Um dia para esquecer, uma noite para conversar
O dia teria sido perfeito para todos, não fosse por uma briga de casal: Amanda e Elton. O grupo visitara o marco zero, alguns museus e pontos turísticos próximos, todos pareciam se divertir, seguiriam ao Brennand após o almoço. A manhã tinha sido animada e apesar de Nara e Márcio serem os únicos entusiastas de visitas a museus, todos se divertiram com as visitas e encantaram-se com o Museu Cais do Sertão.
Um food truck servia pratos feitos cujo aroma convidava os transeuntes a pararem para comer. Os pratos foram rapidamente servidos e o grupo se juntou nas mesinhas de bar posicionadas ali para almoçar, os pratos e o local simples lembravam os lugares que comiam nos dias de universitários com pouca grana, Elton lembrou-se de um episódio vivido com os meninos num desses almoços de PF no centro de São Paulo.
Enquanto todos riam da lembrança, Amanda num rompante jogou sua comida no lixo e disse que queria comer num lugar decente, e soltou a frase que começava com uma expressão que agora parecia seu novo bordão "Não temos mais idade pra comer num lugar assim", levantou-se e seguiu deixando os demais sem saber o que tinha acontecido. Elton levantou-se pesaroso, disse para os outros ficarem tranquilos e foi ver o que tinha acontecido.
Elton voltou pouco depois, sozinho. Luíza perguntou o que tinha acontecido, ele sugeriu que Amanda não tinha tomado seus remédios e deu de ombros, sentando-se e finalizando o almoço que tinha deixado pela metade, em seguida, despediu-se dos demais e disse que voltaria ao hotel de táxi com Amanda. O grupo seguiu os planos feitos para o dia sem saber direito o que havia acontecido. Todos tentaram se divertir depois do episódio, mas a verdade é que o clima não tinha normalizado após o rompante de Amanda e todos sentiam-se incomodados com os constantes surtos da amiga, outrora tão divertida.
Sem planos de jantar ou passeio em grupo para aquela noite depois do que aconteceu no almoço, Nara saiu sozinha em direção a um mercadinho próximo dali, comprou Pringles, Doritos e chá gelado e voltou para o hotel, mas não parou no quarto andar, deixou que o elevador a levasse até o décimo segundo andar, lá havia duas piscinas pequenas, uma coberta e uma ao ar livre, ali também tinha um jardim com algumas mesinhas de bistrô com confortáveis cadeiras de madeira. Nara acomodou-se em uma das cadeiras, selecionou uma playlist com novos nomes da MPB para tocar no Spotify e jantou olhando o mar de Boa Viagem distraída e em paz, até ouvir o barulho da porta do elevador.
_ Droga! Tava tão bom aqui – murmurou para si mesma, enquanto ouvia passos se aproximarem. – Espero que não seja a Valéria, não tô a fim de ouvir as histórias dela hoje.
Os passos passaram reto por ela, aparentemente sem notar sua presença, de onde estava não conseguira ver quem era, a pessoa aproximou-se da mureta e acendeu um cigarro, o que a deixou mais tranquila, pois não era nenhum de seus amigos. O celular de Nara começou a tocar interrompendo a música e chamando a atenção do fumante para ela. Nara não reconheceu o número na tela, então negou a ligação para continuar em paz com seu jantar.
_ Oi, desculpa, não te vi aí - disse Elio apagando o cigarro.
_ Oi. Não vi que era você.
_ Pensei que eu estivesse sozinho aqui, que a música era de algum alto-falante.
_ Aqui é um lugar bacana pra ficar sozinho, pensando na vida – Nara afirmou com um sorriso.
_ Era o que você estava fazendo?
_ Não, eu tava jantando – disse Nara com um sorriso, mostrando os salgadinhos e a garrafa em cima da mesa – Servido?
_ Excelente jantar, super nutritivo – exclamou Elio com um sorriso irônico.
_ E olha que eu troquei a coca-cola por chá!
_ E só por isso, eu serei obrigado a aceitar o convite.
Elio serviu-se de chá e pegou alguns Doritos do pacote.
_ Por que não está jantando com seus amigos?
_ Porque eu queria ficar sozinha. E acho que eles também.
_ Quem viaja com amigos para ficar sozinha?
_ Eu – Nara respondeu com um sorriso.
_ O passeio foi ruim?
_ Não...
_ Mas?
