Nem todos os dias são bons

A noite anterior terminara bem. Nara e Elio dançaram e ficaram juntos por um bom tempo, Valéria também se divertiu acompanhada de Nando. As duas despediram-se dos amigos ainda na praça, deixando que eles voltassem ao hotel sem a companhia delas. Valéria, Nara e os novos amigos ainda aproveitaram a noite, com mais dança e cervejas e quando a música cessou voltaram ao hotel escolhendo o caminho mais longo, Nando desembarcou do elevador no terceiro andar para acompanhar Valéria até a porta do quarto, enquanto os demais continuaram até o quarto andar. Nara e Elio despediram-se na porta do quarto de Nara pouco depois das 2 horas da manhã.

O celular despertou às 8 horas e Nara se arrumou com calma, não lembrava qual era o itinerário do dia, já que Luíza mantinha o controle dos passeios, por isso, usou como em todos os outros dias roupas confortáveis com o biquíni por baixo, colocando a canga e uma troca de roupas na mochila. Nara desceu para o restaurante, serviu-se de uma caneca de café preto, torradas e geleia, procurou uma mesa grande o bastante para ela e seus amigos que logo chegariam. E, de fato, não tardou para parte da turma chegar.

— Bom dia! – Nara disse sorridente.

— Bom dia – Elton respondeu sonolento, sentando-se no extremo oposto da mesa.

— Bom dia, Nara! – Amanda falou com um tom repreensivo, sentando-se em frente a Nara.

— Aconteceu alguma coisa, Amanda? – Nara perguntou preocupada.

— Eu que te pergunto! Vim pro hotel ontem cheia de preocupação com você. Até briguei com o Elton porque ele disse que eu estava exagerando, que você é adulta.

— Como assim?

— Desculpa me intrometer na conversa, mas a Amanda pensa que é sua mãe e que você é uma adolescente irresponsável – disse Elton do outro canto da mesa, provavelmente cansado de argumentar qualquer coisa com a esposa.

— Você ficou brava e brigou com o Elton porque eu não voltei com vocês ontem? – perguntou Nara intrigada.

— Nara, você é minha amiga. Me preocupo com você.

— Obrigada, mas...

— Nara, você nem conhece o cara!

— Ah tá. Entendi. – disse Nara rindo.

— Você ri? – Amanda perguntou indignada.

— Você quer que eu faça o quê?

— Nara, você acha que tem algum futuro com um cara qualquer que, por acaso, está hospedado no mesmo hotel que a gente. Você não sabe nada dele, quando a viagem acabar, você nunca mais vai ver o cara!

— Ótimo! Quem disse que eu estou à procura de um príncipe encantado? – Nara falava com calma – Aliás, não é assim que se conhece pessoas? Ou você acha que todo relacionamento começa como o seu e do Elton, na faculdade com 18 anos e porque são vizinhos e desde sei lá quando, já conhecem a família toda... não é assim... – Nara finalizou rindo. – Além disso, a Valéria também ficou lá! Tá brava com ela também?

— Nara, me desculpa, mas... você não tem mais idade para esse negócio de "ficar" ou sei lá como é que se diz. E a Valéria sempre foi irresponsável e... dada demais!

— Amanda, te agradeço pela preocupação, sério mesmo, mas... o jeito como você vê a vida, o jeito como a Val e o jeito como eu vejo são muito diferentes, sempre foram e isso nunca nos impediu a amizade, então... vamos continuar como sempre foi? – Nara não queria brigar e entendia a preocupação da amiga, mas já tinha conhecido tantos amigos e colegas de Elton, quase sempre tinha algum convidado extra nos encontros do grupo, sempre na tentativa de "desencalhar" Nara e ela estava cansada de tudo isso, só queria que a amiga entendesse que ela não precisava de ninguém para ser feliz.

— Que seja. Se você quer continuar vivendo a vida assim, problema seu. E como disse, não ligo pro que a Val faz da vida dela, mas você... a verdade é que é estranho, conversei ontem com a Luíza e a Letícia e elas concordam comigo.

— Tudo bem. Respeito a opinião de vocês e a vida que escolheram. Espero que respeitem a minha e que isso não estrague nossa amizade – disse Nara com seriedade, levantando-se em seguida para mais uma xícara de café.

O restante do grupo chegou e conversou animado sobre o passeio, Márcio e Alexandre ainda perguntaram a Nara com um tom zombeteiro, que lembrava muito as brincadeiras que faziam nos tempos de faculdade como tinha sido a noite. Letícia e Luíza riram mostrando que não viam nada de estranho. Elas ainda perguntaram sobre Valéria que não tinha aparecido para o café. Nara percebeu que todos estavam bem, conversando animados sem nenhum problema, o que a fez se perguntar mentalmente qual era o problema de Amanda, mas seus pensamentos foram cortados pelo efusivo bom dia de Valéria.

