Capítulo 3 - ༄𝐶𝑎𝑠𝑎 𝑑𝑒 𝑆𝑒𝑔𝑟𝑒𝑑𝑜𝑠
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e pela primeira vez eu tenho um capítulo pronto para comemorar e nada melhor do q um novo capítulo da jornada da nossa bebê?
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Ystria seguiu para as estantes a direita e Renard as da esquerda. Eu segui reto para as escadas até o segundo andar, as tochas se acendendo a cada passo meu. Os degraus cobertos de poeira rangendo sob minhas botas. Podia ouvir os sussurros dos livros, me chamando.
Andei em frente das estantes procurando, até que uma me chamou atenção. A estantes com exemplares sobre as espécies de criaturas conhecidas e desconhecidas. Fui até uma mesa de madeira com um candelabro antigo no centro e o acendi. Coloquei os livros com cuidado para não danifica-los, saquei o livro de vulpes do bolso e procurei o feitiço que vínhamos usando para leitura rápida. Estendi minha mão sobre os livros e recitei as palavras:
— legit velox sis. — Várias palavras inundaram minha mente e podia ouvir o barulho das folhas antigas passando rápido. As imagens dos animais ilustradas nos livros passando em meus olhos. Não sei quanto tempo fiquei no estado de transe do feitiço. Pisquei empilhando os mesmos e levando de volta para a prateleira. Pensei, pensei, pensei. Tem que haver alguma coisa sobre, ignorei os sussurros vindo da estante de lendas e segui até a de história.
E o ciclo começou novamente, pegar livros, recitar feitiço, devolver livros e pegar mais livros. Já havia se passado horas, eu não havia comido nada, minha alergia estava atacada e eu já havia revirado quase todas as estantes desse andar. Me joguei em uma cadeira e funguei tirando algumas teias de aranha do cabelo.
— Acharam alguma coisa? — grito ouvindo um sonoro "não" em coro dos dois. Bufei quando mais um espirro me escapou. Estava espirrando desde a segunda estante, isso eu havia descoberto na nossa primeira visita na biblioteca de Aurum. Foi um fracasso, meu nariz havia começado a escorrer e só parou quando Renard me deu um vidrinho com álcool para cheirar e um lenço.
Meus olhos já estão lacrimejando de tanto espirrar. Me levantei novamente e segui para uma das únicas estantes que eu ainda não havia pegado. A de lendas. Renard me ensinou que lendas são coisas que não são reais e se uma coisa eu sei é que aquilo na Corte de Beron é bem real. Mas o que custa olhar, não é? Peguei alguns livros grandes e voltei para a mesa, esses eu deveria ter mais atenção.
— Ystria, querida, quantas lendas você sabe que são reais? — grito. A mesma não responde de imediato e logo a vejo subindo as escadas. A mesma para de frente para a mesa e olha os livros. Seus olhos se arregalam e coloca as duas mãos na cintura.
— Como não pensamos nisso antes? — Murmura para si mesma. A fêmea se inclinar sobre a mesa e observa os livros. — Perdemos tempo procurando entre as criaturas, pela descrição que vocês deram era claro que aquilo não pertence a este mundo ou ao menos não é de Prythian e se for é antigo suficiente para não "existir". — Diz enquanto dedilha a capa de couro de um deles. Me controlo para não lhe brigar por isso, estava arranhando a capa com a unha.
— Lendas são apenas isso, lendas. — digo simples e a mesma me olha feio.
— Criança, lendas são muito reais, acredite. Sabe Cassian, Azriel e Rhysand? Lendas. Amren? Uma lenda, especificamente o monstro das histórias infantis. Feyre, defensora do arco-íris, quebradora de maldição, escolhida pela Mãe e Grã-Senhora da Corte Noturna? Uma lenda. Helion, Kallias, Tarquin, você sabe quantas lendas vieram para a última guerra? O entalhador de ossos era um, a Tecelã, Bryaxis. Sabe a amiguinha do seu irmão? Vassa, a rainha humana que durante o dia é um pássaro de fogo e a noite uma fêmea, uma lenda! Existem lendas espalhadas por todos os lugares, estava na nossa cara! — Sua voz estava alta e estridente, com uma animação que eu nunca tinha visto antes, nem mesmo quando Helion deixou abrir sua adega pessoal. Renard logo subiu as escadas e parou ao nosso lado.