_ Mas nada. Eu conheço esse povo há muito tempo, mudamos muito... e eu queria jantar porcarias – finalizou com um sorriso.
_ Sei como é isso. Conheço os caras há anos e gostamos mais ou menos das mesmas coisas, mas também mudamos muito com os anos e nem sempre é fácil.
_ Pois é. Mas e você, por que não está com eles?
_ O Nando arrumou um encontro pelo Tinder – respondeu com um sorriso – E o Vitor está meio estressado hoje... e com razão, também fiquei puto com o diretor de uma empresa que visitamos.
_ O que aconteceu?
_ O cara era um otário... o Vitor e o Nando estavam explicando como é o nosso trabalho e o cara sempre interrompia o Vitor e perguntava para o Nando coisas que o Vitor tinha acabado de explicar... uma hora o Vitor disse mas eu acabei de te responder isso e o cara olhou para ele e disse que não confiava muito no que ele dizia... um otário!
_ Como assim? Por que não confiava?
_ Porque o Vitor é negro. Não é a primeira vez que isso acontece... – respondeu Elio com tristeza.
_ Aff... que nojo de gente assim. – Nara respondeu com raiva
_ Pois é. E sua pergunta Como assim? Foi a mesma que eu fiz para o cara, e ele, óbvio não soube responder... eles nunca sabem...
_ E o que vocês fizeram?
_ Nada. – disse ressentido.
Nara percebeu a tristeza de Elio diante do preconceito que o amigo sofrera, ficara tão chateada por ouvir aquilo e nem conseguia imaginar a raiva que os dois passaram antes.
_ De verdade, não consigo imaginar como é. Só mesmo o Vitor para saber a dor de alguém o diminuir por conta da cor da pele... como se isso determinasse alguma coisa...
_ E essa não é a primeira vez que isso acontece, Nara... e a gente sabe que não vai ser a última também... o que me dá raiva, de mim mesmo, é que... eu não fiz nada, aliás... nenhum de nós fez...
Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes, olhando o mar com o céu ficando cada vez mais escuro.
_ Vocês são muito amigos mesmo, né? – perguntou Nara interrompendo o silêncio.
_ E como! – Elio respondeu trazendo um sorriso de volta ao rosto – A gente se conheceu na 5ª série. O Vitor já era aluno da escola, eu tinha acabado de me mudar para o bairro e fui estudar na mesma escola que ele, aí um dia fui na casa dele fazer trabalho de escola e descobri que a gente era meio parente, minha mãe é prima da avó materna dele.
_ Caramba! Que coincidência!
_ Sabe aquelas brigas bobas de família que acabam afastando as pessoas e as gerações futuras se distanciam sem nem saber por quê?
_ Como sei – Nara respondeu com cara de quem vivia isso em sua própria família.
_ Então... no fim, por causa da nossa amizade, minha mãe se aproximou da mãe e da avó dele – Elio contou sorrindo.
_ Que demais! E o Fernando?
_ O Nando chegou na escola quase no fim do ano, em meados de setembro, ninguém falava com ele na escola porque ele era boyzinho, tinha vindo de escola particular – Elio falou e riu com a lembrança. – Bom, ninguém falava com ele, mas ele era legal e tinha um videogame moderno que era a sensação na época, aí eu e o Vitor decidimos que seriamos amigos dele se ele deixasse a gente jogar o tal videogame – finalizou rindo.
_ E aí ele deixou, claro – Nara riu
_ Deixou. – Elio respondeu rindo - Fomos na casa dele e descobrimos que os pais dele também eram gente boa. O pai ficou desempregado, as contas apertaram e eles tiveram que mudar o Nando de escola, depois de uns 3 anos as coisas melhoraram, o pai dele arrumou um trampo bom, mas o Nando não queria mais estudar no colégio de antes e nem a mãe dele queria que ele fosse pra lá.
_ Nem a mãe dele?
_ Não, ele não tinha muitos amigos lá e as crianças eram esnobes... as mães eram meio metidas também, tudo dondoca. A mãe dele trabalhava pra caramba, acho que ela se identificou com as mães da nossa escola que eram trabalhadoras como ela e não tinham tempo a perder.
_ Queria ter amigos da época da escola... mas perdi contato com todos – Nara comentou com certo ar de tristeza.
_ Mas você tem amigos do tempo da faculdade!
_ É... tenho. – respondeu vagamente
_ Qual o problema?
_ Nenhum...