_ Que animação! Acho melhor nem perguntar o que aconteceu ontem – Márcio comentou rindo.

_ Se quiser eu conto detalhes. – Valéria respondeu de maneira escandoloda e afetada.

_ Obrigada, dispensamos os detalhes, pois podemos imaginar – Nara respondeu a amiga com um sorriso.

_ Ou você pode nos contar depois, sem os meninos por perto – emendou Luíza animada.

Amanda levantou-se da mesa bruscamente com um ar de reprovação, apenas pedindo para que o grupo se apressasse, pois logo a van chegaria para leva-los a outro passeio, Amanda inda fez um sinal para Elton que fingiu não ver e continuou a mesa, participando da conversa animada dos amigos.

No trajeto a cidade de Tracunhaém, o grupo continuava animado, Valéria contava em voz baixa com as mulheres sobre a noite que passara ao lado de Nando e como ele era gentil e atencioso, apesar da pose de galã que ostentava.

_ Você não cansa disso? – perguntou Amanda rispidamente.

_ Não entendi sua pergunta... – Valéria respondeu um tanto surpresa com a expressão da amiga.

_ De ser assim, fácil... ninguém vai te levar a sério, nunca. Você conhece o cara e já vai pra cama com ele, depois fica falando que quer casar, eu jamais apresentaria um amigo meu ou do Elton a você.

_ É por isso que você fica fazendo esquemas para Nara e não para mim? Por isso que você falou do Flávio para ela, mesmo sabendo que eu sempre tive uma queda por ele? – Valéria perguntou bastante séria e demonstrando sua mágoa com a amiga.

_ Eu só quero deixar claro que eu não tenho nada a ver com isso. Aliás, eu odeio esses esquemas que a Amanda arma pra mim, e não tenho, nunca tive nenhum interesse no Flávio e acho que cada um faz o que quer da vida e se você, Val, é feliz levando a sua vida assim, eu fico feliz de saber que você tá feliz. – Nara declarou diante das amigas, deixando claro que os pensamentos preconceituosos eram de Amanda e que ela não tinha absolutamente nenhuma relação com isso.

_ Eu sei... – Valéria respondeu com um sorriso sincero direcionado a Nara.

_ Eu acho que vocês duas não tem idade para essas coisas, vocês tem 30 anos já, passou da hora de assumir responsabilidade, casar e parar com essas coisas... eu sabia que não seria uma boa ideia ir num forró no meio de uma praça... com tanto restaurante bacana pra conhecer.

_ Eu confesso que adorei ir ao forró na praça ontem, pena que o Márcio não gosta de dançar, eu teria me divertido muito – comentou Letícia tentando amenizar o clima criado por Amanda.

_ Eu também gostei, me senti na facul outra vez – emendou Luíza com um sorriso tentando colocar fim a conversa.

_ Que bom que vocês gostaram – disse Valéria com um sorriso nervoso – Eu me diverti muito ontem, e não trocaria a noite de ontem por um restaurante que só é divertido para quem está acompanhada.

_ Você não estaria sozinha, estaria com todos nós – provocou Amanda.

_ Você entendeu o que eu disse – continuou Valéria.

_ É sério isso? A gente vai ficar brigando, discutindo, com provocações? – Nara questionou com o semblante sério, emendando – Todo mundo está se divertindo, todos sonhávamos com essa viagem, qual é o seu problema, Amanda? Por que você tá sempre julgando a Val, sempre querendo me dizer o que fazer? Qual o seu problema com nós duas?

_ Nenhum. Eu me preocupo com vocês, só isso.

_ Dispenso esse tipo de preocupação – Valéria respondeu secamente.

_ Também me preocupo com você, Amanda. Você não é assim, você não é essa pessoa amarga e rancorosa... – Nara soltou as palavras olhando fixamente para a amiga que simplesmente, recostou-se ao banco com os olhos marejados, permanecendo em silêncio.

As outras mulheres do grupo se entreolharam cúmplices, havia um problema que precisa ser resolvido ali, mas Amanda precisaria se abrir com elas, para que, talvez, pudessem ajudá-la.

Apesar dos atrativos da cidade de Tracunhaém, as mulheres do grupo não conseguiram esquecer a conversa que acontecera na van e o clima tenso entre elas era nítido, o único que se atreveu a perguntar o que acontecera foi Alexandre, e ainda assim, o fez de maneira muito discreta, dirigindo-se à Luíza, que explicou a ele brevemente.

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