Arquivo 10
O som leve, quase imperceptível como uma brisa de verão sendo soprada, o doce aroma de café e risos contagiantes de um grupo de meninas na mesa ao lado tornavam a cafeteria aconchegante naquela hora da manhã. A garota à sua frente remexia seus cabelos ruivos enquanto parecia fitar o nada com sua visão perdida. Um nada que anuviava seus pensamentos, que pela primeira vez se mantinham distantes e calmos. F a olhava intrigado e, de certa forma, achava cômico ver que a bateria dela parecia ter chegado ao fim. Os olhos esverdeados da menina vasculhavam o céu cinza e monótono, mais um dia comum, nada fora do lugar... mas esse dia era diferente.
- Dia 4 de abril - F disse a despertando de seus pensamentos. - Hoje é dia 4, você me disse para eu não esquecer... O que tem de tão importante hoje? Seu aniversário?
- Não! - A garota riu ao colocar uma mecha de seu cabelo por trás da orelha. Mas seu sorriso parecia cansado, ela demonstrava preocupação com algo. - É só... bem cinza não acha? Parece que vivemos em um filme preto e branco... nesses dias nada tem cor.
Fazia sentido. O céu se mantinha bem cinza ultimamente. Mas ao contrário do que aquela menina dizia, agora algo havia acrescentado cor aos dias de F... alguém. Apesar do comentário fazer sentido, ela não respondia a pergunta do rapaz.
- O que tem de tão importante hoje, I?
A garota não o encarava. Permanecia olhando pela vidraça ao seu lado carros que iam e vinham. O ambiente estava quente e o som de música erudita permanecia envolvendo aquela atmosfera. I parecia estar em um próprio conflito interno nesse momento.
- É só um dia importante. Irei fazer uma prova muito importante, estou com medo.
- Você vai se sair bem! - Disse F com um enorme sorriso tentando passar confiança. A garota o olhou soltando uma risada. - Se tudo der errado, ainda sim podemos nos balançar nos balanços no fim da sua aula?
Ela riu novamente, agora com mais autenticidade ao perceber que F havia repetido a frase que havia dito a ele mais cedo.
- Esse brinquedo não era para crianças? - Disse ela piscando ao se levantar da mesa de madeira. Havia sido relaxante estar com ele aquele dia antes de sua prova final, mas agora precisava correr para conseguir entrar no segundo tempo de aula sem que ninguém percebesse. - Preciso ir!
Os dois se levantaram e seguiram até a saída, onde receberam uma rajada de ar gélido que parecia ser capaz de lhes congelar os ossos. A pouca movimentação na rua o fazia lembrar das cidades fantasmas dos filmes de terror que via quando pequeno. Antes que seguissem seus caminhos diferentes, a menina sorriu e o abraçou bem forte. F se surpreendeu pela ação repentina, mas retribuiu ao abraço.
- Nos vemos então daqui a pouco nos balanços! - Ela disse enquanto se afastava sorridente.
- Nos balanços! - F confirmou e então se virou para seguir seu caminho.
Os dois se despediram e cada um foi para um lado. Passar o dia falando sobre besteiras como escola e jogos foram tranquilizantes, por um momento ele pôde se sentir apenas uma pessoa normal em mais um dia comum. Porém ao continuar andando pela rua movimentada, sentiu a impressão de ouvir passos o seguindo. Ao se virar, deparou-se com a calçada completamente vazia.
Com as mãos dentro dos bolsos da jaqueta, tornou a seguir seu caminho confuso. Estava completamente sozinho ali, então por que ainda assim tinha a sensação de que alguém o seguia? Seus pensamentos se alarmaram ainda mais ao ver um vulto refletido no para-brisa de um carro à sua frente. “Tem alguém aqui!”, pensou. Começou então a aumentar sua velocidade de forma discreta e sem virar para ver quem estava ali. Os passos que o seguiam antes discretos, agora se tornavam barulhentos, mostrando a intensidade que a pessoa se dirigia até ele... F escutava os passos apressados com aflição, não havia mais ninguém ali para que pudesse pedir socorro, não havia saída.
Sem pensar duas vezes, F arrancou apressado, correndo o mais rápido que podia. Conseguiu ouvir um estrondo que vinha de trás de si – era o barulho de uma lata de lixo sendo derrubada no chão. Fosse quem fosse, agora estava seguindo seu exemplo de correr rapidamente. Ao contornar a esquina, adentrou um enorme galpão. O local era um entulhado de enormes caixas lacradas e alguns guindastes, tudo coberto de poeira e com um cheiro extremamente forte que irritava suas narinas. O rapaz, ainda aturdido, apressava-se agora em se esconder atrás de umas caixas. Com o coração a mil por hora, o som de passos não parecia ter o alcançado. Ele havia conseguido despistar seu perseguidor... ou era assim que preferia acreditar...