— O que é isso tudo? — pergunta para mim. Dou de ombros e aponto.
— Peguei livros sobre lendas e Ystria surtou um pouco, nada de preocupante.
— Alyn, sem brincadeiras. — Responde sério se virando para a mesa.
— Ok, não está mais aqui quem falou. Vocês vão ler algum ou posso recitar o feitiço? — pergunto estalando os dedos. Os dois negam e se afastam. Estiquei as mãos a frente do corpo sobre os livros e fechei os olhos, eu estou exausta e preciso me concentrar totalmente ou algo muito ruim pode acontecer. Não posso arriscar perder o controle aqui.
As palavras invadiram minha mente e mil e uma criaturas saltaram em minha língua. Senti meu corpo ficar leve conforme cada história se mostrava para mim. Cada lenda, cada conto, fábula, tudo que esteve preso dentro das páginas velhas e gastas agora me invadia. Vi treze fêmeas e uma grande serpente alada, vi um macho com asas cinzas e uma auréola de espinhos, vi uma rainha com coroa de fogo, vi uma fêmea de cabelos vermelhos e pele dourada, vi um macho de cabelos cinzas e tatuagens.
Não eram lendas, seja lá qual livro isso pertença são histórias. Eu sinto. Essas pessoas, cada uma delas eu sinto elas. Então mais palavras e surgiu a lenda de uma rainha sombria escondido em um mundo que não lhe pertence. Milhares de criaturas como a que eu vi, um lugar sombrio e pútrido. Uma estrela cadente atravessando o céu. Uma dor me atingiu e senti como se meu corpo estivesse se partindo. Mais imagens inundaram minha cabeça. As lendas haviam sumido dando lugar apenas aquela história, uma única história.
Sabia que em algum lugar estavam gritando meu nome, mas não conseguia ouvir. Queria saber quais seriam os passos da fêmea de olhos obsidiana. Vi mais daquelas criaturas cruzando mundos e se infiltrando em féericos e humanos. Matando milhares. Uma fêmea loira presa dentro de um caixão de ferro com uma máscara de ferro. Pela Mãe.
Então a voz de Renard surgiu em minha mente espantando todas as imagens de lá. E então eu caí. Meus joelhos se chocaram com o chão e meus olhos se abriram. Meu peito subindo e descendo rápido conforme as batidas de meu coração contra minhas costelas. Levei a mão ao peito e me curvei para frente. Uma palavra ainda em minha mente em relevo. Valg.
— Eu vi... Estamos fodidos, muito fodidos. — Renard se abaixou ao meu lado e me segurou contra si, me balançando como um bebê. — Precisamos voltar, agora! — Digo rápido. Meu amigo assente e levanta nós dois me colocando sentada na cadeira mais próxima.
— Alyn, desculpe, mas qual o livro? — Ystria perguntou, seu tom denunciando que a mesma não queria ter de perguntar aquilo. Mas essa era a nossa missão, foi pra isso que viemos aqui.
— Capa de couro verde, veado e uma coroa. Esse livro... — Respirei fundo, era como se o ar tivesse sido roubado de meus pulmões. — Ele não pertence ao nosso mundo, seja lá como ele veio parar aqui, ele não pode cair nas mãos erradas. E com isso eu quero dizer, Velliard e seus aliados. As criaturas malignas, Valgs, estão em Prythian de alguma forma e já escolheram um lado nessa guerra. — Enterrei a cabeça entre as mãos. Os cotovelos pressionados contra minhas coxas. — A história é confusa, tem muitas brechas, não faz sentido. Eu... — Senti um aperto em meu peito. Não sabia o que estava acontecendo. Uma corrente de ar frio passou por nós e as tochas se apagaram. — Renard... temos que voltar, agora! — Digo me levantando, minha cabeça rodou e minha visão embaçou. Me segurei no braço da cadeira e tentei me manter de pé. Respirei fundo, fazendo meu nariz coçar.
Renard me amparou e Ystria pegou os livros colocando dentro da bolsa que havia levado consigo. Nós três saímos do templo e apaguei com fogo os símbolos pintados na porta, lacrando novamente a biblioteca secreta de Helion. Mas assim que demos as costas para a construção antiga vimos ao longe soldados com tochas se aproximando, um grupo de no máximo vinte pessoas. Fiz sinal para os dois ficarem quietos e puxei ambos em direção ao bosque. Rapidamente nos escondemos em meio as árvores e a grama alta.
