Primeiro Dia
Capítulo 1
5h00
Eu não sei por que, mas às vezes me pego pensando: "serei eu o único garoto de 17 anos a nunca beijar uma garota?" Meus amigos vivem falando: nossa peguei a tal ontem ou nossa ela é difícil de pegar, enquanto eu penso: qual é a sensação de beijar uma garota? Acredite, deste ano não passará, eu beijarei uma garota.
Ah desculpem, não me apresentei, sou Freduardo Haver Chase. Pois é, esse é meu nome, acho que meus pais não pensaram em algum mais extravagante. Meu pai é americano e minha mãe brasileira, atualmente vivo no Brasil onde, graças a deus, meus amigos me chamam de Fred.
O despertador ainda nem havia tocado quando eu acordei às 5h00. Sentei na beirada da cama e fiquei ali, parado, pensando um pouco. Mais um ano começava. Agora no ensino médio, ou seja, mais pessoas "cairão" em cima de você tentando te botar para baixo. Para mim, infelizmente, isso funcionava.
6h30
Agora estava dentro do carro de meu pai ouvindo música. Não havia, para mim, nenhum motivo para me animar naquele dia. Por que o uniforme escolar tem de ser tão broxante? Uma camisa branca lisa que marcava qualquer coisinha, sem falar da calça que, logo depois da primeira lavagem, já estava cheio daquelas bolinhas brancas.
6h50
- Bom dia de aula filho. - disse meu pai, com seu sotaque americano que o fazia parecer com uma batata quente na boca, enquanto me deixava na porta da escola. O portão era largo e azul-escuro, dois prédios azuis e vermelhos se erguiam por de traz dele. Havia uma rampa por onde a maioria dos alunos estava andando. Acho que, mesmo estando no meio de uma multidão, nunca havia me sentido tão sozinho.
7h10
Estava sentado rabiscando uma super-heroína na folha de meu caderno quando nosso coordenador de classe entrou. Ela era uma mulher sorridente, com vários caxos castanhos que caiam formando um rosto no formato de um coração, seus olhos eram escuros e seus lábios estavam exageradamente vermelhos. Ela se apresentou como Laís e então, a aula teve inicio.
7h20
Com um baque, a porta da sala se abriu e, todos com uma expressão assustada, olharam para onde vinha a direção do barulho.
- Perdoe-me prof, peguei muito trânsito. - disse uma garota com voz fina.
- Não se preocupe senhorita..... - disse a professora com um certo tom que demonstrasse que a garota deveria terminar sua frase.
- Emily - disse a garota encostando a porta. - Emily West.
- Bom, Sra West, não temos o dia todo, sente-se. - Disse a professora olhando na ficha, a qual continha todos os nossos nomes.
Emily andou até o lado de minha carteira e perguntou sorrindo:
- Há alguém aqui?
Eu olhei para cima.
Emily West era uma garota estonteante, com bochechas rosadas, um rosto fino e um nariz pequenino. Ao sorrir, seus olhos glaucos se iluminavam, eu queria nadar neles; seu cabelo puxava da raiz loiro dourado que me lembrava nuances de um por do sol distante. Ela não era muito alta e possuía belas curvas.
- Não, pode se sentar. - Disse ao mesmo tempo que pensava: "Meu deus!!!!! Que garota linda!"
A professora andou até o quadro-negro e disse:
- Bom alunos, não estou aqui para ser sua amiga, estou aqui para ensiná-los, guiá-los, não pense nem por um segundo que vocês possuem algum tipo de intimidade comigo. Eu sou a professora e sua coordenadora Laís Pasqualli, dou aula de redação. Abram seus livros na página 20.
Eu segurei a risada, senti o sangue subir às minhas bochechas. Não me julgue, mas nessa hora eu lembrei de um dos meus personagens favoritos de Harry Potter: Snape! Desde esse dia essa professora se tornou um sinônimo de Snape para mim, parecia que eu a ouvia dizendo: "Open to page 394" igual ao personagem de J.K Rowling.
Laís começou a ler a página 20 do livro, a qual falava algo sobre como escrevermos uma redação opinativa e como aquilo nos prepararia para as provas. Serei bem sincero com você, que se dane essa matéria, olha essa garota! Não sei ao certo o quanto tempo fiquei ali, parado, apenas olhando o perfil dela e o jeito que ela estava sentada, só parei de olhá-la porque a professora chamara minha atenção. Só fiquei pensando, eu tenho que conhecer melhor essa garota.
10h15
Havia acabado de bater o sinal para o horário do lanche - não gosto de falar recreio - enquanto eu acabava de esboçar o perfil de Emily West na folha de minha pequena agenda. O professor que estava conosco na sala nesta hora era o de Biologia, ele pareceu fazer pouco-caso se nós estávamos ou não prestando atenção em sua aula. Peguei meu lanche, minha agenda e saí da sala.
O pátio do lanche era imenso, seu chão todo de concreto lhe dava uma aparência rústica. Havia uma cantina no canto esquerdo do pátio onde duas mulheres serviam, de forma ágil e veloz, os alunos esfomeados que lhe davam suas fichas do lanche. No pátio havia uma pequena mureta, a qual ninguém estava sentado e, tal fato, foi o que chamou minha atenção. Eu acelerei meu passo antes que alguém sentasse lá, eu gostava de ficar sozinho, não me importava o quanto tempo fosse.
