estava tão cansada que apagou antes mesmo de os machos saírem de sua cela, desde então esteve entrando e saindo de consciência, as fêmeas que trabalhavam junto de Nana colocando panos molhados em seu corpo, lavando-a com águas de essencias e colocando lençóis para lhe fazer suar a febre.
O que elas não sabiam no entanto era que, o delírio não era fruto da febre, e sim da fraqueza. Era praticamente impossível para Alyn ter febre, era uma féerica do fogo, pelo amor da Mãe, se corpo naturalmente estava quente.
Mas não conseguiu fazer sua língua dizer as palavras.
Os olhos atentos absorveram os arranhões e cortes, as marcas e cicatrizes, a maior parte de suas feridas não doíam tanto, provara da dor pura durante sua tortura, nada que alguns arranhões consiga alcançar.
Se vestir parecia uma tarefa impossível, por que apesar de não sentir tanta dor, não iria ignorar o fato de que os tecidos grossos e quentes torturariam seu corpo ainda não curado. Não havia percebido quanto esforço tinha feito para levantar até olhar para suas mãos e vê-las tremendo, assim como o resto do seu corpo. O rosto pálido no espelho devia ter sido seu primeiro sinal de alerta, mas não conseguiu se forçar a andar de volta até a cama, desabando no chão sobre os joelhos ralados.
A dor pinicou em seus sentidos e um grunhido nada feminino lhe escapou enquanto usava as mãos para se apoiar no chão antes que caísse de cara no piso da cela. Sua fraqueza quebrou a determinação e sentiu as barreiras caindo uma por uma quando a primeira lágrima escorreu e assim se seguiram as outras.
Nana escolheu esse momento para fazer sua entrada, dois guardas a seguindo com baldes em ambas as mãos. Ao vê-la despida e no chão, a senhora rapidamente dispensou os guardas que saíram sem um outro olhar na direção de Alyn.
— Deveria estar na cama — Comentou enquanto se aproximava da fêmea, a rainha permaneceu de cabeça baixa, os cabelos ruivos uma cortina cobrindo seu rosto — Sabe porquê eu lhe chamei de franguinha? — Perguntou, Alyn ficou brevemente confusa, mas logo respondeu com um balanço de cabeça — Quando chegou aqui, parecia uma colcha de retalhos, sinceramente. Vi soldados voltarem da guerra menos feridos que você que deram um bom trabalho por conta dos meus métodos, mas você... — Precusou de toda sua força para colocar o braço de Alyn sobre seu ombro e a levantar, com passos arrastados levou-a até a cama — Você reclamou e resmungou, mas em nenhum momento me xingou, ou insultou, ou sequer ameaçou. Seu corpo tem alta tolerância à dor, mas sua mente não. Percebi isso no momento que pus os olhos em você.
— Está me chamando de fraca? — A rainha parecia quase surpresa, não esperava tal reação. Por tanto tempo esteve no meio daqueles que a chamavam de forte, que esquecia – nem sempre – das outras pessoas. Com um baque surdo soltou seu peso no colchão.
— Não, conheço sua história para determinar sua força e se tudo que dizem na praia é verdade, sua força não é medida na régua política desse mundo — Respondeu se virando e indo até os baldes — porém você não tem força para segurar os próprios demônios sozinha, esteve chorando por muito tempo, não acha?
A fêmea soltou a respiração que nem percebeu que estava prendendo. De fato, havia chorado muito, esperneou, fez cenas pouco maturas e reagiu mal a praticamente tudo que lhe foi jogado. Haviam criado desculpas por ela e ficou por isso mesmo, e continou acontecendo, até mesmo agora. Existe uma parte dentro de si, tão quebrada, insegura e imatura que vem à tona todas as vezes em que algo sai do que ela mesma idealizou.
— Nunca tive tempo para aprender a racionalizar minhas emoções, estive com ódio, com dor e com... — Seus olhos se perderam, olhando para o espelho completou — muita raiva.
— Esteve? — Perguntou calmamente, as mãos da senhora afastaram as mechas ruivas do rosto e puxavam para cima na tentativa de um coque. Alyn nem percebera quando ela se aproximou.