_ Nenhum? Parece que tem algum? – perguntou Elio
_ Bom, eu gosto deles, amo meus amigos, mas sei lá... tem horas que olho para eles e não sei por que ainda somos amigos...
_ Desculpa, mas eu não entendo.
_ Nem eu – respondeu Nara sorrindo – eu amo essas pessoas, amo nossas histórias, as coisas que fizemos juntos na faculdade, mas ultimamente somos tão diferentes.
_ Por quê?
_ Nem sei por onde começar... acho que mudamos muito, ou... não sei, só... sinto, às vezes, que já não tem mais assunto, não tem mais nada que nos aproxime... só a amizade antiga, as histórias do tempo da facul.
Elio permaneceu silencioso por alguns minutos, olhando para Nara e esperando por mais detalhes da história, então ela continuou.
_ Não quero falar mal deles, mas... pra você entender... bom, a Amanda era a pessoa mais feliz e animada do mundo, mas há uns quatro anos atrás ela meio que surtou porque queria engravidar e aí descobriu que o Elton nunca quis ter filhos... e ele meio que deixou isso claro... bem nessa época, a Luíza descobriu que estava grávida DE GÊMEOS – Nara contou enfatizando a gravidez da amiga - , depois disso ela amargou, acho que ela e o Elton não estão bem, mas vivem nessa de parecer o casalzão da porra, porque eles sempre foram o casal perfeito.
_ Pra sentirem que tá tudo bem?
_ É, tipo isso.
_ Mas se eles não estão bem... eles poderiam se separar e ela pode ter um filho, fazer uma produção independente... sei lá.
_ Sim, mas tanto ele como ela vem de famílias tradicionais, que casa pra ficar junto até a morte, mesmo que esteja infeliz, sabe?
_ Bobeira...
_ Pois é.
_ E os outros?
_ Bom, o Márcio, a Valéria , a Luíza e eu costumávamos conversar sobre tudo, eles adoravam museus, livros, cinema, música... a Luíza casou e parece que sofreu uma lobotomia, depois que ela teve filhos então... todas as conversas giram em torno de trabalho, casa, filhos, parece que... desculpa a expressão, mas parece que emburreceu e não consegue mais ter conversas interessantes e o Márcio também, ele meio que virou o "tiozão" que assiste jornal sensacionalista e reclama de tudo, até da sombra e a Valéria... cara... ela tá desesperada para casar, acho que se chegasse um doido agora e a pedisse em casamento ela aceitava na hora. Por mais livre que ela aparente ser, ela tá sempre se cobrando, "tenho 30 tenho que casar, ter filho, vou ficar muito velha para isso"...
_ Sério? – perguntou Elio incrédulo.
_ Sério! Ontem eles pareciam os mesmos amigos de sempre, a mesma galera maluca da faculdade.
_ Mas e você? No que mudou?
_ Às vezes acho que não mudei nada, continuo usando calça jeans, tênis e moletom, ainda prefiro sair com a mochila nas costas do que com uma bolsa de couro... mas mudei em muitas coisas, não fico arrumando briga à toa, escolho melhor os lugares e as companhias, não me envergonho das músicas que gosto por achar que vão me chamar de velha... prefiro cafés a bares...e gosto de ficar sozinha, antes eu não suportava a ideia de não ter amigos por perto o tempo todo. Era como se eu não fosse boa ou legal o suficiente se não estivesse cercada de gente.
_ Mudanças boas, não?
_ Acho que sim... talvez...
_ Talvez?
_ Reconheço as mudanças boas em mim, mas talvez também tenham mudanças ruins... tipo, não conseguir ver as coisas positivas nos meus amigos, pelo contrário, consigo enxergar todas as mudanças ruins neles... isso é péssimo, me sinto péssima por isso.
_ Já falou sobre isso com eles?
_ Não. Taí uma coisa ruim em mim, não consigo mais ser eu mesma com eles.
_ Se você não pode ser você mesma, talvez... seja melhor fazer novos amigos.
_ Eu amo esse povo.
_ Pode continuar amando, e pode amar novos amigos também... às vezes a gente precisa deixar ir...
Nara olhou Elio nos olhos com um sorriso de agradecimento pelas palavras sem julgamento, deu mais um gole no chá e abriu a lata de Pringles, oferecendo batatas a Elio.
_ Pensei que você não fosse abrir a Pringles... já estava quase perguntando se não ia rolar batata – comentou Elio amenizando o clima, fazendo Nara sorrir.
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