06 Poeira, lágrimas e sol na nuca
3 anos depois
Hilda se sentia sozinha em casa. A mãe passava boa parte do tempo trancada no quarto e seu irmão mais novo, Kalil, ficava praticamente o dia inteiro fora de casa. Era difícil sem o seu pai ali, mas precisava segurar as pontas pela sua família. Não poderiam ficar sem o seu suporte ou iriam sucumbir. Ela parecia ser a única pessoa capaz de se manter nos eixos em meio ao caos e ao vazio do luto. Ela pensava no sustento, na comida e no bem-estar dos demais. Fazia de bom grado, mas desejava todos os dias por um momento de folga, onde pudesse se permitir ser cuidada ao invés de sempre cuidar.
Estava em um de seus momentos de descanso onde sentava e se deixava pensar na vida, ainda que não encontrasse respostas para suas indagações mais profundas, apenas o ato de poder respirar e repassar as coisas que corriam pela sua cabeça de maneira desenfreada já era suficiente. Olhava para as suas mãos, lembrando de cada coisa que elas haviam feito. Eram mãos pesadas, ásperas, de quem não tem escolha a não ser usá-las para resolver problemas e imprevistos. Unhas não tão graciosas quanto gostaria, mas não tinha tempo de deixar que a aparência delas fosse uma questão. Ela imaginava o dia em que poderia se dar ao luxo de muitas coisas, mas sabia que ainda não era o momento. Na verdade, não pensava muito sobre isto, pois desconfiava de que este dia não fosse chegar nem tão cedo e temia o desânimo que poderia vir com a falta de esperança.
Respirou fundo quando ouviu a porta bater. Era o sinal, que esperava que não viesse, a mandando se levantar e voltar para sua rotina. Quis ficar mais tempo e tentou ignorar a movimentação dentro de sua casa, mas ouviu um segundo barulho. Desta vez, um estrondo de algo batendo no chão, então a voz de sua mãe chamando pelo seu nome. Precisava ir. Se levantou, dando adeus à negação da sua própria realidade. Estava nos fundos, então se dirigiu para a direção do grito, nas partes da frente de sua casa. Seus pés pisavam firme no chão e levantava poeira do lado de fora que ela, inevitavelmente, levaria para dentro de casa. Ela mesma iria limpar, não se importava. Se sentia exausta demais para pensar nas consequências do que fazia. Estava assim naquele dia, mas o sentimento a consumia há muito tempo.
Talvez, por encontrar o que encontrou, ela estivesse adiando viver aquele dia. No fundo, sabia o que estava acontecendo. Desconfiava. Já havia visto muitas pessoas passarem pelo mesmo processo, pessoas próximas, familiares de suas amigas, até mesmo suas próprias amigas. Então, quando chegou em frente ao quarto de sua mãe e a encontrou no chão, ela apenas suspirou de exaustão. Já esperava, mas não queria saber. Se pelo menos uma vez, desde que seu pai se fora, as coisas pudessem se resolver sem que ela precisasse interferir, então talvez pudesse desfrutar da benção da ignorância. Mas não era assim que as coisas aconteciam. Ela sabia bem. Estava desapontada, no entanto.
Bem na sua frente. Ali, no chão, com metade do corpo para dentro do quarto e a outra metade para fora, estava sua mãe. Se tremia dos pés à cabeça, babava e já não conseguia mais pronunciar o nome de sua filha corretamente. Sentiu raiva de sua mãe, mas estava ciente de que não poderia julgá-la. Ela mesma havia pensado em correr da realidade da forma mais fácil, usando um entorpecente que a levasse para seus anos de felicidade.
Elik.
Esta era a substância que fazia sua mãe se contorcer na sua frente. Contudo, esta também era a substância que, quando dentro do quarto a utilizando, fazia sua mãe reviver todas as lindas e boas memórias que tivera com seu pai. Era este o nível de tentação. O elik não apenas te lembrava, ele te colocava lá. Você podia sentir o toque, o cheiro, o corpo que não volta, as carícias e toda a intimidade que você pede todas as noites, mas recebe apenas o vazio da madrugada. O elik preenchia o vazio. Enquanto isso, no mundo real, lá estava você, jogado numa cama sem poder acordar. As pessoas à sua volta poderiam sentir sua falta, mas você não sentiria falta delas enquanto estivesse revivendo os melhores momentos de sua vida. Era egoísta e tentador.
