Capítulo Único
Julien caminhou em passo apressado pelo corredor do hotel. A adrenalina que acumulara no corpo ainda não se dissipara totalmente, levando a que as suas mãos trémulas quase deixassem cair o cartão magnético do quarto antes de conseguir destrancar a porta.
Ao entrar, descalçou os sapatos e atirou os pertences que tinha nos bolsos para cima da cama. Foi à casa de banho lavar a cara e beber água. Olhou o seu reflexo no espelho por uns minutos, tomando nota mental de que deveria barbear-se na manhã seguinte. Não queria que a sua aparência desleixada ficasse registada em câmara para o mundo inteiro.
Saiu do cubículo para a divisão única do quarto. O seu olhar prendeu-se na janela por momentos. As ruas ainda estavam agitadas, mesmo com a crescente proximidade do sol ao horizonte.
Sentindo-se um nadinha mais calmo, sentou-se na beira da cama. Recolheu uma perna junto ao corpo, dobrando o joelho para apoiar um dos braços antes de desbloquear o telemóvel. Na aplicação de mensagens, escolheu fazer uma videochamada com um dos seus contactos mais recentes.
Atenderam ao terceiro toque.
— Salut, Martine! Ça va?
A mulher que preencheu o ecrã do seu telemóvel tinha o cabelo ruivo despenteado, atado no topo da cabeça de qualquer maneira, completamente indiferente à aparência que demonstrava a Julien. As feições sardentas e ariscas dificilmente corroboravam os seus quase 40 anos, mesmo onde as rugas resultantes do franzir dos olhos escuros ao sol seriam aparentes, mas as madeixas brancas perdidas no mar laranja faziam a denuncia precoce do seu envelhecimento.
— Ça va, Julien, et toi? Não estava à espera da tua chamada.
Julien ofereceu um sorriso débil, daqueles que se usam como máscara de autodefesa para perguntas invasivas.
— O pai?
— Está lá dentro, a dormir. Fui deitá-lo ainda há pouco — respondeu Martine do outro lado, desconfiada, o cenho levemente franzido. — Porquê, o que é que se passa?
Julien suspirou.
— Só... Lembrei-me dele há bocado. Queria vê-lo. Ouvi-lo.
Martine levou a câmara frontal do telemóvel ao peito por uns momentos. Julien conseguiu ouvir o desligar da televisão que ela tinha a tocar em pano de fundo, os passos ao atravessar a divisão para junto da janela e o restolhar do tecido quando esta se sentou na poltrona que tinha naquele canto da sala. Pelo ângulo em que a câmara ficou, o mais velho podia adivinhar que Martine tinha colocado o telemóvel no suporte próprio, sobre o móvel adjacente ao cadeirão.
— Está tudo bem? É por causa de amanhã? — inquiriu, ainda a acomodar-se na melhor posição para ter aquela conversa. — Eu sei que são os Jogos Olímpicos, mas já fizeste isto um milhão de vezes. O facto de ser a primeira vez que o fazes nos Jogos não muda a tua responsabilidade.
— Não, não é isso.
Ela inclinou a cabeça, intrigada.
— Sabes que eu sou toda ouvidos, maninho.
Julien recuou sobre a colcha, ajeitando as almofadas atrás das costas para se sentar confortavelmente contra a cabeceira da cama do quarto de hotel. A conversa com Martine poderia demorar.
— O briefing de hoje na preparação do evento foi relativamente rápido, por isso decidi aproveitar o que restava da minha tarde para ir ver a iniciativa da Pride House.
Para as olimpíadas de Paris, a associação francesa Fier-Play tinha trabalhado em colaboração com o Comité Olímpico Internacional para trazer aos atletas, fãs e aliados um espaço seguro para a comunidade LGBTQ+: a Pride House. Dividida num espaço físico com atividades desportivas e socioculturais na rua Rosa Bonheur sur Seine, numa coleção de stands móveis e num website acessível a todos, a Pride House representava um farol de integração, educação e aceitação que enchia de orgulho todos aqueles que, de alguma forma, se identificavam com o movimento. Julien, apesar de residir nos arredores de Paris, ainda não tivera oportunidade de inspecionar o espaço e as atividades até àquela tarde.
Da tela, Martine esboçou um sorriso amargo.
— Teria sido excelente se tivessem iniciativas destas no teu tempo, não era?
Julien assentiu, uma sensação agridoce a despontar com o reavivar das memórias.