Meu sangue gelou nas veias ao constatar quem liderava aquilo. Milliken tinha os cabelos presos em uma longa trança e usava armadura de couro junto de uma grande espada pendebdo em sua cintura marcada. Logo atrás Joen e Eridion olhavam ao redor, os olhos só mais novo dos Barrwod se grudaram na floresta e o mesmo fez sinal em nossa direção. Eu tinha que atravessar para o palácio agora, mas meu corpo se recusa a fazer qualquer tipo de esforço mágico no momento. Puxei os dois com cuidado pelo bosque, iríamos fugir por um tempo. Eles não iriam muito longe, afinal a Corte Noturna não é qualquer corte.
Andávamos seguindo a luz da lua que entrava por frestas entre as folhagens. O sol já havia se posto a um bom tempo e nós não havíamos retornado. Fellius e Darren vão nos matar. Olhei para trás e alguns bons metros de nós era possível ver as tochas entrando na floresta. Inferno de Príncipe maluco. Qual o problema dele comigo? Já não basta ter invadido meu quarto e quase me violado, invadido a corte dos Vanserra ainda quer casar comigo? Pelo amor da Mãe, que cara chato. Não quero levar eles para dentro do território alheio e acabar chamando atenção para nós, mas também não quero ter que lutar. Seria injusto e nós três acabaríamos presos.
Apontei para cima e logo começamos a escalar as enormes árvores, criaturas perigosas andavam por esses bosques durante a noite e eu não quero as conhecer hoje. Meu encontro com suas vítimas vai continuar em minha lembrança por um bom tempo. Ficamos na mesma árvore em galhos diferentes. Renard no mais baixo, observava ao redor com cautela. Ystria parecia acostumada a fazer isso.
Um dos sentinelas olhava para cima e temi que nos visse, o mesmo olhou diretamente para onde Ystria estava e se virou para os outros que já iam mais a frente. Me espremi contra a árvore e deslizei para dentro de sua mente com cuidado, as garras de fogo revestido caçando. Assim que achei o ponto certo sussurrei dentro de sua cabeça: "Foi apenas um animal, não era ninguém" A convicção em minhas palavras fez o soldado balançar a cabeça e olhar para trás uma única vez, sem levantar a cabeça. Depois se juntou aos outros. Um suspiro me escapou.
Continuamos ali até que eles retornassem para o templo. Meu corpo doía, minha cabeça ainda dava voltas e quis chorar. Estava tão cansada disso e ainda não havia acontecido nada. Renard sempre disse que fui muito coração, pouco cabeça. Agora entendo o que ele queria dizer. Eu sinto coisas numa intensidade maior, talvez pelas cicatrizes em minha alma e corpo. Respirei fundo antes de descer com a ajuda dos dois.
Uma vez no chão não olhei para trás apenas os segurei como se minha vida dependesse disso e nos levei de volta. Desabando de joelhos no chão da sala. Rapidamente fui segurada.
— O que ela tem? — Helion erguntou se aproximando com passos pesados e rápidos. Com um movimento o mesmo me pegou no colo e me deitou no sofá.
— Não é nada, eu só estou um pouco cansada. — Respondo tentando me sentar, mas tudo volta a rodar e me sinto enjoada.
— Ela comeu algo hoje? — Darren perguntou aos dois agora sentados no outro sofá colocando os livros na mesinha de centro. O silêncio dos dois fez com que Fellius ficasse irado.
— Vocês enlouqueceram? Deixaram ela sem comer sabendo que feitiços exigem muito do corpo, que tipo de coisa passa pela cabeça de vocês?!
— Não se meta aonde ninguém lhe chamou, Alyn não comeu pois se enfiou no meio da floresta e quando retornou foi direto fazendo o feitiço. — Renard rosnou se levantando e encarando o macho de cabelos brancos. Não era culpa deles, não os queria brigando por mim.