— O primeiro dia, quando acordei aqui — Molhou os lábios rachados com a ponta da língua e continuou — eu senti isso. Muita raiva, muita dor, muito ressentimento e principalmente, muita miséria. E não dirigido a quem me torturou, quem me prendeu e quem tornou a minha vida um inferno. Mas após conversar com o Grão-Senhor da Corte Noturna e o mestre espião percebo que não tem mais... é como se tivesse evaporado, entende?
A curandeira estendeu as mãos e assim que Alyn pegou deu um puxão bem leve, mas que a ajudou a levantar. Com passos vagarosos a levou até a enorme tina que haviam trazido no dia anterior. Com cuidado, a rainha entrou sentindo o fundo de madeira com a ponta dos dedos dos pés.
Afundando devagar, deixou a água ainda fria cobrir seu corpo até a altura do pescoço, mas logo soltou uma faísca de seu poder e sentiu os músculos muito tensos se desenrolarem na água morna.
— Entendo. — Ela olhou para a curandeira, quase esquecera a pergunta que fez. A senhora continuava a andar para todos os olhos, juntando bandagens, arrumando coisas, até que pegou um frasco do bolso e trouxe até a tina onde Alyn estava. Uma das fêmeas que esteve cuidando da rainha durante a noite entrou, um pequeno cesto de flores miúdas nas mãos que entregou para Nana.
A senhora se abaixou ao lado da tina e apoiou a cesta no chão, Alyn observou com curiosidade enquanto ela tirava a rolha de madeira do frasco e o cheiro de sangue e algo mais flutuou ao seu redor quando o líquido pingou algumas vezes na água, as flores sendo adicionadas em seguida.
— Não saia dessa tina até eu retornar, entendeu, mocinha? — A curandeira se pareceu tanto com Keala nesse momento que Alyn não conseguiu falar, apenas assentiu, os olhos se fechando nas lembranças de sua família.
Não sabia o que acontecia no continente, mas sabia que algo estava muito errado se Renard ainda não invadiu essa ilha para lhe buscar. Nunca aprendera a rezar direito, mas fez uma prece silenciosa à Mãe para que seja o que for, cuide de seus amigos.
Enquanto isso em Myndamum...
Os quatro encararam o enorme templo, os transeuntes não lhes dando uma segunda olhada enquanto andavam ao redor dos Taliones. Um macho com vestes parecidas com as dos mestres que foram até a Corte Diurna surgiu das amplas portas do templo e seus olhos treinados pousaram nos quatro.
Eles haviam sido escoltados até ali depois de derrubarem mais de doze guardas, e mais um punhado surgir, impedindo que seguissem caminho furtivamente. Não que achassem que tinham o elemento surpresa em uma ilha com seres excepcionalmente treinados.
— Demoraram muito, estão atrasados — Ele disse simples e se virou, após se entreolharem rapidamente, seguiram para dentro, Darren e Renard na frente. Ystria e Fellius mantendo a retaguarda juntando todas as informações que precisavam ao redor, seu olhar varrendo as enormes salas que cruzaram.
Ao cruzarem a soleira do que parecia um tribunal, se viram encarados por dezenas de olhos. Os mestres de Renard sentados logo ao lado de uma senhora, vestida com trajes simples, mas apenas os conhecedores do luxo reconheceriam a riqueza dos tecidos e adereços.
— O réu, Renard, se apresenta ao tribunal com três testemunhas — O guarda diz, para o horror de Renard. Conhecia as histórias das audiências nesse tribunal e não esperava estar aqui. Aparentemente Ystria pretendia colocar o plano de fuga em ação, mas foi interrompida quando dois guardas relativamente grandes fecharam as portas e se instalaram na frente.
Darren, como uma princesa já estava acostumada com tal diplomacia. Assumindo o cargo de defensora de Renard: — Renard não é réu, se alguém aqui tem de ser julgado, podem julgar os três por usarem magia de metamorfo para enganar pessoas e sequestrarem a Grã-Senhora da Corte Outonal.
A sala explodiu de conversas e a senhora observou a fêmea com olhos semicerrados, os dedos nodosos segurando o braço de sua cadeira com força. Ao seu lado, mestre Pugna parecia pronto para matar alguém, muito provavelmente Darren. Mestre Strega parecia quase satisfeita com as palavras de Darren.
