Nunca sente-se no meio da mesa


Depois de dois meses namorando por entre as sombras, Emily e eu decidimos que não devíamos manter mais aquilo em segredo, eramos maduros o suficientes para entender que nosso amor não deveria ficar reservado a curtos momentos em festas onde eu ficava beijando-a na parede mais distante e muito menos aos momentos na escola, onde eu poderia falar para ela o quanto a amava. Não, nós queríamos levar aquilo seriamente então, neste dia, Emily me disse:

- Eu disse ao meu pai que você vai jantar lá em casa hoje.

Eu engoli a bala que chupava na boca.

- Oi?!

- Desculpa, Fred, mas dissemos que íamos levar isso a sério, eu não aguentava mais ele falando do Hugo perto de mim, falando o quanto nossa união significava, então..... - ela passou a mão acanhadamente por trás da orelha, ajeitando seus cabelos loiros rebeldes. - Eu contei tudo.

- Especifique-se .

- Eu disse que estou namorando com você, Fred, e que você iria jantar em casa hoje a noite.

"Há! Básico, ela só disse isso." Pensei.

- E?

Ela sorriu para mim, pequenas covinhas formando-se nos cantos de suas bochechas rosadas.

- E? - Ela me perguntou, com uma mistura de dúvida e animação.

- O que ele disse?

Passei as mãos alisando meu uniforme escolar e, depois, passei as mãos nos cabelos, tentando deixa-los de uma forma " certa".

- Que não haveria problema, mas que teria uma condição.

Eu adquiri uma expressão que demonstrava que Emily deveria prosseguir.

- Ele também poderia chamara um amigo.

"Isso é tão estranho",pensei, "como ele pode ter agido tão calmamente? Era ele que insistia para que Emily permanecesse com Hugo. Ele é estranho, de certa forma."

Mas, naquele momento, eu apenas sorri para ela, mantendo tais pensamentos apenas em minha cabeça.

................................

Quando cheguei em casa, lá para 13h26, minha mãe já havia descido do carro e começava a finalizar o almoço, talvez isso fosse uma das artimanhas das mães, serem os seres mais rápidos e práticos quando se trata de seres com raciocínio lógico.

Ela, agora, cozinhava bolinhos de carne com arroz, fritas e feijão, enquanto eu batia um suco de abacaxi em água gelada.

- Então, filho, como foi lá na escola? - Ela disse com a voz um pouco carregada de atenção na frigideira.

- Foi bom, mãe, normal.

Então instalou-se um silencio sepulcral, o qual somente fora quebrado quando eu liguei o liquidificador novamente.

- Filho, você tem que se resolver com seu pai, vocês tinham algo tão bom, não desperdice tudo.

Eu fiquei indignado.

- Eu ACHEI que tinha tudo com meu pai, realmente eu achei que ele confiava em mim, mas ficar dizendo que eu bebi só por causa do cheiro de minhas roupas? Pelo amor né.

- Filho, suas roupas estavam cheirando a bebida, o que você queria que ele pensasse?

- Nada, mãe, queria que ele pensasse nada, só queria que ele acreditasse em mim quando eu contestasse algo.

Minha mãe, com sua blusa azul esverdeada e com os olhos contornados de lápis preto, voltou sua atenção ao fogão e exclamou:

- Os bolinhos!

Àquele ponto, os bolinhos já havia começando a ficarem mais escuros do que deviam mas, mesmo assim, estavam muito saborosos quando os devorei com respingos de suco de abacaxi.

Na minha penúltima garfada, disse:

- Hoje eu jantarei na casa de Emily, ok?

Minha mãe levantou os olhos para mim enquanto bebia o suco e abacaxi.

- Eu acho que você não deveria ir, deveria esperar seu pai retornar.

- Por? Pra ele não acreditar em mim?

- Ele estará indo viajar amanhã, meu filho, e talvez vocês não tenham tempo de dizer adeus no dia do embarque.

- Hum, eu faço um esforcinho, acordo mais cedo e tals.

Eu, então, comi minha ultima garfada com certo estresse. Mesmo sabendo que aquela conversa com meu pai era necessária, queria evitá-la de certa forma.