— Parem, por favor! Fellius, eles não tem culpa! Me desculpem, eu queria ajudar vocês, eu precisava pegar os ingredientes por mim mesma, precisava provar que não sou uma criança! Eu preciso ser útil! — Em algum momento lágrimas começaram a escorrer por meu rosto, eu estava frustada comigo mesma. Eu tinha causado isso comigo, sempre soube as consequências de fazer feitiços e mesmo assim sorrio e os faço. Mais discussões explodiram na sala e me encolhi no sofá.
Não quero ser um peso que eles sempre tem que cuidar e proteger. Odeio me sentir assim. Na Outonal Renard sempre foi superprotetor comigo, pois esse era o seu dever. Agora não precisa ser assim, quero ser tão útil quando os outros. Quero provar para mim mesma que sou capaz de ser mais que uma vadia emotiva.
— Todos vocês, calados! — Um arrepio percorreu minha pele ao ouvir o comando do Grão-Senhor ao meu lado. — Estão todos errados, mas discutir não vai levar a lugar algum. O que está feito, está feito. Não tem como voltar atrás, apenas cuidar para não repetir futuramente. Felllius e Renard, os dois resolvam seja lá o que tenha causado essa raiva entre os dois, ninguém é obrigado a lidar com isso por vocês. Ystria e Darren, levem os livros para a biblioteca. — Vi quando meu amigo abriu a boca para responder, sabia o que iria dizer e isso só pioraria a situação. Olhei com súplica para ele. Renard assentiu para mim e se aproximou dando um beijo em minha testa e mandando pelo laço nosso juramento. Logo saindo da sala sendo seguido pelos outros três.
Assim que fiquei sozinha com Helion senti vontade de me desculpar. Havia entrado em seu palácio e bagunçado totalmente sua vida de uma forma que não sei se um dia poderá me perdoar.
— Desculpe por isso. Tudo isso. Darren devia ter ido em meu lugar, eu só atrapalhei. — Funguei colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Me senti pequena ao ver o olhar que o mesmo me lançou.
— Gostaria que soubesse de uma coisa, — Lhe olhei com curiosidade ao ouvir suas palavras e deixei que continuasse. — tenho todos vocês como minha família, assim como Darren e Manch. Me preocupa muito o quanto você não valoriza sua vida. Quase morreu três vezes apenas essa semana. — Um suspiro cansado saiu do macho e apertei os braços ao meu redor. — Imagine como seria doloroso para quem te ama perder assim. Sei que não se importa em dar a vida para ajudar, mas tenha em mente que você é insubstituível para nós. Você é a filha que eu nunca tive, até mesmo a forma como se mete em confusões. Tem todo o direito de estar chateada com tudo isso, tem todo o direito de chorar toda a água do seu corpo se desejar, mas não ache que irá se livrar de nós tao fácil mocinha. — Sorri em meio as lágrimas. Helion cuidaria de nós. Não consegui conter os tremores em meu corpo quando um soluço quebrou minhas barreiras. — shh, tudo bem, vem aqui. — Me puxando para perto o mesmo me abraçou e aninhou sob seu braço de forma protetora.
— Me desculpe, eu sou uma ingrata. Todos vocês estão tentando me ajudar e a única coisa que sei fazer é chorar.
— Não diga isso. Quem fez um feitiço super mega hiper complexo hoje? Quem foi que desafiou um Grão-Senhor e gritou com ele duas vezes? Quem conseguiu fugir daquela fortaleza horrível cheio de guardas e sentinelas? — Suas mãos grandes faziam carinho em meus cabelos. — Você. Sua mãe teria orgulho de ver você assim.
— Chorando no colo de um macho quinhentos anos mais velho depois de um dia extremamente exaustivo? — Brinquei com a voz ainda embargada. Me surpreendi ao receber um tapa em minha cabeça.
— Você consegue receber um elogio sem se depreciar ou vou precisar usar alguma técnica mágica? — Ironizou puxando meu cabelo.
— Para! — bati em sua mão e ri. O mesmo parecia empenhado em me fazer sorrir e conseguiu. Helion era uma companhia agradável que me fazia imaginar como seria quando ele tivesse seus próprios filhos. — Você vai ser um ótimo pai um dia, Helion. Espero estar aqui quando formar sua família, de verdade. — Surpresa invadiu seu rosto e um lampejo de tristeza brilhou nos olhos âmbar.