— Você acusa os três membros do conselho de Magia Vulpes de sequestro? — A voz rouca da idade ecoa no salão, silenciando a todos.
— Sim. — É a resposta de Darren, a princesa parecia estar em seu ambiente no meio daquelas pessoas, Renard manteve os olhos firmes nas mãos da senhora enquanto Fellius e Ystria esquadrinhavam por mais ameaças. — Um dos nossos guardas viu a pessoa quem a levou, e caso vocês não saibam, a magia pela qual a Corte Diurna e meu tio e eu somos conhecidos, é por sermos os quebradores de feitiços. Imagine a minha surpresa ao remover o encantamento do guarda e ver um dos seus queridos mestres utilizando as feições de uma das emissárias da Corte para entrar no paládio — Era um blefe. Renard sabia disso, mas não deixou transparecer ou sequer pensou muito sobre. Mas entre os quatro, todos sabiam que era impossível ver tal coisa sem um daemati. Mas aparentemente, os vulpes ao seu redor não.
— Se você viu, como afirma, quem foi? — A pergunta deveria ter desestabilizado Darren, mas anos e anos de política féerica haviam lhe preparado para momentos como esse. O mestre Aliquot permaneceu estoico, uma pequena gota de suor escorrendo por sua tempora. Pugna estava prestes a explodir a cada palavra dita, enquanto Strega parecia estar em um espetáculo.
Darren deslizou seus olhos dourados por sobre os três, aquele conhecimento milenar que seu tio havia passado adiante, as pequenas facetas que passam despercebidos numa sala — Antes de falar, gostaria de perguntar a senhora, tem filhos?
Por um segundo, a pergunta foi tão inesperada que a senhora deixou a máscara escorregar e surpresa passou por seu rosto, tão rápido quanto veio, se foi. Mas não foi ela quem respondeu, Pugna, que parecia a um fio de cometer um crime, falou: — Primeiro nos acusa, e agora desrespeita nossa líder? Quem você pens-...
Ele foi interrompido quando a senhora ergueu a mão e calmamente disse: — Todos os Vulpes são meus filhos — Darren não deixou a satisfação transparecer em suas feições.
— A mulher que seus mestres sequestraram está sofrendo a perda de quase todos os filhos — Disse para as pessoas ao redor, seu olhar vagando para os Vulpes ao seu lado. Uma fêmea tinha próximo a si um pequeno filhote que puxou para perto. — Caso já tenha perdido um filho, saberá o quanto essa dor pode ser destruidora. Um dos filhos dela, Alyn, era a féerica para quem Renard foi designado. Ele criou a criou, sem a ajuda de ninguém, nem mesmo a de vocês. Vocês não interferiram quando ela foi torturada, quando ele precisou de vocês. Mas agora, quando mais precisamos de Renard, vocês decidem que ele deve ser condenado a largar tudo e retornar para essa ilha esquecida por Deus com pessoas que ele não conhece e quando ele exerce seu livre arbítrio e diz não, vocês sequestram a única pessoa que o liga à féerica cuja vida está atada à dele?
Seja lá qual for a estratégia de Darren, estava dando certo, os vulpes ao redor pareciam cada vez mais agitados. Poucos vulpes conseguiam sair da ilha e daqueles que iam, menos ainda voltavam com vida. Nem todo treinamento na ilha consegue os preparar para a vida no continente, para os féericos e suas culturas, crenças e políticas.
— Me parece um pouco contraditório, não é? — Darren continua, seu olhar firme preso a figura que estava mais relaxada, aos poucos a boca se apertava. — Não preciso revelar quem a sequestrou, você sabe quem foi. Não queremos lutar, viemos apenas pedir humildemente que devolvam a Grã-Senhora e nos deixem partir.
A senhora pareceu analisar tudo que foi dito, afundando no encosto de sua cadeira. Os mestres ao seu lado, tensos como fio de arco. Renard murmurou o feitiço de proteção, tão baixo que parecia mais uma prece, seu lado coração parecendo querer sair para fora. Fellius ao seu lado apoiou a mão casualmente sobre o cabo da espada, mas o ex general estava pronto para lutar.
