༆XLVI

oi gente, cês tavam com
saudades da maior, não estavam?

vocês não sabem o prazer que é estar de volta

a atualização de hoje é patrocinada pelos 80k de leituras em acofas

uma boa leitura

Nana escolheu aquele momento para retornar, os olhos semicerrados em direção ao casal. Novos panos brancos em suas mãos, assim como uma escova e uma muda de roupa.

Logo atrás dela, dois enormes guerreiros traziam uma tina grande de madeira e duas servas os baldes cheios de água quente. Alyn observou eles em silêncio, esperando a resposta do encantador de sombras atrás de si, que se mantinha quieto enquanto limpava seus cabelos.

Os dedos roçavam levemente a base do pescoço da fêmea, enviando pequenos arrepios por seu corpo. As sombras instintivamente cobriram as pernas nuas da fêmea. Alyn apertou os dedos nos lençóis e baixou os olhos para o próprio colo.

— Você já pensou em trabalhar na tenda dos curandeiros? Você faz um bom trabalho, garoto. — Azriel demorou alguns segundos para perceber que a senhora se dirigia a ele. Um leve desconforto cresceu em seu estômago ao pensar nas coisas que fazia em seu trabalho.

— Obrig...— O macho se interrompeu no momento que um rugido soou e as paredes estremeceram. Um bater de asas se ouviu, e as costas de Alyn ficaram eretas.

— Isso é... — Começou, a voz falhou e os olhos machucados se viraram para olhar o parceiro.

— Ele chegou agora a pouco. Consegue esperar antes de ir até ele? — Perguntou suavemente, tão baixo que se ela não estivesse ao seu lado provavelmente não escutaria.

— Eu não posso. Nana disse que preciso de descanso — Lamentou, seus lábios tremeram levemente e lágrimas pinicaram seus olhos, mas ela não permitiu que nenhuma caísse. Arswyd, seu filho de coração, assim como Shelly estava lá fora, e ela não poderia lhe ver pois sequer podia levantar.

A senhora ignorou a conversa dos dois e continuou preparando o banho da fêmea, depois de expulsar os soldados e as servas da cela. Nana pegou os panos sujos que Azriel  havia jogado ao pé da maca e revirou os olhos.

— Cuidado com as costas dela, e com suas asas. Temos feridos demais por hoje — Resmungou a curandeira, abanando as sombras de Azriel para longe de si. O macho semicerrou os olhos para a senhora.

— O que aconteceu com as costas dela? — A pergunta foi direcionada a Nana, mas a resposta veio de Alyn, que estava começando a ficar impaciente.

— Minhas costas estão abertas novamente. — Azriel  demorou alguns segundos para entender o que aquilo significava. Os olhos castanhos se acendendo com ódio e algo ainda mais perigoso.

Segurando o rosto da parceira entre as mãos, ele encarou os olhos azuis procurando por sinais do calor sempre presente ali. — Qual deles fez isso com você?

— Azriel... — O olhar de aviso no rosto do macho deixou claro que não havia como ela fugir desse assunto, agora ou depois ela teria de falar. — O próprio Velliard, Kol ajudava as vezes porém ele é mais um alquimista do que torturador.

— Maldito seja — O praguejar baixo do mestre espião soou tão frio quanto sua expressão. — Deite-se , vou cuidar para que seus ferimentos não tenham sido em vão.

— Deite com ela. — Os dois olharam rapidamente em direção da curandeira que segurava um cálice prateado. Mesmo confuso, o encantador de sombras ficou meio sentado e meio deitado sobre a maca improvisada e puxou Alyn para deitar sobre seu peito. — Beba isso, franguinha. Irei começar a aplicar o remédio nas suas costas.

Segurando o cálice entre as mãos trêmulas, Alyn levou-o até o nariz, inalando o cheiro adocicado do líquido. Com um franzir de cenho, ela levou aos lábios sentindo o gosto do mel misturado a algo que suspeitou ser ópio.

O gosto queimou sua garganta abaixo enquanto as sombras faziam carícias gentis em seus braços e costas.

— Illyriano, segure-a junto de si e em hipótese alguma deixe que ela se erga. Entendido?

A fêmea tentou protestar, porém sua cabeça logo estava encostada sobre o traje do illyriano e o bater do coração ecoava em seus ouvidos. E mesmo quase entorpecida, Alyn sentiu a sensação de pertencimento. O reconhecimento de um lar.

Mas a sensação não durou tanto, quando sentiu as mãos da senhora abrindo um pouco mais o lençol, deixando as costas com curativos a mostra. Seu corpo sentiu quando os músculos de Azriel se tornaram tensos, e ela soube que ele viu.

As mãos leves da curandeira logo trataram de limpar as feridas, o aperto de Azriel ao redor de Alyn se intensificou e ela pôde sentir as sombras sussurrando para ele, as gavinhas negras rodopiaram ao seu redor e enquanto as observava sentiu os olhos pesarem.

