12 Agir apesar das injustiças
A noite caía trazendo com ela uma brisa leve carregada de alívio e suspiros. Era a última fase e o cheiro do sangue dos mortos assombrava as narinas dos que sobraram para, ou contar a história, ou morrer na praia frente ao último obstáculo. O céu enegrecia sem nuvens como um tecido de um tom escuro de azul sendo forrado por uma mãe na cama de seu filho querido. O suor dos presentes estava seco, o esforço de um dia inteiro pesando em suas peles, mas o leve vento que soprava vindo do mar os acalentava. Aquela tinha tudo para ser uma noite linda, romântica e acolhedora, não fossem as circunstâncias.
Os lábios de Hilda estavam secos, ansiando por água. Estava recolhida num canto desde que soubera da morte de Álvaro. Seu corpo havia esfriado por não ter tido uma segunda luta como os demais. Não sabia se poderia considerar isto uma vantagem ou desvantagem, pois, apesar de ter tido tempo de sobra para descansar, seu físico e psicológico nunca haviam se sentido tão abalados e cansados. Sentia sono e sua mente não parava de reverberar em sua cabeça a conversa que tivera com Álvaro.
Uma grande sombra parou ao lado dela.
— Pronta? — ouviu, pela primeira vez, a voz de Boris se dirigindo a ela.
Hilda olhou para ele, enquanto sentia a parte esquerda inferior de suas costas ser espetada por sua lança.
— É contra as regras machucar um oponente antes do embate. — disse, olhando para a frente.
— É mesmo? E sobre assassinar seu treinador, ouviu alguma coisa? — Sua voz era profunda, grave, mas baixa, e parecia envolver Hilda por inteiro.
— Não, não ouvi regra alguma sobre isto. — Respondeu, zombeteira, ainda que estivesse na posição mais vulnerável. — Mas sinto muito por arruinar o seu plano de ter alguém para facilitar para você aqui.
Ele fincou a lança o suficiente para que ela sentisse o sangue escorrer. Se encolheu discretamente com a dor.
— O que você sabe sobre nós, protegida do rei? — disse, com os dentes trincados. Assim que ele falou, foi anunciado que era a vez deles, então ele apertou mais um pouco, a fazendo cair no chão. — Perdão, acidentes acontecem.
Ela colocou a mão para estancar o sangramento que começava a ficar mais intenso. Se seu corpo havia esfriado, este então fora um ótimo aquecimento. A adrenalina estava de volta, a fazendo respirar ofegante e dilatar as narinas. Ainda estava com medo, mas a raiva a fazia querer se levantar para fazê-lo se arrepender.
Ela cambaleou até o meio.
— Tem certeza de que quer continuar? — perguntou o treinador de mais cedo.
Ele não estava preocupado e ela sentia isso, sentia que queriam o seu fracasso e esta era a última cartada. Não era a única desesperada. Havia algo nela, algo que o rei enxergara, que ameaçava a satisfação da certeza que tinham de que iria falhar. Pois bem, estava decidida a ser a única cuja satisfação fosse ser sentida naquele dia.
Boris já estava posicionado. Ele a conhecia o suficiente para saber que não desistiria apenas por uma lesão. Hilda ignorou o treinador e foi em direção ao seu destino. O frenesi era maior que a razão, seus olhos e garganta queimavam. O vento soprava seu cabelo para o alto, onde estava preso. Estendeu a mão suja de seu próprio sangue para pegar o machado. Olhos semicerrados, cenho franzido, a ferida latejando com o esforço de segurar a arma. A respiração ofegante denunciava o que ela não sentia pelo excesso de adrenalina: quanto mais passasse o tempo, maior seria o problema que teria por conta de sua ferida.
Diferente do anterior, Boris não esperou. Ela já estava vulnerável o suficiente e não havia ameaça para ele no tamanho dela, visto que o dele era quase o dobro.
Ele retirou o escudo das costas e o jogou no chão. Queria humilhá-la, queria mostrar a todos que com ela não era preciso proteção. Hilda cuspiu no chão, perto de onde estava o escudo, e ajeitou o machado em sua mão direita. Que ele viesse, que ele a subestimasse então.
