Parte 1
Era mais uma jornada de trabalho como outra qualquer. O cargueiro espacial T.806 seguia seu curso costumeiro transportando lixo para ser descarregado no planeta Fuji, que vinha sendo usado como aterro sanitário há séculos pela companhia de saneamento básico do Império Solar.
Enquanto o piloto na cabine escutava um blues cantado em um idioma gutural, quatro dos outros cinco tripulantes estavam na cozinha interna do cargueiro jogando pôquer e reclamando do pagamento desvalorizado e da carga horária abusiva do trabalho. Jô, o mais jovem da tripulação, estava no banheiro lendo a última edição das Garotas Estelares e se masturbando.
– Ei rapazes, estamos chegando. – comunicou o piloto Hugo enquanto orbitavam uma das luas de Fuji.
O mais velho da tripulação, Ruan, um homem alto e robusto, coçou a barba grisalha, levantou–se da cadeira e disse para os demais:
– É, acabou a moleza. Vamos para as escotilhas.
Desanimados, os funcionários abandonaram seus jogos e tomaram o rumo de suas obrigações. Ruan caminhou até o banheiro e socou a porta com força.
– Hora de trabalhar. – disse ele – Sai logo desse banheiro, seu punheteiro desgraçado.
Jô abriu a porta e saiu fechando o zíper da calça.
– Qual é, tio? Eu estava tendo meu momento a sós com uma ciana gostosa de três peitos. – deu uma piscadela.
– Seu moleque pervertido. Vê se lava essa mão.
Minutos depois os cinco estavam inspecionando os compartimentos de carga e verificando as escotilhas de ejeção, enquanto a nave sobrevoava as montanhas de lixo do planeta Fuji. Jô era o responsável pelo compartimento de número 3, e como de costume, vestiu seu traje de contenção para evitar contato com alguma substância tóxica e se embrenhou no meio do lixo para averiguar se nada obstruiria a abertura da escotilha. Estava tudo certo.
– O pessoal? – ele escutou a voz de Doni pelo comunicador – Tem alguma coisa muito estranha aqui.
– Algum problema com a escotilha? – ele ouviu Ruan responder.
– Negativo. Tem alguma coisa se movendo.
– Deve ser algum verme. – disse Jô.
De repente todos escutaram um grito e um chiado forte vindo do comunicador de Doni. Em seguida todos sentiram um impacto no interior da nave.
– Doni? – Ruan chamava – O que aconteceu?
Jô abriu a porta do compartimento e fez menção de ir ao auxílio do colega, mas antes sair percebeu uma movimentação acima de sua cabeça. No instante seguinte uma mulher negra com orelhas pontudas e longos cabelos negros com uma larga mecha branca no meio saltou à sua frente. Seus olhos eram como a representação do universo, negros e salpicados de minúsculas estrelas.
– Eles estão aqui. – ela disse antes de passar por Jô e puxar a alavanca que abria a escotilha de ejeção.
Quando o lixo do compartimento nº3 despencou na superfície do planeta, o rapaz sentiu a pressão do ar quase o puxando junto. Agarrou–se a um corrimão e antes de puxar a alavanca para fechar a escotilha novamente, pôde ver a invasora saltar da nave.
– Puta que pariu! O que foi isso? – exclamou espantado.
Jô correu para encontrar os demais tripulantes. Encontrou Edgar no corredor ao lado da sala de máquinas, ele estava parado olhando para um rombo no assoalho. Tudo em volta estava sujo de sangue.
– Onde estão os outros? – ele perguntou quando viu Jô se aproximar.
– Não sei. Só sei que tínhamos uma clandestina no compartimento 3. – Jô respondeu.
– Ela que fez isso?
– Não. Ela deve estar morta agora. A doida se jogou pela escotilha.
Edgar agachou para olhar o rombo de perto. Puxou uma lanterna pendurada no cinto e iluminou a seção de baixo, procurando encontrar algum sinal do quê havia feito aquilo.
– Seja lá o que for, a criatura que fez isso tem muita força. – ele disse apontando para marcas que formavam sulcos nas dobras do metal – São marcas de garras, veja.
– Todo esse sangue é do Doni?
– Acho que não. – disse Edgar ao se enfiar dentro do buraco e pegar um antebraço decepado – Esse relógio é do Bob.
Jô se apoiou na parede sentindo o estômago embrulhar e a visão embaçar, por fim, virou–se para o lado e vomitou tudo que havia em seu estômago.
Os dois escutaram sons de tiros vindo de outro local da nave. Ficaram divididos entre correr ou ir verificar o que acontecia. De repente, Edgar foi sugado para dentro do buraco, gritando desesperado e pedindo por ajuda. Jô se acovardou e disparou em direção à sala de controle, o único lugar que conseguiu pensar em se esconder.
Do corredor que dava para a sala de controle, o jovem tripulante pôde ver enquanto uma criatura disforme encoberta por um vapor escuro despedaçava o piloto, em seguida a nave deu uma guinada, empinou para frente e começou a girar. Então tudo ficou escuro.
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