Arquivo 7

A neve começava a derreter nas ruas, apesar do calor não se mostrar presente ainda. Som de risos e buzinas preenchiam as ruas. Passos desordenados e fora do compasso iam e viam contribuindo para a poluição sonora. Duas tranças alaranjadas balançavam de um lado ao outro como o pêndulo de um relógio antigo à frente de F. A garota ruiva parecia se divertir aquela tarde que estava passando com ele enquanto vidrava seus olhos admirados a cada vitrine em que passavam.
Após F ter ficado em choque parado em frente à escola vendo M desaparecer no horizonte, a garota, que saiu logo em seguida, reparou em como o menino estava abatido e se voluntariou para animar seu dia. I não parava de falar, sem sombra de dúvidas estava animada. Deveria estar falando sobre algo muito importante para ela, mas F não ouvia...

Vermelho.

O sinal de trânsito agora estava vermelho como o sangue que parecia pulsar mais forte em suas veias. Seu pensamento estava distante. Refletia sobre como havia conseguido estragar tudo. Em menos de cinco dias sua vida já estava um caos. O sinal abriu e agora ambos atravessavam a rua enquanto bebiam o chocolate quente que haviam comprado em uma cafeteria.
O resumo da tarde foi andar até anoitecer com I enquanto tomavam seus chocolates pelas ruas da avenida central. Ela era uma boa amiga, falava bastante, e isso era o suficiente para distrair ele, impedindo que surtasse. Apesar da garota ser extremamente compreensiva e atenciosa, ele não podia revelar tudo o que estava acontecendo, não queria coloca-la mais ainda naquela situação que nem sabia que estava sendo envolvida.
Os dois estavam agora em um pequeno parque precário onde apenas alguns brinquedos ainda pareciam ter utilidade. A menina sentada em um balanço ficava de um lado ao outro, subindo e descendo, como um pêndulo. F repousava no balanço ao lado, mas ao contrário da menina, ele não se balançava, só olhava as mensagens que havia trocado com M quando começaram a se falar naquele dia, no qual a neve se fazia totalmente presente. A tarde começava a dizer adeus e a garota que se balançava, por um momento, parou olhando para a tela de seu celular. Quando reparou a hora, levantou-se apressadamente limpando a saia.

- Preciso ir! Minha mãe vai ficar uma fera se eu não chegar em dez minutos. - Essa foi sua deixa.

- Tudo bem, obrigado... - disse com sinceridade, roubando um sorriso empolgado da garota que jogava uma trança para trás de seus ombros.

- Não precisa agradecer, estou me divertindo bastante.

- E outra coisa... Tenha cuidado. - Disse F antes que a garota se virasse para ir. - Não ande sozinha, não fale com ninguém e nunca, nunca, olhe para trás enquanto estiver andando. - Ele foi invadido por aquela sensação de proteção a ela.

A garota, que agora o encarava séria, concordou com a cabeça e com uma piscadela quebrou a tensão.

- Nada de ruim vai acontecer comigo, fique tranquilo! - Disse ela rindo enquanto saltitava pela rua e se despedia de seu mais novo amigo.

A partida da garota só fez F relembrar que havia feito tudo errado com M... se ele pudesse voltar no tempo faria tudo diferente... mas não podia. Em seu caminho para casa, a poluição sonora das ruas foi abafada pelos fones de ouvido estrategicamente posicionados para que pudesse ter um caminho agradável ouvindo suas músicas preferidas. F deslizou o dedo pela tela do celular e escolhendo a playlist de músicas da dupla Black Rose, que conseguiu a proeza de, por um momento, fazê-lo esquecer toda a bagunça que sua vida se encontrava.
Ao chegar em casa, se deparou com o breu que o aguardava. Estava sozinho. Subindo o lance de escadas, adentrou seu quarto e sentou-se no chão. As lágrimas que tanto segurou durante o dia se libertaram em uma cascata de emoções comprimidas. Estava destruindo a relação de amor que teve com M um dia, havia perdido sua melhor amiga e, somado a tudo isso, tinha o medo latente de estar sendo vigiado por alguém - isso o aterrorizava. Seus olhos se arregalaram ao olhar um pequeno risco na parede que estava quase imperceptível escondido pelo enorme guarda roupa. O garoto se levantou e, usando suas forças restantes, empurrou a mobília até que pudesse ver o que se escondia ali atrás. Uma marca feita à pedra, feita por ele e V quando pequenos...
Uma forte lembrança lhe veio à mente: o esconderijo deles! Ele e sua amiga aos sete anos de idade haviam pego várias fotos e objetos importantes e colocaram dentro de uma caixa para que pudessem abrir quando tivessem 30 anos e enterraram no quintal de F. Pela contagem ainda faltavam 7 anos, mas ele não poderia esperar.
A enorme pá estava apoiada em seu ombro enquanto contemplava o belo jardim de sua mãe. As belas flores escolhidas e cuidadas a dedo teriam um terrível destino naquele momento.