— Só existe uma mulher com a qual gostaria de formar uma família, mas isso é impossível. Mas obrigada, Alyn. Você seria uma ótima filha também. — Sorri triste para o mesmo. Olhei para a frente e apoiei a cabeça em seu braço.
— Talvez se em algum universo paralelo meu pai não fosse quem é, sim, eu seria.
— As atitudes de Beron não refletem em você, demorei bastante para entender. Você é apenas uma cópia fiel de sua mãe em muitos aspectos. — Me virei completamente para ele e estudei seu rosto. Helion estava sério e ostentava uma postura diferente do Grão-Senhor provocador que se mostrou.
— Você parece saber muito sobre ela, eram amigos? — Perguntei inclinando a cabeça para o lado avaliando cada parte do seu rosto. Um sorriso nostálgico cresceu em seu rosto e retirou o braço que eu estava encostada.
— Amigos... — Helion ponderou um pouco e sorriu pequeno. — É, éramos amigos. — Ergui uma sobrancelha, mas não disse nada. — Relatório da Missão. — Pede mudando de assunto, começo a contar sobre nossa ida até o templo e o feitiço para abrir a porta de pedra e me entreti falando sobre os animais mortos no bosque e sobre o livro que pegamos. — Agora, pode me dizer o que houve com sua camisa? — perguntou apontando para o tecido antes branco, agora em uma mistura de marrom terroso e lama. Havia sem querer pulado a parte do meu encontro com o encantador de sombras.
— Ah, isso foi cortesia do mestre espião da Corte Noturna. — Sorri ao lembrar do macho que não me deixou em paz por uns bons minutos. O macho dos meus sonhos, ainda era inacreditável. Senti o cheiro de biscoitos quentinhos e me levantei seguindo o cheiro até a cozinha.
— Como? — Perguntou surpreso.
— É, a gente meio que se conheceu. Ele é bem simpático, se ignorar as piadinhas ácidas. Oi, meninas. — Cumprimentei as fêmeas que estavam na cozinha, as mesmas já estavam acostumadas com um de nós invadindo o espaço para roubar comida.
— Simpático? Piadinha? Tem certeza que conheceu Azriel? Pode ter confundido com o outro, Cassian, o General. — Retrucou firme, parecendo ter certeza. Roubei o pote de biscoito na bancada e mastiguei um antes de falar.
— Como é esse Cassian? — Perguntei mesmo tendo certeza de que era Azriel.
— Cabelos até o queixo, forte, sifões vermelhos, sorriso cafajeste, piadinhas infames e uma argolinha minúscula. — Sorri com a descrição completamente oposta do macho que me jogou no chão no meio da chuva e sujou minha roupa.
— Não, definitivamente não era esse. Cabelo bem cortado, nem longo nem muito curto, bem alto, forte e esguio, sifões azuis cobalto, as piadinhas eram mais em tom de ironia e não tinha nenhuma malícia e sem argolinhas, apenas uma cicatriz minúscula na sobrancelha. — A imagem do mestre espião sorrindo para mim inundaram minha mente e enfiei um biscoito na boca para conter o sorriso que queria crescer em meu rosto.
— Alguém estava se passando por ele então. — Deu de ombros, semicerrei os olhos em sua direção.
— Qual a dificuldade de acreditar que era Azriel? — Perguntei franzindo o cenho. Estava me incomodando essa desconfiança descabida.
— Simples, você o descreveu como simpático e com piadinhas. Azriel, o mestre espião, não faz piadinhas, nem sequer abre a boca direito. Está sempre quieto observando tudo entre as sombras. — Defendeu roubando o pote de biscoito de minhas mãos. Lhe olhei indignada e tentei pegar de volta.
— Não é como se ele tivesse se sentado comigo e me contado tudo sobre si, ele apenas me algemou e me fez gritar, sem novidades. — Helion engasgou com o biscoito e meus olhos se arregalaram. Coloquei o pote na bancada e bati em sua costa até que o pedaço preso saísse. As fêmeas olhavam para nós dois assustados e uma delas já estava com um copo de água em nossa frente. Agradeci estendendo para o macho um pouco arroxeado. — Que droga foi essa?
— Ele fez o que? — Perguntou esganiçado, lhe encarei confusa.
