Arquivo 16


Presto é uma das variações de tempo que indica o andamento de uma música na partitura. F lembrava sempre de ouvir M repetir a mesma frase para si durante seu ensaio de músicas mais complexas que exigiam agilidade de seus dedos e arco.

Presto era um andamento rápido sequencial que poderia deixar o violinista sem fôlego e a quem ouvia maravilhado pela sequência de notas em cadeias deslizadas de forma harmônica.

Presto. F corria puxando seu celular, pendrive e a folha com suas anotações sobre a mesa de cabeceira. Correndo o mais rápido que podia, desceu as escadas de sua casa e seguia para os braços da noite que o aguardava porta a fora.

Presto. O celular chamava o número de V enquanto o garoto pegava a bicicleta no jardim e começava a pedalar debaixo daquela enorme lua cheia. Ele se dirigia sem fôlego até a casa da amiga. Não lembrava exatamente o horário que tinha conversado com ela ao telefone da primeira vez antes dela sumir, mas sabia que foi antes do segundo dia iniciar... Antes de meia noite.

Faltava meia hora para 00:00. Pouco tempo para salvá-la; trinta minutos para livrá-la de seu terrível destino. Se F mudasse aquele primeiro acontecimento, todos os outros mudariam. Ele não poderia errar dessa vez. V atendeu a ligação, sua voz parecia tranquila.

- F, boa noite, se for sobre hoje... Eu não quero conversar por aqui.

- Onde você está?

- O que?

- Saia de casa agora! Estou virando a esquina para chegar na sua porta.

- F não...

- V, sai de casa! – Ela pareceu se assustar do outro lado da linha ao ouvir o grito selvagem que o amigo soltou.

O garoto desceu da bicicleta e correu até a porta de V. Ela abriu a porta com os olhos arregalados ao vê-lo. Seu peito subia e descia rapidamente, tentando acompanhar seu ritmo de respiração acelerada. Os olhos firmes de F estavam tão arregalados quanto os dela e seu cabelo estava colado na testa que pingava suor.

- F você...

A voz de V pareceu ser abafada ali naquele mesmo momento. Sua visão embaçou e antes que pudesse segurar-se no corrimão ao seu lado, sua visão apagou... E o resto, trevas.

Seus olhos se abriram encarando V, que parecia ter dormido ali no chão, encostada no sofá próxima a ele. Estava claro; seu celular marcava dez horas da manhã. Provavelmente ela ficou ali a noite toda preocupada, cuidando dele e acabou adormecendo. Seus lábios se abriram em um sorriso; ele havia conseguido. “Salvei a V!” - pensou. A garota despertou agitada ao sentir a movimentação de F atrás dela. Estava sem óculos e, apesar de ter acabado de acordar, seu curto cabelo liso permanecia impecável. Após pegar seus óculos na mesa de centro da sala, seus olhos se encontraram. Ela abriu um leve sorriso que foi respondido pelo sorriso de F, um sorriso singelo. Os dois começaram a rir com aquela cena.

- Sua pressão abaixou, você acabou desmaiando. Parecia fora de si. – Dizia V enquanto preparava o café na cozinha.

Só por estarem longe daquela sala adornada de quadros cabulosos, ele já se sentia mais confortável.

- Eu lembrei de tudo... Eu salvei você V!

A garota parou na mesma hora de despejar a água quente da chaleira sobre o filtro de papel com o café.

- Não sei explicar ao certo mas... Acho que algo muito ruim teria acontecido com você ontem. – F ainda não sabia de que forma poderia impactar o andamento dos acontecimentos se contasse sobre sua volta ao primeiro dia, mas algo parecia incomodá-lo ainda mais que aquilo. – Por que acha que todos esqueceram do M? Quero dizer... do M e eu termos... você sabe.

- Não sei! – Disse ela séria servindo o café. – Nada está fazendo muito sentido ultimamente, não sei também porque lembro quando vários outros não. É como se... algo não quisesse que... sei lá, não estou pensando bem.

Os dois tomavam café e F não conseguia parar de pensar em como agiria para fazer R acreditar nele. Será que ela também teria as memórias daqueles cinco dias passados ou ele havia sido o único a lembrar?

