Parte 2
– Hei, garotão. Hora de acordar, acabou a soneca.
Jô abriu os olhos, havia perdido a consciência. Em meio à fumaça do acidente conseguiu discernir o rosto barbudo de Ruan olhando em volta apreensivo. O cargueiro espacial havia caído no planeta e estava partido ao meio. Seus destroços se misturavam aos entulhos das montanhas de lixo.
– Parece que somos só você e eu, amigão. – disse o grisalho – Levanta logo seu molenga.
– Por que você tá tão perto, velho? Ta querendo me beijar? – caçoou Jô ao se sentar.
– Pelo visto você está bem. Agora levanta logo, aqui não é seguro. Precisamos arrumar um lugar pra gente se esconder. Aquelas coisas devem estar à solta por aí.
Os dois se colocaram a caminhar em meio à sujeira de Fuji. Ruan ia à frente consultando um tipo de mapa digital. Andaram por uns vinte minutos, não viam nada a não ser lixo até onde os olhos podiam alcançar.
– O que eram aquelas coisas? – Jô perguntou.
Depois de um suspiro pesaroso, homem mais velho respondeu:
– Algo que pensei que nunca mais veria. – olhou para o céu, contemplou as estrelas – Quando servi as forças armadas imperiais na guerra da fronteira escura, nós os chamávamos de espectros.
– Então você sabe como matar eles?
– Não é tão fácil assim, garoto. Os espectros só têm duas fraquezas, fogo e raios ultravioletas.
– E o que nós vamos fazer então? Esperar amanhecer?
– Não. A noite desse planeta é muito longa, não sabemos quanto tempo ainda falta para amanhecer. Podem ser horas ou dias. Vamos continuar andando. Com sorte podemos encontrar alguma nave sucateira antes de morrermos entoxicados.
– Ou devorados. – Jô concluiu em tom baixo.
Depois de duas horas caminhando sem rumo, quando o cansaço já os dominava, encontraram uma clareira entre as montanhas de lixo e montaram uma pequena estrutura com barras, placas de metal e pedaços de tecido para se abrigarem. Acenderam sete fogueiras em volta da barraca, para afastar os espectros, prepararam tochas para serem usadas posteriormente e dormiram.
Horas se passaram, as fogueiras já perdiam seu brilho, três delas já haviam se apagado. Ruan escutou movimentação fora do abrigo, mas Jô ainda dormia ao seu lado. O veterano de guerra pegou sua arma e saiu sorrateiramente para fora. Ainda era noite, como suspeitara. Olhou na direção das fogueiras apagadas à procura de algum sinal das criaturas das sombras. Não via nada. Cutucou o pé de seu parceiro, que abriu os olhos em expressão de dúvida ao ver o sinal de silêncio que ele fez. Com o dedo, apontou disfarçadamente para um monte de entulhos ao norte. Alguém remexia cuidadosamente o lixo, parecia procurar algo. Evidentemente aquela pessoa não era um espectro.
– Um sucateiro? – Jô questionou em sussurro.
– Acho que não. Sucateiros não andam sozinhos. É muito perigoso ser atacado por um verme gigante. – o velho respondeu.
O jovem lixeiro quase pulou de espanto com a nova informação.
– Vermes gigantes?! – exclamou.
Ruan fez um gesto para que ele ficasse quieto, mas era tarde, quem quer que fosse que estava ali já havia escutado a voz do rapaz e agora olhava para eles.
Quando Jô viu o brilho das estrelas nos olhos daquela pessoa, reconheceu a clandestina que havia encontrado no compartimento nº3.
– Você! – disse ele se levantando bruscamente e apontando ara a mulher – A clandestina que estava na nossa nave.
– Clandestina? – o veterano de guerra não tinha tomado conhecimento do ocorrido.
– Sim, essa mulher estava no compartimento de carga, encontrei ela pouco antes daquelas criaturas destruírem tudo.
Ruan assumiu uma postura firme e apontou sua arma para a invasora. Sua expressão firme remontava seus dias de glória durante a guerra.
– O que estava fazendo no cargueiro? – ele disse em alto e bom som.
– É! – Jô emendou atrás – E o que sabe sobre os espectros?
Ela permaneceu em silêncio, os encarando com aqueles olhos profundos e misteriosos. Na verdade eles nem sabiam se ela estava realmente olhando para eles.
– Responda! – o homem gritou como um general que dá uma ordem.
– Então enviaram espectros pra me matar. – foi o que ela disse com uma voz que mais parecia um coro – Mas como ficaram sabendo?
– Sabendo do quê? – o veterano franziu o cenho e firmou o dedo no gatilho.
Antes que a clandestina respondesse qualquer coisa, um monte de entulho despencou na direção das fogueiras apagadas. Dois espectros se aproximavam lentamente, com seus olhos flamejantes ganhando destaque na noite escura, enquanto seus corpos quase não podiam ser enxergados. Ambos partiram em disparada atrás da mulher misteriosa, que por sua vez fugiu veloz como um felino.
Ruan acendeu um das tochas e antes de correr na mesma direção que os espectros, gritou para Jô:
– Ascenda as fogueiras, não deixe que elas apaguem e não saia daí até eu voltar.
Sem pestanejar, o jovem correu e acendeu as três fogueiras que faltavam. Assustado, ele tinha certeza que podia ver os vultos de outras daquelas criaturas se esgueirando pelo lixão, mantendo uma distância segura das chamas, procurando uma brecha para atacar.
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