- Posso ir então?

Minha mãe respirou fundo e colocou a mão direita na testa.

- Pode, pode ir sim.

Eu, então, sorri e levantei da mesa, estava indo abraca-la enquanto dizia:

- Eu te amo! Te amo! Te amo!

E, aquilo, é uma verdade absoluta.

..................

20h14

Novamente, lá estava eu, em frente ao imponente prédio de Emily, deslumbrante como sempre, mas nada poderia comparar-se com seu interior.

Eu toquei o interfone, anunciei meu nome e o porteiro liberou o portão então, em poucos minutos, estava esperando Emily para que subíssemos juntos.

A porta do elevador saiu e la estava ela, linda como sempre. Emily vestia um shorts curto cor salmão com o forro dos bolsos saindo pelas beiradas fronteiras do shorts, junto a uma blusa de manga curta vinho bem justa em sua cintura, a qual estava escrito: Life is always better in Paris, e, no final da frase, havia arabescos em dourados, os quais misturavam-se entre as letras.

- Você está......incrível. - Então ela sorriu e começou a rir, enrubescendo-se.

Eu, naquela hora, vestia um sapato baixo cor de areia junto a uma bermuda verde-água e uma blusa polo preta com listras de um cinza escuro. O zíper de minha blusa que tampava o meu peito levemente aberto e meus novos óculos de grau levemente caído sobre meu nariz.

Ela estendeu a mão e puxou-me para dentro do elevador.

- Então, senhor, como foi seu dia? - Ela me perguntou.

- Bom, até agora.

- É, mas vai, não será tão ruim, não tem como piorar. O pior já passou, já contei a meu pai sobre nós, o que alivia seu lado, de certa forma.

Assim eu esperava.

- A companhia de seu pai já chegou?

- Não, mas disse que está vindo.

- Você sabe quem é esta tal companhia?

- Não. - Ela suspirou, me abraçando as costas. - Mas não me importa, você está aqui, isso é o mais importante.

Então ela beijou minha bochecha enquanto empinava suas nádegas que ficavam ressaltadas naquele shorts. Aquela foi nossa primeira foto juntos como um casal. Uma foto tirada as pressas no espelho do elevador.

Ouvimos, então, o sonoro plim! e o elevador tinha acabado de chegar no hall de Emily.

- Vamos lá.

Ela sorriu, pegou minha mão novamente, e entramos em seu apartamento.

..................

Tente imaginar a cena mais intimidadora que você puder, ela não chegara nem perto do que estava acontecendo. Eu estava sentado no meio da mesa com Emily ao meu lado direito enquanto Marco estava sentado na nossa frente, fuzilando-nos com seus olhos.

Eu não sabia direito com qual expressão eu estava, talvez fosse uma mistura de medo e constrangimento. Era muito difícil relaxar quando uma uma pessoa fitava-o indiscretamente.

- Então, você é o Freduardo - Disse Marco, com sua voz grossa e potente.

Marco era um homem carrancudo, com uma cara quadrada e sobrancelhas notáveis, olhos glaucos iguais aos de Emily e um cabelo loiro que ficava ainda mais claro com a luz que vinha do lustre acima de nós.

- Po...pode me chamar de Fred, senhor. - Eu disse, com a voz entrecortada, tentando evitar gaguejar.

Eu senti a mão de Emily em minha coxa e isso me acalmou, a camada dos meus shorts atrapalhando o toque diretamente em minha pele.

- Freduardo, o que quer fazer da vida?

"Ok, acho que ele vai ficar me chamando de Freduardo. Bom, vamos as perguntas típicas, né, faça isso pela Emily."

- Eu gostaria de ser escritor, eu estou escrevendo um romance policial chamad.....

- Você sabe que essa carreira não lhe da dinheiro certo? - Marco me interrompera.

- Posso discordar, há muitos escritores bem sucedidos no mercado, como: George R R Martin, Paula Pimenta, Cassandra Claire, J. K Rowling e inúmeros outros.