Alguns minutos se passaram, o suficiente para que seus músculos pudessem relaxar, e o som de passos pareceu reverberar naquele local vazio, onde até a respiração de F parecia ressoar. A crise alérgica do rapaz estava quase alcançando seu estopim em meio àquela confusão de poeiras e caixas. Seu corpo parecia completamente vulnerável pelo medo naquele momento.
Os olhos amendoados de F oscilavam em breves momentos pelas frestas entre as caixas para tentar ver algo. Somente uma sombra se esgueirando pelos cantos se mostrava visível, apesar de seus esforços. Seu suor pingava enquanto ele ouvia o som dos passos se aproximarem lentamente. Era aquele momento... não adiantava mais lutar contra aquilo... porque ainda o fazia afinal?
Por M!
Seus olhos antes fechados e conformados com seu fim se abriram decididos.
Eu ainda tenho pelo que lutar!
Seu corpo se preencheu de adrenalina e, determinado a não sumir como V decidiu o que faria a seguir.
Vou lutar por você M! Eu não vou sumir! Não vou sumir!
Correndo em direção ao som que agora estava bem mais próximo, F se lançou contra a pessoa, a surpreendendo. Ele caiu sobre quem o perseguia, prendendo seus braços e pernas o mais forte que conseguiu. Sua visão embaçada começou a se adaptar encarando seu perseguidor anônimo.
Nesse momento, se viu em cima de uma menina loira; seus longos fios estavam presos em uma espécie de maria chiquinha e seus olhos cor de mel se apresentavam arregalados de espanto.
- Porque você está em cima de mim? - perguntou a garota ruborizando.
- Por que você está me seguindo? – rebateu ele ainda sobre a garota que desviava seu olhar sem graça.
- Eu ouvi o que disse na cafeteria... – Ela mordeu o lábio inferior ao dizer. – Me sinto da mesma forma, como se algo estivesse acontecendo. Eu estava tentando descobrir por conta própria, mas o mundo parece tão normal que as vezes parece que estou inventando histórias...
F saiu de cima da menina, que se levantou enquanto passava a mão sobre sua saia, estampada com tonalidades verdes como se fosse uma peça do exército, que ironicamente era acompanhada de uma jaqueta lilás com glitter, que não parecia se encaixar em nada na proposta militarista do visual. Ela esticou os braços se espreguiçando e começou a explicar sobre como se sentia, todas suas cismas e o que a fazia acreditar que algo parecia esquecido, adormecido. Ele ouvia tudo com atenção e, pela primeira vez durante todo aquele período, pareceu achar alguém que o entendia completamente. Sentiu que não precisava ter medo de conversar com ela sobre tudo que estava acontecendo; talvez ela o pudesse ajudar e assim ambos iriam conseguir entender o que se passava. Pela primeira vez durante aquela semana ele estava sentindo esperança.
E foi assim que começou a explicar cada detalhe do que vinha ocorrendo a ela. Para sua surpresa, a garota que colocava o dedo indicador sobre o queixo pensativa durante a narração estava realmente levando a sério cada palavra que ele dizia. No final de tudo, a menina, com os olhos firmes de uma pantera, disse que queria ajudá-lo a descobrir tudo, que achava isso muito louco e seria bom para passar o tempo, que sempre quis ser uma detetive...
Seu discurso soou engraçado na cabeça de F. Ele sabia que não era exatamente esse os motivos dela, mas não a forçou a dizê-los. Se ela queria ajudá-lo, pelo menos por enquanto, era tudo o que precisava.
- Prazer, sou R. – disse ela.
O galpão agora parecia pequeno e abafado demais para os dois que conspiravam sobre teorias e possibilidades para o que estava acontecendo. A menina andava de um lado ao outro, enquanto F lhe dizia sobre suas conjecturas.
- Você rasgou minha meia! - Disse R exibindo um rasgo em sua meia arrastão preta que lhe revelava um pedaço de pele branca. - Está intimado a me comprar uma nova!
O clima pesado foi cortado por aquele comentário que lhe roubou gargalhadas. Levantando-se do chão, F e a sua nova parceira saíram de lá. Seu celular vibrou no meio do caminho. Eram exatamente 11 horas. I deveria estar em intervalo agora. Enquanto os dois andavam, se atreveu a pegar o celular e viu que havia recebido três mensagens de sua amiga ruiva:
F, acho que tem algo aqui na escola...
Definitivamente tem algo aqui, alguém, está atrás de mim!
Por favor me ajude!
Nesse momento, I via seu celular caído no final do corredor. Deixou o aparelho cair ao correr depois de perceber a presença que a observava da escuridão de uma das salas. Ela controlava sua respiração acelerada enquanto permanecia escondida atrás dos armários escolares. Lá fora chovia intensamente. As gotas transparentes caíam quase tão rápidas pela janela quanto as lágrimas que insistiam em riscar o rosto da jovem. O som alto de um metal estava sendo arrastado ao fim do corredor e se aproximava aos poucos. Se tivesse sorte o suficiente, poderia permanecer ali até que o alarme de fim de intervalo soasse, despertando-a daquele terrível pesadelo. Dentro de sua mente ela entoou:
Só mais alguns minutos...
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