— Me algemou e me fez gritar, ele é realmente bom com as mãos. — Digo enquanto lembro da habilidade do mesmo em me prender e virar sem o menor esforço. Helion estava começando a empalidecer e bebia a água como se tivesse passado muito tempo sem o líquido.
— Pela Mãe, menina. Você não era virgem? — Lhe olhei assustada no mesmo instante e me virei totalmente para ele.
— E ainda sou, não tô te entendendo... — Foi sua vez de né olhar assustado e o questionei com o olhar. — Enlouqueceu, homem?
— Ele realmente te algemou? — Perguntou ainda sem acreditar e estiquei o pulso mostrando o arranhão. — Não creio, vá tomar banho Alyn! — franzi o cenho para o mesmo, mas decidi fazer isso. Afinal preciso tirar essas roupas e tomar um banho decente. Teremos uma longa semana pela frente.
[...]
Me distrai no caminho para meu quarto e acabei me perdendo no palácio, demorei um bom tempo para achar o caminho de volta. Entrei sem querer em uma sala de quadros e fiquei surpresa ao encontrar um quadro de minha mãe ali, ela parecia estranhamente feliz. Um sorriso que nunca havia visto em seu rosto brilhava e seus olhos transmitiam uma paz que foi capaz de relaxar meus músculos tensos. Perguntaria para Helion depois sobre isso.
Não é normal ele ter um quadro dela. Tudo bem que eles foram amigos no passado, mas que tipo de amizade era essa? Ele sempre parecia preocupado com os sentimentos dela e toda vez que tocava no nome de minha mãe seus olhos adquirem um brilho nostálgico triste.
Assim que me joguei em minha cama, depois de tomar banho e vestir uma das minhas camisolas de seda e renda deixei minha mente vagar até meu plano, o mesmo que já havia sido vetado. Mas depois de hoje não seria possível adiar por muito tempo mais. Milliken está com eridion e Joen na corte Diurna a minha procura. Ou seja, apenas Velliard e Kol ficaram na Corte.
Os exércitos deles não devem estar instalados na fortaleza principal, nem se quisessem. A casa da floresta é imensa, porém cada cômodo tem uma função específica. Tudo ali foi erguido e distribuído do modo como o cérebro de Beron funciona e apenas ele entende. Velliard pode ser obstinado, mas não é um Vanserra. Os únicos que entendem a loucura daquele lugar é alguém de lá, sei disso pois querendo ou não cresci lá — presa, mas ainda lá.
Renard, que me encontrou no corredor dos quartos alguns minutos atrás me deu uma notícia que apenas reforçou minha ideia. Nyara está grávida. Urie, ela, minha mãe, Eris, Beron, Ignner e Orion estão presos nas masmorras ao lado da minha cela. Odeio os Narttu, mas me senti minimamente satisfeita em saber que Beron está experimentando um pouco do próprio veneno.
Mas meu sobrinho não tem culpa dos erros de nosso maldito clã. E se depender de mim, mesmo que não mereça, Urie irá ver seu filho crescer. Minha prioridade no momento é tirar os três de lá, mas um ataque direto seria arriscado demais. Mas se for fazer isso irei fazer com prazer e do jeito certo, vou entrar naquela Corte pela porta da frente e mostrar como se faz uma verdadeira entrada triunfal para aquele príncipe que ousa dizer que é meu dono.
Chega de brincar de esconde esconde, amanhã falarei com Helion sobre uma possível reunião com os outros Grão-Senhores o mais rápido possível. E se eles não tiverem dispostos a lutar contra Velliard, nós faremos sozinhos. Mesmo que isso custe nossa vida.
Dormi aquela noite pensando no livro de lendas e nas histórias ali contidas. Dessa vez os únicos olhos em meus sonhos eram como obsidianas e faziam meu interior se contorcer em agonia.
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Como vocês estão? E pq estão acordados a essa hr?
não sei se vcs viram a personagem nova da Sarah, uma ruiva chamada Gwyn. Eu só não me apaixonei, pq a minha ruivinha já ocupou o lugar como parceira do Azriel na minha cabeça. (não é nem meme.)
espero q gostem do capítulo, e vejo vcs qualquer dia desses.
e para aqueles que desejaram melhoras ao meu amigo, muito obrigado, ele já está melhorando, só está na espera de um leito para fazer a cirurgia no rosto.
amo vocês <33
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