- Bom, todos eles tem certo talento, não sei se consegue se assegurar tanto de seu futuro exito, fredinho. - Disse ele, em tom de deboche. Aquela fora a primeira vez que ouvira o sotaque italiano dele.

O terno que Marco usava deixava-o ainda mais corcunda e o fazia parecer afundar na cadeira de magno polido.

- Bom, não podemos saber o que o futuro nos reserva, por mais que a vontade do saber seja inquietante, qual seria a graça se soubéssemos de tudo? - Respondi, mantendo a voz firme.

Eu pude sentir meu rosto corar quando Emily deu uma pequena risada, como se desafiasse Marco. O pequeno homem manteve-se quieto, respirando profundamente enquanto batia o talher na mesa.

- Pai! - Ouvi uma voz, não tão fina porém não tão grossa como a de Marco, gritar. - Já é para irmos para a mesa?

Marco suspirou.

De repente, pude ver um garoto jovem, de uns vinte e poucos, saindo da segunda porta do corredor dos cômodos. Ele era loiro, igualmente Emily e Marco, com olhos tão azuis quanto o deles, o mesmo usava uma regata com coqueiros verdes e uma calça jeans preta, além de tênis pretos de cano alto.

-Este é Pietro, a minha mais nova decepção.

O garoto tirou o sorriso do rosto.

- Quantas vezes já falei sobre pontualidade, Pietro?

- Desculpe-me, pai.

- Sente-se. - Marco ordenou e, logo, Pietro jogou-se na cadeira ao lado da minha.

Quando virei minha atenção para o mesmo corredor que eu havia encontrado Hugo e Heloise se pegando, eu pude ver um outro homem, alto e robusto, com cabelos castanhos, porém, de olhos igualmente azuis como os demais. Este vestia uma polo rosa com um pequeno cavalo em preto no bolso da mesma, além de um shorts preto e calçados azul-marinho.

- Este é Enrico, talvez seguirá o ramo da família como plano B. O plano A ainda está em progresso, houve imprevisto mas, depois desta noite, quem sabe sejam reparados, não é mesmo? - Emily enrijeceu-se na cadeira.

- Poderia saber qual o ramo da família? - Perguntei, querendo tirar aquele clima pesado.

- Não, é claro que não pode. - Respondeu Marco enquanto Enrico completava:

- Ele disse ramo da família, achei que estivesse mais do que óbvio de que só pessoas que ele considere como família saberiam não é mesmo?

Eu abaixei o olhar, controlando o sangue que me subia à cabeça.

- Relaxe, amor, não se preocupe. - Emily disse.

- Não lhe de falsas esperanças, Emily, a razão para todos estarmos aqui acabou de chegar. - Então, com um sorriso malicioso, Marco se levantou e abriu a porta, antes mesmo que a pessoa que aguardava sua abertura pudesse bate-la.

- Emily? - Eu perguntei a ela, em busca de respostas.

- Eu não sei - ela sussurrou.

Marcou retornou após cumprimentar a visita especial. Quando eu vi a pessoa que entrava por aquela porta descaradamente eu quase abri a boca.

Hugo e Heloise apareceram, os dois cheios de prosa e com um sorriso sacana no rosto, Heloise com a mão apoiada no ombro de Hugo enquanto andavam. Ela vestia uma saia florida e uma blusa branca de alcinha, além de saltos amarelos exuberantes. Hugo, por sua vez, vestia uma bermuda branca com uma blusa verde-limão e um tênis verde-musgo com cadarços brancos.

- Boa noite. - Ele disse, cinicamente.

Eu queria levantar da cadeira e socar-lhe ali mesmo, eu via o quanto ele estava incomodando Emily em sua própria casa.

- Oi, gato. - Disse Heloise, beijando-me a bochecha, então, sentou-se uma cadeira depois de Marco, deixando espaço para que Hugo sentasse bem na frente de Emily, enquanto Marco, por outro lado, pudesse continuar a me encarar infinitamente.

- O que vocês estão fazendo aqui? - Emily disse, a raiva entrepassando a voz.

- Hora. - Respondeu Hugo. - Só por que você me largou não quer dizer que eu perdi as outras amizades.

