Forró

A turma de Nara queria aproveitar tudo o que fosse possível, por isso os poucos dias passados em Pernambuco seriam cheios de atividades, todos os dias um passeio diferente, tudo devidamente organizado por Luíza. Aquele dia seria dedicado a conhecer a bela paisagem de Olinda, passariam por uma cachaçaria, uma visita a alguns mercados de artesanato. Luíza poderia trabalhar com turismo, ela tinha uma planilha em seu celular com os lugares que deveriam conhecer e quanto tempo dedicar a cada um deles, de modo que não era possível criar muitos atritos, além disso, depois do rompante inesperado de Amanda, Luíza perguntava a opinião dela a respeito de tudo, o que a fez sentir-se importante e bem humorada.

O dia tinha sido exaustivo, o grupo andou bastante e ao retornarem para o hotel, Amanda e Luíza faziam planos de ir a um restaurante famoso de que tinham ouvido falar, mas Nara conseguiu convencê-las a mudar de ideia e relembrar os velhos tempos, comeriam na praça indicada pelo motorista que os levara para Carneiros no dia anterior e aproveitariam para dançar forró, de início Amanda não gostou muito da ideia, mas acabou concordando. Combinaram de encontrarem-se no hall às 20. A porta do elevador abriu e Nara deu de cara com Vitor e Elio. Cumprimentaram-se sorridentes, trocaram algumas palavras ali em frente ao elevador e despediram-se, os dois entraram no elevador e Nara ia para seu quarto quando, de súbito voltou e segurou a porta do elevador, convidando-os para unirem-se a ela e os amigos no hall, explicou que iriam a uma Praça próxima dali com várias lanchonetes ao redor e uma feirinha de artesanato onde, às vezes, tinha um trio que tocava forró.

Pontualmente às 20 horas, Nara apertou o botão do elevador. Chegou ao hall e lá estavam velhos amigos conversando com os novos amigos, Nara sorriu diante da cena e aproximou-se do grupo animada torcendo para que o trio de forró estivesse na praça. Uns poucos minutos de caminhada numa refrescante brisa noturna e já se podia ouvir o som do forró vindo da praça. Vitor mostrou-se tão animado para dançar quanto Nara, Letícia dizia que amava dançar um forrózinho, mas Márcio tinha dois pés esquerdos e não dançava de jeito nenhum, nem a tradicional valsa do casamento ele dançara.

As mesinhas espalhadas por boa parte da praça não pertenciam a um único bar, era como uma grande praça de alimentação com barraquinhas dos mais variados tipos de alimentos e bebidas que circundavam a praça, o grupo juntou umas cadeiras num canto e ajeitaram-se por ali, saindo aos poucos para fazerem os pedidos sem o risco de perder a mesa, uma vez que a praça já estava bem cheia. Vitor comprou uma cerveja de um senhor que parara com um carrinho de bebidas próximo de onde estavam, gesto que foi acompanhado pelos dois amigos e também por Valéria e Nara. A conversa e a cerveja duraram pouco, Valéria e Nando já dançavam animados quando Vitor convidou Nara para dançar deixando Elio na mesa com os velhos amigos de Nara.

— Achei que você não soubesse dançar. – disse Vitor enquanto esperavam a próxima música começar.

— Por quê? – Nara perguntou surpresa, já dando início aos primeiros passos de dança com a música que começara.

— Você não cantou uma musiquinha sequer no karaokê, não dançou, nem mexeu um pouquinho o corpo pra dizer que estava dançando, não quis se jogar na piscina ontem e... é paulista.

— Ah! Não acredito que ouvi isso! – Nara disse rindo.

— Verdade! Paulista não dança muito bem... – Vitor disse segurando o riso.

— Isso é preconceito!

— Não é nada! É realidade.

— Não sei nem o que dizer – Nara comentou sorrindo e continuou – Aliás, de onde você é?

— Nasci na Bahia, Salvador. E fui morar em São Paulo com 2 anos.

