Primeira noite

Era quase 20 horas quando chegaram ao hotel. Em tantos anos de amizade era a primeira vez que viajavam juntos. Embora estivesse feliz, Nara já se sentia levemente arrependida por ter aceito participar, ela e Valéria eram as únicas da turma que continuavam solteiras, embora isso não as incomodassem, Amanda – a primeira da turma a casar - fazia questão de lembrar todos disso. Elton, o marido de Amanda, para descontrair, dizia que Nara e Valéria eram as mais espertas de todos, o que fazia o grupo rir e, mesmo casados e felizes, Luíza e Alexandre não apenas concordavam com Elton, como ainda faziam menções nostálgicas à época em que eram solteiros. Márcio, o mais velho do grupo já beirava os 40 anos de idade e apenas ria e lembrava das quatro vezes em que ficou noivo antes de finalmente conhecer Letícia, com quem se casou, fazendo com que todos se lembrassem do desespero dele para casar.

A viagem começara tranquila, o grupo havia se encontrado no Aeroporto Internacional de Guarulhos e tudo corria bem, Nara só começou a se arrepender da viagem já no avião rumo a Recife. Amanda quis sentar ao lado da amiga e passou a viagem toda falando sobre Flávio, um amigo dos tempos de faculdade que o grupo não via há anos, mas com quem Elton nunca perdera o contato. Amanda lembrava Nara do interesse que o rapaz demonstrava por ela naquela época, enfatizava que ele trabalhava em uma multinacional, num cargo de chefia e ganhava muitíssimo bem. Flávio terminara a faculdade pouco antes delas e dois anos após a conclusão do curso, casou-se com uma moça que conhecera na igreja, o casamento não durou muito e eles estavam separados, Amanda dizia que essa era uma ótima oportunidade para Nara.

Quando o avião pousou no aeroporto de Recife, Nara estava com dor de cabeça e cansada da conversa sem sentido de Amanda, se perguntava em que momento da vida a amiga, outrora tão animada e divertida, tinha se tornado a tia chata que não suporta te ver sozinha e quer te arrumar um marido de qualquer jeito. Além disso, por que não tentar arrumar um namorado para a Valéria, por que sempre tinha que ser com Nara?

Quanto ao tal de Flávio, Nara lembrava dele, sabia que o cara era gente boa, mas Nara nunca o viu como algo além de amigo, além disso, Flávio sempre fora o cara certinho que frequenta a missa aos domingos, que não tinha absolutamente nada em comum com Nara, mas Amanda, aparentemente, não enxergava as coisas assim. Na época da faculdade, Valéria era secretamente apaixonada por ele e Nara, por vezes, tinha mencionado a amiga nas conversas com ele, tentando bancar o cupido.

Márcio que estava sentado na poltrona a frente delas ouviu boa parte da conversa e assim que desembarcaram, salvou Nara, dividindo os amigos nos taxis e deixando Amanda e Elton com Luíza e Alexandre e Nara e Valéria junto dele e da esposa. Nara entrou no táxi já agradecendo o amigo "Você é meu ídolo! Não aguentava mais o papo da Amanda", "Agradeça a Lê, ela que deu a ideia", respondeu Márcio e logo Letícia completou "Eu nem sei quem é esse Flávio, mas fiquei com dó de você. Que chatice da Amanda!". Valéria olhou espantada para Nara, "o que tem o Flávio?". Nara resumiu a situação para Valéria que apenas assentiu, ficando pensativa em seguida. Os dois taxis seguiram para o hotel localizado em Boa Viagem, os amigos desembarcaram e Amanda chegou até a dar uma corridinha rumo ao balcão da recepção para ser atendida primeiro que os demais.

Nara não se importou, sentou-se em uma das confortáveis poltronas da recepção, convidando Valéria a se juntar a ela. As duas ficaram sentadas conversando amenidades enquanto esperavam. Assim que os casais dirigiram-se ao elevador, Valéria levantou-se dirigindo-se ao balcão, Nara esperou pacientemente a sua vez, observando a amiga de longe, Valéria parecia estar incomodada com alguma coisa ou seria impressão sua, talvez fosse o cansaço da viagem. Enquanto Nara preenchia a ficha, o recepcionista entregou as chaves do quarto para Valéria que se despediu da amiga com um boa noite, deixando-a sozinha. O recepcionista entregou o cartão/chave comunicando a Nara que ela não ficaria hospedada no mesmo andar que os amigos com uma expressão chateada, ao que ela sorriu largamente agradecendo-o pelo favor que fizera a ela, o que deixou o rapaz levemente confuso. Nara estava cansada das perguntas, das conversas que giravam sempre em torno de casamento e trabalho e, pra ser sincera, gostava de Valéria, mas não queria dividir o quarto com ela, queria ter um pouco de paz, adorava a solidão; com o cartão-chave em mãos dirigiu-se ao elevador e apertou o botão que indicava o quarto andar, quando as portas já estavam fechando ouviu alguém pedindo para segurar o elevador.