As pontas dos dedos de Ystria estalavam com pequenas faíscas, eles de fato não vieram para lutar, mas se fosse necessário, iriam lutar com todos. A conversa ao redor não era mais que um burburinho irritante quando a senhora ergueu a mão e se levantou, com auxílio de mestre Strega. Uma conversa pareceu se passar entre elas quando se olharam, e Darren soube.
Estavam definitivamente ferrados.
Cretea, muito longe de Myndamum
Alyn concentrou sua magia para aquela ponte mental, aquele lugar que estava partido, quebrado e com estilhaços. O antigo laço com Renard estava tão fraco que fazia horas que estava ali e não conseguia passar da metade. A água ao seu redor ondulou novamente quando seu poder fluiu para o ponto abaixo da costela em seu lado esquerdo.
Renard, meu amigo...
Deixe-me vê-lo
Novamente em Myndamum
Renard precisou de força para não ofegar ali mesmo, o arranhão insistente em seu lado esquerdo intensificado. A senhora abriu a boca para falar alguma coisa.
Foi quando sentiu.
Luz explodiu em seu peito e ele sentiu.
A ponte que fora quebrada...
A princesa que esteve morta...
— Darren... — O sussurro não foi escutado.
— Vocês, féericos de Prythian, trazem consigo arrogância... — A senhora falava, muito. Mestre Mox era a mais antiga dos mestres, milênios de conhecimento. Mas Renard não conseguia ouvir uma só palavra.
Seu peito apertou, aquela luz explodiu de novo. O arranhão persistiu e ele estendeu seu poder sobre aquela ponte, reconstruindo. Refazendo o caminho que o levava até ela.
— Diga-me, eu lhe ordeno, que diga quem a levou — A voz rouca da anciã chegou aos seus ouvidos. E pelo canto dos olhos viu o sorriso de Darren crescer, o ato diplomático deixado de lado, naquele momento ela era toda sobrinha de Helion.
Os olhos dourados se inflamaram com astúcia enquanto observava a mão de mestre Mox no braço esquerdo de Strega — Àquela a quem você tem como seu braço direito. E se você mentir, eles vão saber. Por que Alaya está nessa ilha, e se não foi ela, foram eles. De qualquer forma, pouco me importa...
A discussão escapou de seus ouvidos quando o poder cegou seus sentidos. As pernas enfraqueceram enquanto ele caia de joelhos, os olhos focados na mão pálida estenida a sua frente.
Deixe-me vê-lo...
E então, estava completo. O poder de Alyn fluiu como um raio em sua direção, seu peito enchendo com o fogo dourado e de repente esqueceu quem era.
Os olhos do vulper se iluminaram com puro fogo quando ele levantou a cabeça. Fellius estava ao seu lado, ajudando-o a levantar em um piscar de olhos, mas seu foco permaceu na mestre.
— Strega, — Começou, o sorriso em seu rosto era puramente animal, a voz que saiu de seus labios parecia ecoar mil vozes ao mesmo tempo — a brincadeira acabou, a rainha está viva e nada feliz com sua brincadeira.
O choque nos rostos de Darren, Ystria e Fellius foi registrado e logo substituído por sorrisos, lágrimas pinicaram nos olhos de Darren, que brilharam ferozes para os mestres.
— Devolvam a Grã-Senhora, ou não...
Parecia impossível, mas Renard pode sentir a ligação se intensificar ainda mais. A ponte brilhando, forte e mais forte. Porém mais impossível ainda foi o rugido que estremeceu o salão.
— Dispostos a negociar? — O sorriso de Darren não era nada mais que o perigo puro e verdadeiro. E estranhamente Renard se sentiu perigoso. Forte.
Por que àquela que os fortalece está viva.
E sua força os fará lutar.
E isso os levará pra casa.
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eu disse que aos poucos eu ia voltar ao normal
quero esclarecer que eu cresci e amadureci muito nesses últimos anos e com isso minha escrita também, vou me manter fiel aos fatos o máximo possível porém vai ser nítido a mudança até mesmo na mentalidade dos personagens
beijos
see u xx
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