Emily ficou com uma expressão indignada.

- Emily, achei que você não fosse tão burra, Hugo é o meu amigo especial e, se meus planos derem certo, assumirá os ramos da família.

Eu deixei escapar uma risada.

- Ah, isso é engraçado para você, Fred? - Disse Hugo, enrijecendo a voz.

- É que Marco acabou de me dizer que só pessoas da família podem assumir e saber sobre os ramos da mesma.

- Não conseguiu entender ainda? - Disse ele.

O sorriso do meu rosto foi se desfazendo.

- Acho que você entendeu, Freduardo - começou Marco. - Se tudo der certo, Emily desposará com Hugo, mesmo não amando-o, para que o enriquecimento da família prevaleça e ainda sejamos os melhores.

- Não! - Emily bateu os punhos na mesa.

- Não?! - Disse Marco, com seu tom debochado.

- Você, não pode!

- Claro que eu posso, você é minha filha, minha, você me pertence.

- Você não vai comandar minha vida igual fizera com mamãe, não deixarei isso acontecer. - Os olhos dela começavam a encherem-se de lágrimas de raiva.

-Ah, por favor, não faça tanto drama. - Disse Heloise.

Emily abriu a boca, inconformada com tamanha ousadia e ignorância. Ela levantou-se, pegou a taça de vinho à sua frente e derramou todo o vinho em cima de Heloise, que gritou, surpreendida.

- Vaca! - Heloise gritou, energizada.

- Olha quem fala. - Provocou Emily, enquanto eu me levantava e ficava em seu lado.

- Há, agora você fica do lado dela né Fred. - Heloise se voltou para mim.

- Hum? - Eu não entendi.

- Olhe as fotos, Fred, olhe as fotos.

Então Marco tirou do terno um papel bege e jogou-o em cima da mesa, fazendo-o esparramar fotos minhas no dia em que ela me beijou.

- O que?! Como?! - Eu exclamei, indignado e, na hora, voltei-me para Emily. - Você não pode acreditar nisso, Emily, você não pode. Eles querem nos manipular.

Emily parecia em choque, olhava para as fotos, depois para mim e em seguida para Heloise.

- As fotos mostram o que mostram, Fred. - Disse Heloise, como se estivesse esquecendo da sua roupa manchada de vinho tinto. - Ele me seduziu na escada da escola e me beijou, é um tarado compulsivo, como todos os outros homens.

Eu levantei meu punho e agarrei as bochechas dela enquanto eu dizia em alto e bom som, fazendo-a arregalar os olhos, aflita.

- Escuta aqui sua vadia, se você insinuar que eu trai Emily......- eu parei de falar na hora, aprendi a não dizer coisas das quais você não pode cumprir. - Saia das nossas vidas, você é só um fardo. - Então soltei Heloise de minhas mãos derrubando-a na cadeira, meu polegar e indicador marcados em seu rosto pálido. Ela estava ofegante.

Quando olhei para o lado, percebi que Hugo segurava meu braço e que Emily andava em direção à porta. Ao soltar-me do aperto de Hugo, corri até a porta e gritei, antes que ela entrasse no elevador:

- Emily!

Ela virou-se em minha direção, chorando. Nós entramos no elevador e ela me abraçou, até chegarmos no piso térreo. Enquanto isso, no apartamento dela, Hugo dizia:

- Acha que deu certo? - Disse ele, com incerteza na voz.

- Não sei. - Respondeu Marco, sem demonstrar emoção. - Ótima atuação, Heloise, as fotos ficaram ótimas. Até mesmo a selfie. Quem as tirou?

- Hu...hugo tirou-as para mim. - Ela falava com tremor.

- Por que está assim? Fraca? - Perguntou Marco.

- Acho que nunca vi Fred falando tão sério na vida, eu realmente fiquei receosa quando ele agarrou meu rosto.

- Quer saber? Que se dane como você está, que se dane como ele está. O que importa é que meu plano está funcionando perfeitamente. Todos os meus peões já foram lançados, só preciso de uma última jogada para ter certeza de que o Sr Chase está com o rabo entre as pernas.





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