Sabia que era efeito dos remédios e do ópio, por isso não lutou contra a imensa vontade de dormir. passando um braço ao redor da cintura do parceiro, fechou os olhos e se entregou a inconsciência.

Quando a respiração da rainha se tornou superficial e calma, Azriel pode observar com calma o rosto da parceira. Nunca havia ficado tão perto dela, ao ponto de perceber as pequenas cicatrizes sobre o nariz, ou o quanto as sardas parecem gotas de bronze salpicadas sobre a pele pálida.

E foi quase impossível de resistir a vontade de tocar a pele maculada do rosto de Alyn. Mas não poderia tocá-la ainda, não enquanto tivesse seus demônios presos dentro de sua mente. Não era seguro se aproximar de Alyn.

Havia cometido muitos erros em sua vida, machucar Alyn não iria ser mais um nessa lista. Sua parceira merecia alguém honrado e que estivesse disposto a qualquer coisa por ela. E Azriel  estava disposto a se tornar esse alguém.

Um erro seu a levou até onde está agora, e agora ela precisa dele ao seu lado. Por mais de trezentos anos dedicou todo o seu tempo a Corte Noturna e seu trabalho, sobrando pouco espaço para sair até mesmo com sua família.

Precisava rever suas prioridades agora, se iria fazer isso teria de fazer direito e mereceria o carinho de Alyn.

[...]

O som de conversas despertou os sentidos de Alyn, ao mesmo tempo que seu corpo tomava conhecimento da falta do corpo duro abaixo de si. Levantando a cabeça lentamente, percebeu que Azriel havia lhe colocado na cama.

Teria voltado a dormir se não tivesse reconhecido uma das vozes. Olhando sobre o ombro conseguiu ver o grão-senhor da corte noturna vestido em trajes negros com um ombro encostado no batente da porta.

As mãos estavam casualmente dentro dos bolsos, mas Alyn sabia que aquilo era apenas uma pose, reconheceu os mesmos gestos em Renard diversas vezes. Olhos violeta se prenderam nos seus e um sorriso pequeno cresceu nos lábios do macho.

— É bom ver você viva, vossa majestade. — O tom gentil não conteve a leve brincadeira do macho. Os olhos dele se desviaram para o rosto de Azriel, que estava tenso em um canto da cela.

— É bom estar viva, Mi lorde. — Um pensamento rápido passou por sua mente, fazendo que tentasse se virar. Porém o encantador de sombras segurou seu pulso, impedindo que o fizesse.

— Continue deitada, Nana disse que precisa poupar energias. — Explicou, um leve rubor subindo por seu pescoço.

— Está bem. Mas talvez o grão-senhor precise se sentar, — Disse-lhe, o rosto ficando de repente muito mais sério. Rhysand ergueu uma sobrancelha ao ouvir a fala, mas não fez nenhum comentário. — preciso que entre em minha mente.

— Como disse? — Perguntou confuso. O grão-senhor e o mestre espião trocaram um olhar confuso antes de se voltar novamente para a rainha.

— Não vou conseguir contar cada mínimo detalhe, posso deixar passar algo crucial, principalmente ligado ao fato de que estive delirando por uns dias e que me libertaram contra as ordens de Velliard — Explicou, gesticulando de forma rasa. A expressão de Rhys ficou sombria e ele de fato procurou algum lugar para sentar.

— Você tem certeza que deseja isso? — Perguntou o grão-senhor, a expressão séria como nunca antes. A fêmea assentiu em concordância.

— Apenas... cuidado com o que verá — Pediu, antes de fechar os olhos e se fixar naquela parede flamejante e impenetrável em sua mente. Sentiu as garras negras arranhar as paredes de sua mente antes que achasse o caminho até às lembranças.

A varredura minuciosa de cada acontecimento desde o momento em que acordou na sala escura acorrentada em todas as paredes até o momento que perdeu a consciência antes de ser encontrada pelos Cretenianos. Alyn não sabia quanto tempo durou, poderia ter sido horas ou segundos, mas quando abriu os olhos novamente Rhysand estava com os cotovelos apoiados nas coxas e a cabeça entre as mãos.

Quando ergueu o rosto novamente, sua expressão não exibia qualquer emoção: — Você deveria estar morta, como isso é possível?

— Ystria certa vez disse que nasci abençoada com o dom da sobrevivência, e que não importa o que aconteça de alguma forma... eu sempre sobrevivo. — Com cuidado, a fêmea segurou o lençol em frente ao peito e se sentou ciente das bandagens em sua costa. — Eu não consigo achar uma resposta para a razão de não terem me matado no terceiro dia. Ou em todas as vezes que insultei eles. Eu não tinha utilidade para eles ali, a tortura e a fome e a sede... Nada que eu nunca tenha passado antes, me empurraram ao limite e recuaram quando explodi. Não com medo, mas como se finalmente descobrissem o que queriam.