Agora, Hilda via sua mãe receber em seu corpo os efeitos do abuso da substância. No chão, inútil até mesmo para pedir ajuda, uma mão fraca agarrou o tornozelo da garota de dezessete anos, que só poderia assistir até terminar. Se interferisse, sua mãe poderia sofrer sequelas da crise. Então, apenas esperou e se fez presente. Exatamente o que esteve fazendo todos estes anos. Sozinha.
Enquanto esperava, pensava em algumas coisas olhando para o quarto. As paredes de madeira que se estendiam na sua frente. A porta também de madeira que já estava desgastada e possuía marcas de unhas, e cortes e deterioração em decorrência do tempo. Aquele corredor estreito, no qual as demais portas estavam fechadas. O cheiro pesado do chá de elik saía do quarto e impregnava a casa. No corredor o cheiro estava tão forte que parecia poder sufocar alguém. Hilda ficou olhando para o leve amarelo das roupas de cama de sua mãe, enquanto sentia a mão ainda apertar fraco o seu tornozelo. Não queria olhar para baixo. Não adiantava, no entanto. Ela desenvolveu uma aversão àquela cor que a deixava tão enjoada quanto quando olhava para o estado da sua mãe no meio de uma crise. Não era um enjoo que a fazia querer vomitar, era um enjoo que parecia fazê-la enlouquecer aos poucos.
A visão ficou turva. Sentiu uma gota gelada escorrer pelos seus pés secos de terra. Quase aliviante tal sensação, não fosse o motivo dela. Era quase bom sinal, na verdade. Significava que sua mãe estava voltando para a realidade que a deprimia e fazia chorar, não ficara presa em sua mente. Sentiu o aperto em seu tornozelo aliviar, então saiu dali, pegou um copo d'água e deixou ao lado do corpo inerte e envergonhado daquela que a gerou.
Foi embora.
Já estava pensando nisto há algumas semanas. Na verdade, desde que conhecera esta alternativa. Esperava pelo momento no qual a sua idade iria lhe servir de alguma coisa. Não seria mais inútil. Poderia resolver, poderia salvar sua mãe e todos aqueles que sofriam do mesmo mal, todos aqueles que eram fracos demais para negarem as facilidades que batiam na porta com um sorriso no rosto e depois voltavam sérias para cobrar.
Passou por casas tão humildes quanto a sua. Construídas na madeira e de telhado de muitas cores, improvisado com diversos materiais. O chão seco por muito fazer sol na região estendia a poeira, de maneira que não se podia ver muito longe, naquele horário de pico, onde as pessoas estavam fora de casa e mais se movimentavam.
Se afastou da área residencial, os olhos lacrimejando de calor e poeira. O andar pesado e determinado, punhos cerrados, maxilar trincado e ombros tensos puxados para cima. Aqueles ombros carregavam muita coisa há muitos anos e estavam prestes a serem úteis para algo que não o acúmulo de decepções. Finalmente, ela pensava, enquanto se aproximava do antigo Forte do Reino, atual Forte da Força Tarefa dos Sicários do Sul. Há alguns anos, havia falado com um homem que a inspirou, exatamente neste lugar. Ele havia sugerido que, quando chegasse na idade mínima para fazer parte do grupo, as coisas já estariam resolvidas e sua ajuda não seria mais necessária. Esta era a única coisa que ela desejava que aquele homem estivesse errado. Tudo se resolver significava que ela não faria parte da mudança. Era um pensamento egoísta, pois desafiava toda a sua filosofia de vida para justificar querer ser uma Sicário do Sul. Esta, no entanto, era a dose de egoísmo que se permitia. Passava tempo demais fazendo coisas para outras pessoas. Na sua cabeça, no entanto, poderia ser o que quisesse e era isto que queria: ser parte da mudança e poder dizer que salvou vidas. Sentia que as coisas estavam prestes a mudar. De fato, estavam, apenas não da forma que ela esperava.
A estrutura toda feita de pedra era de um cinza escuro e ficava numa área da região mais quente que as demais. Hilda se dirigia já se sentindo pronta, mesmo antes de qualquer ensinamento que poderiam ensiná-la. Não via a hora de investigar e lutar, não via a hora de encontrar o mal materializado e descarregar nele todo o peso de seus ombros.
O Forte subia alto como uma montanha e bloqueava o sol quando este estava atrás dele. Naquele momento, pelo contrário, a direção do sol estava atrás de seu corpo, formando uma escura silhueta para quem a via de frente. Sentindo sua nuca queimar, ela entrou, decidida a começar o seu treinamento.
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