Ele se aproximou girando a lança com exímia habilidade. Hilda não conseguia se concentrar nestes movimentos, eram muito rápidos. Tentou se apoiar na perna esquerda, o que fora em vão, pois sentiu uma pontada onde estava aberto e sangrando. Deu um pequeno tropeço e se preparou para se defender.
Até quando iria apenas reagir ao que estava sendo trazido até ela? Até quando iria apenas se defender? Ter uma ferida aberta era injusto, mas estava cansada de olhar apenas para o que era injusto. Não fazia diferença, não poderia mudar. Tinha que aprender a agir. Agir apesar das injustiças.
Quando Boris chegou perto o suficiente para fazer a primeira investida, Hilda não recuou. Ela fez a sua própria investida, do jeito que julgava mais estratégico e inteligente naquele momento. Começava a sentir os efeitos das consequências de se manter em movimento com um machucado daquele tamanho. Sua pele estava gelada, o suor frio escorria pelo seu rosto.
Avançou com o machado, fazendo com que as duas armas fossem impedidas de avançar entre eles. Boris foi mais rápido e decidiu desviar a lança para o lado, ferindo o braço dela, que recuou um passo vacilante. Os dentes trincados com a dor. Músculos tensos e contraídos com o esforço feito na primeira oportunidade que viu de avançar assim que ele recolheu a lança para atacar novamente. Deu dois passos para a frente e avançou com o machado mais uma vez.
Ele percebeu a tempo e investiu também. O ferro com ferro. A cabeça dela estava entre seu machado e a lança. Ele deslizava sua arma, tentando feri-la em seu rosto. Alguns segundos se passaram nesta briga de força até que Hilda se deu conta de que não venceria, mais cedo ou mais tarde a lâmina iria deslizar até ela num golpe fatal. Então se lembrou do primeiro embate. Não havia muito tempo para pensar, mas decidiu o que faria e desejou que desse certo.
Se abaixou, ainda com os braços para o alto, com o intuito de segurar o machado firme para manter a lança longe dela. Com o movimento brusco, sentiu sangue se esvair de suas costas. Não poderia se dar ao luxo de se preocupar com aquilo naquela hora. Fez o maior esforço que podia para levantar um dos pés, se equilibrando de cócoras e chutar o joelho dele. Com o impulso, ela foi para trás. Hilda esperava que ele cambaleasse nem que fosse apenas um passo, mas seu joelho estava intacto por debaixo da joelheira de metal.
Ela largou o machado e deu uma cambalhota para trás. Ele sorriu, ela estava desarmada, então avançou. Era exatamente isto que ela queria. O machado caiu em seu pé, com a lâmina virada para baixo. Dois segundos e ele percebeu o que havia feito. Soltou um grito com a dor que, desta vez, o fez cambalear. Ela se rastejou para pegar o machado de volta. Mal estava com a arma nas mãos quando ele avançou novamente para ela, que ficou deitada com a arma lhe protegendo, até que ele mirou exatamente no ponto sensível. A lança atravessou onde já estava ferido atrás e a deixou sangrando no chão. Hilda não podia se importar com aquilo, pois sua vida estava em jogo. Precisava lutar até o fim. Com um grito, quebrou a parte de madeira da lança com o machado, deixando apenas a lâmina em seu corpo. Lágrimas escorriam de seus olhos, sentia o gosto de sangue em sua boca.
Ele virou de costas para ela, que permanecia deitada tomando coragem para retirar de dentro de si aquele pedaço de arma afiada.
Então ele voltou. Pegou do chão o escudo e o ergueu, como que fazendo uma demonstração para os que assistiam, deu um grito gutural e abaixou o escudo em cima dela. Repetidas vezes.
Hilda se protegia como podia, de uma maneira um tanto desengonçada, as pernas e braços recolhidos em cima dela enquanto ele a batia com o escudo. Estava prestes a perder os sentidos quando começaram a gritar por ele. Gritavam por Boris. Como que acordada de um transe, ela despertou. Iria aguentar, iria vencê-lo pelo cansaço, não iria desistir.