— Então, suspeita que Velliard pretenda usar essa informação para algo? — Azriel perguntou. Um vinco se formou entre as sobrancelhas escuras e as asas se fecharam ainda mais.

— Eu... não tenho certeza. Ele pegou o caldeirão e o livro, nem mesmo o Rei de Hybern chegou a por as mãos neles. — A rainha levanta uma mão pálida e observa a ponta dos dedos, onde as unhas antes grandes e afiadas como garras haviam se reduzido a pedaços quebrados e irregulares. — A pessoa por trás disso não tem interesse em Prythian, ela quer tudo. Quer este mundo, para seja lá o que.

Alyn espera que o grão-senhor diga algo, mas ele permanece imóvel. É a voz baixa de Azriel que chama sua atenção:

— Essa pessoa esteve em sua cela antes da explosão.

Rhysand, que parecia perdido em pensamentos enquanto observava um ponto em específico do chão pareceu ser puxado de volta a realidade ao ouvir a palavra.

— O que disse? — Perguntou, os olhos violeta se abrindo um pouco mais com a nova informação.

— As sombras... Alyn estava presa há oito dias quando suas feridas se agravaram e ela perdeu o controle. — Azriel  observou a fêmea com cautela antes de dar continuidade. — A explosão de poderes foi sentida nos arredores da Corte outonal - incluindo nos limites da Invernal -, o fogo derrubou duas torres da Casa da Floresta, além de ter soterrado os andares subterrâneos.

— Pelos Deuses... — As palavras pareciam entaladas na garganta da rainha. Sentiu algo subir em sua garganta, o gosto amargo em sua língua. Então, se recordou. — Lucien também estava lá, onde ele está? — Os olhos se moveram com rapidez entre o grão-senhor e o mestre espião.

— Antes de vir para cá, enviei meus espiões para a Corte Outonal e Diurna. Lucien foi encontrado enquanto você estava desacordada, ele está um pouco melhor que você, mas também está ferido. — Foi Azriel quem respondeu. Alyn puxou o lençol ainda mais para cima, os ombros tensos relaxando visivelmente.

— Eris...? — O nome soou hesitante conforme se recordava do irmão mais velho. A última vez que o vira foi durante a tentativa falha de fuga, quando foi capturado junto dela e de Lucien.

— Seu irmão não está morto, ao que parece Velliard ordenou que alguns soldados dessem fim em sua existência, mas isso não aconteceu — Respondeu Rhys, sua voz dura como se até o pensamento de Eris vivo o irritasse. Alyn não o culpava, sabia o irmão que tinha e  agora tinha ciência das atrocidades cometidas contra Morrigan. Sentira a necessidade de se desculpar por isso, mas não havia nada que pudesse fazer.

— Ótimo. Então, a Corte Outonal foi abandonada e destruída. As pessoas que viviam ali... — Lembrou-se do povo féerico que sofreu nas mãos arrogantes e esnobes dos Vanserras. — Que a Mãe os proteja onde diabos eles estejam.

— Uma parte migrou para a primaveril, outra para a estival e outras para as demais cortes. Famílias inteiras estão tentando se adaptar provisoriamente em outras cortes. — Azriel disse, aquela linha em sua testa se enrugando.

— Isso tem que ter um fim, e logo. — A voz de Alyn parecia crua e séria demais para seus próprios ouvidos. — Velliard veio aqui esperando uma guerra. Perdemos grandes números de soldados com suas investidas individuais, mas se juntarmos os exércitos nós teríamos uma chance, mesmo que pequena.

— Tem razão, mas aquelas criaturas, Valgs, são demônios que nem mesmo as habilidades de um illyriano – com nível de luta de um grão-senhor — pode derrotar — Argumentou Rhysand, os olhos violeta com aquele brilho perigoso do qual fora alertada. — Pedir aos grão-senhores que coloquem seus homens na linha de frente contra aquilo é incitar um banho de sangue que sabemos que não temos chance.

— Me perdoe, grão-senhor, mas não estamos em condições de pedir. Velliard e Milliken estão com os dois dos objetos mágicos mais perigos de toda Prythian e deste mundo. — Grunhiu a fêmea, os lábios secos e os olhos se movendo rapidamente entre os dois machos. — Aquelas criaturas tem fraquezas, eu posso não ter quinhentos anos de experiência por trás de meus planos, mas tenho cento e vinte de pura sobrevivência. Eu posso não estar em meu melhor estado, mas assim que essa coisa se fechar sobre a minha pele, nós – não eu, ou você, ou Azriel, todos nós  – iremos marchar até onde aquele filho da puta estiver e só sairemos de lá quando aquele maldito e todos os seus estiverem mortos.

obrigada, a cada leitor que dedicou um momento pra parar e ler minha fanfic, eu sou eternamente grata a cada um

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