— Então, meu amigo, você é tão paulista quanto eu, já que viveu mais tempo em São Paulo que na Bahia.

— Sim, mas minha origem fala mais alto – Vitor comentou com um sorriso debochado no rosto.

— E quem te garante que nasci em São Paulo?

— E onde a senhorita nasceu?

— São Paulo – Nara respondeu rindo, fazendo-o rir também.

— Certo – disse Vitor rindo – Mas e aí, por que não pulou na piscina ontem?

— Porque estava de pijama e não ia ficar de calcinha e sutiã na frente de estranhos.

— Me desculpe, senhorita... como é mesmo seu sobrenome, para eu poder falar com a senhorita com o devido respeito – disse Vitor de jeito afetado engrossando ainda mais a voz.

— Que bobo! O sobrenome é Dias. – disse Nara com um sorriso - Mas, na boa... não ia interromper a diversão de vocês.

— Quem é que estava se divertindo lá, Senhorita Dias? Eu estava deveras entediado – respondeu ironicamente.

— Ah tá – respondeu Nara com sarcasmo.

— Talvez se você tivesse ficado, se tivesse entrado na piscina... o Elio também entrasse.

— Como assim?

— Ele não entrou na piscina, ficou lá fora fumando um tempão, depois foi dormir e nos deixou lá com as meninas. Aliás, sua amiga ficou com a gente lá...

— Imagino o quão triste você e o Nando ficaram, duas garotas para cada um – disse Nara com sarcasmo.

— Olha, não vou mentir. Fiquei chateado mesmo, o Elio é meu melhor amigo e a mina esnobou ele. – disse com ar afetado, tentando convencer a si próprio mais que a Nara.

— Claro. – Nara respondeu irônica.

— É sério!

— Certo. A mina esnobou o Elio por quê?

— Porque ela é doida. Se eu fosse uma mina eu casava com o Elio. Olha pra ele – disse Vitor virando-se na direção onde Elio estava sentado tomando sua cerveja e fumando e fazendo com que Nara olhasse também – Gatinho demais, né?

Nara riu da conversa, concordando que Elio era gatinho para que Vitor parasse com a insistência em perguntar "Mas não é?".

Enquanto Vitor e Nara dançavam e conversavam animados, Nando e Valéria não se desgrudavam e Nara poderia antever o que estava para acontecer. Valéria passaria a noite com Nando e, mesmo sem o cara dar qualquer esperança, ela ia criar um monte de expectativa e depois ficar chorando e dizendo que não tinha sorte no amor e que ninguém a levava a sério. Nara sempre dizia para a amiga pegar sem se apegar e deixar as coisas rolarem, mas Valéria era piscina, do pior tipo: aquele que vive num mundo de fantasias, bastava um olhar e lá estava Valéria toda apaixonada.

De longe, Vitor conseguia ver que o Elio não estava sentindo-se enturmado, assim quando a música acabou ele disse que precisava descansar e se reidratar. Voltaram a mesa e em um tom baixo de voz, Elio disse a Nara com um sorriso "Eles tem uns papos bem chato mesmo", o que a fez rir com uma expressão de "eu te disse".

O grupo ficou ali por mais um tempo conversando, Vitor introduziu novos assuntos, falou sobre a cidade de Recife, os poucos lugares por onde passaram e que gostaria de ir com mais tempo para poder turistar a vontade, ele dominava a conversa sempre que podia, muito mais para torna-la agradável do que para se exibir, já que vire e mexe Luíza e Letícia começavam a falar das crianças, de como davam trabalho e gastos, era quase como uma disputa para ver quais crianças eram mais obedientes, mais inteligentes. Nara já estava acostumada com essas conversas e já sabia até como desligar-se delas.

Nando e Valéria aproximaram-se da turma e com um sorriso largo Nando disse discretamente que Sabine, a recepcionista do hotel, amiga da garota que ele conhecera no Tinder estava lá e perguntara por Vitor. Vitor riu e disse que estava tendo um bom momento de conversa com os novos amigos.