Outro pensamento que se fazia presente era I. Queria vê-la, mas pensava que ela em nenhum momento esteve envolvida naquela situação toda e possivelmente sua morte se devesse ao fato dela ter se tornado amiga próxima de F... Talvez se eles nunca tivessem se conhecido...

O pensamento amargou o gosto do café em sua boca. I era uma amiga muito preciosa, mas sem sombra de dúvidas preferia que ela vivesse e, para isso, alguns sacrifícios eram necessários, e geralmente sacrifícios são dolorosos.

F retirou o papel amassado do bolso para reler seu dia 2. Se os acontecimentos seguissem a lógica atual dos seus pensamentos, naturalmente nenhum outro evento ocorreria já que ele havia mudado o início, que seria o desaparecimento de V.

Dia 2 = Todos esquecem V, a falsa V aparece, eu conheço a I, invado a escola e vejo M. Pulo o muro da casa de M.

F sorriu ao ler o papel. Eu mudei os fatos, todos lembram de V, não existe uma falsa V e eu jamais conhecerei a I porque não invadirei a escola e não pularei o muro da casa de M. Esse foi o motivo dele ter se afastado de mim... em seus olhos não havia mais ternura ao vê-lo, só medo e... pena. Mas dessa vez seria diferente. Seus dedos alisavam o cordão prateado de R em seu pescoço... “Como vou achar uma pessoa cujo sobrenome desconheço, não sei a ocupação e nem onde mora?”. Essa seria uma difícil missão para F.

- V! Precisamos encontrar uma pessoa... Ela também sabe algo sobre esse lance estranho que está ocorrendo. – A garota o olhou sobre os óculos e o reposicionou.

- Qual o nome dessa pessoa? E como a conheceu já que só lembrou disso tudo ontem à noite, após ver o vídeo do pendrive?

F se surpreendeu com a capacidade dedutiva de sua amiga, e acabou arregalando os olhos e gaguejando ao tentar se explicar. Ela sempre havia sido extremamente inteligente, então nunca nada conseguia passar despercebido por ela, a menos que a própria quisesse.

- Eu já vivi isso tudo V... Foram cinco dias...

E assim ele começou a explicar cada detalhe que não poderia passar despercebido, já que queria tanto entender o que ocorria ao redor e já que V estava tão imersa naquela atmosfera quanto ele, nada mais justo seria do que contá-la tudo. No decorrer do relato de F, ela não demonstrava reações apesar de todos os acontecimentos narrados serem totalmente perturbadores e discutíveis. Quem acreditaria que ele havia voltado no tempo?

- Eu acredito! – Ela disse ainda com a mesma expressão. Após se levantar, V prosseguiu. – Certo, devemos encontrar a R. Não podemos deixar o G sozinho, já que a situação é mais complicada do que imaginei e, sem sombra de dúvidas, não podemos encontrar com essa garota... a I. Qualquer mínima interação com ela já é o suficiente para levá-la ao mesmo trágico destino.

O céu estava completamente azul. Poucas nuvens apareciam vez ou outra nas extremidades daquela enorme tela. Os dois estavam sentados na cafeteria onde R ouviu sua conversa com I pela primeira vez. Por quase três horas só pedindo café e mais café sempre que algum atendente ia até a mesa. Pela lógica de V, a garota iria aparecer no mesmo local, já que R poderia ser uma cliente frequentadora dali. Durante todo esse período, F estava totalmente surpreso em como V estava diferente; não era apenas o corte de cabelo moderno, mas a garota antes tímida, que sempre era protegida por F e G quando crianças, agora estava completamente segura e sem medo; pelo menos era o que aparentava... estava mais decidida.

Quando uma linha tênue de cores começou a se formar no horizonte, que agraciava o sol que começava a se pôr, os dois perceberam que não adiantaria nada estarem ali. F começou a se preocupar quando os dois saíram de lá. Por mais que fosse uma boa idéia a de V, ele não poderia fazer isso todos os dias contando que R aparecesse, já que ele tinha poucos dias para se livrar de seu quinto dia.