Uma.

Duas.

Três.

Quatro vezes.

O rapaz cavava tentando encontrar o local exato onde a pequena caixa de madeira estava. Sua respiração agora estava ofegante enquanto se apoiava suado na enorme pá fincada na porção de terra. Voltando de onde parou, repetiu os movimentos até sentir a base do metal se chocar contra algo.
A caixa de madeira desgastada ainda estava ali em ótimo estado e, agora aberta diante de seus olhos, via seus brinquedos favoritos da época, cartas e uma foto dos dois juntos... Ele tinha uma prova finalmente. "Ela realmente existe, não estou ficando louco", pensou.
Suas próximas ações não foram premeditadas e muito menos calculadas. O céu escuro, suas roupas completamente sujas de terra, pedaladas frenéticas, olhos vidrados e batidas de coração aceleradas. F se viu encarando a cidade à noite para provar que poderia pelo menos naquele momento mudar o rumo do que acontecia... a fachada da casa de V começou a se ampliar em seu campo de visão. A bicicleta foi lançada violentamente contra o chão enquanto o garoto apressado se precipitou até a porta apertando a campanha repetidas vezes até que alguém aparecesse na porta. A mãe da garota surgiu atônita e o convidou a entrar.

- Que surpresa boa F! Fiquei preocupada com você da última vez que saiu daqui, parecia perturbado. Quer uma xícara de café? V ainda não voltou da rua.

- Na verdade eu vim falar com a senhora.

Então a mulher de cabelos quase totalmente grisalhos e um jeito meigo olhou para ele curiosa, e, sentando ao lado de F, perguntou:

- Mais uma surpresa. - Disse ela sorrindo. - Se eu puder ajudá-lo ficarei contente.

- Você melhor do que ninguém poderia me ajudar em relação a isso. Estamos sós, não precisa temer nada. - Então F pegou a foto de V do seu bolso e a colocou sobre a mão da senhora, que recorreu aos óculos para enxergar melhor.
A senhora permaneceu parada olhando a foto com atenção, soltou um suspiro, mas não disse nada. Então levantou seus doces olhos azuis e encarou o rapaz. F retornou a falar.

- Reconhece a V? A verdadeira V? A sua filha! É muito ruim ser esquecida pela própria mãe. - Disse ele calmamente, com cuidado para não ofendê-la. - Por favor... me diga que se lembra dela.

- Pare por favor, não reconheço essa garota- diz a mãe. - Você poderia esperar um minuto? Acho que tenho umas correspondências para sua mãe.

F acenou positivamente com a cabeça e ficou parado vendo a senhora subir a escada. Afinal tudo havia sido em vão, ele não tinha conseguido fazer nada por V.

- Me desculpe V... - Sussurrou o mais baixo que pôde engolindo o choro e então lembrou da expressão de medo no rosto de M. - Me desculpe M...

A mãe de V apareceu logo em seguida entregando um envelope e pedindo a ele que entregasse para sua mãe. F pegou as cartas e saiu da casa desolado. Ao chegar no meio do caminho, viu M no fim da rua com uma menina... eles estavam se beijando... F deixou as cartas caírem no chão surpreso e, se agachando, colocou o rosto entre as mãos. Ao pegar as cartas, o garoto arregalou os olhos ao ver o que estava escrito na parte da frente do envelope...

..."Essa carta não é para sua mãe"...

... Ele abre rapidamente o envelope e lê a primeira frase... Uma frase escrita em letras enormes:

"Socorro!!! Por favor, me salve!!!"





















Desculpa pelo leve atraso galeraaaa!!! Esse capítulo está um pouquinho menor que os demais mas acho que é dessa forma que ele deveria ser encerrado mesmo, com esse climinha de mistério que vocês já estão acostumados a cada final de capítulo hehe. Eu sempre faço menções ou deixo link sobre as referências aqui mas dessa vez vou deixar pendente maiores informações sobre a dupla Black Rose que cito brevemente, porque essa dupla é um projeto que estou é ainda não gravamos as músicas em um estúdio 😍😍😍 mas estou mega ansioso. Logo logo teremos novidades.

Gente só para agradecer também a AmandaRespicio pelas fotos incríveis da capa do livro e fotos que iniciam os capítulos e também a AnaSouza076532 que estreou esse capítulo com a colaboração dessa foto maravilhosa. Essas meninas são feras 💖💖💖

Voltando ao livro, obrigado por estarem aqui comigo e não esqueçam de votar e comentar bastante 🌟 adoro vocês. Até a próxima quinta 💖

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