Durante os seus anos de competição, nunca se permitiu ser aberto sobre a sua pansexualidade. Desde cedo que França se tornara numa potência do judo mundial e as vagas que a seleção nacional tinha para levar os atletas a provas internacionais eram bastante disputadas, especialmente na sua categoria de peso. Julien sabia que qualquer pretexto para diminuir a concorrência seria sempre uma potencial arma nas mãos dos seus adversários, pelo que não podia deixar que a sua orientação sexual "incomum" e os inúmeros parceiros e casos que teve ao longo da vida fossem um pretexto para injustiças que prejudicassem a sua carreira. O francês ainda hoje acreditava que se alguém tivesse desconfiado da sua não heteronormatividade, a vaga que tinha conseguido na equipa olímpica para os - 66 Kg em Sydney teria sido atribuída ao seu compatriota Antoine Bacri.
Pisar o tapete olímpico com 20 anos não era para todos e apesar de lamentar profundamente não ter conseguido assumir publicamente essa parte de si próprio, Julien não se arrependia de ter feito o melhor que conseguiu nas condições que tinha. Foram anos duros, a anular-se a si próprio à vista de todos e a ter um nível de cuidado e descrição com a sua vida privada igual ou superior ao das vedetas da passadeira vermelha e das revistas cor de rosa. Só quando já estava perto dos 30, na altura da sua reforma da competição, é que conseguiu deixar os seus hábitos evasivos de lado e ser franco com um círculo mais alargado de pessoas, para lá do íntimo núcleo familiar.
Fora uma fase negra que, de certa forma, acabara por valer a pena. O ideal, contudo, seria não ter existido.
— Claro que sim. Mas como costumam dizer: mais vale tarde que nunca. Até porque, quer queiramos, quer não, a maioria destas coisas só é possível agora que se tem condições propícias para que aconteçam. O evoluir das mentalidades e a abertura sociocultural para o tema pode ser estupidamente lento, mas nunca se conseguiu falar tanto e tão abertamente de sexualidade e identidade de género como agora. Só para veres, este é o ano com mais atletas assumidamente LGBTQIAP+ em toda a história dos Jogos.
— Sim, tens razão... Pelo menos os atletas de agora conseguem competir sem deixarem de ser eles próprios. Ou pelo menos há um maior número deles a conseguir. — A cara de Martine franziu-se em confusão novamente. — Mas o que é que isso tem que ver com o pai?
Julien suspirou.
— A caminho do edifício onde eles têm o corpo principal da Pride House, encontrei um senhor na rua, a cambalear no passeio. Devia ter mais ou menos a idade do pai... E ele não conseguia andar direito, sabes? Vinha apoiado nas fachadas e mesmo assim vinha aos esses.
A recordação da cena assaltou brevemente a mente de Julien, trazendo consigo o desconforto que os tropeções do velho senhor lhe tinham provocado. Por momentos, tinha olhado para o idoso e visto o seu pai ali no meio da rua, a precisar de assistência. Fora isso, muito mais do que um sentido de dever cívico ou de altruísmo, que o levara a prestar auxílio.
— Eu aproximei-me do homem, a perguntar se precisava de ajuda, porque dava para ver que ele se estava a sentir mal. Mas assim que me cheguei perto, o homem caiu-me redondo no chão.
Uma das mãos de Martine subiu à sua boca, compadecida. Já conseguia imaginar o que tinha cruzado a cabeça do irmão naquela altura e o que teria estado por detrás daquela necessidade de ver o pai.
— Chamei por ele, mas não reagia. Quando lhe meti os dedos sobre a jugular, como nos ensinam a fazer no curso anual de primeiros socorros, percebi que estava em paragem cardiorrespiratória.
— Ó Meu Deus...
— O suporte básico de vida é daquelas coisas que aprendemos e revemos com frequência na federação, mas que ninguém espera realmente utilizar na vida, sabes? As histórias heroicas costumam acontecer sempre aos outros e, se puxarmos pela memória, não conseguimos sequer recordar termos sido testemunhas de algo minimamente parecido. Mas ali estava ele, a morrer diante dos meus olhos.
A voz de Julien vacilou, acometida por uma vaga de emoção mal contida.