Então, quando ele encaixou o escudo no braço e se preparou para se jogar com ele em cima dela, sua mente se acendeu e a deu forças. Hilda esperou até que ele estivesse no ar, então rolou para o lado, para o mais longe possível que conseguiu. Ele encontrou o chão, mas isto não pareceu o abalar. Se levantou e ficou rindo, enquanto ela se rastejava para pegar o machado e se levantar. Mal conseguia ficar de pé. Ele também estava ferido, mas tentava se manter frio e obtinha êxito, a gravidade da dele não se comparava à dela.
Ele pegou o que restava de sua lança e se preparou para prosseguir a luta. Ela se preparou para recebê-lo com o machado. Até que ele fez menção de atirar o resto de lança na direção dela, o que a deixou apreensiva a princípio, então a deu uma ideia. Assim que ele jogou, ela se preparou e fez o mesmo. Mirou em seu peito aberto com o machado.
Os que assistiam acompanhavam atentamente com seus olhos a trajetória de ambas as armas, até que tiveram uma surpresa. Hilda jogara mais para o alto que para a frente e, assim que lançou, correu, em direção a ele com as mãos vazias, desviando da lança, até que pegou a arma e, com mais alguns passos, cravou o machado no peito descoberto de Boris. Assim que o fez, sentiu seu próprio sangue escorrer de sua ferida. Então, quando ele caiu para trás, ela caiu em cima dele.
Ninguém proferiu uma palavra.
Ela não conseguia sair dali, não conseguia se mexer.
Quando vieram buscar o corpo de Boris, ela não o deixou, então a levaram junto, acreditando que também estivesse morta. Os embates finais continuaram, mas ela não viu. Dormiu em meio aos corpos.
Quando acordou, já era madrugada. Um vento gelado soprava e não havia uma pessoa sequer no pátio. Tentou se levantar, era muito difícil. Seu corpo estava pesado e o ideal era que fosse tratada ali mesmo. Não podia se dar ao luxo disto, então reuniu cada resquício de força que lhe restava e se levantou. A lâmina da lança ainda dentro dela. Se retirasse, não sabia se o sangramento a faria morrer ou desmaiar, o que daria no mesmo visto que ninguém cuidaria dela ali. Precisava se levantar e já sabia aonde ir. Retirou a lâmina antes que cortasse mais coisas dentro dela e aumentasse o estrago. Muito sangue, suas mãos estavam vermelhas. Começou a pressionar, mas estava aberto em sua barriga e em suas costas, então pressionou com as duas mãos, uma em cada abertura, e foi.
Chegando no portão, alguns guardas riam e conversavam alto quando avistaram ela.
— Ei! Vocês não podem sair sem permissão, ainda não receberam a marca!
Ela olhou para ele com desdém e respondeu:
— O próprio rei me concedeu a marca, idiota.
Eles estreitaram os olhos, então a reconheceram.
— Protegidinha do rei?
Os demais riram. Então outro disse:
— Deixe-a ir. Vai morrer no meio do caminho mesmo!
Assim, ela foi cambaleando pelo caminho, ouvindo a conversa e as risadas ficarem cada vez mais longe. O caminho parecia tão mais difícil de percorrer desde a última vez! Estava escuro e sua visão também não estava das melhores. A estrada deserta e cheia de neblina. Focou em prosseguir até ao menos chegar na porta de sua casa, onde sua mãe poderia vê-la quando acordasse e acudi-la.
Abriu os olhos. Olhou para suas feridas devidamente tratadas e com curativos. Suspirou, não sabia como havia conseguido, mas estava em casa. A sensação de alívio acabou quando encontrou os olhos de sua mãe.
Elisa estava inconsolável. Segurando as mãos de sua filha, olhava para ela com um misto de pena e preocupação. Hilda apenas conseguiu dizer:
— Não há o que fazer, mãe. — Ela mostrou a serpente vermelha no braço. — Eu pertenço a eles agora.
Uma lágrima solitária caiu de seu rosto e repousou em sua orelha. Ela deixou ali, não passou a mão. Sentiu o gelado do líquido a fazer se sentir limpa, ao menos onde a lágrima escorreu, e isto a trouxe alívio novamente.
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