Buscando informações sobre sistema neurológico e informações mais detalhadas sobre possíveis viajantes do tempo, os dois foram até a grande biblioteca local. Por mais que lesse e lesse, ele se sentia como se estivesse no caminho errado. Em meio a livros, estantes e pessoas, F viu uma garota inclinada sobre uma enorme mesa redonda, os cabelos loiros e longos presos em maria chiquinhas... “Não é possível!”.

O garoto riu para sua própria sorte ao deixar V no local que estava e se encaminhar para a garota que foi surpreendida por F que sentou ao seu lado. Seus olhos cor de mel brilhavam assim como seu cabelo luminoso sobre a luz artificial daquelas lâmpadas que iluminavam o ambiente.

- R?

- Sim, te conheço?

F não sabia exatamente como abordaria a situação atual, então se lembrou da frase que a menina havia dito para ele quando o encontrou no depósito, quando explicou que sabia que algo errado acontecia, sobre como se sentia observada em alguns momentos e como todos pareciam não perceber que algo estranho ocorria. Ainda sim corria o risco de que os pensamentos de R não fossem mais compatíveis com os pensamentos antigos, já que havia mudado o curso do que ocorria, mas mesmo assim prosseguiu, recebendo sinais claros de surpresa e incredulidade da garota... Ele com certeza estava conseguindo convencê-la. Explicou como a conheceu e como se despediram, e retirando o cordão do pescoço, entregou a ela, que, espantada, não tirou os olhos do artefato que estava na mão de F.

- Você disse que iria me ajudar, que... – F estalava o dedo tentando lembrar da palavra que ela havia dito. – Que sempre quis ser detetive.

A garota o olhou na mesma hora. Por algum motivo aquela frase mexeu com ela a ponto de desnorteá-la. R ficou olhando para os lados sem parecer entender o que estava acontecendo. Tudo que aquele rapaz desconhecido à sua frente dizia se encaixava completamente com sua vida. Nenhuma informação parecia forjada, era exatamente tudo que ela diria... que ela... disse.

- F! – Os olhos de F se arregalaram ao ver que a menina havia dito seu nome ali. Por algum motivo ela também parecia ser portadora da memória daqueles dias.

- Você se lembra?

- Não... Ainda estou um pouco confusa, você me passou informações demais e minhas lembranças antes adormecidas parecem estar despertando aos poucos, tudo o que você disse... É como se eu lembrasse, mas não todos os detalhes... é como se fosse algo muito antigo, um borrão quase apagado. Eu...espero que tenha paciência, pode ser que eu demore, estou completamente assustada, mas... eu sei que o que diz é verdade. E o M?

Aquela pergunta o pegou desprevenido. Ele havia dito todos os acontecimentos e tudo o que havia ocorrido, inclusive o nome das pessoas. Acidentalmente na narrativa acabou não se apresentando, o que de certa forma foi bom, pois fez com que ela se lembrasse dele, mesmo que somente um pouco. Mas e M? Antes ele não tinha como acreditar nele...

Mas agora tinha uma prova de que um dia estiveram juntos... Ele tinha o vídeo. V se aproximou logo em seguida colocando a mão sobre o ombro dele.

- Ah sim! V, essa é a R!

R sorriu timidamente estendendo a mão trêmula para V, que a apertou firme devolvendo o sorriso.

- Então essa é a garota que todos esqueceram? – Disse , recordando da narrativa que foi contada por F ali.

- É sim! Estamos juntos para tentar entender o que está acontecendo, mas... Vou precisar sair, não saiam daqui eu já volto, eu preciso...

- Ver o M! – Completou V com seu olhar sério, que ultimamente parecia sua única expressão.

- Sim! – F disse sorrindo antes de sair correndo. Ele seria capaz de gritar de felicidade naquele momento de tão eufórico que estava. V estava viva, ele havia encontrada a R e agora poderia provar para M tudo de uma vez.

Foi assim que começou a rir correndo pela rua vendo aquela linda paisagem com tons rosas e alaranjados naquele céu, enquanto o sol começava a dizer adeus.






























Eae galeraaaaaa!!!! Parece que finalmente está aparecendo uma luz no fim do túnel!!! Espero que estejam gostando de 5Days, muito obrigado por sempre estarem apoiando e incentivandomeu projeto, vocês sao demais 😍😍😍

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