Retirei o papel-alumínio de meu lanche e encontrei um sanduíche feito de pão de forma com patê de frango e alface. Pelo menos isso me animou. Quando eu estava quase acabando o meu lanche ouvi uma voz me chamar.
- Fred?
Olhei na direção da voz que me chamava.
Ali, parado na minha frente, estava um garoto de pele clara, com cabelos loiros como o primeiro raiar do dia. Seus olhos eram verde-claros e pareciam excitados. Suas sobrancelhas não eram grossas, mas também não poderia dizer que eram finas. Seu corpo ficava definindo no uniforme escolar, seus braços eram definidos e dos punhos saltavam veias esverdeadas.
- Sim. - Eu respondi.
- Sou Sidney. - Respondeu ele esticando a mão para me cumprimentar. - Mas todos me chamam de Sid.
Eu olhei para mão dele e depois para seu rosto. Acho que ele estava esperando que eu o cumprimentasse, mas não sou de fazer isso.
Fiz um gesto com a cabeça mostrando que eu era educado, porém estava incomodado. Ele pareceu não se importar e jogou todo seu corpo ao lado do meu, quase sentando em cima de minha agenda.
Então ficou aquele clima chato no ar, ele não falava e eu também não, parecia que nenhum de nós dois sabia o que dizer exatamente.
- Então você é o calouro do colégio. - Disse Sidney.
- E você o veterano. - Respondi. Acho que ele gostava de falar coisas obvias.
"Desculpe se estou sendo grosso, mas é o meu estilo" - pensei.
Sid soprou ar pela boca e relaxou os ombros.
Eu peguei minha agenda e continuei o esboço de Emily, eu sempre tive uma ótima memória. Acho que ele achava que eu não percebia, mas eu sentia o olhar dele observando o que eu fazia.
- Ei, essa é a Li? - Ele indagou para mim.
Eu respirei fundo e pensei: "Talvez seja bom ter alguém que possa me informar das coisas na escola, me ajudar com as matérias. Se não me engano isso se chama ter um amigo".
- Sim - respondi. - Você a conhece?
Sid pareceu surpreso por eu ter respondido uma pergunta dele.
- Mais ou menos, estudo com ela há dois anos mas não nos falamos muito.
Eu assenti. "Droga, por que é tão difícil de criar um assunto?!"
Quando Sidney estava prestes a levantar eu perguntei:
- O que você acha do desenho? - Eu não queria deixar o assunto morrer, queria saber das coisas e, para isso, perguntar sobre o meu desenho foi a melhor opção.
Sidney sorriu, receptivo à minha pergunta, pareceu até mesmo surpreso.
- Cara, está igualzinho, por que não mostra pra ela?
Aquela ideia que antes me parecera tão estúpida subitamente se tornou algo incrível.
- Ah, não sei, e o que eu poderia dizer pra ela? Eu nem a conheço!
Sid pareceu pensar por um segundo e então gritou:
- Emily!
A garota que eu estava desenhando, então, estava caminhando em minha direção.
- Fala, Sid. - Ela disse
- Esse aqui é meu amigo Fred.
Ela olhou para mim, sorriu, e deu uma piscadinha amigável e, depois disso, eu pareci não existir mais, ela e Sidney começaram a se entreter em uma conversa confusa sobre polvos, bolos de chocolate e calcinhas e, durante essa conversa, eu pensava: "Qual o sentido disso?" Então, durante a conversa, Emily disse:
- Foi ótimo você ter me chamado hoje, quase tinha me esquecido.
Ela tirou de sua pequena bolsa cor de lima um convite azul e rosa, com um "E" escrito em preto como se fosse um carimbo, suas bordas eram decoradas com arabescos e uma fita cor de rosa o envolvia.
- Eu quase esqueci de te dar meu convite. - Ela o estendeu a Sidney. - Espero que você vá. - E então ela sorriu.
- Claro, claro eu vou sim.... - então ele hesitou e disse - Mas com uma condição.
Emily pareceu curiosa e sua expressão indicava que Sidney deveria continuar a falar.
- Quero levar meu amigo Fred.
Então ele apontou para mim. Ela sorriu, fazendo seus olhos se estreitarem e exclamou:
- Claro! Você é da minha sala não é? Nos falamos hoje cedo.
Aquela foi a segunda vez que ela se redigira à mim e eu ainda tinha vergonha. Eu assenti com um leve movimento da cabeça.
- Qualquer amigo do Sidney é meu amigo. - Então ela se despediu de Sidney e voltou para sua roda de amigas.
- O que você fez?! - Eu perguntei exaltado, levantando.
- Te arranjei uma festa.
- Por quê?! - Eu não compreendia o que tinha acabado de acontecer.
- Eu vi o seu desenho da Emily, logo, pude concluir que você está interessado nela.
Eu tentei pronunciar alguma coisa, mas a minha voz não saia da minha garganta, não havia palavras, eu estava perplexo.
- De nada. - Ele me disse, então tirou uma foto do convite pelo celular e me deu o envelope.
- Não vai querer? - Eu perguntei a ele com um tom quase inaudível.
Ele fez que não com a cabeça e apontou para o celular. Quando ele se virou e andou para longe eu percebi que Sidney era uma pessoa de pensamento rápido, perspicaz, que notava os detalhes e, o mais importante de tudo, tinha me arranjado um passe livre para a festa de Emily West.
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