— Claro que sim, com conversas interessantíssimas sobre quem aprendeu a cagar no pinico primeiro – disse Nara de modo baixo para que apenas Vitor, Elio, Valéria e Nando escutassem, o que os fez rir.

_ De novo isso? – Valéria revirou os olhos, e em voz baixa dirigiu-se a Vitor – Quer saber, você devia deixar esse povo e dançar com ela, Vitor. A menina é muito gata!

— E aí, vai ou não vai? – perguntou Nando dando um tapinha no ombro de Vitor.

— Vai lá, cara! Divirta-se! – disse Elio com um sorriso.

_ Só vou porque agora você vai ficar em boa companhia – Vitor disse a Elio, apontando para Nara e piscando ao amigo.

Vitor se levantou e acompanhou Nando até a mesa onde Sabine estava. O pessoal observava a cena de longe e Amanda não resistiu um comentário.

— Você ficou sobrando, Elio. – disse com ar brincalhão.

— Normal – comentou Elio com um sorriso zombeteiro - Eu sempre sobro, já acostumei.

Vitor e Nando eram figuras marcantes, altos, com corpos bem definidos, mas sem exageros, vestiam-se bem, de forma estilosa, fosse para o trabalho fosse para uma noite informal como aquela, tinham cortes de cabelos modernos e barbas bem feitas. Elio era pouco mais baixo que os amigos, magro, com os cabelos pretos ondulados meio despenteados e uma barba rala por fazer e roupas bem comuns, no melhor estilo jeans e camiseta.

A saída de Vitor e Nando e a resposta de Elio para Amanda fizeram com que Elton se lembrasse da dupla Carlão e Beto e em como os dois estavam sempre juntos, mas Carlão ganhava todas as meninas e Beto ficava sempre pra escanteio, o que fez Amanda e Márcio comentarem quase instantaneamente da quedinha que Beto costumava ter por Nara. Nara sorriu e se lembrou, sem comentar, das muitas vezes em que acabara dançando forró com Beto na época em que ambos eram considerados os feinhos da turma. A conversa poderia enveredar por esse caminho de boas lembranças, o que seria divertido, mas voltou ao papo sobre casamento e filhos.

— Bora dançar? – perguntou Nara levantando-se e estendo a mão para Elio.

— Espero que você não se arrependa... porque eu danço mal pra cacete.

— Não pisando no meu pé... tá tudo certo – respondeu Nara com um sorriso galante.

Os dois adentraram ao espaço que servia como pista de dança e começaram a dançar passos bem simples, Elio não era tão confiante de seu gingado como o amigo, mas também não dançava mal. Enquanto dançavam, Elio lembrou da conversa na mesa e provocou:

— Então o tal do Beto era a fim de você?

— Ele era meu amigo, a gente se dava bem, só isso...

— Só isso? E ficou vermelha por quê?

— Não fiquei.

— Ficou sim – disse Elio rindo, ainda provocando.

— Eu e o Beto nos entendíamos bem. - disse Nara com um sorriso nostálgico.

— E por "entendíamos bem", posso dizer que rolava alguma coisa.

— Sabe que na minha época de faculdade, o forró universitário, pé de serra e o reggae estavam super na moda? – comentou Nara desconversando.

— Também estava na faculdade nessa época, bons tempos... daí que eu aprendi a dançar, quer dizer, mais ou menos, né? – comentou Elio, para em seguida lançar a pergunta – E você e o Beto dançavam muito?

Nara gargalhou interrompendo a dança dos dois por alguns segundos.

— Sim, a gente dançava muito. A gente até teve um lance, um quase namoro, mas esse pessoal aí nem imagina.

— Sério? Eles não sabem?

— Não. O Beto era tipo o feinho da turma, que nenhuma menina queria pegar – comentou Nara rindo.

— Entendo, tipo eu – Elio comentou com um sorriso brincalhão.