A porta voltou a abrir e dois homens entraram no elevador carregando um terceiro que, certamente, estava embriagado e não fosse pelos amigos nem se aguentaria em pé. Os três também estavam hospedados no quarto andar, agradeceram a gentileza de Nara em segurar a porta para eles tanto quando entraram, como quando saíram do elevador. Os três rapazes estavam na casa dos 30 anos assim como Nara e seus amigos, enquanto o elevador subia os dois rapazes que seguravam o terceiro tentavam manter uma conversa, mas interrompiam-se a si mesmos com risadas, mostrando que ambos estavam tão bêbados quanto o outro, mas ainda se aguentavam em pé. Nara os observava com uma pontinha de inveja, queria tanto poder se divertir assim com os amigos.

O elevador parou no quarto andar e Nara segurou a porta dando espaço para que os rapazes passassem. Eles agradeceram e seguiram no sentido oposto ao dela, ainda rindo. Nara sorriu diante da cena e dirigiu-se ao seu quarto com um sorriso preso ao rosto e um filme sobre os bons tempos da faculdade, lembrou-se no curto trajeto até o quarto das festas, dos discursos em bares, claramente guiados pela manguaça, as loucuras dos 20 anos. Parecia um tempo muito distante, sentia-se um pouco velha lembrando disso. Ela e os amigos estavam lá para comemorar os anos de amizade, nesse período muitos da turma acabaram se distanciando, mas aquele pequeno grupo continuou unido, aquela era a viagem que tinham planejado desde a primeira vez que foram a um bar, lembrava-se claramente do dia: a semana de provas acabara e eles entrariam de férias em breve, iam para a faculdade apenas entregar alguns trabalhos e ver as notas, numa dessas acaloradas conversas de bar, decidiram fazer uma viagem.

Na época, a turma era composta por mais pessoas: a sempre bem vestida e maquiada Flavinha, Carlão e Beto que faziam planos de largar a faculdade e sair por aí com uma mochila nas costas, a sempre simpática Susana, o certinho Flávio e seu irmão Matheus, o divertido Bola e sua namorada sempre de mau humor de quem ninguém lembrava o nome, o bonitão Felipe, a sedutora Alice, o mulherengo Dinho... a turma era grande e animada, mas o passar do tempo os fez distanciar.

Em seu quarto de hotel, Nara lembrava de cada uma dessas pessoas, perguntava-se o que teria acontecido a elas? Sabia, por exemplo, que Flavinha casara-se e tinha 2 filhas, que Beto tornara-se executivo de uma grande empresa deixando de lado os dreads, Matheus casara-se com a namorada de longa data, e Flávio trabalhava em uma multinacional e estava separado, sabia por causa de redes sociais, mas era só. Não sabia se eram felizes, não sabia detalhes.

O fato é que a viagem planejada anos antes estava acontecendo naquele momento, boa parte das pessoas não estavam lá, era a primeira vez que viajavam juntos, tinham feito bate-voltas para Santos ou um fim de semana na chácara dos pais de Márcio no interior de São Paulo, mas nunca passado mais do que um fim de semana juntos. E mesmo essas poucas viagens curtas que fizeram juntos aconteceram na época da faculdade. Tudo era diferente agora, eram adultos e como diria Amanda "não temos mais idade para bobagens", embora Nara e Valéria concordassem que sim, sempre havia idade para as brincadeiras que Amanda agora chamava de bobagens.

Num terceiro andar, Valéria caminhava de um lado a outro do quarto perguntando-se por que Amanda falara sobre Flávio com Nara e não com ela, afinal Amanda e Nara eram as únicas que sabiam de sua paixonite secreta por ele. Valéria tivera muitos namorados, chegou a morar junto com um deles por dois anos, Amanda sempre desaprovava os romances dela, seria isso? Será que Amanda achava que Valéria não era boa o suficiente para Flávio? Ou será que ele teria falado sobre Nara? Mesmo que falasse, ele nunca foi o "tipo" de Nara, portanto, não havia problema, sabia que Nara seria incapaz de roubar um namorado ou pretendente, o contrário até já havia acontecido... Valéria estava inquieta, queria sair do quarto e bater na porta ao lado, onde Amanda e Elton estavam hospedados, mas preferiu deixar pra lá... Depois de tantos anos, nem ela nem Flávio eram as mesmas pessoas e, ele nunca deu muita atenção a ela, era melhor esquecer o assunto.

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