10 Olhos arregalados
Passou a noite pensando nas coisas que havia ouvido até finalmente pegar no sono. Não conseguia acreditar por inteiro em tudo o que fora dito, mas não podia negar que algo acontecera. Não sabia o que, mas não conseguia explicar algumas coisas, mesmo racionalizando de todas as formas. Se sentia diferente de um jeito que não lhe era possível compreender. Chegou à conclusão de que não lhe importava compreender, afinal, ter alguma proteção não seria má ideia visto o que estava prestes a enfrentar no dia.
Quando o sino tocou, grave e tremendo toda a estrutura daquele Forte cinza de pedras quentes de sol, todos saíram de seus quartos e começaram a descer as estreitas escadas um atrás do outro. Naquele momento, ouvindo os passos descerem cada degrau, Hilda se lembrou de que não estava sozinha naquele treinamento. Se sentia tão deslocada e solitária, principalmente após o acontecido com seu treinador, que era até estranho constatar que havia, de fato, outras pessoas ali. Muitas pessoas. Todos pareciam, de alguma forma, estarem sozinhos, salvo um grupo em específico.
No pátio, o silêncio reinava. Estavam em suas posições e esperavam pelas próximas ordens. Um vento, vindo do Norte, soprava e levantava poeira até que seus olhos estivessem irritados. A pele molhada de suor recebia os grãos de areia e não os deixava sair. Foi preciso pouco tempo para que se sentissem pesados e sujos da cabeça aos pés. O sol os envolvia com seu calor, não de maneira amigável e acolhedora, e sim como se os quisesse castigar. A fase dos embates ainda nem havia sido anunciada, mas já se sentiam exaustos e não haveria intervalos para beber água.
Hilda olhava para a frente. Tentava manter o foco, mas já começava a ver alguns pontos de luz. Seu estômago embrulhado a fazia engolir seco repetidas vezes para ver se conseguia se livrar da sensação de queimação na garganta. Era como se as suas entranhas quisessem ser postas para fora naquele exato momento e não pudessem esperar. Piscava seus olhos seguidamente com o intuito de dissipar a visão turva que se formava, mas era em vão. Começou a ouvir alguém falar em voz alta. Discorria sobre a honra de estar ali participando de um momento importante para fazer parte de algo nobre com o objetivo de mudar a história. Hilda meneava sua cabeça, em concordância com o que estava sendo dito, mas não concebia as palavras em sua mente, não por completo. Todavia, este discurso não lhe era estranho. Se lembrou de, anos antes, ouvir coisa parecida e este ser o motivo pelo qual estava de volta, mas desta vez para fazer parte, não apenas assistir.
Sentiu alguém encostar em seu ombro e dizer: Você é a primeira. Então, num súbito de adrenalina, todos os sintomas que a deixaram anestesiada por alguns minutos se dissiparam. Ela piscou os olhos e observou o pátio para achar o seu adversário.
Era um lugar estranho. Seco, quadrado, paredes cinzas de pedra, chão de terra, vazio de coisas e cheio de pessoas. Não havia marcação para saber onde seriam as lutas, nem uma organização para se localizar, caso você estivesse perdido. Fato é que ninguém precisava disto, visto que todos se aninharam onde deveria, sem que nem ao menos fosse pedido. Aos poucos, os grupos foram se colocando em seus devidos lugares e já estavam divididos pelas quatro quinas do lugar, em números próximos. A disciplina diária os ensinara a como se portar mesmo ainda sem ordens. Afinal, com a alta mortalidade, talvez alguns deles estivessem próximos de comandar algum grupo por necessidade no batalhão nos meses seguintes.
Hilda se encaminhou para o espaço onde acreditava que aconteceria seu primeiro embate. Olhos fixos na frente, andar determinado e machado nas costas. A pessoa que começou a andar em sua direção era um homem franzino. Não queria cometer o erro crasso de desrespeitar seu adversário o subestimando pela sua aparência, mas se sentiu aliviada de ter sido ele o escolhido, ao invés do amigo dele, Boris. Aquele homem tinha o dobro de seu tamanho e era treinado pelo mesmo homem cujo pedaço da cabeça estava no chão daquele pátio dias antes. Eles pareciam próximos e Boris não demonstrava ter gostado muito da mudança repentina. E qualquer motivo que ele tivesse para desgostar de algo também era motivo de pânico, visto que, de todos, ele era o único que tinha conseguido reunir um grupo durante o treinamento. As pessoas pareciam querer segui-lo, ainda que, hierarquicamente, ele não fosse nada acima delas. Um verdadeiro líder nato, e Hilda estava aliviada de não precisar confrontar diretamente o rei da floresta. Sendo apenas seu amigo, seria mais fácil.
Os dois lados se aproximaram. Imediatamente, os demais liberaram espaço. Um homem que Hilda identificou como um dos treinadores se aproximou e tocou no ombro de ambos.
— Lembrem-se do treinamento e dos ensinamentos. Tudo vale nos embates, queremos ver como vão lidar com o mau materializado. Lutem por suas vidas, elas estão em jogo.