— Não. Não acho que você seja o feinho da turma – Nara respondeu com um sorriso.

— Sério?

— Sim, sério.

— Então ele era tipo quem? – Elio insistiu no assunto anterior

_ Tipo eu, meio... sei lá... – Nara riu – Meio perdida, meio sem encaixe...

_ Isso é ruim? Não se encaixar... – Elio comentou sério.

— Talvez não seja ruim, mas... acho que sempre fui meio diferente dessa galera aí. Imagina as meninas tinham cabelos perfeitos, roupas estilosas... eu comprava minhas roupas em barraquinhas de rua, usava uma mochila dessas peruanas, andava com tranças no cabelo ou com faixas quando estava solto... eu era diferente delas e para os caras digamos "normais" eu era tão feinha quanto o Beto era para as meninas.

— Por isso vocês se davam bem?

— É, acho que sim.

— E por que a turma não podia saber?

— Sei lá... bobeira...

— E por que não ficaram juntos, não tornaram o lance de vocês oficial?

— Porque o lema era se divertir, sem compromisso, o lema era viver a vida intensamente. – Nara respondeu com um sorriso.

— Carpe diem! – Elio disse com um sorriso e ousou um rodopio na dança que fez ambos rirem.

— E você?

— O quê?

— Fala alguma coisa de você, qualquer coisa... eu sei seu nome, sei que é amigo deles há tempos, que trabalham juntos, que gosta de Pringles... e que a menina de ontem não quis saber de você e, aparentemente, você não se importou com isso.

— Já sabe tudo o que importa: eu gosto muito de Pringles – Elio respondeu sério, subitamente parando de dançar e olhando nos olhos de Nara como se falasse a coisa mais importante do mundo, o que a fez sorrir.

— Que bobo! Acho que é por isso que você sempre sobra...

— Olha aqueles caras? Agora olha para mim? Só me sobra ser legal, ser engraçadinho e bom ouvinte pra conquistar alguma mulher... porque perto deles eu não tenho chance nenhuma.

— O Vitor disse que se fosse mulher casaria com você.

— E por que ele falou isso? – Elio perguntou rindo.

— Ele disse "olha aquele cara" e disse que você era gatinho e te fez mil elogios, acho que ele te ama.

— Claro que ama.

_Vocês deviam ficar juntos! Seria um casal lindo demais!

Elio riu e balançou a cabeça continuando a dança em silêncio.

— Mas então, você apela para o humor e a amizade? – Nara retomou a conversa depois de um tempo.

— Pra tentar conquistar alguma mina?

— É!

— Sempre que posso – respondeu Elio com um meio sorriso, sem olhar para sua interlocutora.

— É uma boa tática!

— Você acha?

— Sim.

— Então... entre a beleza escultural, as técnicas sedutoras de dança do Vitor e o humor e amizade, o que você escolheria?

Nara o olhou surpresa, sem saber se aquilo era um flerte ou uma pergunta qualquer e permaneceu em silêncio, enquanto a música continuava embalando os dois passos pra cá, dois passos pra lá. Diante do silêncio, Elio também ficou calado apenas seguindo os passos da dança. Quando a música terminou, ele perguntou se ela queria esperar pela próxima ou se deveriam se unir ao grupo nas mesinhas.

— Eu escolheria humor e amizade. – Nara respondeu subitamente enquanto esperavam pela próxima música.

— Como?

— Você perguntou o que eu preferia. Embora o Vitor seja bem-humorado e dance muito bem, eu gosto de humor, amizade e tenho uma queda pelos "que sobram" - disse Nara com um sorriso que indicava todo o interesse que sentia pelo rapaz desde que trocara as primeiras palavras com ele.

Elio sorriu satisfeito com a resposta e voltou a segurá-la pela cintura a fim de continuar a dança, mas dessa vez ousou puxar o corpo de Nara para aproximar-se ainda mais do seu e beijou-a com vontade.

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