— Comecei as compressões torácicas e chamei por ajuda. Felizmente as pessoas que estavam no início da rua ouviram-me e trataram de chamar a ambulância. Acho que o meu corpo se mexeu quase sozinho e consegui fazer o suporte básico de vida como deve de ser. Mas eu estava tão a leste naquele momento... Eles não são nada parecidos, mas os meus olhos só viam o pai ali, estendido no chão. Eu só pensava que aquele era o nosso pai e que não o podia deixar morrer e que... e que...
Julien desviou o olhar de repente, focando a atenção nas varandas do prédio do outro lado da rua, visíveis da janela do quarto pela fresta entre os cortinados. As lágrimas tinham voltado, fruto de todo o pânico e pensamentos mórbidos que a experiência lhe tinha trazido.
Perdera a mãe no ano em que aposentara o dorsal e tanto ele como o resto da família tinham ultrapassado esse luto há muitos anos. Contudo, para Julien, ficara para trás uma noção viva de efemeridade, como uma cicatriz horrorosa e bem visível. Sempre fora um menino da mamã e perdê-la trouxe consigo o receio de ver partir aqueles que mais amava. O pai, em particular, assumia cada vez mais palco nesse temor.
A sua saúde era cada vez mais frágil, derivada do avançar da idade, mas não era o suficiente para ser considerado um caso preocupante. O espírito deteriorava-se mais depressa que o seu corpo, mas a sua identidade continuava íntegra na sua mente, pelo que também não era motivo de alarme. Por vezes tombava ou enfermava-se, mas tampouco era algo que requeresse tempo de hospital.
Em suma, Julien preocupava-se mais por ser algo gravado na sua natureza, como um mau hábito que adquirira em vida, do que por ter motivos fortes para tal. Mas era algo inevitável. Quando se desperta para a realidade, quando se sente na pele quão rápida pode ser a passagem humana pela Terra, dificilmente se consegue adormecer essa noção.
— Julien, o que é que aconteceu com o senhor? — perguntou Martine, receosa, retirando o irmão dos seus pensamentos. Tinha deixado passar uns minutos largos de silêncio e parecia-lhe que Julien estava agora mais calmo, ainda que ele não a encarasse.
O mais velho fungou, não se preocupando com a falta de elegância que era apanhar o ranho e as lágrimas com a manga do casaco que ainda tinha vestido. Depois, mais centrado, tornou a encarar o ecrã do telemóvel e a cara da irmã na tela.
— Tanto quanto sei, sobreviveu. Os paramédicos vieram em tempo recorde, já que estamos no perímetro dos Jogos Olímpicos e as equipas médicas estão aqui destacadas e em alerta 24/7. Quando substituíram o homem que se voluntariou para fazer as compressões torácicas no meu lugar, acho que o seu ritmo cardíaco já tinha voltado.
Martine suspirou sonoramente do outro lado.
— Que alívio!
Não era uma pergunta, mas o seu irmão mais velho assentiu em concordância.
— O senhor ainda estava inconsciente quando o levaram, mas a neta que tinha aparecido entretanto desdobrou-se em agradecimentos. Não era o objetivo, mas aquilo acabou por me encher o coração — acrescentou, limpando uma lágrima teimosa com o polegar. — E o mais engraçado é que eram ambos franceses e que ela me reconheceu.
— 'Tás a gozar?
Julien riu brevemente, bufando mais do que propriamente a deixar as cordas vocais vibrar.
— Não. A miúda nem vinte anos tinha e foi capaz de me reconhecer. Eles não ensinam nada sobre a história do judo nacional aos novos atletas e eu nunca fui um grande nome apesar dos meus pódios, por isso podes imaginar como me senti quando uma menina que nem Júnior deve ser me perguntou se eu não era o Julien Lambert.
Martine riu com vontade.
— Com que então o meu irmão ainda tem um grupo de fãs por aí!
— Nem pensar. Tive os meus sucessos, mas sabes que nunca fui grande espingarda no panorama geral. Acho que hoje em dia nem me safava para as equipas mistas, que são todos uns cavalões.
— Não te menosprezes! Pelo menos por aqui sempre terás um clube de fãs! — Martine esticou-se na poltrona, agarrando no telemóvel com as mãos para poder levar o aparelho consigo. — O pai gosta sempre de te ver na televisão e de se gabar aos vizinhos quando apareces.
— Mas eu sou só o árbitro, Martine.