Em todo momento que falava, olhava para o adversário de Hilda, apenas se dirigindo aos olhos dela quando falou sobre suas vidas estarem em jogo. Ela sentia como se todos estivessem esperando seu fracasso. Queriam puni-la. Ela havia retirado algo deles, então retirariam dela sua honra. Sabia que o intuito deles era que ficasse para sempre conhecida como a protegida do rei que passou mesmo sem mérito, sendo um fracasso nos embates. Se queria ser algo ali dentro, deveria então lutar para manter viva a sua dignidade e o seu brio. Começaria ali a construir sua fama e orgulho de guerreira.
Determinada, deu passos para trás e retirou de suas costas o seu machado de duas lâminas. Elas reluziram ao sol.
O homem retirou duas adagas. Seu rosto era fino e pontudo e sua expressão cruel. Apesar de aparentar fraqueza física, ela sabia que se desse a ele uma brecha, ele a dilaceraria ali mesmo. Sem dó, sem cerimônias.
Ele esperou por um tempo que pareceu uma eternidade, até que ela percebeu que teria de ser ela mesma a dar o primeiro passo. O plano dele era realmente achar brechas em seu movimento. Se preparou para se mover com cautela. Trocou o machado de mão duas vezes. Seus músculos suados contraindo com a força e tensão. Sobrancelhas franzidas de concentração. Começou a andar, então a correr. Olhos fixos no alvo.
Conforme foi chegando mais perto, percebeu que cometeu um erro, mas era tarde demais para consertá-lo. Ela olhava fixa para os olhos daquele homem, mas ele sabia como mandar pistas falsas do que pretendia fazer. Assim que viu o reluzir das lâminas das adagas, se arrependeu por não ter olhado suas mãos, ao invés de seus olhos.
Precisou se segurar para não sair cambaleando para trás quando recuou. Suspirou rapidamente de alívio quando a adaga que ia diretamente para o seu pescoço bateu em seu machado, que estava na frente de seu corpo para golpeá-lo. O ferro em contato fazendo reverberar o som das lâminas escorregando uma na outra. Como aquele homem tinha conseguido fazer com que a que ataca virasse a que defende e mudar as dinâmicas entre eles ela não entendia, mas precisava se concentrar para não se perder em meio ao espanto.
Percebendo que Hilda havia sido surpreendida, ele começou a desferir uma série de golpes rápidos na direção dela, que já deveria estar preparada para isto assim que viu a adaga e sua estatura. Ele era mais rápido e mais ágil que ela, além de usar armas mais leves. Seu plano era, provavelmente, desviar de seus ataques e oprimi-la com uma série de contra-ataques para que ela ficasse sem espaço de utilizar a vantagem do tamanho e força sobre ele. Não deveria tê-lo subestimado, de fato. Parecia fraco, mas era inteligente, e isto o favoreceria.
Pensou, no entanto, que ainda tinha tempo de pensar num plano. Poderia utilizar os momentos nos quais estava se defendendo para observá-lo e identificar uma fraqueza ou vício na forma como se movia. Foi o que fez. Fingiu que estava determinada a golpeá-lo com toda a força, o empurrou com o machado deitado e fez a melhor expressão de esforço que podia. Ele, como previsto por ela, aparentou ficar em alerta e, ao ver que ela estava o golpeando com toda a força, constatou que deveria fazer o mesmo. Então começou a série de ataques rápidos, desta vez com mais intensidade, enquanto ela defendia com o machado. Desta vez, Hilda observou em seu desespero para golpeá-la que depois de duas investidas, na terceira ele rodava e investia com a mão esquerda. Esperou que ele fizesse isto mais algumas vezes, então observou mais um pouco e esperou.
Quando achou prudente e se sentiu segura para tal, ao vê-lo rodar e estender a mão esquerda, ela abaixou e estendeu o machado um pouco mais para a frente. Quando o homem viu o que havia feito, já era tarde demais. Estava colocando muita força em seus golpes e não poderia recuar. Então, à medida que seus olhos foram se arregalando, seu braço foi de encontro com a lâmina do machado.
A pele se abriu, mas o osso não foi cortado por completo. O homem começou a urrar ao ver seu braço preso no ferro da arma, tentando se desvencilhar dali, em vão. Hilda chutou seu braço, se protegendo da outra adaga ainda que não precisasse, aquele homem estava em choque demais para lembrar de seu braço direito. Graças ao chute dela, ele caiu no chão com seu braço livre, porém pendurado pela metade. Ele se debatia no chão, mas não deixava as adagas caírem de suas mãos.
— Corta! Corta! — ele gritava, enquanto sangue escorria de seu braço quanto mais ele se mexia, formando uma grande poça no chão.
Hilda olhou para o superior que os havia instruído no início do embate. Ele meneou a cabeça em concordância. Ela deu um passo para a frente e finalizou a dor daquele homem não cortando o seu braço, mas desferindo um golpe fatal em sua cabeça.
Quando retirou o machado, o rosto dele estava aberto ao meio. Mas sua expressão permanecia ali. Olhos arregalados e boca arreganhada em desespero e medo. O sangue escorrendo da cabeça se misturando ao sangue que ainda escorria do braço.
O pátio estava em silêncio.
Ela esperou o superior determinar em voz alta que a vitória havia sido sua. Então suspirou e se foi. Precisava limpar sua arma do sangue que a sujara. As pessoas abriam caminho para que ela pudesse passar e, de longe, Boris a observava.
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