Depois de deixar a competição, Julien não conseguiu domar por completo o bichinho que o tinha conduzido ao tapete da primeira vez. Ainda vestia o fato para treinar, ainda estudava os katas*, ainda via todas as competições. E, eventualmente, percebeu que queria continuar a ser parte ativa no desporto que o apaixonava. Nunca fora um judoca brilhante nem tinha particular afinidade com os atletas mais novos para se sentir confortável na capacidade de treinador. De qualquer maneira, nunca tivera muito jeito para passar o seu conhecimento ao próximo.
Assim, deu por si a tirar o curso de arbitragem, primeiro a nível local, depois de todos os escalões e competências que conseguia. Num ápice, passou de arbitrar os campeonatos nacionais para estar entre os árbitros mais prestigiados do mundo, voltando a pisar os tapetes dos Campeonatos da Europa, Campeonatos do Mundo, de Grand Prixs e de Grand Slams vários anos depois de ter abandonado o circuito internacional.
E agora, estava nas vésperas da sua primeira arbitragem olímpica. Se o evento decorresse em qualquer outro lugar do mundo, Julien sentiria um frio na barriga, aquela indisposição que os acessos de falta de confiança deixavam para trás nas suas vítimas. Porém, ele estava em casa. Certamente que seria responsável por grandes combates, mas tinha consigo uma equipa de profissionais experientes, tão dedicados ao desporto como ele próprio, todos eles desejosos de tornar a competição mais agradável para atletas e fãs. Não havia razão para receios.
— Não é a tua função no tapete que importa, é o facto de estares lá e de apareceres na TV — justificou a irmã, revirando os olhos. — Mesmo que fosses atleta, o pai já não tem cabeça para acompanhar e perceber os combates, pelo que também só lhe iria interessar a tua presença.
O fundo da chamada atrás da irmã mostrou os armários da cozinha e o microfone fez chegar aos ouvidos de Julien a água a correr na torneira.
— Só vocês para me fazerem sentir como uma vedeta — riu o mais velho.
A ruiva pousou o telemóvel na bancada, a câmara apontada para a parte debaixo dos armários claros e a brancura do teto. O som acusou a pesca de um copo do armário das loiças e o seu enchimento na água corrente, antes do ângulo da câmara ser corrigido.
— Julien, para chegares a árbitro olímpico tens de ser reconhecido pela federação internacional. E olha que eu sei que isso não é para qualquer um! — acusou, o indicador da mão direita projetado do copo que ainda tinha na mão para a câmara frontal do telemóvel. — Por isso, não desvalorizes todo o teu conhecimento e tudo o que alcançaste na tua carreira.
O mais velho sorriu, a mente e o peito mais amenos. Falar sobre o assunto com Martine tinha sido remédio santo para a agitação remanescente do episódio daquela tarde.
— Amanhã, se arranjar tempo, ligo a horas decentes.
— E eu vou ter a certeza de que o pai está acordado, para que possas falar com ele.
— Obrigado, Martine.
Julien bocejou, subitamente sonolento. A adrenalina tinha-se esvaído por completo, levando a que o cansaço que advinha da tensão acumulada e do intenso ministrar das manobras de socorrismo se instalasse no seu corpo.
— De nada. Agora vai andando, que eu bem te conheço e sei que ainda não jantaste. Precisas do teu sono de beleza para não fazeres asneiras amanhã. E não te esqueças de fazer essa barba, por amor de Deus! — acrescentou, com ultraje e irritação fingida. — Se eu te apanho assim à frente da câmara, vou negar que és meu irmão!
Ele levou a mão ao queixo, sentindo a aspereza dos pelos faciais por cortar.
— Não gostas? E eu que estava a pensar ir assim — brincou.
— Vai masé dormir! — gargalhou Martine, a segunda mão de novo livre por ter devolvido o copo à pia.
Julien sorriu.
— Até amanhã. Amo-te, a ti e ao pai — disse, com ternura.
Ela devolveu o sorriso.
— Também te adoro, maninho. Até amanhã.
Quando desligou a chamada, Julien tinha o peito quente. Estava de novo sereno, pronto para a noite descansada que antecederia a sua estreia como árbitro de um evento olímpico.
2777 palavras
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NOTA: *Katas são conjuntos de técnicas de artes marciais como o judo. A palavra kata tem uma tradução literal para "forma" e o objetivo do seu exercício é o domínio de determinados aspetos técnicos da modalidade. Oficialmente, são reconhecidos 7 katas no judo, como o Nage-no-kata ou "técnicas de projeção".
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